CHAT | Roger Lyons de volta ao Brasil: chopp, pastéis e o segredo de Mr. Horse

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Roger Lyons: caricatura by Fred.

Uns quinze dias atrás, talvez um pouco mais, meu grande camarada e “sócio diretor” do New Order Brasil, Marcello Dourado, fez meu celular tilintar minutos depois de eu e minha esposa termos acabado de pousar nossas cabeças sobre os travesseiros. A inesperada ligação a aquela hora da noite tinha a ver com seus entusiasmo e ansiedade para me dar a boa notícia da qual ele era detentor. “Aracri, advinha quem vem pro Rio?”. Com o cérebro desacelerado pela sonolência, respondi “Ah, sei lá… Peter Hook?”. Mesmo entorpecido pelo sono, achei que esse seria o palpite mais cabível – sabe-se lá o por que. A resposta veio simplesmente assim: “Roger Lyons”. Os olhos semicerrados ficaram arregalados e uma campainha pareceu tocar dentro da minha cabeça. “Sério? Que legal! Quando ele vai estar por aqui?”, perguntei. “Dias 20 e 21 de março”.

Bom, agora chegou a hora de recapitularmos algumas coisas… Primeiro: quem é Roger LyonsRoger é um fanático pelo New Order, como eu ou o Marcello, mas com um detalhe: ele trabalhou para a banda de 1998 a 2006 como programador de MIDI e técnico de teclados, e é amigão de todos até hoje, incluindo o management. Segundo: por que tanta animação pela vinda desse cara? Nosso primeiro encontro com Lyons aqui no Rio de Janeiro foi no ano passado, quando ele estava trabalhando para o Kaiser Chiefs, banda escalada para abrir o show do Foo Fighters no estádio do Maracanã. Foi um bate-papo incrível com um ser humano formidável – e através dele ficamos sabendo de coisas sobre nossa banda favorita que até então não tínhamos tomado conhecimento. Dali em diante meio que se formou entre nós um tipo de amizade à distância – fora o “extra” de termos agora um “amigo em comum” com os caras do New Order. O relato do primeiro encontro foi publicado aqui no blog.

Desta vez Roger veio como engenheiro de som a serviço do grupo Il Divo – um quarteto que faz uma espécie de crossover entre ópera, música clássica e música pop. Além disso, contamos com a companhia de Ricardo Fernandes, de São Paulo, que já foi colaborador da revista “Dynamite”, editou o hoje extinto site “O Eterno” (sobre o Joy Division), é organizador da festa Call the Cops e também faz parte da turma do New Order Brasil (inclusive é o nosso atual recordista de shows assistidos do New Order). O meeting rolou ontem à noite. Nosso ponto de encontro foi o lobby do hotel onde Roger estava hospedado, na Av. Nossa Senhora de Copacabana. Lá ele foi presenteado com uma nova camiseta da Seleção Brasileira (uma amarelinha; a azul, que vestia na ocasião, ele ganhou na visita do ano passado), e garrafas de cachaça, já que sua esposa domina – vejam só! – a arte da caipirinha. Dali fomos a um pub a apenas uma quadra de distância (não sem antes tentarmos, sem sucesso, participar da pré-venda dos ingressos para os shows do New Order na Opera House de Sydney, em junho).

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No pub, da esq. para dir.: eu, Roger, Marcello e Ricardo. New Order foi o assunto principal.

Como da outra vez, foi uma noite de cervejas (chopp, para ser mais exato, mas houve uma rodada de pastéis também para não bebermos de estômago vazio) e New Order como o tema dominante da conversa. Antes de seguirmos para o pub, quando ainda estávamos no lobby do hotel, tínhamos conversado sobre Music Complete, o último álbum do New Order (“o primeiro sem Peter Hook”, ou ainda “o disco da volta de Gillian Gilbert”, etc.). Roger teve o privilégio de ouvi-lo seis meses antes do lançamento e disse ter ficado impressionado. Ele teria perguntado a alguem “Mas ainda não está pronto, não é?”, e esse alguem respondeu “Sim, está, o que você está ouvindo agora é o disco terminado”. Em síntese: ele adorou o CD e não há uma faixa sequer de que ele não goste.

Aliás, tivemos discussões divertidas sobre gostos. Em determinado momento, o sistema de sonorização do pub começou a tocar uma música do Ace of Base… Todos começaram a rir – afinal, imediatamente a canção nos trouxe à memória a faixa “I Told You So”, do álbum Waiting for the Sirens’ Call (2005), e sobre a qual chegamos a falar a respeito no táxi a caminho do hotel onde Roger estava hospedado. Nosso amigo visitante confessou: ele até gostava do Sirens’, mas definitivamente a exceção era “I Told You So”, opinião compartilhada por Ricardo e Marcello. Todavia, eu era o único na mesa que admitiu que gostava da canção, o que deixou Lyons escandalizado. Como já era de se esperar, ele disse que achava o remix do Stuart Price muito superior à album version. Eu disse que concordava com ele, mas que também gostava da versão original…

Já que tinha sido honesto sobre “I Told You So”, acabei descambando para o “sincericídio”. Descobri ali mesmo ao longo da conversa de que ele fazia parte do grupo de big beat Lionrock, que em 1994 remixou “1963”. Ao saber disso, eu não resisti: “Roger, eu lamento, mas eu não gosto dos remixes que vocês fizeram para ‘1963’“. Todo mundo pareceu muito surpreso com minha sinceridade assim, digamos, “na lata”. Mas, para amenizar e não deixar nenhum climão, completei “Mas eu comprei o EP! Então você não ficou sem seus direitos autorais!” (eu tinha até uma foto do disco no celular para comprovar). A gargalhada foi geral. (mas depois Marcello não parou de repetir para mim “Aracri, por aquela eu não esperava…”).

Dentre as diversas histórias contadas por Roger ao longo da noite, haviam aquelas de “interesse técnico” (como da outra vez). Ele nos disse que foi recontratado para os dois primeiros shows do New Order com a atual formação – concertos beneficentes em Bruxelas e Paris, em 2011, para arrecadar dinheiro para o seguro médico de Michael Shamberg, ex-produtor de vídeos da banda, hoje falecido. E de novidade ficamos sabendo que Dian Barton, que na década de 1980 era sócia da Oz P.A. Hire ao lado de Keith “Oz” McCormick, não é mais a engenheira de som do New Order. Ao que parece, sua saída teria a ver com uma insatisfação da banda e dos fãs com seu modo de mixar os instrumentos nos shows. Eu concordo. Nunca fiquei plenamente satisfeito com a sonorização dos concertos do New Order. A única vez que realmente achei que o som estava magnífico foi em novembro do ano passado, no Cassino de Paris, na estreia da turnê do novo disco.

Roger também nos contou causos divertidos. Um deles envolvendo Flea, o superbaixista do Red Hot Chili Peppers. Ele e Peter Hook, ex-baixista do New Order, são muito amigos (algo que eu não sabia); em uma ocasião, durante o soundcheck para algum show do N.O. (não me lembro agora quando nem onde), Flea estava no backstage fazendo sinais e gestos para o palco… Roger se aproximou para saber do que se tratava e perguntou “O que você quer?”. Ele respondeu “Eu queria subir ao palco para dar um ‘olá!’ para o Hooky…”. “Ah,  [sem reconhecer quem era] cai fora daqui ,cara!”. Flea insistiu. “Olha só, eu conheço o Hooky e ele me conhece…”“Ok, ok, e eu com isso? Dá o fora!”. Uma última tentativa… “Porra, cara, você não sabe quem eu sou? Não me reconhece?”. “Que se foda, não me importa quem você é, só quero que dê o fora daqui”. O imbróglio entre os dois chegou ao fim quando Peter Hook se aproximou, reconheceu Flea, os dois se abraçaram e Hooky disse a Roger “Este é o Flea, dos Chili Peppers, meu amigo”. Detalhe: Lyons já tinha visto Flea, e aqui mesmo, no Brasil, em 1993, no Hollywood Rock. Na ocasião, Roger trabalhava para o Simply Red!

Mas “A Grande História da Noite” foi, na verdade, uma revelação. Entramos no assunto das pichações que Peter Hook fez em seus amplificadores ao longo da turnê sulamericana de 2006 que, quando postas em sequência, formavam a seguinte frase: “Mr. Horse, once upon a time two boys started a group. It fell apart. The end” [trad.: “Mr. Horse, era uma vez dois garotos que formaram uma banda. Ela desmorou. Fim”]. Obviamente era uma clara referência a ele mesmo – Peter Hook – e a Bernard Sumner, vocalista e guitarrista, e os desentendimentos que vinham tendo naquela ocasião – e que levaram à separação em 2007. Mas havia ainda uma dúvida: quem ou o quê era o tal “Mr. Horse”? Me lembro muito bem que os “gringos” arriscaram diversas “teorias” sobre o assunto no fórum do site New Order On Line. O que posso agora dizer é: todas elas passaram muito longe da verdade. Roger nos contou o que está por trás do mistério do “Mr. Horse”… Uma história hilária, com uma assinatura autêntica do Peter Hook. Depois de nos divertirmos com a revelação, resolvemos que de agora em diante vamos nos divertir com a manutenção do segredo.

Mais uma vez, Roger nos proporcionou horas prazerosas e divertidas. Ele é um cara engraçado e inteligente, alguem que dá gosto ter por perto para tomar uma gelada. E apesar de ter convivido com nossa banda predileta, não age como se tivesse sido “tocado pela mão de Deus” – pelo contrário, realmente mais parece outro fã no meio da roda, falando do New Order com uma indisfarçável paixão. Esperamos que ele retorne outras vezes – e que algum dia se junte novamente à trupe da Nova Ordem.

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