REVIEW | Livro: “The ‘Blue Monday’ Diaries”, de Michael Butterworth

livro

Michael Butterworth: testemunha da criação de um clássico

“Outros artistas vêm fazendo música sintetizada sequenciada há alguns anos, mas esta é talvez a primeira vez  que uma banda de rock  usa essas técnicas no coração de sua música. Eles estão experimentando muitas coisas que lhes são novas – novas, inclusive, para o engenheiro de som”.

O fragmento acima vai de encontro do que sempre pensei à respeito do New Order: apesar de ser contemporâneo de grupos que também faziam um tipo de música sintetizada, como Depeche Mode, Ultravox, OMD ou Yazoo, o (outrora) quarteto oriundo de Manchester, que nasceu forjado no seio de uma tragédia, é outra coisa. É uma banda híbrida – encontro entre o rock, a música eletrônica e a “profana” disco music. Ouçam atentamente Power, Corruption & Lies, o segundo álbum do New Order, lançado em 1983: nele Bernard Sumner (voz e guitarra), Gillian Gilbert (teclado e guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria e teclado) não apenas deram forma definitiva ao seu som, como também criaram algo que, de fato, pouco se assemelhava ao que os outros estavam fazendo. Não soava como Construction Time Again, ou You and Me Both, por exemplo.

Aliás, o autor da citação que introduz este texto teve o privilégio de acompanhar de perto, como uma “mosca na parede”, o dia-a-dia das gravações de Power, Corruption & Lies e, também, do que viria a ser o single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos: “Blue Monday”. Michael Butterworth (Manchester, b. 1947), conhecido na Inglaterra pelos seus contos e romances de ficção científica, e, também, como um dos fundadores da editora e distribuidora de livros Savoy, foi o cara certo no lugar e na hora certos. Ele foi testemunha ocular do momento em que o New Order se convertia, enfim, naquela banda – conexão entre o rock e a música dance, e situada na fronteira entre o pop e o avant garde. Seu “diário de bordo” de tudo o que rolou no Britannia Row Studios, em Londres, ficou registrado em quatro cadernos. Recentemente redescobertos, serviram de base para um item doravante obrigatório para os fãs: The Blue Monday Diaries: In the Studio With New Order (Plexus, 189 páginas).

Antes de mais nada, Butterworth procura explicar para o leitor que por trás da história do seu diário sobre o New Order trabalhando em estúdio existem alguns precedentes – o que o obriga a recuar no tempo até a década de 1970, em Manchester. O que muita gente não sabe é que existia na cidade um circuito de livrarias alternativas que tinha uma estreita relação com a cena musical local. Canções do Joy Division, primeira encarnação do New Order, e de outras bandas “do pedaço”, como The Fall e A Certain Ratio costumavam “frequentar” os alto falantes do sistemas de som interno das lojas de livros. Stephen Morris e o finado Ian Curtis eram clientes dessas livrarias antes mesmo do Joy Division existir. Foi nesse contexto que o autor teve o primeiro contato com a banda. Mais tarde, quando já tinham se transformado em New Order, não foi difícil convencer o grupo e seu empresário, Rob Gretton, a aceitá-lo como companhia no estúdio para a realização de um projeto: um livro sobre o New Order (o que acabou não acontecendo naquela época por desistência dos editores).

Algo marcante em The Blue Monday Diaries é, sem dúvida, a minúcia e a riqueza de detalhes. Todavia, o afã do autor de transcrever para o livro absolutamente tudo o que foi registrado em seus cadernos, inclusive as mais irrelevantes observações, faz com que ele caia em redundâncias indubitavelmente descartáveis. Por exemplo, incontáveis vezes Butterworth se detém em informações dispensáveis, como o que os membros da banda estão vestindo, de que cor, se tem estampa (e como ela é) etc. Ele também descreve quase todas as idas com a banda ao estúdio pela manhã: a que horas, quem estava na direção do carro, qual percurso fizeram e se pararam em algum lugar antes; Michael também sempre relata inúmeras vezes a volta do estúdio para o apartamento alugado em Londres e, a cada vez, informa ao leitor quem foi para cama primeiro, a que horas, quem ficou acordado até mais tarde e por aí vai. E mais: cada momento que alguem da banda ou Rob colocava um baseado, um comprimido de speed (anfetamina) ou um tablete de LSD na boca foi devidamente narrado no livro. Por fim, outra repetição irritante eram as constantes comparações que Butterworth insistia em fazer entre o mercado editorial e a indústria musical.

Mas fora essa lista de “mais do mesmo”, sobra algo bom? A resposta é sim. Aprende-se bastante sobre o modus operandi da banda naqueles tempos – tanto no que diz respeito ao processo criativo (como escreviam as músicas e as letras) quanto com relação à produção em estúdio (não se esqueçam que Butterworth documentou o momento em que o New Order já estava produzindo seus próprios discos). Como qualquer outra banda, suas músicas nasciam em uma sala de ensaios e a partir de jams (improvisos), que eram gravadas; no meio do “caos”, encontravam cinco segundos que lhes pareciam interessantes e resolviam desenvolver algo mais elaborado a partir daí, mas sem uma letra; com a música pronta, os sequenciadores, drum machines, isto é, toda a parte techno, entravam depois, no estúdio. Tudo o que iria ser feito em um dia de gravação era previamente decidido de forma consensual e democrática. As letras via de regra vinham no final.

Outro ponto a favor do livro é a maneira como ele ilumina melhor o papel ou as qualidades individuais de cada um dos membros. Bernard Sumner, por exemplo, é o principal arranjador da banda e, junto com Stephen Morris, está sempre às voltas com a “domesticação” dos instrumentos eletrônicos. Mas é particularmente interessante o modo como Butterworth descreve Gillian Gilbert – justo ela que, atualmente, tem sido alvo de ataques ferozes do baixista Peter Hook, hoje fora da banda (ele insiste em dizer que Gillian nunca trouxe alguma contribuição para o New Order). Observando-a trabalhar em um overdub para a faixa “Ecstasy”, o autor escreveu:

“Ela começa a tocar uma animada linha de baixo no Moog [Source], que é corrigida na fita multicanal por Mark. Na maior parte do tempo ela está perfeita e intencionalmente imóvel, de pernas cruzadas, enquanto seus dedos tocam com entusiasmo. Ela se mantém no ritmo e o persegue, bordando-o com padrões compactos e curtos que me fazem lembrar saltos em um jogo de amarelinha. Ela é amorosa, carinhosa e, de repente, vejo porque Rob queria que ela fizesse parte do grupo. Se eu fosse aquela batida [da música], eu ficaria feliz em ser pego por ela”.

Mas se existe um grande mérito nesse livro, mais do que ser um making of de um grande single e de um belíssimo álbum, é o de servir como documento de como era fazer música eletrônica há 34 anos. Hoje com um laptop, um software e alguns plug ins, se pode produzir um álbum inteiro de pop eletrônico sem sequer precisar da infraestrutura de um grande estúdio de gravação, o que era impossível em 1982/1983. The Blue Monday Diaries mostra a luta de Barney, Stephen, Gillian e Peter para conseguir dominar o que hoje equivaleria ao Homem de Neanderthal para a espécie humana, só que com nomes estranhos que pareciam saídos de antigos filmes sci-fi: Sequential Circuits Prophet V, Powertran ETI 1024 Custom Built Sequencer, E-Mu Systems Emulator… São comuns no livro os relatos de problemas de mal funcionamento de toda essa parafernália e, igualmente, de como era difícil manipulá-los. Mas é claro que, com o passar dos anos, o New Order acompanhou as viradas da tecnologia musical. Durante muito tempo eles levaram para os palcos parte do equipamento usado em estúdio, como os sequenciadores. Atualmente eles usam gravadores hard disk multipista, o que significa que os sequenciadores foram aposentados, pelo menos para uso nos shows.

The Blue Monday Diaries só não leva uma nota dez porque Butteworth é bastante chegado em divagações – dentre elas, destacam-se aquelas nas quais o autor procura convencer o leitor de supostas conexões existentes entre a música do New Order (e a do Joy Division também) com a ficção científica, seu habitat natural. Além disso, a Savoy, sua antiga empresa do ramo editorial (e que também chegou a se aventurar pela indústria musical), ganhou espaço muito além do merecido no livro. Em alguns momentos, cheguei a me perguntar se estava a ler sobre New Order/”Blue Monday”/PC&L ou sobre Butterworth/Savoy/mercado literário/sci-fi. Em todo caso, pelas qualidades já citadas, é uma obra recomendável e que pode ser considerada um warm up para o livro de memórias sobre o New Order que Peter Hook dever lançar ainda este ano – e que deve acrescentar mais detalhes sobre as gravações, de “Blue Monday”, Power, Corruption & Lies e de outras faixas e álbuns.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s