REVIEW | Livro “Peter Saville: Estate 1-127”

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Como eu não vi esse livro antes?

“Garimpando” na internet em busca de algo com o qual minha esposa pudesse me presentear no Dia dos Namorados (sei que parece confuso, mas é isso mesmo), encontrei uma coisa que, apesar do meu sempre alerta radar de fã, passou despercebido: um livro sobre o designer gráfico Peter Saville, o homem por trás da identidade visual da legendária gravadora Factory (da qual foi um dos fundadores) e das capas impessoais e totalmente fora do lugar comum dos discos do Joy Division e do New Order. Publicado em 2007 pela editora de arte JRP, de Lionel Bovier, o livro se chama Peter Saville: Estate 1-127. Bom, antes de mais nada, cabe esclarecer que esse não é o único livro dedicado a Saville e seu trabalho. Em 2003 a editora Frieze lançou Designed by Peter Saville, que foi um enorme sucesso (hoje já está fora de catálogo). E também em 2007 a Thames & Hudson publicou Factory Records: The Complete Graphic Album – FAC 461, um grande volume dedicado à contribuição dele e de outros artistas gráficos à definição da “imagem da Factory”. O livro da Thames & Hudson, ao contrário de Designed by Peter Saville, continuou sendo reimpresso.

Mas parece que Peter Saville: Estate 1-127 não foi uma “surpresa” apenas para mim. Após publicar uma foto do livro no Instagram deste blog, logo apareceram comentários de outros fãs da categoria “casca grossa”, estrangeiros inclusive, nos quais estes confessavam que nunca o tinham visto antes. Depois que o livro foi entregue aqui em casa (alguem achou mesmo que eu não o encomendaria?), pude não somente entender melhor sua proposta, mas também desenvolver um palpite sobre o por que dele não ser tão conhecido – pelo menos não entre fãs de Joy Division, New Order e Factory Records. Estate 1-127 tem como tema a exposição sobre Peter Saville realizada em 2005 no Migros Museum für Gegenwartskunst (Museu de Arte Contemporânea de Migros), em Zurique (Suíça). Essa exposição foi menos dedicada ao produto final e às obras acabadas que aos métodos e processos de trabalho do designer. Por isso, é provável que o público-alvo do livro seja formado, em sua maioria (tal como a audiência da exposição), por apreciadores de arte contemporânea e profissionais/estudantes de artes visuais do que fãs de música pop.

Por isso, não espere por um livro recheado de fotos de capas de discos. Algumas delas até dão o ar da graça, mas a proposta é fazer as pessoas conhecerem um pouco mais o processo criativo do artista. Até porque Saville não passou a vida toda fazendo somente emabalagens originais e elegantes para guardar espécimes daquele nosso “preto que satisfaz” (o vinil). Ele já produziu trabalhos e campanhas para Dior, Lacoste e Stella McCartney, desenhou a camiseta da seleção inglesa de futebol para a Umbro em 2010 e mais recentemente foi convidado pela prefeitura de Manchester para desenvolver o novo design da cidade: de placas com os nomes das ruas a abrigos de pontos de ônibus. Sendo seu modus operandi o foco principal de Estate 1-127, o livro mostra maquetes, esboços, páginas de enciclopédias ou de catálogos de perfuradores, objetos achados/recolhidos no lixo, em brechós, garage sales e o que mais pudesse servir de inspiração ou material a ser trabalhado (no sentido tanto literal quanto conceitual).

Mas tão importante quanto o “acervo” apresentado no livro são os ensaios que ele inclui (em inglês) e que, de maneira “didática”, isto é, da forma mais pedagógica que se é possível chegar quando o assunto são textos sobre arte, nos ensinam a entender o trabalho de Saville. Segundo um dos ensaístas, Heike Munder: “Em contradição com o mero papel de apoio para um propósito externamente determinado, o trabalho de Saville enfatizou o espírito da época [zeitgeist] e seus métodos espelham uma ideia de si mesmo como um produtor cultural dentro de uma estrutura social. Saville tirou proveito de variadas categorias de imagens e diversas fontes históricas da vanguarda clássica – como o construtivismo e o futurismo italiano – e as importou em suas tarefas criativas, entrelaçando esses materiais que ele reciclou em um complexo processo de aplicação. Ao invés de simplesmente copiar, ele se dedicou a uma forma inteligente de apropriação, na qual o original é engenhosamente incorporado e transformado, ao invés de ser degenerado em uma citação”. Ao ler isso, impossível eu não me lembrar de um sujeito (bem ignorante) em uma comunidade do extinto Orkut que disse que a capa de Movement (New Order) era tão simples e sem graça que até o filho pequeno dele seria capaz de criar e fazer.

Estate 1-127 também mostra o lado fotógrafo de Peter Saville – um talento pouco conhecido. O livro traz uma série de fotos de sua autoria chamada It All Looks Like Art to Me Now [trad.: “tudo parece arte para mim agora”], na qual cenas protagonizadas por objetos, como um rolo de fita crepe pendurado na fechadura de uma porta ou materiais de uma obra/reforma repousados sobre a pia de uma cozinha, capturados por suas lentes em lugares que vão desde um estúdio da emissora alemã de televisão WDR à Frieze Art Fair de Londres, nos remetem facilmente a “esculturas” ou instalações em uma galeria de arte contemporânea. Nesse trabalho, mais uma vez se evidencia o gosto pelo ready made e, naturalmente, a influência incontestável de Marcel Duchamp e do dadaísmo (um de seus “lemas” era: “use todas as superfícies como espaço de trabalho, inclusive carpetes, mesas de café, armários e cômodas”). O próprio conceito por trás dessa série fotográfica – “tudo parece arte para mim agora” – serviu de mote para uma exposição posterior de Saville, chamada Accessories to an Artwork, realizada na galeria de arte Paul Stolper (Londres), em 2008, e que teve os pedestais das peças em exibição desenhados e construídos pelo próprio designer – dando a entender que mesmo eles, reles e banais pedestais de galerias e museus, também seriam (ou poderiam ser) obras de arte.

O livro Estate 1-127 foi, pelo menos para mim, um belo achado. Como eu já havia comentado alguns parágrafos acima, talvez não seja exatamente o que um interessado em cultura pop esteja buscando – nem todo mundo que ama essa maravilhosa arte de fazer capas de discos é amante de arte. O percentual de fãs de música realmente interessado em questões de conceito e de método por trás das artes de seus álbuns e singles favoritos é muito reduzido. Mas, no caso de Peter Saville, quando a curiosidade ultrapassa o que está impresso no quadrado de papelão, descobre-se por trás daquela imagem um complexo universo de referências, tanto da dita “alta cultura” quando da chamada “cultura popular” ou do cotidiano, cujas fronteiras são totalmente dissolvidas. Essa é a diferença entre um artista e quem apenas desenha capas de LPs e CDs.

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