iTUNES | Turbinando um clássico

Sem Título2Minha porta de entrada no som do New Order foi o álbum duplo Substance, de 1987, que ouvi pela primeira vez quando eu tinha onze anos de idade. Sou grato até hoje ao meu primo Paulo Roberto (ou simplesmente “Beto” entre os familiares) que não somente me concedeu a chance da primeira audição como também me deixou levar o disco emprestado para casa no mesmo dia. Lembro-me bem que quando eu descobri que o Beto possuía uma cópia “daquele disco duplo de capa branca” que tinha “Blue Monday”, a música que havia feito um “estrago irreparável” na minha vida, não consegui ter paz de espírito enquanto não ouvisse aquele álbum de cabo a rabo. Acabei desenvolvendo uma forte ligação afetiva com esse LP (se tivesse que escolher um único disco para levar comigo para uma ilha deserta, não tenho dúvidas de que seria esse). Eu até me lembro que, naquela época, finalzinho dos anos 80 e comecinho dos 90, ter um Substance em sua discoteca era quase um símbolo de status.

Substance foi um dos maiores sucessos comerciais do New Order. Só nos EUA foram vendidas mais de um milhão de cópias, o que para uma banda independente era um grande feito. Mas o que tornou esse disco tão especial? Bom, vamos lá… Embora a banda tivesse lançado bons álbuns, sua especialidade mesmo eram os singles, principalmente os de 12 polegadas (mesmo diâmetro de um long play). O New Order produziu alguns durante a década de 1980 que se tornaram verdadeiros arrasa-quarteirão. A proposta de Substance era a de reunir, em um álbum duplo, todos os 12″ lançados, desde o primeiro – “Ceremony” – até o o último (na época) – “True Faith”. Algumas das faixas nunca haviam aparecido em um álbum antes, enquanto outras eram versões estendidas ou remixadas, mas, sobretudo, exclusivas do formato single. Ou pelo menos até aquele momento.

Todavia, Substance, como compilação, não foi 100% fiel ao material que reunia. Em razão das limitações do formato LP, faixas como “Sub-Culture” e “Shellshock” tiveram que ser editadas. Além disso, a banda substituiu as gravações originais de “Temptation” e “Confusion” por versões novas, regravadas. Na versão em CD, foram subtraídos 40 segundos de “The Perfect Kiss”, também por causa do limite de espaço. Todavia, na edição digital enquanto os dois vinis ocupavam um disco inteiro, um segundo disco reunia os b-sides, em sua grande maioria dub versions (remixes que continham apenas alguns trechos dos vocais e uma série de efeitos sonoros). Mesmo assim, algumas coisas ficaram de fora.

Longe de mim criticar ou contestar a perfeição. Substance é maravilhoso do jeito que é. Mas sempre pensei comigo: se não existissem as restrições impostas pelas limitações dos formatos LP e CD, como Substance poderia ser? Com o auxílio do iTunes e, evidentemente, com os meus conhecimentos sobre a banda, criei uma versão alternativa para essa obra-prima, que batizei de Substance: Unlimited Edition. O Unlimited (ilimitado) é mais no sentido de que agora não haveria mais nada que pudesse impedir, por exemplo, que uma faixa “x” ou “y” pudesse ser incluída com sua duração original, ou que fosse possível produzir um álbum com quantas músicas fossem necessárias. Para dar uma cara de “clássico turbinado”, inverti as cores da capa. Agora temos um Substance “sinistro”, como se diz (ou se dizia) aqui no Rio, e a capa preta vem a calhar.

Para começar, Substance agora é um álbum triplo, que totaliza 48 faixas. O “Disc 1” é uma versão expandida do LP duplo original. De início, pus duas faixas que anteriormente tinham sido incluídas no disco de b-sides da versão em compact disc: “Procession” e “Murder”. A primeira, embora originalmente tenha batizado um compacto, foi incluída também no lado A do EP 1981-1982 – também conhecido como Factus 8 – e por isso foi “promovida” ao “Disc 1″; e a segunda nunca foi lado B de single algum, pelo contrário, é a canção que batiza um 12” lançado pela Factory Benelux em 1984. Também decidi substituir as regravações de “Temptation” e “Confusion” pelos mixes originais. Todavia, os remakes não foram descartados: foram transladados para o fim do disco um como faixas-bônus. “Sub-Culture” e “Shellshock” agora aparecem completas, com suas durações originais (7’26” e 9’41”, respectivamente, em vez de 4’47” e 6’27”). Finalmente, “1963” também recebeu uma promoção e saiu do CD#2 do Substance original para se transformar em bonus track de minha Unlimited Edition. Na sua origem, “1963” é o lado B de “True Faith”, mas esse pode ser considerado como um daqueles famosos casos de single de “duplo lado A”, como “Strawberry Fields Forever” / “Penny Lane”, dos Beatles. Faz tanto sentido que, nos anos 90, com o New Order em uma nova gravadora, as duas músicas foram relançadas em singles separados.

O “Disc 2” corresponde a uma versão revista e ampliada do disco de lados B da versão em CD. Se por um lado “Procession”, “Murder” e “1963” migraram para o “Disc1”, por outro o “Disc 2” traz uma série de novidades. Agora estão presentes os dois b-sides de “Everything’s Gone Green” – “Cries and Whispers” (que não fazia parte do álbum original) e “Mesh”. E com “Hurt” aparecendo em sua versão integral, com 8’13”, temos o Factus 8 completo na minha Unlimited Edition. Remixes “dub” que ficaram de fora do CD#2 original puderam entrar sem problemas: “Dub-Vulture”, “Shellcock”, “I Don’t Care” (também conhecida como “Bizarre Dub Triangle”) e “True Dub” (também creditada como “Alternate Faith Dub”), sendo que este último escolhi para substituir “1963” como lado B de “True Faith”, ao lado da faixa-bônus “Evil Dust”. O “Disc 2” finaliza com uma segunda bonus track, “Confusion Dub 1987”, versão instrumental da regravação de “Confusion” contida no Substance original e no “Disc 1” da Unlimited Edition.

A cereja do bolo vem no “Disc 3”. Muito antes dessa coisa de bandas saírem em turnê tocando na íntegra seus álbuns clássicos, o New Order já havia executado ao vivo o álbum Substance (o LP duplo original, é claro) inteiro, tocando as faixas na ordem exata. Isso foi no Irvine Meadows, Califórnia (EUA), no dia 12 de setembro de 1987. Pus o show completo no terceiro disco da minha versão alternativa, incluindo as músicas que não fazem parte do álbum e que estão na encore: duas do Joy Division – “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart” – e uma do Velvet Underground – “Sister Ray”. Nem todas as versões ao vivo nesse show são fiéis às do disco. “Thieves Like Us”, por exemplo, foi tocada numa versão mais curta; em “Bizarre Love Triangle” a banda optou pelo arranjo original e que pode ser conferido no álbum Brotherhood (1986); o mesmo ocorreu com “Sub-Culture”, aqui mais próxima da versão de Low Life (1985) que a de Substance. Em todo caso, apesar da fonte da gravação não ser profissional, tem-se a impressão de um grande show, com uma resposta muito acalorada do público. E temos a banda, em um rápido momento de descontração no palco, dando uma canja de poucos segundos de “The Passenger” (instrumental apenas), de Iggy Pop!

A imagem abaixo é uma captura de tela do meu iTunes na qual o leitor poderá ter uma visão completa do meu Substance: Unlimited Edition. Confessa, vai… ficou poderoso, não é?


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