MEMÓRIA | 1986/1987: o New Order conquista os EUA (e o mundo)

8e0704ba4bb4328098d54e41f6dd8309“Foi um show sensacional. Eu estava mais ou menos na quarta fileira, do mesmo lado onde Peter Hook estava no palco. Acho que me lembro de Bernard vestindo um short e uma camiseta da Adidas. Mais de uma vez vi garotas correndo e subindo ao palco para abraçá-lo”.

O trecho acima, publicado no site New Order On Line, faz parte de um breve relato de Tim Treat sobre o show do New Order no Poplar Creek Music Theatre, Chicago (EUA), no dia 16 de agosto de 1987. A cena descrita por Tim mostra o quanto a banda, naquela altura, já se encontrava bem distante no tempo e no espaço da atmosfera que cercava os concertos de sua primeira encarnação. A título de compração, o contraste entre essa apresentação e o famoso – porém infame – show do Joy Division no Derby Hall, em Bury (Inglaterra), no dia 08 de abril de 1980. Em vez de um anfieatro com capacidade para 20 mil pessoas, no qual já haviam tocado estrelas de primeira grandeza do rock/pop como Peter Frampton, B.B. King, Liza Minelli e Tina Turner, o Derby Hall era um antigo edifício vitoriano neoclássico com pouco mais de 500 lugares; além disso, o show do Joy Division ficou marcado por um grande tumulto, com direito a garrafas atiradas no palco e pancadaria generalizada. O episódio está bem representado no filme Control, de Anton Corbijn.

O show em Chicago, bem como toda turnê do New Order pelos Estados Unidos naquele ano, simbolizavam uma conquista: o sucesso comercial aliado à independência. A banda finalmente havia alcançado o sucesso que parecia reservado ao Joy Division, mas que fora adiado graças ao suicídio de seu vocalista e, também, timoneiro: Ian Curtis. Muitos talvez não saibam, mas naquela época, o último terço da década de 1980, não existia ainda o revival em torno do Joy Division; seu nome ainda não desfrutava do reconhecimento nem do sucesso com os quais foi laureado tardiamente. Foi como New Order que os sobreviventes do fim trágico operado por Curtis – Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris – conseguiram “chegar lá”. Naqueles tempos poucas eram a bandas que detinham o sucesso de público e, ao mesmo tempo, os aplausos da crítica.

O ano de 1987 foi, portanto, especial para o New Order. O grupo havia conquistado um dos maiores – e mais difíceis – mercados da música pop mundial: o norteamericano. Curiosamente, foi nos Estados Unidos (mais especificamente em Nova Iorque), bem no comecinho da década de oitenta, que o New Order encontrou a “tábua de salvação” que lhes libertou das sombras de Ian Curtis e do Joy Division. Já mais abertos às experimentações com sintetizadores e percussão eletrônica, resultado do período de estágio com o produtor Martin Hannett, o homem por trás das inovações sonoras presentes nos dois LPs do Joy Division – Unknown Pleasures e Closer -, Sumner, Morris e Hook, além de Gillian Gilbert (convidada a juntar-se ao trio poucos meses após a reestreia como New Order), incorporaram à sua música os beats e os grooves do pop eletrônico negro. Quando voltaram para a Inglaterra, já não eram mais os mesmos.

Em sua terra natal, produziram, em seguida, uma sucessão de singles de doze polegadas de grande êxito, como “Temptation”, “Blue Monday”, “Thieves Like Us” e “The Perfect Kiss”, bem como álbuns que, naquela época, tinham ares de novidade (Power, Corruption and Lies e Low Life), embora ninguem tivesse ideia precisa (pelo menos não naquele tempo) do quanto esses discos estavam antecipando o futuro do pop. Mas a “Conquista da América” começou a ser pavimentada mesmo em 1986, cinco anos depois das primeiras incursões pelos clubs de Nova Iorque. O filme Pretty in Pink, de John Hughes, lançado em fevereiro daquele ano, além de ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria, ajudou a popularizar a música do New Order, já que trazia em sua trilha sonora três canções da banda (mas apenas “Shellshock” foi incluída no LP). Meses mais tarde, em novembro, o single “Bizarre Love Triangle”, o único saído do álbum Brotherhood, tomou de assalto as paradas de sucessos nos EUA: entrou no Top 10 na parada oficial de singles e ocupou a quarta posição na parada de Dance Club Songs da revista Billboard. Nada mal para uma música que, na Inglaterra, havia atingido o primeiro lugar tão somente na parada independente (na parada oficial não chegou sequer ao Top 50, vejam só).

Mas o New Order tomou de vez a América para si em agosto de 1987, quandos os singles da banda apareceram reunidos em um álbum duplo intitulado Substance. Dos doze singles incluídos no LP, nove não faziam parte de nenhum outro álbum já lançado pelo grupo; os demais, por outro lado, eram remixes expandidos em vez de album versions. O disco fez um enorme sucesso nos dois lados do Atlântico, mas foi nos Estados Unidos onde ele alcançou sua maior marca, ultrapassando 1 milhão de cópias vendidas. O impacto de Substance sobre o mercado norteamericano foi algo sem precedentes – de uma hora para outra resenhistas de influentes publicações estadudinenses, do The Village Voice à Playboy, estavam dedicando linhas ao disco e à banda. Também foi em 1987 que os LPs do New Order, de Power, Corruption and Lies a Substance, começaram a ser distribuídos no mercado brasileiro pela WEA (no ano seguinte a banda estaria aqui pela primeira vez para uma série de shows).


Fotos: New Order nos EUA com Echo & The Bunnymen (1987)

O lançamento de Substance nos EUA foi o estopim de uma turnê norteamericana ao lado do Echo & The Bunnymen (outra importante banda britânica da década de 1980) e o glam gothic Gene Loves Jezebel. A excursão começou em Minneapolis, no dia 13 de agosto de 1987, e terminou Berkeley, Califórnia, no mês seguinte. Foram lançados, para fins de divulgação da turnê, dois discos promocionais: um flexi disc de dez polegadas que trazia um remix de “State of the Nation” e um set de três vinis de doze polegadas (cada um dedicado a uma das bandas), com o qual o New Order contribuiu com “True Faith”. Ambos os discos são hoje peças de colecionador.

A turnê foi um sucesso de público e os shows foram, na sua grande maioria, realizados em grandes espaços, como o já citado Poplar Creek, e também em outros famosos anfiteatros norteamericanos, como o Red Rocks, em Denver (Colorado), e o Irvine Meadows, na Califórnia. E anos mais tarde a revista Rolling Stone, em seu Album Guide (2004), afirmaria que Substance, ao lado de Purple Rain de Prince e Immaculate Colection de Madonna, seria um “guia para a música popular da década de 1980”. O LP acabou indo parar na Enciclopédia de Música Popular de Colin Larkin em 1989.

Nada mal para uma banda que já foi recebida no palco com garrafadas apenas sete anos antes, não é?

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