EXCLUSIVO | Encontro com uma lenda dos bastidores do New Order

rogerlyons1.lNa indústria musical, o sucesso de um artista não depende apenas do talento. Aliás, o que não falta por aí são exemplos de gente talentosa fora das luzes dos holofotes enquanto espécimes sem nenhum dom ou fabricados por empresários colhem os dividendos da fama. Há exceções, felizmente. Mas mesmo nesses casos, conforme dizíamos, o talento por si só nem sempre basta. É preciso, também, um bocado de sorte. Mas, além de talento e sorte, às vezes também é preciso ter pessoas certas atuando nos bastidores. Hoje em dia é mais do que sabido que muito do êxito dos Beatles tem a ver, também, com nomes como os de Brian Epstein, George Martin e Geoff Emerick. Já quando se fala em Joy Division e New Order, imediatamente vêm à cabeça figuras que se tornaram legendárias, como Tony Wilson, Rob Gretton e Martin Hannett.

Mas nem sempre as caras por trás das grandes bandas são assim tão conhecidas. Na verdade, a maior parte delas vive no anonimato. O que muita gente não sabe é que, em alguns casos, esses ilustres desconhecidos são verdadeiros gigantes. Esse é o caso, por exemplo, de Dian Barton, a atual engenheira de som dos shows do New Order, que é uma autêntica entidade do indie rock inglês: seu nome já apareceu nas fichas técnicas de discos do The Fall e dos Smiths. Mas o personagem deste relato é outro – um certo Roger Lyons.

Quem é Lyons afinal? Pois bem, por mais de uma década ele foi o programador e técnico de MIDI nos shows / turnês do New Order – uma função, aliás, indispensável quando se trata de uma banda que funde rock com “EDM” (electronic dance music). Porém, mais do que um mero prestador de serviços e integrante do tour staff, Lyons era (ou melhor, ainda é) um fã de carteirinha do New Order, ajudou a recriar e a atualizar clássicos da banda para performances ao vivo, dando-lhes um novo brilho e frescor, e tem em seu currículo colaborações com OMD e Ultravox. Atualmente, além de dirigir sua própria empresa do ramo de tecnologia musical, a Major Tweaks (criada em 2000), trabalha para o Kaiser Chiefs em suas turnês. Inclusive, foi graças à sua vinda ao Rio com o Kaisers para abrir o show do Foo Fighters no Maracanã que conseguimos – Marcello Dourado e eu (Luis Aracri), ambos do New Order Brasil – um encontro com ele para um bate-papo.

O encontro (articulado pelo Marcello através do messenger do Facebook) foi uma verdadeira saga. Lyons (ou melhor, Roger, já que ele nos deu essa liberdade…) se mostrou interessado em nos encontrar para tomar uma cerveja antes mesmo da chegada ao Brasil. Inclusive, fez um convite para assistirmos o show do Kaiser Chiefs (e o do Foo Fighters, por extensão), prometendo colocar nossos nomes na guestlist da banda e com direito a um local mais “reservado” para que pudéssemos conversar melhor após o concerto de abertura. Bastante gentil da parte dele. Ainda assim, Marcello confirmou nossa ida ao Aeroporto Internacional Tom Jobim (o bom e velho Galeão) para recepcioná-lo e, também, para lhe entregar um presente: uma camiseta personalizada da Seleção Brasileira.

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Roger e todo o pessoal do Kaiser Chiefs chegaram no dia 24 de janeiro, um sábado, no vôo JJ3530 da TAM vindo de Guarulhos, às 15:00. In time. Foram praticamente os últimos a passarem pelos portões do desembarque doméstico. Naquele momento, nosso encontro foi muito rápido. Todos estavam com pressa de ir para van que os esperava no setor de embarque. Mas houve tempo suficiente para entregar os presentes (Marcello também levou camisetas para os músicos do Kaisers), tirar fotos e trocar algumas rápidas palavras. “Vocês vão ao show?”, nos perguntou Roger. “Sim”, respondemos. “Ok, acertamos os detalhes pelo iPhone e nos veremos lá amanhã”. Então tá, “see you”, Roger. Em seguida, procuramos um lugar no aeroporto onde podíamos tomar umas cervejas e, depois de uma parada no Dufry para comprar chocolates Lindt para nossas respectivas esposas, fomos embora.

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O dia seguinte, um domingo, era dia de Maracanã. Mas em vez de futebol, o palco da bola dessa vez se transformou em um palco de rock. Seriam três shows: Raimundos às 18:30, Kaiser Chiefs às 19:50 e as estrelas da noite, Foo Fighters, às 21:00. Chegamos ao Maraca lá pelas 19:00, mas quem disse que foi fácil encontrar a droga da guestlist? Demos três voltas completas em torno do estádio e ninguem sabia onde a lista de convidados estava. Ou nos mandavam para o lugar errado – como, por exemplo, o acesso da imprensa -, ou nos diziam que não tinham conhecimento da existência de uma guestlist. Às 19:50 ainda não tínhamos entrado e, para piorar, o Kaiser Chiefs foi pontual. Depois de termos perdido três ou quatro músicas, finalmente descobrimos onde estava escondido nosso Santo Graal: na bilheteria em frente ao Maracanazinho, junto à retirada dos ingressos comprados pela internet. Dois tickets de acesso ao setor “premium amarelo” esperavam por nós em um envelope lacrado. “Premium amarelo” significava: ficar no setor em frente ao palco, com a melhor vista, junto a aqueles que pagaram R$ 600.

Dava para ver Roger “semi-escondido” atrás do tecladista Nick Baines usando a camiseta que ganhou de presente. Aliás, Baines, e o baixista Simon Rix, também usavam as camisetas amarelinhas dadas pelo Marcello. A sensação de sermos os únicos no meio da multidão que sabiam um “segredo” era divertida. Enfim, quando o show do KC chegou ao fim cedemos espaço para fãs do Foo Fighters que chegavam em quantidades cada vez maiores e procuramos um lugar mais sossegado e vazio para enviarmos uma message to Roger para, finalmente, podermos trocar umas palavras com ele. A resposta demorou a chegar – o FF já devia estar na sexta ou sétima música. Roger disse que o local estava muito cheio e tumultuado e perguntou se nós teríamos tempo para encontrá-lo no Leblon no fim da tarde do dia seguinte, já que ele e a banda só viajariam para Belo Horizonte na terça-feira.  Quem somos nós para dizer que não? Todavia, uma vez que não éramos fãs do Foo Fighters e comer e beber no show havia virado uma batalha campal devido à desorganização na lanchonete do Maracanã, decidimos ir embora daquele programa de índio.

Mas a espera valeu e, na terceira tentativa, marcamos um verdadeiro gol de placa. Roger nos convidou para beber com ele no bar do hotel onde estava hospedado com o Kaisers, o Sheraton, em São Conrado. O horário: 19:00. Não fomos britânicos e graças ao trânsito da Av. Niemeyer chegamos com alguns minutos de atraso, porém ainda com claridade suficiente para contemplarmos, debruçados no balcão, uma vista gloriosa das orlas do Leblon e de Ipanema. Não havia outra maneira de iniciar uma conversa senão com um “What a landscape, eh?” (confesso: foi um momento de “carioquismo” meu). Mas, naturalmente, o nosso bate-papo não se concentrou em amenidades.

Roger é um sujeito boa praça toda vida. Simpático e simples. E um amante incondicional do que faz – em diversos momentos exaltou as vantagens do seu trabalho, sobretudo as viagens. O Rio de Janeiro não é uma novidade para ele, não apenas porque já esteve aqui em novembro de 2006 com o New Order. Na verdade, sua primeira vez no “Purgatório da Beleza e do Caos” foi em 1993, por ocasião do extinto festival Hollywood Rock, trabalhando com o Simply Red. Aliás, ele gosta de contar “causos” de suas viagens, do recente “caldo” que tomou na praia em frente ao hotel (e que o deixou sem bermuda em público) a uma experiência de terremoto no Chile. Mas é óbvio que os assuntos que ajudaram a render cerca de duas horas de conversa aos goles de Heineken (eu), Stella Artois (Marcello) e Bohemia (Roger) giravam em torno do seu trabalho com o New Order, seu relacionamento com a banda etc.

Roger não tratou de nenhum assunto com inibição; pelo contrário, se sentiu à vontade para falar de qualquer coisa, até mesmo de questões mais espinhosas. Dentre os temas delicados, estão como ele ficou no meio da briga entre Peter Hook e os demais membros do New Order e até mesmo como ele perdeu a vocalista de sua antiga banda – uma certa Rowetta – para uns caras chamados Happy Mondays. Por uma questão de decoro, isto é, de respeito à privacidade de Roger, optaremos por não entrarmos nos detalhes desses assuntos neste relato. Embora ele não tenha pedido para manter sigilo sobre esses fatos, tampouco nos foi dada qualquer autorização para expô-los publicamente – afinal, o que tivemos com ele foi uma conversa informal e não uma entrevista.

Apesar de já ter trabalhado e convivido com o New Order, Roger ainda fala sobre eles como se fosse um fã. Quando Lyons descreveu como se sentiu quando ouviu “Blue Monday” pela primeira vez, eu sabia perfeitamente do que ele estava falando, pois eu tinha a exata noção de que emoção era aquela. E da mesma forma como muitos de nós, ele sente a falta de Hooky na banda, mas continua gostando deles e acha que ainda soam razoavelmente bem, mesmo com outro baixista. A diferença com relação a “mortais” como nós é que ele tem o privilégio de ser (ainda) amigo de todos. Apesar dele não mais prestar serviços nem para o que restou da banda original, nem para Peter Hook, ele manteve seus laços de amizade com todo mundo, inclusive com o management: Rebecca Boulton e Andrew Robinson.

Além disso, o fato de ser fã fez muita diferença no trabalho que ele veio a desenvolver com o New Order. Segundo Roger, seu papel era “pegar” os elementos eletrônicos do repertório de estúdio da banda – trilhas de baixo e de percussão sequenciadas, por exemplo – e transferi-los para os instrumentos de palco, como teclados, samplers e drum pads, para execução ao vivo. Normalmente, isso é feito utilizando as fitas multicanais das gravações de estúdio. Roger, insatisfeito com a maneira como “Blue Monday” soava ao vivo devido às limitações tecnológicas, a recriou para os palcos em 2001 utilizando uma cópia da fita multicanal original que pertencia a Quincy Jones e que foi usada no remix de 1988. Os detalhes de como isso foi feito foram publicados no site da revista Sound On Sound. Em nosso bate-papo no Sheraton, ele nos explicou que, infelizmente, não foi possível conseguir uma fita multicanal de “The Perfect Kiss” por ocasião da turnê de 2005/2006. A solução foi recriar as partes sequenciadas “do zero” e de ouvido, procurando por timbres de percussão, de baixo, além dos demais, que fossem os mais próximos possíveis dos originais. Roger disse que quando tudo ficou pronto a banda (especialmente Bernard) ficou emocionada (inclusive, ele fala com orgulho de que foi ideia dele emendar as bases de “Perfect Kiss” e “Blue Monday” nos shows em 2006). Essas programações de “TPK” feitas por Roger vem sendo usadas ao vivo até hoje pela nova formação da banda. Vale dizer que ele recorreu ao mesmo procedimento em “Your Silent Face”. Roger também nos revelou que as novas programações de canções que reapareceram no repertório ao vivo do New Order recentemente, como “5-8-6”, foram feitas por Bernard Sumner com o auxílio de um novo técnico, Danny Davies.

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Com o avanço da conversa, era impossível não sentir uma leve inveja de Lyons. Ele conseguiu algo que fã algum sequer sonharia: ser, ele próprio, “a bit of the History”. Roger conheceu e conviveu com Tony Wilson e Rob Gretton (ele começou a trabalhar com o New Order na “turnê de reunião” em 1998) e, mesmo sem ter tido a oportunidade de conhecer pessoalmente Ian Curtis, soube muito a seu respeito através dos demais e nos disse, categoricamente, que ao contrário do que pensa a maioria, ele era um sujeito “divertido e engraçado”.

Além disso, foi ponto pacífico entre nós três que, se vier a existir “O Grande Livro de Memórias Sobre Joy Division e New Order”, este será o do Stephen Morris – caso ele venha a escrevê-lo algum dia (entramos nesse assunto quando ele disse que já tinha lido os livros do Peter Hook, mas que ainda não tinha tido a oportunidade de ler o do Bernard Sumner).

Não nos despedimos sem antes recomendarmos que ele aproveitasse a estadia em Belo Horizonte para comprar uma boa cachaça mineira, já que a esposa dele, vejam só, é conhecedora da arte da caipirinha. Além disso, pedimos que ele gravasse uma mensagem exclusiva para o grupo do New Order Brasil no WhatsApp (e que decidi tornar pública neste post). No fim, trocamos promessas de nos encontrarmos em um eventual retorno dele ao Rio. Até breve, Roger. E obrigado por ter ajudado nossa banda favorita a nos emocionar. Fica aqui nosso reconhecimento.


Em nossa despedida, pedimos a Lyons que gravasse uma vídeo-mensagem exclusiva para nossos amigos do grupo New Order Brasil do WhatsApp. Foi o único momento em que ele se mostrou meio tímido. O vídeo não está legendado, mas as palavras dele foram: “New Order Brasil, obrigado pela hospitalidade. Eu amo o país de vocês e eu voltarei assim que eu puder”.

 

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