OPINIÃO | O “Fator Gillian”

new_orde2Num show do New Order no Troxy, Londres, no dia 10 de dezembro de 2011, o terceiro da banda após sua controversa “reforma”, os fãs na plateia cantavam “Gillian! Gillian!” para dar as boas vindas à hoje Sra. Morris. A última vez que ela havia se apresentado ao vivo na capital inglesa com o New Order foi no Alexandra Palace, na virada do ano de 1998 para o de 1999. Mas esse mesmo coro já havia acontecido uma semana antes, no Brasil, durante a apresentação da banda na edição nacional do Ultra Music Festival. Nesse caso, fazia 23 anos que os brasileiros não recebiam a tecladista com o New Order em palcos daqui (em 2006 o grupo veio com Phil Cunningham em seu lugar).

Apesar de suas conhecidas timidez e discrição, de algum modo Gillian Gilbert conseguiu se fazer notar, pois manifestações como essas, em razão de seu retorno à banda após quinze anos sabáticos (ou quase), mostram que os fãs lhe reservaram um lugar especial em seus corações. Todavia, enquanto Gillian esteve fora, nunca se ouviu ou se leu que o New Order não era mais New Order sem ela como hoje se costuma dizer com relação à saída do baixista e membro-fundador Peter Hook. Inclusive hoje, quando a mídia impressa e on line dedica algumas linhas ao novo álbum do New Order – Music Complete, a ser lançado no dia 25 deste mês – diz-se sempre que será o primeiro disco da banda sem Hook em vez de se dizer que será aquele que celebrará a volta de Gilbert.

A explicação mais básica e rasteira para isso seria a força de um certo machismo ainda persistente no meio roqueiro. Essa resposta é tentadora e converge com a atual onda politicamente correta que infecta a opinião pública na atualidade. Mas no caso específico do New Order, essa diferença de tratamento teria outras causas. A primeira delas é que Peter Hook seria um “membro original” do New Order e, assim como Bernard Sumner (voz e guitarra) e Stephen Morris (bateria), remanescente do Joy Division. Gillian, por sua vez, só teria sido incorporada à banda algum tempo depois. A segunda é que Gilbert só teria entrado para o New Order para dar uma mãozinha à Bernard na guitarra e nos teclados, já que ele não conseguia ou tinha muita dificuldade de cantar e tocar qualquer um dos dois instrumentos ao mesmo tempo.

Peter Hook tem sido um contumaz propagador dessas versões. Segundo declaração dada a Andrew Harrison para o especial de 21 páginas da Q Magazine deste mês, Hook veio com “Ela só fazia qualquer coisa que Barney lhe dissesse (…) ela realmente não contribuiu musicalmente com nada que eu consiga me lembrar”. Todavia, o próprio Harrison fez questão de frisar em seu texto que ele “precisava saber o quanto disso é sincero e o quanto é a posição dele [Hook] diante do processo judicial”.

O “processo judicial” ao qual Harrison se refere é a ação que Peter Hook moveu nos tribunais contra seus ex-colegas com o intuito de impedi-los de prosseguir usando o nome New Order. Esse é o ponto. Hook vem desmerecendo e desqualificando Gillian publicamente em suas entrevistas como estratégia a ser usada no julgamento. Dessa forma, na visão do ex-baixista, o “novo New Order”, agora um quinteto, apenas teria DOIS membros fundadores e/ou fundamentais (Sumner e Morris), enquanto os outros três (Gilbert, Cunningham e o baixista franco-inglês Tom Chapman), além de não serem integrantes originais, não tiveram contribuição criativa/musical na definição do som da banda. Curiosamente, o baixista e compositor Roger Waters tentou estratégia semelhante para impedir que o guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason continuassem usando o nome Pink Floyd, na década de 1980. Mas, como todos sabem, Waters não ganhou a causa.

Substituto de Gillian nos teclados e na segunda guitarra por quase uma década (e agora seu parceiro na banda), Phil Cunningham tem uma opinião diversa com relação à contribuição da tecladista no New Order. Conforme declarou à mesma edição da Q Magazine, “Ela nos traz um pouco de calma. Melodicamente, ela adiciona coisas que nós não tivemos por um tempo”. Mas talvez a melhor análise sobre o papel de Gilbert venha de fora – em uma matéria do site Sound On Sound sobre as gravações de “True Faith” e “1963” (março/2005), o produtor Stephen Hague traçou um perfil de Gillian que difere daquele que vem sendo propagado por Hook.

“Gillian não executou nenhuma ideia minha ao longo das gravações. Houve apenas um momento em que eu disse ‘amanhã nós vamos trabalhar em suas partes de teclado’, e ela disse ‘ok, ótimo’. No dia seguinte, quando finalmente foi a sua vez, ela tinha um monte de ideias formadas para ambas as faixas. Apenas selecionamos os sons e os gravamos, com ela tocando-os todos com as mãos. Foi tão indolor… Embora ela parecesse estar em um silêncio distraído no fundo da sala dia após dia, ela tinha planejado completamente suas partes para as músicas. É uma verdadeira alegria trabalhar com ela”.

O que Hague teve o privilégio de ver in loco no estúdio chegava para o público e para a crítica musical sob forma de discos acabados, o que não eclipsa de modo algum os méritos de Gillian. Como bem observou o já citado Andrew Harrison,

“As pessoas que dizem que não é New Order sem Hooky nunca reclamaram que não é New Order sem Gillian. E ainda que Hook estivesse certo sobre os talentos dela, ela inegavelmente trouxe algo especial para a banda, uma sensibilidade diferente, mais aberta. Os discos do New Order com Gillian Gilbert são melhores que os discos sem ela e Music Complete é um deles”.

Querem uma prova? Comparem clássicos como Low Life (1985), Brotherhood (1986) e Technique (1989), ou mesmo o sombrio Movement (1981) e o orgânico Get Ready (2001), com os pouco inspirados Waiting for the Sirens’ Call (2005) e Lost Sirens (2013). Não há o que discutir. As famosas linhas de baixo de Peter Hook não foram suficientes para dar brilho ou viço aos dois últimos discos – que, coincidência ou não, são justamente os que Gillian não participou.

Bernard Sumner chegou uma vez a admitir, durante o festival Area-One, na Califórnia, em 2001, que a ausência da tecladista era sentida: “nós obviamente sentimos falta dela”. Isso foi dito uma década antes da banda se reunir sem Peter Hook e trazer Gilbert de volta!  Mas é Stephen Morris quem, em declaração à Q, sentenciou de uma vez por todas:

“Pegue um bando de rapazes e eles farão uma coisa. Mas coloque uma mulher junto deles e teremos algo diferente. Não é apenas banda, é vida”.

E que Peter Hook nos perdoe, mas o FAC 553 assina embaixo.

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2 comentários

  1. Paulo Fernandes · agosto 31, 2015

    Ótimo texto. Também senti muita falta dela nos últimos discos.

    Curtido por 1 pessoa

    • neworderbrfac553 · agosto 31, 2015

      Pois é… Resolvi escrever esse post opinativo depois que a matéria da Q me abriu os olhos para o óbvio: os discos mais “meia boca” do New Order são os sem Gillian Gilbert, embora Peter Hook toque neles. Nos melhores, ela está lá. E o que o Peter Hook faz hoje fora do New Order de tão relevante musicalmente? Nada. Se dedica exclusivamente a tocar ao vivo o catálogo do JD e do NO. E tem gente por aí criticando Barney, Gillian e Steve por quererem continuar como New Order, com um discurso muito raivoso, “New Order sem Peter Hook não é New Order”… mas tá aí o “Grande Peter Hook”, tão amado e idolatrado, faturando uns trocos com shows-revivals (que são ótimos, reconheço), enquanto os outros seguem olhando para frente. Isso é fazer jus ao nome da banda.

      Curtido por 1 pessoa

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