CLÁSSICO | “Low Life” comemora 30 anos

Foto criada em 16-05-15 às 07.45Nesta semana um dos melhores e mais influentes álbuns do New Order comemorou seu trigésimo aniversário. Low Life, terceiro LP da banda que, como todos sabemos, “nasceu das cinzas do Joy Division”, foi um daqueles discos que alargaram as fronteiras do pop, além de ter consolidado a habilidade do grupo de saber as dosagens certas entre o “acústico” e o eletrônico. Ele está na famosa lista dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer; além disso, recebeu a nota máxima da extinta revista norteamericana Blender (cinco estrelas), um poderoso 9.0 (de 10.0) dos malas insuportáveis do Pitchfork Media e quatro estrelas (entre cinco) da Rolling Stone. Na época do seu lançamento, Low Life atingiu o primeiro lugar na parada inglesa de álbuns independentes e o sétimo na parada regular.

Produzido pelo próprio New Order, Low Life foi gravado nos estúdios Britannia Row, construído pelo Pink Floyd em Fulham, Londres, em 1976, mas que em 1985 estava sob solitária administração de seu baterista, Nick Mason. Seu lançamento foi precedido pelo single “The Perfect Kiss” (que vinha sendo tocado ao vivo desde o ano anterior sob o título “My Cock’s As Big As the M1“), cuja versão integral, incluída no vinil de 12 polegadas, tem 8’46”. Todavia, uma das faixas que estava planejada para fazer parte do álbum, “Let’s Go”, acabou ficando de fora na última hora e, para “tapar o buraco”, a banda pôs em seu lugar um mix editado de “Perfect Kiss”, com 4’50”. “Let’s Go” era tocada eventualmente ao vivo, até que finalmente em 1988 ela foi oficialmente lançada como parte da trilha sonora do filme “Salvation!”, de Beth B. Já o épico tema sobre “o beijo perfeito” (o beijo da morte, segundo o vocalista/guitarrista Bernard Sumner) reapareceu em sua inteireza na edição em LP de Substance (1987) – na versão em CD foram subtraídos 40 segundos da apoteótica sequência final devido a limitações do formato. Quem diria! Em mídia digital, os fãs só puderam saborear “The Perfect Kiss” na sua completude em 2008, quando saíram as “Collector’s Editions” dos cinco álbuns do New Order lançados na década de 1980 pela Factory. “Let’s Go” também foi incluída nessa edição.

História semelhante é a da faixa instrumental “Elegia”, que abre o lado B. Em uma entrevista concedida em 1993 à revista Select, o baterista Stephen Morris disse que a versão incluída em Low Life se resume apenas aos “melhores momentos” da gravação original, que teria ao todo vinte minutos. Anos mais tarde, quando foi lançado o box set quádruplo Retro (2002), uma versão estendida, de 17’31” foi incluída no CD bônus de uma edição limitada da caixa. O mix de dezessete minutos reapareceria na “Collector’s Edition” de Low Life de 2008.

Mas as histórias curiosas não se restringem às do tracklist. Em inglês, a expressão Low Life designa aqueles indivíduos que não são “moralmente aceitos” pelas comunidades por não agirem de acordo com os “bons costumes” e/ou por estarem à margem da lei, como ladrões, traficantes, usuários de drogas, prostitutas, cafetões, alcoólatras… No intervalo entre as faixas “The Perfect Kiss” e “This Time of Night”, o New Order inseriu uma gravação de uma fala de Jeffrey Bernard, colunista da revista britânica The Spectator, que dizia “I’m one of the few people who lives what’s called a low life” (eu sou uma das poucas pessoas que leva o que se pode chamar uma vida marginal). Uma frase nada gratuita, aliás, já que Bernard era alcoólatra, tinha uma vida conturbada e sua coluna na revista se chamava… “Low life”! Mas o colunista não gostou e tentou processar a banda. Para não perder rios de dinheiro, o grupo deu um jeito criativo de “remover” o sample: na verdade ele ainda está la, bem, mas bem baixinho mesmo, de modo que você tem que praticamente por o volume no máximo para ouvi-lo.

Todavia o que Low Life tem de mais interessante e estimulante mesmo é o seu som. O disco transformou em arte final os já por si só belos rascunhos apresentados no álbum anterior, Power, Corruption and Lies (1983). Nas canções nas quais o lado mais techno da banda aflora, as trilhas programadas de percussão e baixo rítmico sintetizados formam uma base segura para as surpreendentes evoluções da bateria de Stephen Morris e do baixo solo / melódico de Peter Hook; enquanto isso, os teclados etéreos de Gillian Gilbert acrescentam climas e texturas, e a guitarra econômica de Bernard Sumner, cada vez mais influenciada pela soul music, reforça o ritmo em algumas pontuais intervenções. Soa como se o Kraftwerk tivesse convidado uma banda new wave para uma jam session. Já nas faixas “roqueiras”, como “Love Vigilantes” e “Sunrise”, são os riffs de Peter Hook, como de costume, que conduzem a música, fazendo com que todos os outros instrumentos acompanhem as notas saídas do seu baixo (certamente é esse tipo de canção que deverá fazer falta no próximo disco do New Order, que será o primeiro sem seu baixista original). A química praticamente exala do vinil do primeiro ao último acorde.

Como a “Collector’s Edition” de 2008 é considerada a “edição definitiva”, a Warner, detentora de todo catálogo do New Order até a saída de Peter Hook, não preparou para os fãs nenhum relançamento comemorativo dos 30 anos de aniversário com novidades, tal como um disco de bônus com versões ao vivo ou gravações demo. E mesmo a reedição em vinil de 2009 pela série “Vinyl Plus” (LP + MP3) decepcionou porque veio com a capa “econômica” (a capa original de Low Life, como a que eu tenho na foto, é coberta por uma folha de papel vegetal, que é onde o nome da banda, o tracklist, os créditos em geral, etc, estão impressos). Quem sabe, quando o disco fizer 40 anos, a gravadora não resolve, enfim, brindar os fãs com uma bela edição deluxe de encher os olhos (e fascinar os ouvidos)? Resta esperar até lá.

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2 comentários

  1. Paulo Fernandes · maio 16, 2015

    Gosto muito desse álbum, ainda mais que foi o primeiro disco que comprei da banda (na época em LP de vinil).

    Curtido por 1 pessoa

    • neworderbrfac553 · maio 17, 2015

      Esse (“Low Life”) eu ganhei de presente de Natal do meu pai no final da década de 80, acho que eu estava com treze anos na ocasião. Foi também em LP, edição nacional (hoje eu tenho uma edição espanhola, com a capa idêntica a da edição original inglesa). Foi meu segundo disco do New Order.

      Curtido por 1 pessoa

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