MEMÓRIA | Registros do New Order no Brasil em 1988

bizz-junhode1988neworderMe lembro com nitidez como se fosse hoje. Dentre os diversos assuntos que naturalmente poderiam emergir entre os primeiros colocados de uma fila para se assistir ao show do New Order no Vivo Rio, no dia 16 de novembro de 2006, uma antiga – e até mesmo meio esquecida – “lenda urbana” ressuscitou: a extinta emissora de TV Manchete, cuja sede ficava ali bem perto do local do concerto, teria exibido um especial com a apresentação do New Order no ginásio do Maracanãzinho, ocorrida no dia 25 de novembro de 1988. Todavia, por motivos “desconhecidos” ou “inexplicáveis”, o canal o teria feito sem chamadas na sua programação e em uma faixa de horário pouco frequentada por expectadores, a do “corujão” (depois da meia noite). Isso explicaria duas coisas: em primeiro lugar, porque tão pouca gente teria visto o especial (e esses “sortudos” juram até a morte que viram); em segundo, porque dentre os poucos afortunados que decidiram ficar acordados até mais tarde nesse dia, aqueles abastados que naquela época já dispunham de aparelhos de videocassette não estariam devidamente preparados para fazer um registro do show.

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A favor da lenda urbana está o fato da Rede Manchete ter gravado os shows de The Cure – também no Maracanãzinho, dia 28 de março de 1987 – e Echo & The Bunnymen – Canecão, dia 11 de maio de 1987 -, tendo, em seguida, exibido especiais de ambos (mas em horário nobre e com chamada na programação). Contra a lenda, algumas questões sem resposta: por que a Manchete teria optado, dessa vez, por exibir o show “de surpresa” e, sobretudo, em um horário de baixíssima audiência? Essa teria sido mesmo a causa de ninguem ter conseguido gravar o show? Se o concerto do New Order tivesse sido mesmo mostrado na TV, ainda que sem aviso e em um horário para “insones”, não é estranho o fato de não ter sido gravado por ninguem e, anos depois, ter ido parar no You Tube, como os especiais do Cure e do Echo? A prova dos nove está no acervo de 5.500 fitas da Manchete, hoje nas mãos da Fundação Padre Anchieta / TV Cultura – que já digitalizou quase a totalidade do material, mas que só poderá fazer uso dele a partir de 2053, quando essas gravações finalmente se tornarão de domínio público.

O mais curioso é que essa história voltou à baila em uma época bem diferente – em 2006 o You Tube já estava aí propagando, em comunhão com o acesso cada vez mais amplo às câmeras digitais, o conceito de broadcast yourself (algo como “faça você mesmo sua rádio/teledifusão”). Além disso, canais de internet que passaram a transmitir os shows via live streaming acabaram tendo seus vídeos capturados com a proliferação de programinhas e aplicativos destinados a esse fim. Em outras palavras, no século XXI tornou-se bem mais fácil produzir, disseminar e/ou reunir registros dos shows de seus artistas favoritos. Eu mesmo tenho gravações em áudio e vídeo digitais, de alta qualidade e proveniente de excelentes fontes, de todas as passagens do New Order pela América do Sul de 2006 para cá. Mas em 1988, particularmente no Brasil, já seria muita sorte conseguir entrar em um show com uma câmera fotográfica (algo que hoje está incorporado a qualquer telefone celular), quem dirá com um walkman ou um gravador de cassette. Mas houve quem tivesse conseguido essa proeza…

Imaginem a surpresa que foi quando, um belo dia, caiu em minhas mãos (e faz um bom bocado de anos isso), a gravação do show do New Order no ginásio do Gigantinho, em Porto Alegre, no dia 28 de novembro de 1988. Quando eu vi, mal pude acreditar. Apesar da qualidade rudimentar da gravação (e, também, da digitalização, que passava longe dos 320kbps), o registro era autêntico: não somente a ordem das músicas obedecia à do set list do concerto, como se podia ouvir o vocalista/guitarrista Bernard Sumner agradecendo as palmas e os urros da plateia com “obrigado”. No vídeo abaixo lhes apresento uma perfomance de “Sub-Culture” extraída da referida gravação e que confirma o que estou dizendo. Todavia, não existem informações sobre quem apertou o “REC” naquela noite, há 27 anos, nem sobre quem disseminou isso. De qualquer forma, foi um favorzaço feito, em especial, para os fãs do Brasil.

As suspeitas sobre a autoria dessa gravação recaem sobre uma figura que ficou muito conhecida entre os fãs de baladas eletrônicas nos anos oitenta e noventa – o DJ e radialista José Roberto Mahr, o homem por trás do famoso programa de rádio “Novas Tendências”, além de notório fã do New Order. Reza a lenda de que ele teria registrado todos os shows da passagem da banda pelo Brasil naquele ano – incluindo filmagens. Essa história já me foi confirmada por duas fontes diferentes: uma delas é um certo DJ da noite indie carioca (que, inclusive, disse já ter visto as fitas na casa do próprio Mahr) e a outra é uma figura já bastante conhecida entre fãs brasileiros do New Order desde os tempos dos canais de discussão no extinto mIRC e que atendia costumeiramente pelo nickname “Denial_1963” (nada de nomes sem a autorização dos citados, certo?). Isso por si só não prova que o registro de Porto Alegre ’88 que caiu na rede é de autoria de J. R. Mahr. Entretanto, em uma edição de seu programa (transmitido pela Rádio Cidade FM), ainda em 1988, ele tocou metade do set do terceiro show da banda no Ginásio do Ibirapuera (03 de dezembro), tendo prometido aos ouvintes tocar o restante do show no programa da semana seguinte, o que acabou não acontecendo. Nosso codinome “Denial_1963” havia gravado em cassete o programa com a primeira parte e, na segunda metade da década de 1990, transformou sua velha e gasta fitinha em um CD-R. Os arquivos digitalizados foram parar, depois, na rede. O vídeo a seguir mostra “Touched by the Hand of God” (finalizada com mais um “obrigado” de Sumner) – notem que a gravação é ainda mais precária, mas é um tesouro (a data do show mostrada no vídeo, no entanto, está incorreta). Anos mais tarde, “Denial_1963” teria “esbarrado” com Mahr por aí e lhe perguntado por que a segunda metade do show não tinha sido tocada no programa. A resposta recebida foi a que a qualidade do registro era muito ruim e “constrangedora”.

O fato é que, além do lendário, porém até hoje não comprovado, “especial da Manchete” e, também, das gravações piratas supracitadas, a turnê brasileira do New Order em 1988 gerou pelo menos um registro oficial que foi lançado em disco. Trata-se de um cover (excelente) de “Sister Ray”, do Velvet Underground, que fez parte do set da primeira noite do grupo no Ibirapuera, dia 01 de dezembro de ’88 (ver próximo vídeo). A faixa foi lançada no LP Like a Girl, I Want to Keep You Coming, uma coletânea de 1989 produzida pelo coletivo Giorno Poetry Systems (John Giorno, William Burroughs, Brion Gysin, Allen Ginsberg, John Cage) através de seu selo homônimo e que misturava música alternativa (Debbie Harry, David Byrne, Rollins Band, New Order) e poesia. A qualidade de som dessa versão de “Sister Ray” é soundboard, isto é, profissional, e segundo os créditos no disco, foi gravada em DATdigital audio tape – por “Oz” (Keith “Oz” McCormick, engenheiro de som e técnico de P.A. da banda naquela época). Naquela turnê, a revista Bizz levantou uma lista do equipamento trazido pelo New Order para o Brasil, o que incluía “quatro gravadores multipista digitais” que seriam usados pelo grupo para “registro pessoal”. Naturalmente, a Bizz cometeu um equívoco: os gravadores digitais multitrack só surgiriam no mercado em 1992 (os chamados ADAT – Alesis Digital Audiotape), enquanto que os gravadores DAT da Sony (que eram os que foram usados aqui) eram 2-track (dois canais). Bem, o fato é que o New Order tem seu próprio registro dos shows, mas infelizmente esse material deve estar sendo colonizado por fungos em algum depósito, haja vista que, de 1988 para cá, mais nada além de “Sister Ray” veio a ver a luz do dia.

Bom, esses são os registros que se têm conhecimento da passagem do New Order pelo solo brasileiro há quase trinta anos. Dentre lendas urbanas e fitas ameaçadas de morte pela ação do tempo, o que está ao alcance dos fãs até o momento é, em termos de quantidade (e de qualidade também), mixaria se compararmos com a chuva de streamingstorrents e de vídeos no You Tube de shows recentes à disposição hoje. Mas essa facilidade dos dias atuais torna as precárias e cacofônicas gravações das velhas fitinhas verdadeiros tesouros inestimáveis para os fãs.

Bem, só que o problema com os tesouros é que eles não costumam ser compartilhados…

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