MEMÓRIA | Reading Festival 1993: um show histórico

A falência da Factory Records foi decretada no dia 27 de novembro de 1992. Na ocasião, a gravadora já havia encomendado a produção de algumas cópias em cassete de um pre mix das faixas (ainda em versões instrumentais) do novo álbum que o New Order estava preparando, Republic. A Factory chegou, inclusive, a catalogar essa fita com o código FACT 300. Não mais do que cinco cópias foram feitas e hoje elas estariam sob zelosa proteção de colecionadores anônimos. Como se sabe, Republic acabou não saindo pela gravadora criada em 1978 pelo repórter a apresentador de TV Tony Wilson (1950-2007). Segundo Bernard Sumner, vocalista e guitarrista do New Order, o grupo acabou assinando com a London Records por dois motivos: 1) a gravadora quitaria a gigantesca dívida que a Factory tinha com a banda; 2) a London bancaria o término de Republic. O disco acabou sendo oficialmente lançado apenas em maio do ano seguinte.

Republic não foi escrito e gravado unicamente sob o peso dos últimos suspiros da Factory – e da monstruosa dívida que a gravadora tinha com o New Order: a boate Haçienda, da qual a banda e a Factory eram sócios, também passava por dias difíceis, o que incluía problemas financeiros também. Para muita gente, Republic é um disco que foi feito para socorrer a Factory (o que não deu certo), a Haçienda e, evidentemente, o próprio New Order. No documentário New Order Story, de 1993, o baterista Stephen Morris deu a seguinte declaração: “Estamos em Montreux, para participar do festival de jazz daqui… O que nunca nos ocorreu… Para salvar nossas vidas, talvez?”. Apesar de questionado por Sumner, que o corrige dizendo “Não. Estamos aqui porque Quincy [Jones] nos pediu”, a fala de Morris não deixa de ser reveladora.

Seja como for, Republic até teve um excelente desempenho na Inglaterra, ficando em primeiro lugar na parada de álbuns – e se mantendo nessa posição por 19 semanas. O single “Regret” foi um grande sucesso. Mas a turnê de promoção do disco acabou sendo uma das mais curtas da história da banda: todos os shows se concentraram entre os meses de junho e agosto de 1993. O último concerto, realizado no Reading Festival (Inglaterra), acabou sendo não apenas o mais aclamado da turnê, mas entrou para a história como um dos melhores da carreira do New Order. Além disso, ele se tornou emblemático porque representa o melhor período do grupo em matéria de performances ao vivo.

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Poster oficial com o ‘line up’ do Reading Festival 1993

O New Order foi o headliner da terceira e última noite do festival, ocorrida no dia 29 de agosto de 1993. No mesmo dia, se apresentariam no palco onde a banda tocaria nomes como Dinossaur Jr., Lemonheads, The Breeders e até os super-virtuoses (e malas!) do Primus. Na ocasião, havia rumores de que o New Order se separaria. Os boatos foram desmentidos por Bernard Sumner durante o show – diante da plateia, ele pegou o microfone e disse “Não se deve acreditar em tudo o que se lê na imprensa”. Mas essa declaração seria bem menos lembrada do que a famosa mudança que Sumner fez na letra de “True Faith”, citando de maneira maldosa o (hoje) falecido Rei do Pop: “When I was a very small boy… Michael Jackson played with me… Now that we’ve grown up together… He is playing with my willy” [trad.: “Quando eu era um garotinho… Michael Jackson brincava comigo… Agora que nós estamos crescidos… Ele brinca com meu pinto”].

O set list merece destaque – equilibrado, misturava de forma adequada os hits, músicas novas e um par de canções menos badaladas, mas de valor afetivo para os fãs. Os críticos e resenhistas, não apenas lá de fora, mas daqui do Brasil também, elegeram o show do New Order como sendo o melhor daquela edição do festival. O mais interessante é que existem registros desse show. Desde a filmagem amadora (vide o vídeo acima, com “True Faith”), até gravação soundboard do áudio. Para se ter uma ideia, esse concerto foi tocado em um programa da Rádio Transamérica (101,3 FM) do Rio de Janeiro (eu cheguei a gravá-lo em uma fitinha cassete). Além disso, um dos discos piratas ao vivo mais famosos do New Order, inclusive por causa da excelente qualidade sonora, é um CD intitulado Electronic Ecstasy… e que consiste no show (incompleto) do Reading Festival ’93.

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O show repercutiu até na imprensa brasileira!

Além disso, em seus arquivos, a BBC possui no formato CD discos de transcrição de um programa apresentado na Radio 1 por Mark Goodier no qual o show foi tocado. É extremamente difícil desviar um disco desses dos porões da BBC para as mãos de um colecionador, mas felizmente eu tive essa sorte. Como no CD pirata Electronic Ecstasy, o show está incompleto (faltam “Dream Attack”, “As It Is When It Was”, “True Faith” e “Bizarre Love Triangle”), mas o som é de altíssima qualidade.

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Bootleg do show em Reading

Considerando que o New Order lançou oficialmente duas músicas desse show no disco número 4 da caixa Retro (2002) – “Regret” e “As It Is When It Was” -, não deixa de ser surpreendente o fato do concerto nunca ter virado um disco ao vivo legítimo. Aliás, é ainda mais surpreendente se considerarmos as reações dos integrantes da banda diante das gravações existentes. Sumner, em uma ocasião, disse: “Eu me lembro de alguem tocar um disco pirata desse show em uma loja de roupas e de soar fantástico”; o agora ex-baixista Peter Hook foi mais enfático: “Quando eu ouvi as fitas do show, eu quase chorei… Eu pensei ‘porra, que desperdício!'”. Dave Thompson, autor de True Faith: An Armchair Guide to New Order, tem uma teoria própria para explicar o motivo pelo qual a apresentação no Reading Festival ’93 não teria sido lançada oficialmente na íntegra. Segundo ele, “fãs e colecionadores preferem ver e ouvir uma performance mais antiga… mas eles [referindo-se à banda] certamente curtem mais esse [o show em Reading]. Sou fã e colecionador, mas adoraria ver esse show virar um disco ao vivo oficial e torço para que isso um dia aconteça.

Curiosamente, o livro de Thompson, uma referência em matéria de detalhes sobre tudo o que foi gravado e lançado (ou não) pelo New Order, vacilou ao mostrar o set list incompleto do show. A lista inteira é essa aqui: “Ruined in a Day”, “Regret”, “Dream Attack”, “Round and Round”, “World”, “As It Is When It Was”, “Everyone Everywhere”, “True Faith”, “Bizarre Love Triangle”, “Temptation”, “The Perfect Kiss”, “Fine Time” e “Blue Monday”. Por outro lado, o livro revela que após o show cada membro do New Order foi para a sua casa e eles não se comunicaram mais entre si durante cinco anos. Sim, de fato o tempo provou que não houve separação para valer (em 1998 eles fariam outro show incrível em Reading e esse, felizmente, saiu em DVD), mas o longo hiato após uma curtíssima turnê de um álbum feito sob nuvens negras diz claramente que o clima na banda não era dos melhores. Mesmo assim, foi o período em que exibiram sua melhor forma no palco – e o ponto culminante foi o show de 29 de agosto de 1993.

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