REVIEW | “Music Complete” em detalhes (a nossa resenha)

Packshot-RGBApós a falência da Factory Records, sua mítica gravadora, e com a assinatura de um contrato com um tradicional selo de Londres, o New Order havia se tornado pouco mais que uma ainda constante menção à sua enorme influência sobre o indie pop e a cena eletrônica. A lendária banda de Manchester, no norte da Inglaterra, até gravou bons discos (poucos na sua totalidade), mas passou a maior parte dos anos 1990 e 2000 ora recolhida em longos períodos sabáticos, ora competindo com sua própria história com o revival em torno do Joy Division. Foram décadas muito diferentes daquela em que seus álbuns e singles eram talk of the town – a de oitenta.

Republic, de 1993, tinha um single poderoso – o hoje clássico “Regret” – mas foi um álbum com um enorme potencial desperdiçado: o vocalista e guitarrista Bernard Sumner admitiu certa vez que “eu acho que o álbum é um saco sem fundo… eu acho que há faixas muito boas nele e algumas medíocres também… é o que eu realmente penso”. Já com Get Ready, lançado oito anos depois, a banda voltou com novo gás e redescobriu um velho instrumento – a guitarra elétrica. E foi com um retorno aos temas de guitarras, sem deixar de lado totalmente a eletrônica que os consagrou, que o New Order entrou no século XXI soando renovado. Foi também seu último disco com a formação clássica – pouco antes de sua finalização, a tecladista Gillian Gilbert se desligou do grupo para tratar de assuntos familiares.

Todavia, com Waiting for the Sirens’ Call (2005) e sua sequência, Lost Sirens (2013), a percepção geral era de que a banda estava perdendo seu fôlego criativo. Pouco inspirados (é importante que se diga que Lost Sirens é uma coleção de “sobras” do disco anterior), seus dois últimos lançamentos de material inédito não chegavam a ser ruins, mas mostravam um New Order esgotado, sem muito o que dizer, e tentando repetir, mas sem o mesmo viço, a fórmula testada (e com melhores resultados) em Get Ready.

Eis que agora, dez anos depois de terem finalizado o material que faria parte de Waiting for the Sirens’ Call e Lost Sirens, o New Order retorna à cena com um novo álbum, intitulado Music Complete. Lançado por outra lendária etiqueta independente, a Mute Records de Daniel Miller (Depeche Mode, Erasure, Goldfrapp e Laibach), o décimo LP de estúdio da banda veio para responder algumas perguntas – a mais importante delas é: passados 35 anos desde que os membros remanescentes do Joy Division venceram o trauma do suicídio do vocalista e letrista Ian Curtis para se tornarem “a banda independente mais importante do planeta”, o New Order seria capaz de encarnar de novo um processo de superação?

Sem Peter Hook, o carismático baixista de estilo único, inconfundível, que se tornou parte da identidade sonora da banda (ele deixou o New Order em 2007 e vem travando com os ex-colegas batalhas verborrágicas e jurídicas desde então), o vocalista/guitarrista Bernard Sumner e o baterista Stephen Morris, os únicos membros restantes da formação original, saíram em busca de reforços. Gillian Gilbert, hoje esposa de Morris, foi trazida de volta para os teclados. Para o baixo, convocaram Tom Chapman, do Rubberbear, mas que excursionou com o Bad Lieutenant (um projeto de Bernard Sumner). Fechando a formação atual, Phil Cunningham, guitarrista e tecladista, egresso do Marion, e que já colaborou com o Electronic (outro projeto de Sumner) e com o próprio New Order enquanto Gillian esteve ausente.

Na teoria, com Sumner, Gilbert e Morris já seria New Order o bastante. Mas é em campo que o time tem que demonstrar que dá conta do desfalque e, nesse sentido, o grupo, ao contrário do público, parece ter encarado a saída de Hook como um desafio positivo ou instigação. Quando perguntado sobre a experiência de não contar mais com aquele som de baixo, Barney Sumner respondeu: “É uma experiência libertadora (…) Não quero denegrir nada do que nós fizemos com ele e suas contribuições no Joy Division e no New Order. É brilhante, sem dúvida, mas por outro lado nos deixa livre para fazermos qualquer outra coisa que quisermos”.

Music Complete, felizmente, não é qualquer outra coisa. Se de um lado não encontramos ao longo de seus 65 minutos aquelas linhas de baixo “agudas” e melódicas que ajudaram a fazer a fama do New Order, de outro vemos a banda novamente em boa forma graças ao reencontro com à música eletrônica que tanto ajudou a difundir. Ainda que o primeiro single, “Restless”, seja um tema de guitarras, porém mais à moda de faixas de Technique (1989) como “All the Way” e “Guilty Partner”, estamos falando de um disco bem pop e farto de sintetizadores, como nos velhos tempos.

Mas o New Order fez mais do que despertar o lado eletrônico-festeiro que andou adormecido por tanto tempo: aproveitou a saída de Hook para reunir um time de apoio para dar um brilho extra em Music Complete. Dentre os convidados está Tom Rowlands, dos Chemical Brothers, que co-escreveu e produziu duas faixas de alta voltagem: “Singularity”, que põe em equilíbrio guitarra-baixo-bateria e sintetizadores afiados, e “Unlearn This Hatred”, mais voltada para as pistas. O disco traz também Elly Jackson, do La Roux, que empresta sua voz a três músicas. Na primeira delas, “Plastic”, temos ecos de Giorgio Moroder / Donna Summer adereçados com sons de raios que parecem saídos de “Antenna” do Kraftwerk. É o aceno do New Order às suas antigas influências.

As outras duas faixas nas quais Jackson contribui sua voz são “Tutti Frutti” e “People on the High Line”. Na primeira, temos uma amostra da combinação de ritmos eletrônicos e das cordas escritas e conduzidas por Joe Duddell, além de uma voz eletronicamente processada (que fala italiano!) que nos remete a “Fine Time”, também de Technique; a segunda, uma das melhores e mais surpreendentes do álbum, o New Order flerta com o som negro, soa funky, apresenta guitarras swingadas e um baixo insano (de longe o melhor momento de Tom Chapman no disco).

Outra participação ilustre é a do Padrinho do Punk – Iggy “Stooge” Pop. Talvez o New Order seja um dos raros casos em que uma banda tenha conseguido ter como convidado em um disco um de seus grandes ídolos. Em “Stray Dog”, o Iguana apenas “declama”, com seu habitual barítono cavernoso, um sombrio poema escrito por Sumner. E encerrando a lista de convidados ilustres, temos Brandon Flowers, o frontman do The Killers, em mais um dueto com Sumner: “Superheated” (os dois já dividiram o microfone tanto em shows do New Order quanto em shows dos Killers). Nessa faixa, que tem uma batida que lembra “Someone Like You” (canção de Get Ready), a banda parece ter encontrado o que seria, talvez, o meio termo entre criador e criatura (N.O. e Killers) através do que é, sem dúvida, a canção mais açucarada e pop de todo o álbum. Além disso ela leva a assinatura do produtor Stuart Price.

Enquanto nas parcerias o New Order resolveu bancar, na maior parte das vezes, o “saidinho”, deixando para trás a zona de conforto em que havia ficado nos discos anteriores, nas faixas em que a banda resolveu bancar tudo sozinha ela optou por apresentar algo mais familiar para os fãs: a excelente “Academic”, por exemplo, soa como outro daqueles temas rock de Technique; “Nothing But a Fool”, outra ótima canção, volta mais atrás e nos dá a impressão de que estamos ouvindo algo que remete a Power, Corruption and Lies (1983) ou Low Life (1985); “The Game” é pura síntese rock/eletrônica, daquelas que o New Order sempre produziu em larga escala.

Grande parte das resenhas alhures vem usando como parâmetro para este Music Complete o já citado Technique (como nós mesmos, de certa forma, o fizemos). Para os críticos lá de fora, o novo rebento do New Order seria o melhor desde sua obra-prima de 1989. Admitir isso seria, quem sabe, cometer uma injustiça com Get Ready, que é um disco consistente, com ótimas canções. O mais sensato, talvez, seria dizer que Music Complete é, sim, um belo e diversificado álbum pop e que teria o que faltou a Republic: um repertório mais equilibrado. E, sobretudo, que existe vida após Peter Hook.

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