MEMÓRIA | Uma noite em Nova Jersey

NEW ORDER

No lugar do Joy Division, o New Order: Sumner, Morris (juntos na foto) e Hook vão para os EUA sem Ian Curtis em setembro de 1980.

A história todos conhecem: em maio de 1980, quando o Joy Division estava às vésperas de fazer seu primeiro tour pelos Estados Unidos, Ian Curtis, o jovem e também talentoso vocalista e letrista, tirou sua própria vida na casa onde viveu seu desastroso casamento, em Barton Street (Macclesfield, Grande Manchester). Mesmo desolados, seus companheiros, Bernard Sumner (guitarra e teclado), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) decidiram continuar – na semana seguinte ao funeral já estavam ensaiando uma canção nova, partindo de um riff escrito por Hook. Estava nascendo “Dreams Never End”, a primeira de um novo lote de músicas. O Joy Division havia ficado para trás – foi enterrado junto com Ian Curtis. No horizonte à frente, os três remanescentes miravam o futuro, mas agora como New Order.

Exceto os fãs fiés e de longa data, o público médio pensa que Gillian Gilbert, então namorada do baterista de Stephen Morris, teria sido imediatamente convidada para tocar teclados e guitarra na nova banda. Mas não foi assim. Gillian fez sua estreia no New Order em novembro de 1980, em um concerto no Squat, em Manchester. Antes de ser incorporada ao grupo, o New Order existiu durante um breve período como um trio. Além disso, nesse curto espaço de tempo entre o segundo concerto, em Liverpool, e o último antes do ingresso de Gillian, em Boston (EUA), Sumner, Hook e Morris se revezavam na função de vocalista (o primeiro show, no Beach Club, em Manchester, foi totalmente instrumental).

Apesar do cancelamento dos shows do Joy Division na América do Norte (havia um concerto agendado no Canadá também), o New Order com três integrantes pegou um avião, atravessou o Atlântico e foi para os Estados Unidos fazer um punhado de apresentações. O primeiro, na cidade de Hoboken, em Nova Jersey, dia 20 de setembro de 1980, é particularmente interessante. Essa apresentação aconteceu no Maxwell’s, um tradicional bar e music venue local, no qual muitas outras bandas de sucesso já tocaram: R.E.M., Pixies e Smashing Pumpkins estão entre elas.

MAXWELLS VENUE

A fachada atual do Maxwell’s, em Hoboken (Nova Jersey). Hoje o local se chama Maxwell’s Tavern.

Mas o que torna o show do Maxwell’s particularmente especial? Em primeiro lugar, talvez tenhamos que admitir que muito do interesse em torno desse concerto se deve ao fato dele ter sido gravado e pirateado – se não fosse por isso, ele perderia metade do seu “charme”. Recentemente, um novo bootleg chamado Grieving in the Dark (2014) o trouxe à tona novamente. Muitas vezes uma coisa ou fato adquire significado ou valor histórico simplesmente por estar documentado.

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Um dos LPs piratas do show no Maxwell’s: “Grieving in the Dark” (2014).

Para início de conversa, esse foi o único show da viagem pelos Estados Unidos no qual banda tocou com seu equipamento original. Antes do concerto seguinte, no Hurra’s, em Nova Iorque, a banda foi literalmente saqueada: os instrumentos e demais equipamentos foram roubados. Para realizar o próximo show, o grupo teve que sair às pressas para comprar tudo novamente. E acabaram levando gato por lebre: Bernard, por exemplo, levou uma guitarra Gibson ES-335 de segunda mão pensando que fosse nova, enquanto Peter Hook comprou uma guitarra barítono acreditando ser um baixo de seis cordas (ele só tomou conhecimento do engano quando percebeu que não conseguia afinar o instrumento).

O segundo detalhe acerca desse show diz respeito ao revezamento nos vocais. Quem já teve oportunidade de ouvir as primeiras gravações demo do New Order, feitas nos Western Works Studio, em Sheffield, julho de 1980, deve ter estranhado por exemplo, a voz do baterista Stephen Morris em “Truth” e, principalmente, em “Ceremony”. No Maxwell’s, a banda tocou um set de oito músicas, mas Bernard Sumner, justamente aquele que viria a ser o vocalista em tempo integral, cantou apenas em “In a Lonely Place”. O tecladista nessa canção era Stephen Morris, que cedeu a vaga de baterista para uma drum machine. Alguem aí consegue imaginar “In a Lonely Place” tocada com uma bateria eletrônica? Pois é, mas isso um dia já aconteceu…

Nas demais músicas, Morris e Peter Hook se alternaram nos vocais. “Cries and Whispers”, “Mesh” e “Dreams Never End”, por exemplo, foram cantadas por Hook (a última continuaria a ser cantada pelo baixista mesmo depois de Sumner ter sido eleito o vocalista oficial); “Procession”, “Truth” e “Ceremony” contaram com a voz de Steve. “Procession”, aliás, é outro caso curioso. Trata-se de uma versão embrionária ainda, executada com bateria eletrônica no lugar da bateria acústica. Ao que tudo indica, também não era lá muito fácil para o Steve tocar bateria e cantar ao mesmo tempo. De um modo geral, as músicas desse set ainda não se parecem totalmente com suas versões definitivas, sobretudo no que diz respeito às letras.

Mas, pelas contas do leitor, falta ainda uma música. Sim, é verdade, mas essa é um caso à parte. Nesse show, a banda tocou uma canção pela primeira e única vez. Cantada por Peter Hook, ela segue a formação básica de guitarra-baixo-bateria e soa um tanto à beira do punk rock. Como nenhum dos integrantes havia anunciado o nome dela ao microfone, ela ficou conhecida ao longo dos anos com nomes genéricos nada criativos como “Untitled” (sem título) e “Unreleased Track” (faixa nunca lançada). O mistério em torno do nome dela foi solucionado quando, em 2008, foi lançado 1 Top Class Manager (Anti-Archivists, 220 páginas), um livro com scans dos cadernos de anotações do finado ex-empresário do Joy Division e do New Order, Rob Gretton. Segundo as notas de Gretton, essa música se chamaria “Hour”.

Do repertório desse período inicial do New Order, apenas “Homage” (que não fez parte do set list do Maxwell’s, mas foi tocada em outros shows e aparece na fita demo do Western Works Studio) e a desafortunada “Hour” (que não resistiu à sua primeira apresentação pública e imediatamente caiu), não foram gravadas e lançadas mais tarde. “Ceremony” e “In a Lonely Place”, começaram a ser criadas quando Ian Curtis ainda estava vivo, mas se transformaram no primeiro single do New Order, em 1981; “Dreams Never End” e “Truth” entrariam no LP de estreia, Movement, lançado no mesmo ano; “Procession” ganharia um compacto próprio, também em ’81, mas reapareceria no ano seguinte ao lado de “Mesh” no EP Factus 8 (também conhecido como 1981-1982); “Cries and Whispers” entraria no lado B do single “Everything’s Gone Green”, lançado na Bélgica pela Factory Benelux.

Bom, chega de tanto falatório… Quem quiser curtir o show no Maxwell’s, Hoboken (NJ), 20 de setembro de 1980 (mesmo sendo uma gravação pirata com todas as falhas e falta de qualidade típicas do gênero), pode descarregá-lo AQUI.

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