REVIEW | Show: New Order, Casino de Paris, 04/11/2015

IMG_0483O que levou o New Order a escolher Paris como ponto de partida para a sua mini-turnê europeia que inaugura os trabalhos de divulgação (no palco) de seu mais recente trabalho – o até agora (muito) bem recebido Music Complete – é um segredo reservado somente à banda e seu management. Todavia, o que importa para o escritor deste blog é que uma feliz coincidência, ou golpe de sorte, me colocou no lugar e na hora certos. Uma viagem a trabalho me deu a oportunidade de realizar um velho “fetiche”: mesmo já tendo visto o New Order oito vezes, com e sem Peter Hook, dentro e fora do Brasil, eu nunca assisti a um show do grupo em solo europeu. Bem, o grande sonho mesmo era ver os caras “jogando em casa”, em Manchester, mas quem aqui está em condições de esnobar um show em Paris?

Chamar o presente texto de review seria muita presunção. Ele não preenche os devidos requisitos para isso – para início de conversa, nem tem a imparcialidade necessária. Contudo, já vi muita gente por aí escrever sobre discos e shows sem qualquer conhecimento sobre aquilo que está a avaliar para o público. E muitas vezes o ego do crítico é tão grande que ele assume posições indevidas e vai a um espetáculo acreditando que os músicos em um palco estão ali suando sob os holofotes para satisfazer a eles (os críticos), como em uma audição particular, e não ao público que pagou para vê-los. Não sou crítico profissional, mas acho que mesmo tratando de uma matéria sobre a qual sou deveras suspeito, se eu simplesmente me limitar a dizer o que achei bom e o que eu achei ruim, acho que vou parecer bem menos picareta que muito “crítico de música” por profissão.

Comecemos pelo venue. O Casino de Paris, localizado na Rue de Clichy, num ponto entre as estações de metrô Liège e Saint Lazare, tem a companhia de teatros e cafés, o que confere um ar boêmio ideal para um show. Quando eu cheguei, exatamente às 20:00, muitos grupos faziam seus warm ups nesses templos de boa bebida (vinho e pints) e sanduíches na baguette. Nem fiquei muito tempo do lado de fora. Logo no hall de entrada, já se podia ouvir o som do show de abertura (a banda era o Hot Vestry, cuja tecladista, Tilly, é filha de Stephen Morris e Gillian Gilbert). Quando finalmente acessei a pista, percebi que estava a assistir os minutos finais da apresentação do HV. Os instantes finais desse show e, também da apresentação do DJ Tintin serviram para duas coisas: para que eu arrumasse um bom lugar (nem precisava ser no gargarejo, já passei dessa fase) e para olhar melhor o interior da casa. O Casino de Paris é bem menor do que aparenta nas fotos espalhadas pela internet. Em alguns momentos, cheguei a pensar que era do tamanho do Circo Voador (Rio de Janeiro) ou até mesmo menor. Segundo a Wikipedia, a capacidade do fosse (pista) é de 1.800 pessoas. A capacidade total atual do Circo, a título de comparação, é de 2.800. Achei pouco para o New Order.

Outro problema: o palco era muito baixo. Aliás, um problemão em termos de visibilidade dependendo de onde se está na pista, ou da sua estatura. É bem verdade que eu prefiro shows indoor, mas custava acreditar que bandas como Coldplay e New Order haviam sido escaladas para tocar ali – com todo respeito ao valor histórico e à riqueza arquitetônica do lugar.

Bom, mas o Casino deixou uma impressão positiva em um aspecto importante: excelente acústica. Essa qualidade ficou evidente em todas as apresentações da noite: Hot Vestry, DJ Tintin e, salve salve, New Order. A outra coisa boa é que a casa estava lotada pelo menos – era um concerto sold out, isto é, com todos os ingressos vendidos (e tinha gente do lado de fora caçando ingresso de tudo quanto era jeito, pois chegaram até a me perguntar se eu tinha um sobrando para vender). Ficou evidente que o New Order precisava de um lugar mais espaçoso, por melhor que o Casino de Paris pudesse ser.

Mas como o que importa mesmo é o jogo com a bola rolando, vamos ao show. Confesso que fui esperando mais do mesmo: a banda entrando em cena ao som de alguma trilha de spaghetti western de Ennio Morricone, “Elegia” (de Low Life) como intro “substituta” para “Crystal” (que tem sido a opener dos shows há anos), depois “Regret”… Como reprises da Sessão da Tarde. Só que não. Pelo menos não desta vez. Ou pelo menos não será mais assim ao longo dessa nova turnê. Após uma intro diferente, que não consegui identificar, o New Order subiu ao palco sem muita conversa e escolheu como cartão de visitas um dos grandes temas de sua mais recente safra: “Singularity”.

Aposta alta, eu diria. Mas saíram ganhando. Funcionou muito bem como canção de abertura e, olhando a reação do público ao redor, tive a impressão que eu não fui o único a aprovar a escolha. Fora a execução, perfeita, o som estava tinindo, “brilhante”… E no lugar do vídeo chinfrim que havia sido produzido para a faixa quando ela foi incorporada ao set list no ano passado – antes de Music Complete ver a luz do dia – eles usaram imagens editadas de B-Movie: Lust & Sound in West Berlin 1979-1989, do trio Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck e Heiko Lange. As cenas do filme pareciam dialogar muito bem com versos do tipo “We’re working for a wage / I’m living for today / On a giant piece of dirt / Spinning in the universe”. Aliás, falando em vídeo, outra mudança: em vez de um único telão de led ao fundo, este agora é complementado por telas laterais dispostas diagonalmente (ver foto), o que resulta em um efeito cênico bem mais belo e atraente.

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No esteio de “Singularity” tivemos uma sequência de velhos números “infalíveis”, todos executados com a mais absoluta perfeição: “Ceremony” (será sempre um dos pontos altos do show), “Crystal” (caiu do topo do set list, mas não ficou má nessa posição), “Age of Consent” (que Tom Chapman, o substituto de Peter Hook, toca com igual maestria, e que fique registrado isso) e a versão de “5-8-6” turbinada com uma mãozinha do DJ e produtor Stuart Price (que retornou ao repertório de shows do New Order em 2011 para nunca mais sair). A surpresa aqui foi terem puxado “5-8-6” mais para a “primeira parte” do show, na qual tradicionalmente predominam os temas mais rock. É, parece que a banda anda inclinada a quebrar algumas de suas próprias regras novamente

Após esse bloco de clássicos, eles retornaram ao Music Complete com “Restless”. Eu adoro essa música, mas tal como na apresentação em Maida Vale para o BBC 6 Live há algumas semanas, existem algumas coisas nela que, pelo menos no meu ponto de vista, fazem com que ela entre no famoso hall das “Grandes Canções de Estúdio do New Order Que Não Soam Bem Ao Vivo”. No começo, parecia meio lenta e arrastada… Levou tempo para ela entrar no mesmo pique do disco, com aquela “pegada” ligeira. Mas chegou lá. Porém, não gosto das guitarras. É legal, em termos visuais, ver o Phil Cunningham empunhando uma linda Gretsch, mas eu ainda prefiro o dedilhado no violão da versão original. As guitarras elétricas, com seus acordes “chá-com-pão” banais, encobriam o baixo de Tom Chapman e as lindíssimas frases de teclado de Gillian Gilbert. Tome um 6,5 e olhe lá!

Mas vejam como são as coisas. Para quem achou, antes do show começar, que o máximo que poderia haver de surpresa era o New Order tocar músicas do novo disco, quem poderia imaginar que eles desenterrariam um lado B de 1984?! Meu queixo quase foi ao chão quando ouvi Tom Chapman tocar em seu baixo Rickenbacker a introdução de “Lonesome Tonight” (vi Peter Hook, o autor original do riff, tocar essa com o The Light, mas confesso que não me emocionou tanto quanto desta vez que vi com New Order… e com o Tom em seu lugar). Tudo conspirou para sair perfeito: até mesmo Bernard Sumner, afeito a lambanças em músicas que estão há muito tempo sem tocar, não desafinou, não errou a letra, nem errou nas suas partes de guitarra. Valeu, Barney.

Aliás, eu preciso dizer algo à respeito de Sumner. Achei a atitude de palco dele diferente da que havia me acostumado a ver nos shows que o New Order realizou na América do Sul. Pelas bandas daqui (ops, de lá, ato falho, esqueci que estou nas Zoropa), muito populismo: na Argentina, “We love the beef!”; no Chile, “We love the wine!”; no Brasil, “We love caipirinha! But not the traffic jam!”. Fora os sorrisinhos e as piadinhas troll. O Barney que eu vi aqui em Paris fazia um tipo mais sério e frio, sem muita comunicação com a plateia.

Quando finalmente soltaram “Your Silent Face”, para um bom entendedor uma música basta. Para quem nunca reparou, aqui vai um “segredo”: ela é aquela música “calma” que cria uma espécie de “pausa” para a plateia recuperar as suas baterias, porque, depois dela, costuma ser a hora do ballroom, do batidão. Não deu outra: o New Order colocou na pista a dobradinha mais dançante de Music Complete: “Tutti Frutti” e “People on the High Line”. Na primeira, Sumner finalmente cometeu o primeiro grande erro da noite entrando um pouco tarde com a voz, se desencontrando em seguida com os vocais pré-gravados de Elly “La Roux” Jackson. Mas pouco depois ele conseguiu encaixar a voz e a letra nos lugares certos e a música transcorreu até o fim sem mais nenhum problema – e acompanhada por um vídeo cheio de imagens com cores berrantes que irremediavelmente remetiam ao álbum Technique (1989). Aqui cabe dizer uma coisa: “Tutti Frutti” não é a minha favorita do novo LP, mas não tem como não reconhecer que a faixa se encaminha para a sua canonização junto a outros clássicos do repertório da banda. Não é exagero. Era só olhar ao redor para perceber o quanto o público realmente ama essa canção.

Já em “People on the High Line”, outra que teve que trazer Elly Jackson em versão virtual / sampleada, foi perfeição da primeira à última nota. O destaque vai, sem dúvida nenhuma, para a “cozinha”: Stephen Morris e Tom Chapman. O que se ouve no disco soa ainda melhor ao vivo. Mas nessa hora foi impossível não pensar em Peter Hook. Não, não pensamentos do tipo “ah, que falta que ele faz”. Foi algo do tipo “vendo Morris e Chapman tão bem entrosados assim parecem que eles tocam tanto tempo juntos quanto Morris e Hook tocaram”. Foi tão bom, mas tão bom, que eu gostaria que o Daft Punk tivesse assistido essa versão de “People on the High Line” só para convidar Tom Chapman e Stephen Morris para tocarem no seu próximo disco.

Meus olhos testemunharam uma ampla aprovação das músicas novas no show. Mas vejam que detalhe curioso: haviam se passado dez músicas e nenhuma do Joy Division havia sido tocada – e eles já estavam no bloco de faixas mais dance. Eu mal podia acreditar no que eu estava presenciando… Da mesma forma como mal pude acreditar com o que eles fizeram com “Bizarre Love Triangle”: tocaram-na com um novo arranjo, com base no remix feito por Richard X em 2005. Pode parecer “heresia”, mas o fato é que soou muito melhor ao vivo que a já desgastada e sem brilho versão que vinha sendo tocada, com pouquíssimas modificações, desde 1998. A mesma ousadia valeu para a faixa seguinte, “Waiting for the Sirens’ Call”. Enquanto a versão original foi estruturada sobre uma base de guitarra-baixo-bateria, tendo os teclados e os sintetizadores apenas como “ornamentos”, no Casino de Paris a banda apresentou-a com nova roupagem se apropriando do remix “Planet Funk”. Ninguem no local parecia incomodado com mais esse “sacrilégio”. Pelo contrário, tive a sensação nítida de que a banda ganhou pontos com isso.

E aí veio a quinta e última música de Music Complete da noite: “Plastic”. Uma música que eu acho ótima. O problema é que, após o enorme impacto da sequência “Tutti Frutti”, “People On the High Line”, e os remakes/remixes de “Bizarre Love Triangle” e “Waiting for the Sirens’Call”, ela não arrancou oh!‘s e ah!‘s de ninguem. Uma pena, porque também foi tocada com absoluta precisão. Talvez o melhor lugar para ela seja mais para o início do show.

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Daí para frente… Agora sim, tudo mais do mesmo. “The Perfect Kiss”, “True Faith” e, encerrando o set, “Temptation”. Em “True Faith”, fora uns synths extras na introdução e uma “paradinha” no terço final da música, é o mesmo arranjo apresentado desde 2011, com base nos remixes do Shep Pettibone e do Paul Oakenfold. Já em “Temptation”, a banda toda se perdeu no começo, os instrumentos se desencontraram e o constrangimento se instalou nos rostos de toda a banda, mas depois todo mundo “se entendeu” de novo e faixa seguiu seu rumo – apoteótico, como sempre. A pausa antes da encore foi uma das mais curtas que eu já vi. Ela começou com “Blue Monday” – a pérola que faltou no bloco dance. E depois, é claro, não podia ser diferente: o espaço do Joy Division permaneceu garantido e o show terminou com “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart” (esta última com os graves reverberando e estourando, foi a única “derrapada” no som, que esteve sempre impecável).

Fiquei feliz de ver o New Order com um show diferente daquele que vinha apresentando desde 2011. O repertório mostra que a banda conseguiu um equilíbrio bem razoável entre o material novo, os antigos sucessos (alguns com nova roupagem), um pouco de Joy Division para agradar quem faz questão e até “raridades” de seu catálogo. É claro que, ao longo dos próximos meses, esse set list a seguir pode sofrer alterações, mas como fã eu já vejo que essa lista aí já daria um bonito disco ou DVD ao vivo. Mas, falando especificamente do concerto em Paris, dos que eu vi, esse seguramente está entre os três melhores.

SET LIST:
Singularity
Ceremony
Crystal
Age of Consent
5-8-6
Restless
Lonesome Tonight
Your Silent Face
Tutti Frutti
People On the High Line
Bizarre Love Triangle (Richard X Remix)
Waiting for the Sirens’ Call (Planet Funk Remix)
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Temptation
Blue Monday (encore)
Atmosphere (encore)
Love Will Tear Us Apart (encore)

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