RELATOS | Lugares sagrados: Les Bains Douches (Paris)

IMG_0938No post retrasado eu contei a história sobre minha ida a Paris em novembro do ano passado: o motivo da viagem foi profissional, mas durante minha estadia lá um show do New Order (o concerto de estreia da atual turnê para ser mais exato) caiu no meu colo. Não foi uma viagem de férias, mas valeu como se fosse. Aproveitei o período laborativo na capital francesa não apenas para conhecer o que a cidade tem de melhor (belos recantos, museus fabulosos, cafés aconchegantes, gastronomia, pontos turísticos famosos etc), mas, também, alimentar um pouco mais o meu velho vício…

Além do show do New Order no Casino de Paris, tive uma vontade irrefreável de conhecer um lugar que tem um significado especial para fãs como eu: o Bains Douches. Hoje é um edifício histórico e hotel de luxo na região do Boulevard de Sèbastopol; na sua origem, era uma therme, isto é, uma casa de banho coletivo construída em 1885 por François Auguste Guerbois (1824-1891), tendo sido então um conhecido ponto de encontro de artistas e intelectuais. Mas no final dos anos 1970, quando saiu das mãos da família Guerbois, se transformou em um nightclub e espaço para shows. Lá se apresentaram muitos artistas e bandas punk, pós-punk e new wave francesas e estrangeiras – dentre elas o Joy Division.

Ok, ok… O Joy Division já tocou em diversos lugares pela Europa, isso eu já sei. Não faria sentido ir procurar e conhecer vis-à-vis em cada viagem pelo “Velho Continente” cada boteco, inferninho ou espelunca em que o Joy Division (ou o New Order) já se apresentou. Só que o Bains Douches é um pouquinho diferente. Em primeiro lugar, o local mantém uma pequena galeria-museu onde conserva pôsteres originais dos shows dos grupos que se apresentaram ali, incluindo o do Joy Division. Em segundo, o show que a banda fez lá em 18 de dezembro de 1979 foi gravado, tocado diversas vezes por uma rádio francesa, exaustivamente pirateado, até que, por fim, foi transformado em um disco ao vivo oficial. Diga-se de passagem, é considerado, tanto em termos técnicos quanto em termos musicais, um dos melhores registros en directe do JD.  

“Nós lançaremos o [show no] Bains Douches se encontrarmos um bom registro desse concerto. Me parece que há uma francesa que tem uma boa cópia do show mas ninguem consegue encontrá-la”. Essas foram palavras de Tony Wilson no comecinho dos anos 2000. Na verdade, existem duas fontes do show no Bains Douches: uma gravação amadora, feita por alguem no meio da plateia, e outra profissional, que pertence à emissora francesa de rádio France Inter. O disco Les Bains Douches 18 December 1979, lançado em 2001, foi feito com base na gravação da France Inter. Cinco canções foram transmitidas ao vivo no programa Feedback, de Bernard Lenoir: “Inside”, “Shadowplay”, “Transmission”, “Day of the Lords” e “Twenty Four Hours”. Ao longo dos anos, essas e outras músicas foram tocadas em transmissões posteriores, na mesma emissora e pelo mesmo radialista. Todavia, o álbum não foi produzido a partir das fitas originais de Lenoir / France Inter – a fonte é a gravação de uma transmissão de 1994.

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CD Les Bains Douches 18 December 1979lançado em 2001.

Uma vez que a transmissão dos anos noventa, feita no programa Les Inrockuptibles para celebrar os quinze anos de aniversário do show, tocou apenas nove das dezesseis músicas originalmente executadas, o CD (cuja capa, feita por Peter Saville, é uma versão “desconstruída” do poster do show) foi “completado” com canções gravadas ao vivo em dois concertos na Holanda. Além da edição original em CD de Les Bains Douches 18 December 1979, tenho uma reedição em vinil de 180 gramas lançada no ano passado pela DOL Records que traz apenas o show de Paris (mais uma vez incompleto) e o pôster “íntegro” na capa.

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Uma das edições em vinil do disco Les Bains Douches: esta traz o pôster do show “íntegro” na capa.

Mas voltando à minha visita ao Bains Douches… Antes de entrar passei um bom tempo na calçada oposta, do outro lado da estreita rua Bourg-l’Abbé, fotografando e admirando a fachada. Só depois tomei coragem de entrar para perguntar pelos pôsteres (embora, na verdade, eu estivesse à procura apenas de um em específico). Nada muito complicado: você passa pela entrada, vire à sua direita e, em seguida, vire à esquerda. É um corredor pequeno, estreito e todo preto, com focos de luz amarela apontados para os cartazes. E “ele”, como eu já esperava, estava lá. Não sou muito bom com selfies e com câmeras de smartphone, então as fotos que tirei lá dentro não são lá essas coisas. Mas o que valeu mesmo foi o momento. Na saída, cheguei a perguntar na recepção se o hotel comercializa réplicas dos pôsteres – ou se eles tinham conhecimento de cópias licenciadas disponíveis. A resposta foi um lacônico não. 

(Esse dia, infelizmente, foi marcado no fim por um episódio muito trágico: foi quando um grupo de fanáticos sem vergonha, com armas e aos gritos de “Deus é grande”, aprontou mais uma das suas… O resto vocês viram na televisão.)

E olhem o que eu descobri, porém meses depois do show do New Order em Paris: a banda ficou hospedada lá no Bains Douches enquanto esteve na cidade! Perdi a chance de “sincronizar” minha visita com a estadia deles no hotel… Mas aí é querer ter sorte demais.

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