REVIEW | Tudo sobre “Substance: Inside New Order”, de Peter Hook

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Stephen Morris, que terá as memórias de sua carreira como baterista do Joy Division e do New Order lançada em 2018 pela editora Constable, disse o seguinte em uma entrevista recentemente publicada ao Irish Times: “Quando você escreve uma autobiografia, é comum promover-se como um heroi – a não ser que você seja brutalmente honesto”. Morris está certo. Também não é difícil encontrar aqueles autores que se colocam no papel de “pobre vítima” – este seria o caso, por exemplo, de Deborah Curtis em seu livro Touching From a Distance, biografia do seu finado marido, Ian Curtis, a eterna voz do Joy Division. O tom impresso por Deborah nas páginas de seu livro é a da viúva apartada e alienada pela política “namoradas e esposas ficam de fora” supostamente praticada pela banda.

O mais recente livro de memórias de Peter Hook, ex-baixista do New Order (e que também fundou o Joy Division), não chega a ser um caso de autoindulgência. Capítulo final de uma trilogia que se iniciou com The Haçienda: How Not to Run a Club (2010, 368 páginas) e, em seguida, passou por Unknown Pleasures: Inside Joy Division (2013, 252 páginas), o novo volume, intitulado Substance: Inside New Order (Simon & Schuster, 768 páginas!), se dedica a escrutinar nos mínimos detalhes a história do New Order, dando ao leitor livre acesso à “privacidade” da banda de uma maneira que somente um ex-integrante sem papas na língua, como é o caso de Hook, poderia fazer.

Entretanto, não é porque o músico não se coloca no papel de heroi, ou de vítima, que ele não destila alguma dose de veneno endereçado diretamente aos seus ex-colegas, hoje desafetos. Segundo Hook, o guitarrista e vocalista Bernard Sumner, por exemplo, é um “babaca” (adjetivo usado sem qualquer economia ao longo do livro) mau humorado que não gosta de ser contrariado (tudo tinha que ser feito sempre da maneira como ele queria) e que, com o tempo, tornou-se um “ditador” que pôs fim à democracia que existia dentro do grupo; Steve Morris, por sua vez, é retratado como um tipo “estranho” ou “esquisitão”, dono de uma personalidade excêntrica.

Já a tecladista Gillian Gilbert… bem, para Peter Hook ela seria menos do que nada. De acordo com o baixista, ela pouco teria contribuído musicalmente com a banda e, na verdade, seu papel no New Order se limitava a tocar nos teclados e na guitarra o que tinha sido escrito por Sumner. Hook vai além: diz que ele e Bernard sempre nutriram o desejo de “convidá-la a se retirar”, mas nunca tiveram coragem de fazê-lo por ela ser a companheira de Morris. Com base nessa constrangedora situação, Hook aconselha: “jamais tenha um casal na banda”.

É importante sublinhar que Substance: Inside New Order, vai, é claro, além do rancor que o autor guarda de seus ex-parceiros. Peter Hook brinda os fãs com detalhes e histórias sobre as gravações dos álbuns da banda, além de comentários sobre cada faixa; conta causos sobre as turnês, o que inclui inúmeros relatos sobre tumultos e motins nos shows (a frase mais ouvida pela banda era “vocês jamais voltarão a tocar aqui de novo”); satisfaz os leitores mais nerds com explicações e minúcias sobre os instrumentos e equipamentos usados pelo New Order ao longo de sua carreira; e escancara até mesmo segredos sobre sua vida pessoal e íntima, como a relação conturbada com a atriz cômica britânica Caroline Aherne, falecida em julho deste ano.

Substance é uma autêntica (e verdadeira, até que se prove o contrário) história de sexo, drogas e rock’n roll: aventuras com groupies, o consumo (excessivo) de substâncias legais e ilegais, além de histórias por trás das músicas, marcam ponto em quantidades generosas no novo livro de Peter Hook. É uma obra de fõlego em ambos os sentidos: tanto para Hook, que se lançou na hercúlea tarefa de contar a história do New Order da maneira mais completa e rica possível, quanto para os leitores, que terão pela frente uma exaustiva jornada de leitura.

E talvez o maior problema do livro seja justamente esse: no afã de escancarar a “intimidade” da banda em todas as suas facetas, dos momentos divertidos/engraçados às tensões e conflitos, Hook talvez tenha exagerado um pouco na mão e preencheu pelo menos 1/3 (ou mais até) de sua magnus opus literária com muitos casos irrevelantes, de problemas na aduana devido a erros no preenchimento das declarações dos equipamentos ao susto por causa de uma aranha (“do tamanho da minha mão”, diz o baixista) no quarto de engenheiro de som Mike Johnson em um hotel na Austrália. O livro está repleto de histórias assim, o que pode tornar a leitura mais cansativa. No começo o leitor até se diverte, mas à media em que histórias desse tipo se sucedem ocupando grandes espaços da narrativa entre os episódios e acontecimentos de maior significância é impossível não se sentir um pouco entediado. Algo do tipo “ok, Hooky, outra boa história, engraçada mesmo, mas já passei da metade do livro e… quando é que você finalmente vai falar de acid house e Technique?”. Mais ou menos por aí.

Uma outra “falha” detectada é o fato dele não ter entrado em muitos detalhes sobre como eles foram influenciados pela cena club de Nova Iorque no comecinho da década de 1980. Nesse sentido, a autobiografia de Bernard Sumner, Chapter and Verse: New Order, Joy Division and Me (Bantam Press, 2014, 313 páginas), tão criticada publicamente por Hook, é bem mais esclarecedora. Afinal, esse foi um momento-chave na trajetória da banda – e que ajuda a entender como o New Order teria saído das sombras do Joy Division. Hook não aprofunda – pelo menos não tanto quanto Sumner – sobre o impacto que casas noturnas como Paradise Garage, Fun House e Danceteria provocaram no grupo e em sua música.

Mas uma grande qualidade de Substance é que o livro é recheado de fotos do acervo pessoal de Peter Hook. Existem três seções de fotografias coloridas que mostram Hook com o New Order, com amigos e colaboradores, com os músicos de seus projetos solo (Revenge, Monaco e The Light), com os filhos e a atual esposa etc. Há imagens no corpo do texto também (em preto e branco), sendo que algumas delas são pôsteres e ingressos de shows e anúncios de sintetizadores.

Resumindo: é impossível uma obra de tamanha magnitude não conter alguns “pecados” aqui e ali; todavia, não restam dúvidas de que Substance é, até o presente momento, a obra mais completa (em termos de volume de informações) sobre o New Order. No entanto, ela representa um ponto de vista, ou melhor, a história tal como teria sido vivida e experimentada por Peter Hook. Como disse Stephen Morris na mesma entrevista citada no primeiro parágrafo, [uma biografia] é apenas o ponto de vista de uma pessoa… Quando se olha para trás não dá para ser objetivo sobre o passado, porque sua opinião é sempre colorida pela sua experiência”. É importante ter isso em mente quando ler não apenas o livro de Hook, mas qualquer outra (auto)biografia. 

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3 comentários

  1. escritoelivre · janeiro 28, 2018

    Li recentemente a biografia do Joy Division também escrita pelo Peter. E nela também há um grande volume desses “causos” que aconteceram com a banda. Não achei cansativo ler, não sei se foi pela minha grande curiosidade de entender essa atmosfera da banda que resolvi absorver tudo. Estou curiosa pra ler Substance também. 🙂

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    • neworderbrfac553 · janeiro 30, 2018

      Olá! Grato pela visita ao blog e pelo comentário! Existe uma diferença no caso desse último livro: são mais de 400 páginas! Nesse caso, há um volume maior de “causos” – uns realmente divertidos e esclarecedores, outros que não acrescentam nada. Mas o livro vale a pena, acho o melhor dos três que ele escreveu (embora o mais tragicômico seja o primeiro, sobre o “Haçienda”). Aguardo ansiosamente o livro do Stephen Morris, que sai este ano ainda. Dentre eles, é o que possui a memória mais confiável, sem contar o humor mais ácido e espirituoso que lhe é característico. Um abraço.

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    • neworderbrfac553 · janeiro 30, 2018

      Perdão, corrigindo: são mais de 700 páginas!

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