HOJE | 40 anos do show que mudou a história da música

pistols“Foi histórico”, teria dito a versão de Tony Wilson nas telas (interpretada por Steve Coogan) no filme A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom. Se essas foram palavras reais do verdadeiro Wilson, não importa. O que importa mesmo é que, sim, o primeiro show dos Sex Pistols em Manchester, há exatos 4o anos, foi mesmo histórico. Além de mostrado em filmes, esse concerto – e seu legado – já foi objeto de inúmeras matérias em jornais e revistas, documentários, livros, posts em blogs etc. Manchester e o mundo da música nunca mais foram os mesmos depois que essa tsunami vinda de Londres varreu o norte da Inglaterra.

Quando se diz que esse show deixou um “legado”, isso não é exagero, nem força de expressão. Existe uma lenda urbana no métier do rock que atribui a Brian Eno um comentário sobre o Velvet Underground segundo o qual poucos teriam escutado o grupo durante a sua curta existência, mas que esses poucos, sem exceção, formaram uma banda. Os Sex Pistols, depois que puseram os pés no palco montado no Lesser Free Trade Hall, em Manchester, provocaram o mesmo efeito na pequena audiência presente.

Uma declaração de Peter Hook resume tudo: “Foi horrível. Foi como uma batida de automóvel. Meu Deus, jamais tinha visto algo parecido na minha vida! Vi muitos grupos, Deep Purple, Led Zeppelin… Mas jamais vi algo tão caótico ou emocionante. E rebelde. Assim me senti. Eu só queria quebrar tudo”O ex-colega Bernard Sumner assim arrematou: “Era um escândalo. Pensava ‘Eu posso fazer isso! Eu posso fazer isso!’Eles não foram os únicos a saírem do Free Trade Hall com esse pensamento na cabeça.

Photo of Steve JONES and Johnny ROTTEN and Glen MATLOCK and SEX PISTOLS

Sex Pistols em ação Manchester

Na verdade, o “estrago” do show dos Pistols foi muito maior do que simplesmente fazer quem estava lá formar seu próprio grupo. A cidade foi literalmente sacudida e, a partir de então, teve início em seu seio uma nova revolução responsável pela sua recuperação e revitalização ao longo das décadas seguintes e sua (re)conversão em um importante pólo econômico e cultural na Europa, o que lhe devolveu a importância e prestígio internacionais. Além, é claro, de ser hoje uma das “capitais” do mapa-mundi do rock/pop, sem dever nada a cidades como Nova Iorque em matéria de celeiro de novos sons.

Os “culpados” disso tudo foram Pete Shelley e Howard Devoto, os dois organizadores do concerto, e que mais tarde formariam a primeira banda punk de Manchester (e uma das mais importantes do punk rock em todos os tempos), os Buzzcocks. Mas quem mais estava naquele show? A lista é de peso: Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Mick Hucknal (Frantic Elevators, Simply Red), Martin Hannett (The Invisible Girls e produtor), Paul Morley (jornalista, escritor e fundador da ZTT Records), Bernard Sumner e Peter Hook (Warsaw, Joy Division, New Order), Alan Erasmus (ator) e, é claro, Tony Wilson.

Wilson foi uma das figuras mais importantes. Apresentador de televisão da emissora local Granada TV, ele foi o grande divulgador do punk rock em Manchester através de seu programa – So It Goes – e também incentivador da própria cena local, promovendo as bandas de Manchester, não apenas na mídia televisiva, mas também através do Factory Club, um espaço para shows que utilizava as dependências de um outro clube, o Russell. Tony Wilson também deu oportunidade para novatos de outras mídias, como o designer gráfico Peter Saville, que se tornou o criador da identidade visual do Factory Club (fazendo pôsteres) e, em seguida, da gravadora Factory Records, tendo se consagrado em nível mundial com as capas que criou para os discos do Joy Division e do New Order.

Na década de 1980, a boate Haçienda, de propriedade da Factory Records e do New Order, introduziu a acid house na Inglaterra e deu origem a uma nova geração de bandas eletrônicas, como 808 State e Autechre, ou híbridas (fusão entre rock e as batidas das pistas de dança), como Happy Mondays, The Charlatans e Stone Roses, fortemente influenciadas pelo som do New Order, e que se tornaram o núcleo do “movimento” internacionalmente conhecido como Madchester. O Primal Scream, mesmo não compartilhando da mesma “origem geográfica” dessas bandas, tem uma ligação “espiritual” com a cena Madchester (além do som e do estilo, Bob Gillespie, vocalista do PS, é um antigo fã do New Order, é amigo da banda e já tocou em um grupo chamado The Wake que lançou seus primeiros discos pela Factory Records). Nos anos 1990, havia chegado a hora e a vez do britpop do Oasis dos irmãos Gallagher – um deles, Liam, era assíduo frequentador do Haçienda…

Para ficarmos aqui mesmo na nossa paróquia – Joy Division e New Order -, é preciso agradecer Peter Hook por ter convidado seu antigo amigo dos tempos de escola, Bernard Sumner, para irem juntos ao show dos Pistols no Lesser Free Trade Hall. O que aconteceu há quarenta anos culminou hoje em Sydney, na imponente Opera House, na apresentação do New Order ao lado da Australian Chamber Orchestra, na qual a banda tocou seus antigos sucessos, como “Temptation”, “The Perfect Kiss”, “True Faith”, “Regret” e “Blue Monday”, músicas novas (de seu último álbum, Music Complete) e uma emocionante encore dedicada ao Joy Division com “Atmosphere”, “Decades” e “Love Will Tear Us Apart”.

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