MEMÓRIA | Um raro vislumbre de um mundo privado – Parte II

5176152220_2ea9a97794_bDepois de um hercúleo trabalho, trago hoje – finalmente! – a segunda e última parte da tradução da matéria / entrevista “A rare glimpse into a private world”, assinada por Paul Rambali e publicada pela extinta revista britânica sobre cultura pop The Face em julho de 1983. Na primeira parte, que publicamos há seis dias, Rambali mostrava o New Order se preparando para mais uma turnê pelos Estados Unidos impulsionados pelo sucesso estrondoso do single “Blue Monday” (lançado em março daquele ano) e pelo lançamento de seu segundo álbum, Power, Corruption and Lies. Na entrevista a banda também fez menção ao single que estava na ponta do laço para sair: “Confusion” (sua primeira parceria com o DJ e produtor Arthur Baker).

Na segunda parte que trazemos no post de hoje, Rambali fala, entre outras coisas, sobre a morte de Ian Curtis, a entrada de Gillian Gilbert na banda e a relação do grupo com a tecnologia musical – com ênfase na conexão entre computadores e o ethos punk.


UM RARO VISLUMBRE DE UM MUNDO PRIVADO – Segunda parte
New Order: entrevista a Paul Rambali para The Face, julho de 1983

(…)

Em 1979 uma coisa estranha aconteceu em Manchester. Por toda a cidade o velho sistema de esgotos havia escolhido esse momento para, de repente, entrar em colapso. As ruas foram preenchidas com um mal cheiro e, no espaço de uma semana, uma tubulação de mais de cem anos apodreceu. Ali, bem no coração industrial do Noroeste, era uma metáfora da decadência e do desespero que marcou o fim do colapso de um boom industrial de dois séculos.

Ao mesmo tempo, em um estúdio no centro da cidade, o Joy Division fez um remix de “Transmission”, gravada originalmente para o seu primeiro álbum, para um novo single. Foi o disco que trouxe sua música para os holofotes nacionais, a canção que tocou um profundo e sombrio acorde sobre essa mesma decadência e desespero.

Ouvir Joy Division, em seguida, foi algo como sentir a agonia daqueles tempos. Era estranho e, provavelmente, inconsciente, mas eles resumiram – não tanto com palavras, já que as letras de Curtis eram intensamente pessoais, mas com seu humor – o câncer de um declínio britânico ainda não verificado. Desde então nenhuma outra música tocou tão profundamente as circunstâncias deste país.

Então, em 18 de maio de 1980, na crista do sucesso e às vésperas de sua primeira turnê pelos EUA, tudo terminou. Ian Curtis cometeu suicídio. O grupo tinha finalizado seu segundo álbum, Closer, e um single, “Love Will Tear Us Apart”. Na capa, única, o título está inscrito como em uma lápide.

Curtis, sem se dar conta, era o quebra-cabeças que atraía a atenção das pessoas para o grupo. Vulnerável no palco, com os olhos lacrimejantes e um corte de cabelo que parecia lhe ter sido imposto, ele explodia em uma frenética e espasmódica dança, que rapidamente se tornou notória, e, em seguida, parava para se concentrar em algo difícil de cantar. Sua voz era firme e clara, mas sempre desamparada. Ele tinha um histórico de epilepsia e seu desempenho (para não mencionar a canção “She’s Lost Control”) era um exorcismo do grand mal.

Na parede da sala de ensaios, entre cartazes e posteres, há uma página amarelada rasgada do New Musical Express com uma foto pungente de Curtis tirada pouco antes de sua morte. Em seguida o New Order lançou um tributo floral, uma gravação de um canção sua: “In a Lonely Place”.

“Nós nunca colocamos nossos sentimentos sobre ele em qualquer uma de nossas músicas”, diz Peter Hook. “Mas eles emergiram… em frases e versos aqui e ali. É possível ve-los quando se olha para trás”.

Movement, o primeiro álbum como New Order, foi composto logo após a morte de Curtis. Em mais de um sentido, ele carrega as cicatrizes. Movement e Closer são álbuns muito depressivos”, afirma Sumner. “Havia muita pressão sobre ele durante Closer, explica Hook. “Sendo ele o vocalista, foi o foco de toda a atenção. Ela saía da sala, olhávamos uns para os outros e continuávamos. Puta merda, ele já estava nessa há algum tempo”.

A morte de Ian Curtis envolveu um grupo já misterioso em uma lenda. Da imprensa, elogios: Curtis partiu para se juntar a Chatterton, Rimbaud e Morrison no salão sagrado das colheitas prematuras. A um grupo com várias fortes características góticas foi adicionada mais uma peça romântica. A imprensa, dura feito rocha, tinha perdido sua grande esperança, mas eles tinham perdido um amigo. Deve ter sido uma leitura amarga. Peter Hook diz que não. “No momento não estávamos realmente interessados em ler sobre isso porque, afinal, estava acontecendo conosco”.

Um resultado ímpar da morte precoce e do status quase mítico do Joy Division tem sido a bonança da indústria da pirataria com as raras gravações ao vivo e em estúdio. Peter Hook possui, ele mesmo, algumas. “Estou espantado! Eu nunca vi tanta merda. Algumas [dessas gravações piratas] são boas, outras são ruins, mas no geral são horríveis. Eu sou fascinado por elas embora seja tão repetitivo, tão monótono. As mesmas canções de novo e de novo”.

Mas discos piratas, a maior homenagem do verdadeiro fã, não acumulam para grupos populares. Quantos bootlegs do Duran Duran poderia haver no mundo todo? “As pessoas que compram os nossos parecem levar a música mais a sério. Talvez seja porque a levamos mais a sério”, completa Hook.

As provas dessa grande devoção e fidelidade subterrâneas foram fáceis de encontrar. Em 1980, “Love Will Tear Us Apart” foi o single mais pedido no programa de rádio de John Peel – como exemplo tanto de uma ética independente e não comercial quanto de sua virtude musical. A piada na época era que a música se transformaria na “Stairway to Heaven” dos anos oitenta. A comparação com o Led Zeppelin tinha um quê de verdade, mas era o grupo errado. “De agora em diante”, diz Rob Gretton, o empresário, para ficar registrado, “vai ser como o Pink Floyd”.

A analogia entre suas respectivas histórias é forte: a perda de um importante membro desde o início; e a perseverança em uma obstinada e idiossincrática direção. Se o New Order irá compartilhar o mesmo destino, comercialmente ou esteticamente, o tempo dirá. Certamente eles têm algo em comum com os grupos progressivos de dez anos atrás. Via John Peel Show, sua música atingiu profundamente garotos sensíveis de 19 anos isolados em seus quartos; tocam uma espécie de heavy metal hi-tech refinado, despojados do rococó e dos adereços, mas sem perda de melodrama; todavia, perderam uma enorme audiência por causa do comprimento do cabelo.

Era para ser um ano antes do grupo se apresentar novamente em público, pela primeira vez como New Order, com Gillian Gilbert tocando teclados. A banda tinha uma audição para um novo vocalista, mas não encontrou ninguem. Em vez então de contratar um novo cantor, Bernard encontrou-se em frente ao microfone. Nos dois anos seguintes, sua voz perdeu sua fraca e enterrada palidez e adquiriu alguma autoridade. “Por um longo tempo me sentia como um pino quadrado em um buraco redondo”, admite ele, sacudindo a cabeça com a lembrança.

Gillian Gilbert, cujo único precedente foi uma passagem em uma banda punk de curta duração chamada Inadequates, cursava design gráfico na Stockport Tech naquela época. “Mas eu não queria ser artista gráfico. Era apenas algo para fazer. Eu realmente não tinha qualquer ambição. Eu não queria estar em uma banda – era apenas um sonho. Eles é que se aproximaram de mim”.

Ela teve que fazer um teste? “Sim. Mas nós não vamos lhe dizer o que ela teve que fazer”.

“Ela teve que tocar ‘Stairway to Heaven’ ao contrário!”.

“Eu acho que, na verdade, ainda estou fazendo testes…”, diz Gillian.

De qualquer forma, ela tem as melhores instalações para praticar. Desde quando conheceram Martin Hannett o grupo sempre foi atraído pelo estado da arte da tecnologia musical. Stephen e Bernard têm computadores em casa. Stephen tem um Apple II, que lhe deu algum conhecimento e, também, alguma impaciência como as limitações do sintetizador de percussão DMX que eles usam tão frequentemente. Bernard possui um ITT 20/20, sobre o qual ele está tentando aprender uma linguagem de programação chamada Forth.

“Eu quero aprendê-la primeiro. E então eu encontrarei um uso para ele [o ITT 20/20]. Não há um sequenciador no mercado que pode fazer o que queremos. Eu vou tentar aprender [linguagem de programação] para que possamos construir o nosso próprio”, diz Bernard.

“Com a guitarra, o baixo e a bateria você tem horizontes limitados. Nós gostaríamos de aumentar nossa gama de sons e ritmos. Se você vier com uma ideia para uma música, você sabe exatamente o que quer que a máquina faça. Queremos uma máquina que possa fazer tudo, mas isso não foi construído ainda. Pensamos que o Emulator seria essa máquina, mas você começa a utilizá-lo e logo descobre seus limites”.

“As pessoas pensam que todos esses efeitos e sequenciadores são realmente alta tecnologia”, Peter Hook olha com desdém ao redor da sala. “Eles são todos inúteis – um monte de merda. Você não acredita nos problemas que temos com eles! Continua dando tudo errado. É como se eles usassem você como cobaias”.

Apesar de tudo isso, a sua música continua a ser tão esparsa e simples como sempre; os ritmos evoluíram com as novas tendências, o som com a tecnologia… os temas? Quase nada. Seus ideais são constantes. Eles sustentam que um instrumento como o ARP Quadra, que exige nenhum treinamento musical, é mais punk que uma guitarra.

“O que era o punk afinal?”, Hook pergunta. “Para mim era: se você realmente quer fazer alguma coisa, vá em frente e faça-a”.

“Veja aquilo…”, Bernard aponta para uma desgastada caixa de controles alojada em um velho case de voo. “Nós mesmos construímos. £ 100 para o sequenciador e £ 80 para a bateria eletrônica. Nós ainda os usávamos até uns oito meses atrás. As pessoas constumavam rir de nós!”.

Ele confessa seu segredo: “Não há uma música sequer nossa que use as teclas pretas do teclado. Isso é verdade!”.

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