FUTILIDADES | Encontrando o New Order e o Joy Division numa livraria em Juiz de Fora

Hora do almoço… Que tal dar um pulo no shopping pertinho aqui do meu trabalho, em Juiz de Fora? Vambora?

DSC02570Após bater um prato de comida industrializada na praça de alimentação, dei uma voltinha, olhei umas vitrines e bati o ponto no lugar de costume: a livraria (a única, aliás) do shopping. Ao percorrer os olhos pelas prateleiras da sessão de livros de arte e design, me chamou a atenção um certo livro importado sobre “capas de discos radicais”. É o seu terceiro volume. Esse, sem dúvida, é um assunto que me interessa. Mal havia começado a folhear o livro eu notei, na parte inferior de uma das páginas alaranjadas dos preâmbulos, um quadradinho com uma imagem familiar, acompanhada de um pequeno texto em inglês. O quadradinho em questão mostrava o que, além de ser um quadro do pintor romântico e realista francês Fantin-Latour, foi também a “embalagem” do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies (1983). O texto em questão, escrito por John Leahy, Diretor de Criação e Marketing da poderosa EMI (agora Virgin-EMI Records), traduzido para o português, dizia (aliás, diz) o seguinte: “Foi uma escolha difícil, mas se eu tiver que escolher uma capa teria que ser a de Power, Corruption and Lies do New Order. Para mim, grande parte do trabalho de Peter Saville para o New Order definiu a excelência da arte para as capas de disco daquela época. E seu trabalho anterior com o Joy Division aumenta sua fama de grandeza. É uma inspiração e uma contribuição positiva para os próprios discos”. Choveu no molhado, né? Ainda assim, é legal pegar um livro aleatoriamente em uma loja e, por uma absoluta coincidência, encontrar nele um elogio a aquilo que eu admiro há tantos anos.

Haveria mais manifestações de reconhecimento relacionadas à obra do New Order (ou à do Joy Division) em algum outro título disponível na mesma livraria? Ou mesmo simples citações? Fiquei tentado em descobrir. Não muito longe da sessão dos livros de arte estava a estante dos livros sobre música. Logo de cara, resolvi dar uma rápida vista em um título que quem é ligado em cultura pop já conhece bem ou já ouviu falar. É aquele calhamaço que indica mais de um milhar de discos para serem ouvidos antes de morrer. Pois bem, entre nada menos que mil e um títulos, encontrei quatro, dois do Joy Division – Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980) – e dois do New Order – Low Life (1985) e Technique (1989). Nada mal, heim?

DSC02563E o que o livro fala sobre Unknown Pleasures? O crítico que escreveu sobre o disco pôs em destaque a produção sofisticada de Martin Hannett. “O visionário Hannett pegou a guitarra metal de Bernard Dicken (também conhecido como Sumner), as melodias peculiares do baixo de Peter Hook e a inovadora combinação de bateria acústica e eletrônica feita por Stephen Morris e criou uma ambientação silenciosa e desconcertante, utilizando de forma pioneira efeitos digitais, gritos abafados e sons de vidro partido”. É claro que não podia faltar comentários sobre Ian Curtis, mas quem escreveu o texto cometeu o pecado de vincular “She’s Lost Control” à própria experiência do vocalista como epilético, quando, na verdade, a música se refere a uma outra pessoa – uma jovem que Ian conheceu quando trabalhava no serviço de encaminhamento de pessoas com necessidades especiais para empregos. Isso foi antes dele próprio ter seus primeiros ataques do grand mal. Por fim, o (não totalmente) desinformado crítico musical cita a famosa resenha “Death Disco”, de Dave McCullough, publicada na Sounds em 1979, e que dizia que quem estaria a ter pensamentos ruins acabaria se matando se ouvisse esse LP.

DSC02565Quando passo meus olhos pelas “pretinhas” sobre Closer, vejo os habituais comentários relacionando o clima fúnebre do álbum com a ruína de Ian Curtis. “Mais de 25 anos depois, continua sendo quase impossível separar a atmosfera inquietante da música do Joy Division, a degradação da personalidade de seu vocalista e seu suicídio”. Resgataram até um comentário de Tony Wilson, lá da década de 1990: “É como se compor este álbum tivesse piorado seu estado”. Mas há coisas muito melhores a serem ditas sobre Closer e, felizmente, o livro as diz. Mais uma vez, elogios rasgados ao trabalho de Martin Hannett na produção: “O ambiente criado por Hannett é praticamente um instrumento. Se antes ele fornecia um fundo melancólico, aqui seus delays e reverberações são parte da própria estrutura das músicas, tornando-as ainda mais soturnas”. Mas a parte do texto que eu particularmente mais gostei, sobretudo porque vai ao encontro do que eu penso há anos, é esta: “A adição de sintetizadores (sobretudo em ‘Isolation’ e em ‘Heart and Soul’) indica que, se Ian Curtis tivesse permanecido na banda, ainda assim ela pareceria o que se tornou, mais tarde, o New Order”. Bingo! Yes! Nada mais óbvio, é a verdade nua e crua que muitos que hoje idolatram o Joy Division mas torcem (injusta e incompreensivelmente) o nariz para o New Order se recusam a enxergar. “Isolation” é proto-New Order total. Já “Heart and Soul” antecipa outra característica que se tornaria comum no som do N.O., as “duas linhas de baixo” simultâneas: uma com notas graves tocadas no sintetizador (no New Order seriam usados sequenciadores) e outra com notas mais agudas tocadas pelo Peter Hook com o contrabaixo.

De vez em quando críticos musicais têm lampejos de lucidez…

DSC02564Hora de virar as páginas – nos dois sentidos. Deixemos para trás as obras-primas do Joy Division (não deixe de ouvi-las antes de morrer!) e nos concentremos agora no que o livro fala à respeito dos discos imprescindíveis do New Order. Em ordem cronológica, é a vez do Low Life.“O terceiro álbum do New Order brilhava com uma confiança recém-adquirida (…) Low Life firmou como uma potência da música britânica, entrando no Top 10 tanto na Inglaterra quanto, pela primeira vez, nos EUA”. Vamos colocar as coisas em perspectiva: o Joy Division era muito bom, sem dúvida, e Ian Curtis era um letrista talentoso e um vocalista carismático, com uma indiscutível presença de palco; mas muitas das inovações no som da banda eram, na verdade, inovações de estúdio saídas da mente turbinada de Martin Hannett. Foi como New Order que eles “chegaram lá” (deixaram de ser uma cult band para se tornar um grupo de sucesso) sem deixar de jogar no time dos independentes; e o New Order realmente foi revolucionário ao misturar o rock com os ritmos eletrônicos das pistas, meio que batendo no liquidificador Velvet Underground, Bowie, Kraftwerk, Stranglers, Sparks e Giorgio Moroder. Ou, como está sintetizado no livro, “‘The Perfect Kiss’ (lançado simultaneamente como um single de 12”) é um grandioso épico no estilo disco. As incomparáveis linhas melódicas de Peter Hook e os power chords de Gillian Gilbert nos sintetizadores mantém o som coeso, enquanto o baterista Stephen Morris e o vocalista Bernard Sumner adicionam cowbells, máquinas de fliperama, coaxar de rãs e ainda uma narrativa sobre AIDS, vingança – ah, e os prazeres da masturbação”. 

DSC02562Os comentários sobre Technique não são menos entusiasmados. Technique é uma obra-prima de sua época (…) definiu um gênero musical e entrou merecidamente para o primeiro lugar das paradas inglesas”. Minha paixão pelo New Order começou exatamente quando eu tinha 11 anos de idade – isso foi em 1988. O primeiro álbum deles que eu ouvi de cabo a rabo foi o duplo Substance, de 1987. Technique foi, então, o primeiro LP do New Order que eu peguei no lançamento depois de ter me tornado fã da banda (e guardo fresco na memória lembranças do single “Round and Round” tocando direto nas rádios daqui do Rio). Desceu redondo logo de cara e até hoje é um dos meus favoritos. “A música de abertura, ‘Fine Time’, gravada imediatamente depois de regressarem de uma noitada nos clubes, incluía um pastiche vocal surreal de Barry White sobre ritmos acid totalmente frenéticos. ‘Round and Round’ era techno de Detroit no estilo de Salford. Em outros momentos do álbum, faixas eletrônicas como ‘Love Less’ e ‘Mr. Disco’ completam perfeitamente a acústica baleárica e, enquanto as letras de Bernard Sumner documentam o final de seu casamento, a atmosfera obscura e instrospectiva, marca registrada do New Order, foi substituída por ecstasy e pores-do-sol na praia”. O texto seria perfeito para dar uma certa ideia do álbum a quem não sabe do que se trata se não fosse por um detalhe: “Love Less” NÁO É uma faixa eletrônica.

DSC02568Fecho o livro feliz de saber que tem gente (como eu) que acha que vale a pena ouvir esses discos antes de morrer. Mas o mais interessante é que esse mesmo livro tem um irmão que morava bem pertinho dele ali naquela mesma estante daquela mesma livraria. Só que esse parente co-sanguíneo recomendava mais de dez centenas de músicas para se ouvir antes de bater as botas em vez de discos inteiros. Para facilitar a minha busca, procurei pelo índice remissivo no final do livro para ver se encontrava os verbetes “Joy Division” e “New Order”, além de poder localizar as páginas onde as referências às duas bandas se encontravam. Como era de se esperar, a turma de “formadores de opinião” que indicou as mil e uma músicas listadas no volume não deixou para trás canções de quem tinha quatro álbum recomendados no irmão mais velho. No caso do New Order, embora apenas “Blue Monday” e “True Faith” tivessem ganhado atenção especial no corpo do livro, o índice remissivo listava, ao todo, quinze músicas, dentre elas: “As It Is When It Was”, “Bizarre Love Triangle”, “Confusion”, “Crystal”, “Everything’s Gone Green”, “Here to Stay”, “Love Vigilantes”, “Regret”, “Round and Round”, “Temptation”, “Turn My Way” e “World in Motion”. Honestamente, só acho que nem precisaria ser fã de carteirinha para colocar “The Perfect Kiss” no lugar de “Turn My Way”…

DSC02567Sobre “Blue Monday”, aquelas histórias que todo mundo já conhece… Que a banda a escreveu porque odiava dar bis ao vivo, que a Factory perdeu uma fábula em dinheiro por causa da capa, que a faixa também foi fruto de algumas trapalhadas em estúdio – apesar de terem roubado um tiquinho de Donna Summer aqui, outro tantinho de Klein + MBO e Sylvester ali, mais um sample de “Uranium” do Kraftwerk etc. Nenhuma novidade. Incrível como conseguiram esquecer o cliché mais batido: é “o single de 12″ mais vendido de todos os tempos”. A respeito de “True Faith”, o mais divertido é que o texto nada mais é do que um descarado resumo feito a partir do artigo publicado em inglês na Wikipedia, feito, inclusive, a partir de outras fontes (o lado bom é que, se a editora vier aqui reclamar sobre desrespeito aos direitos autorais, eu esfrego essa lambança na cara dela). A falta de esmero na pesquisa não ficou só nisso, não: no box contido no canto inferior esquerdo da página, onde se lê a lista dos artistas que regravaram a música, se deram ao trabalho de mencionar covers obscuros como os de Dreadful Shadow e Code 64 e se esqueçam do mais pop-baba de todos, o do George Michael!

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Bom, o livro também diz que, antes de morrer, você tem que ouvir “Transmission” e “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, só que a minha cara-de-pau chegou ao fim e fiquei sem graça de continuar fotografando as páginas desses livros bem no meio da loja, na frente de todo mundo… Olha, para quem não tinha levado o iPod no bolso, foi como se tivesse tirado essa horinha do almoço para ouvir ouvir um pouco esses velhos Mancs. O bacana da boa música é que ela também está aí para ser “lida”. E uma visita à livraria pode virar um encontro musical!

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