REVIEW | Em detalhes: “The Haçienda Classiçal” (Graeme Park, Mike Pickering, Peter Hook & Manchester Camerata)

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Peter Hook: sugando Haçienda até o bagaço.

Peter Hook, ex-baixista do Joy Division e do New Order, é o feliz proprietário da marca “The Haçienda” desde que o lendário nightclub que outrora funcionava na Whitworth Street (Manchester) fechou suas portas em 1997. Isso quer dizer que ele detém o controle sobre o licenciamento do nome para todo tipo de projeto ou produto. E ele faz questão de dizer em toda parte que, ao contrário do que andou sendo dito pelos seus ex-sócios no empreendimento (os membros remanescentes do New Order), a compra da marca foi feita legalmente.

Desde a aquisição, que se deu em um leião promovido pelos liquidatários da casa noturna após seu fechamento, Hook vem arrecadando algum dinheiro com o valor histórico que fora acumulado por um dos berços da (sub)cultura rave – talvez como forma de recuperar os milhões que escorreram pelo ralo enquanto o clube existiu. Não deixa de ser irônico o fato do Haçienda lhe render mais lucro hoje, quando não mais existe, do que durante os quinze anos em que esteve em atividade.

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O prédio que abrigava The Haçienda antes de ser demolido e transformado em um edifício de apartamentos.

Além do livro que escreveu sobre as desventuras em torno de sua criação e de seu gerenciamento (The Haçienda: How Not to Run a Club, Simon & Schuster, 2010, 368 páginas), que veio a ser o primeiro de uma trilogia (que, aliás, acabou de ser completada com Substance: Inside New Order, Simon & Schuster, 2016, 768 páginas), Peter Hook foi um dos curadores de três coletâneas que reuniram os grandes hits que lotavam a pista de dança do Haçienda: The Haçienda Classics (2006), The Haçienda Acid House Classics (2009) e Haçienda: 30 (2012). Isso sem contar, ainda, os “eventos Haçienda” e a criação de uma gravadora chamada Haçienda Records.

Mas o projeto mais ambicioso em torno do legado de seu antigo estabelecimento, sem dúvidas, foi o concerto/turnê The Haçienda Classical. Idealizado por Paul Fletcher, que foi promoter do Haçienda, e por Graeme Park e Mike Pickering, dois antigos e proeminentes disc-jockeys da casa, a proposta era fundir, ao vivo, DJ set e orquestra para reinterpretar sucessos de A Guy Called Gerald, Black Box, T-Coy, 808 State e, é claro, New Order. Com participações especiais, como Shaun Ryder, Bez e Rowetta (Happy Mondays), além do próprio Peter Hook, o concerto fez sua estreia no Bridgewater Hall, Manchester, em fevereiro deste ano. Em seguida, o show viajou pela Inglaterra. Foi um sucesso de público e, também, de crítica.

O passo seguinte e natural era transformar o projeto em um álbum. Recém-lançado pela gravadora Sony Classical, braço da Sony especializado em música clássica, The Haçienda Classiçal (isso mesmo, com cedilha no “classical” também) tenta reproduzir em disco o bom resultado obtido nas salas de espetáculos. Com Hook na produção executiva, o CD traz a mesma orquestra de câmara que se apresentou nos shows, a Manchester Camerata, que também participou do último álbum do New Order, Music Complete. Rowetta também embarcou nessa, assim como Yvonne Shelton, ex-vocalista do Secret Society; ambas somaram suas vozes às do AMC Gospel Choir, um dos corais mais conceituados da atualidade.

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O CD The Haçienda Classiçal

Ao todo, The Haçienda Classiçal traz vinte faixas mixadas por Mike Pickering e Graeme Park de modo contínuo, como em uma festa ou rave. Mas nenhuma das bases utilizadas pelos DJ’s são originais: o que não podia ser reproduzido pela orquestra, como sons de sequencers e baterias eletrônicas, foi recriado (o tecladista Andy Poole, da banda Peter Hook & The Light, foi o responsável pelas programações). Isso pode vir a decepcionar muita gente, já que algumas canções mais parecem versões de videokê – só que com o som de uma grande orquestra colocado por cima.

Uma das faixas que ficaram com essa “cara” foi justamente uma das grandes pérolas da música eletrônica em todos os tempos: “Blue Monday”, do New Order. Mesmo com Peter Hook tocando seu baixo e, vá lá, cantando também, o resultado final ficou aquém das expectativas. Todavia, isso não significa que o álbum não tenha lá seus destaques: “Someday”, originalmente gravada e lançada por Ce Ce Rogers em 1987, certamente é um deles. E talvez o seja justamente por ter dispensado a tal base eletrônica de videokê em favor de uma abordagem que privilegiou quase que integralmente instrumentos musicais reais – não apenas os da orquestra, por si só bem pronunciados, como também os cymbals dos percussionistas Chris Crulks e Inder “Goldfinger” Matharu, músicos que também brilham em “I’ll Be Your Friend”, de Robert Owens. Mas um dos momentos de glória da dupla no CD é, de longe, a releitura de “Voodoo Ray”, de A Guy Called Gerald.

A maior parte dos temas escolhidos para esse encontro entre a dance music e a música clássica vêm do subgênero house (ou seja, há uma fartura daqueles inconfundíveis riffs de “piano”, como no caso de “Rich in Paradise”, dos italianos do F.P.I. Project, ou “Strings of Life”, do Rhythim Is Rhythim). Não há “coincidência” alguma aqui: a fase considerada “áurea” do Haçienda foi o finzinho da década de 1980 e o começo dos anos noventa, período marcado pela explosão do house em todas as suas variantes: italo house, acid house, deep house etc. Curiosamente, os “clássicos” do clube são, em sua grande maioria, one hits de projetos musicais efêmeros que, logo depois de estourarem um single de sucesso, desapareceram tão rápido quanto surgiram. Então, é de se admirar que uma casa que, em seus primórdios, tocava de tudo – punk, new wave, northern soul e até mesmo reggae -, além de ter servido também como espaço para shows ao vivo, tenha conhecido seu momento de glória durante uma espécie de “febre de verão” (no sentido de coisa passageira); nesse caso, foi o que ficou mundialmente famoso como “Segundo Verão do Amor”.

A questão é que para muita gente esse verão nunca terminou. E no que depender de Peter Hook, ele não tem prazo previsto para acabar mesmo. Todavia, alguem deveria dizer a ele que não é todo projeto musical que funciona bem em disco. Gravações originais ou remixes (principalmente), sem sombra de dúvidas, pedem para ser relançados em coletâneas de tempos em tempos. Já o audacioso conceito recital-meets-rave parece funcionar melhor em concertos ao vivo – sua transposição para o estúdio diminuiu drasticamente o impacto sonoro e o transformou num daqueles CDs que a gente põe para ouvir quando está lavando a louça ou quando está tirando o pó dos móveis. Ou seja, além de dispensar uma maior atenção, ajuda a passar mais rápido o tempo de nossas tarefas domésticas. Resumindo: em vez de nos transportar de volta para a Manchester de 1989, The Haçienda Classiçal, o álbum, nos teleporta para uma festa careta de yuppies de meia idade num apartamento – na melhor das hipóteses – ou para um show do Celebrare – na pior delas.

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