NEWS | New Order na revista “The New Yorker”

151005_r27100-868Não há dúvidas de que 2015 foi um excelente ano para o New Order e, por extensão, para os seus fãs. Além de completar 35 anos de carreira (descontando, naturalmente, os anos como Joy Division), a banda lançou um álbum muito bem recebido pela crítica e pelo público: Music Complete. A longevidade e o sucesso de novo disco ajudaram a colocar o New Order – e seu legado – mais uma vez sob perspectiva. A Q Magazine, em seu “Q Awards 2015”, lhes deu um prêmio pela sua “notável contribuição à música”; o CD Music Complete alcançou o segundo lugar da parada de álbuns da Inglaterra, a melhor marca do New Order desde Republic (1993), e entrou na lista da Mojo dos “50 Melhores Álbuns de 2015” em uma notável terceira posição, sem falar que a revista também os elegeu “A Banda do Ano”. Não podemos nos esquecer que a Rolling Stone chamou o single “Restless” de “triunfante”. Todavia, essas publicações, assim como outras que aplaudiram nossos heróis mancunianos este ano, são, via de regra, revistas e periódicos “especializados” em música/cultura pop. Ou seja, eles são parte do “habitat natural” de uma banda. Mas quando uma revista como a The New Yorker decide abrir espaço para falar sobre a “influência contínua” do New Order, com direito a review do último disco, pode-se dizer que a coisa agora chegou em um outro (e mais elevado) nível. No esteio do lançamento de Music Complete, a jornalista e crítica musical australiana Anwen Crawford analisou o status do New Order e pormenorizou os pontos altos (e baixos também) de Music Complete. Fora do balaio das revistas sobre música, acredito que esse artigo do The New Yorker é um dos mais relevantes publicados este ano sobre a banda e seu último rebento – haja vista que se trata de uma revista sobre política, temas sociais, artes, etc, e voltada para um público bem mais maduro e erudito. Trago uma tradução do artigo, assumindo desde já as imperfeições em relação ao texto original em inglês (que pode ser lido AQUI). A tradução chegou com atraso no blog, mas creio que veio em boa hora – é a cereja do bolo desse ano de 2015 que se despede!


ESTILO TARDIO *
A influência contínua do New Order
por Anwen Crawford
Outubro, 2015.

[ * N.T.: “estilo tardio” é um termo que utilizamos em português para traduzir a complicada expressão late style, que em inglês designa um estilo desenvolvido por um artista – músico, escritor, pintor, etc – durante sua maturidade/auge ou no final de sua carreira/vida, com o intuito de diferenciar essa fase em específico de sua obra de outras anteriores. Normalmente, se usa a expressão necessariamente quando esse período da carreira do artista se constitui como sendo o de maior influência sobre o desenvolvimento de outros artistas e/ou de outros estilos. ]

A banda inglesa New Order tem trinta e cinco anos de existência. E sua influência sobre o território músical híbrido do que poderíamos chamar de synthpop ou dance rock é tão grande que carreiras inteiras são impossíveis de se imaginar sem ele. Poderia não ter havido o LCD Soundsystem, ou o Rapture, ou uma enxurrada de bandas semelhantes que surgiram em Nova Iorque no começo dos anos 2000; não haveria Radiohead também. “É muito difícil impressionar meus colegas de banda”, disse Phil Selway, baterista do Radiohead, durante a introdução de um convidado, Stephen Morris, o baterista do New Order, em uma recente transmissão de rádio da BBC. A mera menção do seu nome, explicou Selway, reduziu os outros integrantes do Radiohead a um estado de silenciosa admiração e reverência. “Eu deixei o Radiohead mudo!”, Morris respondeu, com seu carregado sotaque nortista. “Caramba!”.

A música do New Order criou uma espécie de comunhão entre as convenções melódicas do pop e as possibilidades ritmicas da dance music e, também, entre os instrumentos tradicionais do rock (baixo, guitarra, bateria) e alternativas eletrônicas (sintetizadores, sequenciadores, caixas de ritmo). Os músicos deram sinceridade às máquinas, enquanto as máquinas impulsionavam os músicos para além de suas limitações humanas. O resultado são canções que se movem em direção à vibração da dance music, porém nem sempre a alcançam porque, em vez disso, são presas por pequenos redemoinhos de melancolia. As melhores músicas do New Order tendem a ser longas e transbordam os limites do modelo pop dos três minutos; eles [os membros da banda] se sentem movidos pela alegria e pela tristeza em iguais proporções.

Na semana passada, a banda lançou Music Complete, seu nono álbum de estúdio [N.T.: o escritor não incluiu na sua conta o disco Lost Sirens, a coleção de outtakes do CD Waiting for the Sirens’ Call, de 2005]. Uma década depois do último rebento, a tecladista Gillian Gilbert está de volta, e Peter Hook – cujas fluentes linhas de baixo constituíam uma das mais reconhecíveis qualidades do New Order – pulou fora, amargurado. Seus integrantes consistentemente minimizam suas próprias contribuições individuais, preferindo apresentar-se como uma unidade, o que não impediu que as pessoas se questionassem: “poderia um disco do New Order ser um autêntico disco do New Order sem Peter Hook?” Mas poderia ser um sem Gillian Gilbert? Onde reside o espírito da banda?

A resposta, embora esteja em conformidade com todos os clichês do rock’n’roll, talvez seja que o espírito do New Order era mais forte quando o grupo estava em sua juventude. Music Complete é certamente o melhor entre os últimos álbuns do New Order e, também, o melhor desde o subestimado Republic, de 1993. Ele contém um punhado de canções para se somar aos outros tesouros do catálogo da banda, mas elas estão ao lado de faixas que são esquecíveis por normas próprias do grupo. É difícil para o New Order superar a si mesmo ou convencer o ouvinte de que eles não têm coisa alguma para provar.

Nos doze primeiros anos, a banda estava intimamente ligada a um selo baseado em Manchester, a Factory Records, com o qual nunca assinou oficialmente, já que os contratos formais não faziam parte da política da gravadora. A Factory foi mais bem sucedida como uma brincadeira conceitual do que como um negócio de risco: eram atribuídos números de catálogos para absolutamente tudo, de uma ação judicial à discoteca Haçienda (e o gato que vivia por lá), até a declaração de sua falência, em 1992.

A Factory foi chefiada pelo empresário e repórter televisivo Tony Wilson (quando ele morreu, em 2007, seu caixão também recebeu um número de catálogo), e a comunicação visual do selo ficou a cargo do designer Peter Saville, que ainda é reponsável por criar todas as capas para os discos do New Order. Os projetos gráficos que Saville criava para a banda, que empregavam linhas geométricas, color-blocks e fotos de bancos de imagens, assemelhavam-se à publicidade de uma empresa inexistente. Assim como os membros do New Order, como personalidades individuais, tendiam a ser suprimidos pelo grupo como um todo, o estilo visual proposto por Saville criou um deslocamento entre a banda e seu público.

Quando o New Order não consegue por em movimento os pés e o coração é porque a música e a imagem estão aquém dos padrões estabelecidos pela própria banda, e de tal modo que a lacuna que se interpõe entre o grupo e o ouvinte não é mais misteriosa, mas, em vez disso, vaga. Para outra banda, o título Music Complete pode parecer arrogante; para o New Order, soa apropriado.

“Restless”, o primeiro single do álbum, tem um humor que o New Order explorou muitas vezes antes: uma insônia/vigília pungente, como voltar para casa de madrugada após a melhor festa da sua vida (se o New Order nunca foi uma banda dance o bastante, sua música é, no entanto, perfeitamente adequada para os frequentadores de discotecas). A canção se move suavemente, em uma perfeita combinação de instrumentos. O New Order pode sair com uma boa canção pop do mesmo modo como um atleta pode correr umas voltas só para se aquecer. Mas o que falta à “Restless” é aquele pequeno grão de perversidade que fez de outras canções do New Order tão gloriosas quanto inimitáveis – “The Perfect Kiss”, de 1985, por exemplo, que incluiu um interlúdio de sapos coachando. Por que sapos? Por que não?

Uma das melhores canções do novo álbum é “Stray Dog”, que apresenta uma narração em voz grave de Iggy Pop, muito diferente, em termos de tom, da voz sem luz e sem cor de Bernard Sumner, vocalista e guitarrista da banda. O atrito entre os vocais e o hábil arranjo instrumental – com uma pitada de violinos, além de guitarras cujas texturas tomaram de empréstimo a presença áspera de Pop – é algo que vale a pena prestar a atenção. E a participação de Iggy é altamente sugestiva, quer tenha sido deliberada ou não.

O New Order surgiu do Joy Division e, em 1980, quando o vocalista e letrista do grupo, Ian Curtis, cometeu suicídio, foi amplamente noticiado que o LP deixado em seu toca-discos foi a estreia solo de Pop, The Idiot.

Sumner, Hook e Morris tocaram no Joy Division. Ao longo dos anos, tornou-se quase impossível para eles acabarem com o mito do Joy Division, cuja inexperiente algazarra punk se transformou, pela sua própria força de vontade e pelos dons de seu produtor, o falecido Martin Hannett, em uma bela e sobrenatural música. Mas se algum grupo tem o direito de recuperar o Joy Division, esse grupo é o New Order, e a banda o faz em “Stray Dog” e em uma faixa chamada “Singularity”, que começa com ruídos assustadores e vacilantes e uma linha de baixo proeminente. Ambas evocam o som do Joy Division, que foi também o antigo som do New Order.

Quando o New Order copia a si mesmo funciona melhor do que quando ele tenta soar como o Chic, o que o grupo fez em músicas como “Tutti Frutti” e “People on the High Line”. No passado, a disposiçao do New Order para absorver os novos sons da dance music o colocou na vanguarda do pop, mas ao evocar a disco agora, dois anos após o ponto alto do Daft Punk, com a revivalista “Get Lucky” (co-escrita com Nile Rodgers, do Chic), parecem atrasados. É um tanto cruel ver os arquitetos de um estilo, apesar de sua longevidade e influência generalizada, serem eclipsados pelos seus jovens alunos.

A canção final de Music Complete é “Superheated”, que tem a participação de Brandon Flowers, do grupo The Killers, cujo nome foi tirado de uma banda fictícia que aparece em um vídeo do New Order. O clima da música é reflexivo, quase imponente, embora as letras (uma fraqueza ao longo da carreira do New Order) sejam banais. “Agora chegou ao fim”, canta Flowers. O New Order nasceu como uma espécie de acidente histórico, descontando a tragédia pessoal, e alcançou, na sequência do infortúnio, mais do que a maioria das bandas jamais conseguirá. Talvez agora, finalmente, chegamos ao fim.


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