RE-ISSUES | The Invisible Girls: o lado músico de Martin Hannett

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Martin Hannett: foi sócio da Factory Records e produziu Joy Division e New Order. Mas também era músico e tinha uma banda.

O filme parte história real, parte ficção, A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom, que mostra os personagens (Tony Wilson, Rob Gretton), bandas (Joy Division, New Order, Happy Mondays) e empreendimentos (Factory Records, The Haçienda) que ajudaram a colocar a cidade de Manchester (norte da Inglaterra) no mapa da música pop mundial, possui duas cenas clássicas envolvendo o produtor Martin Hannett, magistralmente interpretado pelo versátil ator britânico Andy Serkis:

    1. Tony Wilson (interpretado no filme por Steve Coogan) pára seu automóvel em um descampado, no que parece ser uma área rural. Ele sai do carro e encontra um sujeito de cabelos desgrenhados (Hannett/Serkis), cigarro pendurado na boca, andando de um lado para o outro, segurando um grande microfone apontado para o céu e com um gravador à tiracolo. Wilson, que não está tão próximo de Martin, lhe dirige a palavra, em voz alta: “Ei, Martin, o que você está fazendo?”. O homem do microfone, irritado, responde: “Gravando… o silêncio!”. “Gravando o silêncio??”, Wilson retrucou, perplexo. E a resposta foi “Não! Agora estou gravando a porra do Tony Wilson!!”.
    2. Nos Strawberry Studios, em Stockport, durante a gravação do primeiro LP do Joy Division, Stephen Morris (Tim Horrocks) está na sala de gravação tocando um solo de bateria. Do outro lado do vidro, na sala de controles, Martin Hannett, desesperadamente, grita “Chega! Chega!”. E o baterista para. Em seguida, Hannett diz para Morris: “Bateristas fazem isso há anos e, particularmente, já estou de saco cheio disso. Vamos tentar algo diferente… Rápido, porém lento”. Todos (banda, Wilson, empresário) se olham e alguem solta: “Ele está falando sério?”.

Apesar do filme ser bastante caricato e de carregar nas tintas, com a intenção deliberada de fazer piada com o que, na realidade, era absurdo (a história da Factory é cheia de tropeços inacreditáveis), o retrato que Winterbottom fez de Hannett em seu filme não é assim tão distante do personagem real. O próprio Stephen Morris, em seu depoimento no documentário Joy Division, confirmou a história do “rápido, porém lento” e ainda acrescentou outras pérolas de Hannett do tipo “toque isso um pouco mais amarelo”. E tal como mostrado na telona, ele tinha pouca tolerância com os músicos e não os deixava ficar no estúdio enquanto ele trabalhava na edição e mixagem das gravações.

Mas essa excentricidade toda só contribuiu para tornar o mito em torno de Hannett ainda maior, já que seu talento como produtor, evidenciado, por exemplo, nos álbuns do Joy Division, ficou famoso. Mas poucos conhecem um outro lado do produtor: o de músico. Ao lado do tecladista Steve Hopkins, Martin Hannett era a outra metade do The Invisible Girls. E é sobre essa “banda” incomum que falaremos nas próximas linhas.

Hannett e Hopkins se conheceram em um show do Soft Machine em 1976. Mas foi o empréstimo de um sintetizador ARP2600 que realmente deu início ao elo entre os dois, que, no mesmo ano, engataram a primeira parceria: a trilha sonora de um curtametragem de animação chamado All Sorts of Heroes, dirigido por Rick Megginson e Steve Hughes. Martin tocou o baixo e alguns teclados; Hopkins era tecladista em tempo integral. Mas nessa época ainda não tinham adotado o nome The Invisible Girls. Isso só aconteceria em 1978, quando prestaram serviços como banda de acompanhamento do poeta mancuniano John Cooper Clarke em seu segundo álbum, Disguise in Love. Desde quando passaram a acompanhar Clarke, a dinâmica do The Invisible Girls passou a ser essa: Hopkins e Hannett formavam o núcleo permanente da banda (teclado e baixo), mas os postos dos demais instrumentos seriam preenchidos por músicos convidados que sempre mudariam. Nessa primeira fase, se juntaram à dupla o baterista Paul Burgess e os guitarristas Lyn Oakey e Pete Shelley (Buzzcocks). Martin também assumiria o papel de produtor de toda e qualquer gravação envolvendo as “Garotas Invisíveis”.

James Nice, o homem que hoje controla as gravadoras Les Disques du Crépuscule e a ressuscitada Factory Benelux, capitaneou dois (re)lançamentos dedicados ao The Invisible Girls. Em primeiro lugar saiu em 2014 – Pauline Murray and The Invisible Girls; o segundo, intitulado Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, veio à luz no ano passado. O primeiro é uma reedição remasterizada e expandida do álbum de estreia da ex-vocalista do grupo punk Penetration e que contou com o Invisible Girls como banda de apoio; o segundo é uma compilação, que reúne muitas faixas inéditas ou que não tinham sido lançadas em formato digital antes.

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Pauline Murray and The Invisible Girls (1980)

Após o fim do Penetration, a vocalista Pauline Murray, acompanhada do ex-baixista da banda (e que viria a ser seu marido), Robert Blamire, estava tentando levar adiante o projeto do seu primeiro disco solo. A dupla procurou Martin Hannett com o objetivo de tê-lo como produtor, mas no final Pauline e Blamire acabaram ganhando o Invisible Girls como parceiros na empreitada. Com Hopkins nos teclados e Robert Blamire como “membro honorário” da banda tocando o baixo, o grupo foi completado, como de costume, com convidados: John Maher (ex-Buzzcocks) na bateria, Dave Hassell na percussão e, nas guitarras, Dave Rowbotham (Fast Breeder) e Vini Reilly (Durutti Column). Hannett não tocou nenhum instrumento, mas assumiu a produção (dividindo-a com Hopkins) e, com seu parceiro, escreveu os arranjos. O engenheiro de som era ninguem menos que Chris Nagle, outro parceiro de Hannett, e que trabahou em Unknown Pleasures, do Joy Division, e Movement, do New Order. A edição expandida da Les Disques du Crépuscule (o LP original saiu em 1980) é excelente: além de um belo encarte, recheado de informações e com fotos, são dois CDs. No disco 1, temos o álbum original remasterizado, o single “Searching for Heaven” (que traz Bernard Sumner, do New Order, como convidado na guitarra solo) e versões Peel Sessions. O disco 2 é todo ao vivo e traz faixas gravadas em 1981 na Holanda (Amsterdam Paradiso e Den Haag Paard van Troje) e 1980 na Inglaterra, sendo que somente as registradas em solo britânico foram de fato tocadas pelos Invisible Girls “originais” (i.e., os que tocaram no disco). Outro detalhe que vale a pena mencionar: a capa foi desenhada por Peter Saville, o designer que assinou todas as capas do Joy Division e do New Order.

Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, por sua vez, é cheio de surpresas – mas, advertimos, não é para quaisquer ouvidos. A compilação pode ser dividida em três momentos diferentes. As primeiras cinco faixas (instrumentais, como quase todas do CD) formam o bloco mais acessível. Gravadas entre 1980 e 1987, são canções com DNA pop, apesar da ausência de vocais. Hopkins exibe sua habitual proficiência nos teclados, enquanto Hannett se ocupa da “cozinha”: ele toca baixo e bateria nessas gravações. E na funky “Huddersfield Wastes”, Martin toca até guitarra ritmica. Mas é nesse terço do disco é que se pode notar com absoluta nitidez a famosa marca registrada de muitos discos produzidos por Hannett, em especial os do Joy Division: o som da bateria, seco e esparso, com um eco sutil, mas ainda assim notável.

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Martin Hannett & Steve Hopkins: The Invisible Girls (2015)

O bloco seguinte é o mais perturbador e sombrio. Nele predomina a contribuição de Martin Hannett como produtor e co-autor de trabalhos de artistas e bandas como Nico (“Procession”, uma das raras faixas cantadas do disco), Section 25 (“Collective Project”), Crispy Ambulance (“Concorde Drone”), Vini Reilly / Durutti Column (“First Aspect of the Same Thing” e “Second Aspect of the Same Thing”). Nesse mesmo segmento do álbum há espaço ainda para uma incursão solo de Hannett, “The Music Room”, porém creditada aos Invisible Girls, e a retomada da dobradinha com Hopkins em “Space Music”, um experimento com sintetizadores. Esse seria o “Lado B”: mais experimental, em vários momentos parece que estamos ouvindo velhos discos de krautrock. Mas esse grupo de canções nos ajuda a entender os caminhos e territórios percorridos pelas bandas que Martin produziu ao longo da sua carreira.

As bonus tracks vêm no terceiro lote: são as canções da trilha sonora de All Sorts of Heroes. Na verdade trata-se de uma peça homônima dividida em nove partes. Desta vez parece que estamos ouvindo pequenas jammings de um minuto e meio ou dois. A bateria floreada, o sax e o piano evocam um clima jazzy que em nada lembra a orientação leftfield dos Invisible Girls. Há ecos do chamado “rock progressivo” aqui e ali. Curioso, se levarmos em consideração que essas gravações foram feitas um ano antes da explosão do punk rock na Inglaterra – e em 1977 Martin Hannett estaria produzindo o EP Spiral Scratch, dos Buzzcocks. Existiriam mais conexões entre o prog rock e o punk do que faz crer nossa vã filosofia? Talvez a obra feita nas sombras, quase “invisível”, do The Invisible Girls seja a resposta a essa questão.

Enfim, a semente do que Hannett plantou nos discos do Joy Division e dos primórdios do New Order foi produzida em laboratório nos experimentos realizados com Steve Hopkins no Invisible Girls, uma banda cujo papel de coadjuvante não significou, em momento algum, ser ofuscado pelo brilho das estrelas principais. Pelo contrário: o envolvimento da dupla fez toda a diferença. Infelizmente, esse gênio dos estúdios não viveu o bastante para prosseguir colocando sua assinatura tanto em discos alheios quanto no trabalho do Invisible Girls: após se afundar no álcool e nas drogas ao longo da década de 1980, Martin nos deixaria em 1991, aos 43 anos, devido a um ataque cardíaco.

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