REVIEW | Avaliamos “Complete Music” (New Order)

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Capa de “Complete Music”

Quando o New Order anunciou o lançamento de Music Complete, seu décimo álbum de estúdio, ninguem esperava grande coisa. Seu antecessor, Lost Sirens, de 2012, uma espécie de mini-LP produzido a partir de sobras de estúdio do já por si só pouco inspirado Waiting for the Sirens’ Call (2005), parecia ser a pá de cal que faltava para encerrar o enterro de uma banda que, além de ter perdido um dos seus principais integrantes, não fazia mais nada além de passar o chapéu em shows tão lotados de fãs nostálgicos quanto de grandes sucessos. Apesar da notícia da assinatura do contrato com a legendária gravadora Mute ter causado algum burburinho – principalmente depois que uma declaração mal interpretada obrigou James “LCD Soundsystem” Murphy a desmentir em nota rumores de que o grupo iria para a DFA Records -, ninguem esperava não mais que uma grande faixa apenas, três ou quatro canções “ok” e o restante só de fillers.

Mas, supreendentemente, o New Order fez bem mais que isso. Mesmo com um grande desfalque (o baixista Peter Hook, apartado desde 2007), a banda fez um disco nada menos que impecável e digno da reputação construída ao longo do mais de três décadas. Depois de uma trinca de álbuns mais orgânicos, baseados em guitarras, o New Order estava de volta com o batidão pop-dançante-eletrônico que ajudou a popularizar. Todavia, Music Complete, lançado em setembro do ano passado, não foi feito apenas para se dançar. O disco era um exemplo da rica paleta sons do New Order.

Uma das versões de Music Complete era uma edição limitada em vinil com oito discos coloridos que continha, além do álbum em sua versão original, todas as suas onze faixas com outra mixagem que as deixavam mais longas – em alguns casos até com o dobro da duração. Chamados de extended mixes, esses remixes eram um mimo exclusivo para fãs mais capitalizados e ávidos por itens de colecionador. Mas supostamente pensando no público médio, a Mute Records resolveu reunir essas versões extended em um CD duplo, batizado de Complete Music.

É interessante observar que, de acordo com o formato, esse material pode adquirir um sentindo completamente diferente. Como parte de uma edição limitada, os remixes de um álbum inteiro distribuídos por vários discos de vinil dentro de uma caixa são um autêntico “bônus de luxo”; mas quando transformados em um “álbum independente”, o que se tem é uma “versão alternativa” do disco original e que, de certa forma, concorre com ele. O problema é que, especificamente nesse caso, Complete Music leva uma desvantagem: ele nasceu de um CD irrepreensível. E remixes, como sabemos, são empreendimentos de risco – podem tanto elevar uma obra a um outro nível como destruí-la completamente. É como pisar em ovos.

Felizmente, a proposta por trás das versões estendidas das canções de Music Complete nem era tanto a de reinterpretá-las, que é o que a maioria dos remixers faz hoje em dia. A ideia era basicamente alongar as faixas. Pense, por exemplo, nos extended mixes de “The Perfect Kiss”, “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”. A intenção era recriar aquele tipo de remix de oito ou nove minutos dos singles do New Order na década de 1980. Porém, em Complete Music, temos resultados variados. Em geral, em boa parte ele não chega a superar o seu progenitor (“Restless”, “Unlearn This Heatred”, “Singularity”, “Tutti Frutti”, “Academy”); todavia, ele também nos oferece algumas recriações dignas das originais – faixas pouco badaladas, como “The Game” e “Stray Dog” (esta com a voz de Iggy Pop soando ainda mais profunda e calorosa), são boas surpresas. “People on the High Line”, por sua vez, ganhou músculos extras em seus grooves, além de cowbells adicionais. Mas o ponto alto, sem dúvidas, é “Plastic”: evocando seus mais antigos inspiradores (Moroder, Kraftwerk), o remix é uma autêntica trip com direito a bumbo “no talo” e vocoders. É tarefa ingrata escolher qual o melhor – o mix original ou o extended.

Quem pensou que Complete Music era uma jogada de marketing para vender as faixas bônus da caixa de vinis para um outro perfil de público, certamente subestimou o tino para negócios de Daniel Miller, o dono da Mute. O CD traz, no lugar dos extended mixes originais de “Nothing But a Fool” e “Superheated”, versões ineditas dessas faixas, rotuladas como extended mix 2. Trata-se de uma isca para fisgar, também, quem já havia comprado o box set. A estratégia foi além: de lambuja, quando se adquire o Complete Music o fã recebe um código para baixar o disco com os mixes originais. Deu tão certo que Music Complete voltou para o Top 20 da parada britânica de álbuns. No ano passado, ele atingiu o segundo lugar.

A capa do novo CD também é, de certa forma, um remix do projeto gráfico de Music Complete. Basicamente, o conceito e a arte são os mesmos, mas agora traduzidos em uma embalagem de papelão que imita uma capa de LP em miniatura, além de apresentar uma paleta de cores mais diversificada e vibrante.

Complete Music não é o que se pode chamar de item indispensável. Na verdade, é um disco absolutamente supérfluo e que nada acrescenta à discografia da banda, inclusive como conceito (o New Order já havia lançado discos de remixes e versões extended antes). É um item feito sob medida para saciar a sede e a extravagância dos completists, sempre ávidos a não deixar buracos em suas coleções. A verdade é que Music Complete, na sua versão original, simplesmente se basta por méritos próprios. O New Order provou, quando ninguem mais esperava, que ainda tinha lenha para queimar e fez uma boa fogueira. Complete Music tem um que de exibicionismo – algo do tipo “vejam agora que podemos fazer com esse fogo”, e, com ele, ao invés de produzir calor ou de preparar alimentos, acenderam fogos de artifício. Bonito, sem dúvida. Mas não passa de pirotecnia.

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