MEMÓRIA | Os 35 anos de “Movement”.

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Movement: o álbum “maldito” de estreia que comemora 35 anos.

“Fazer Movement foi um grande esforço, porque estávamos apáticos, apagados e no fundo do poço, o que era de se esperar porque a morte de Ian ainda estava fresca na memória (…) Tudo era difícil e diferente do Joy Division porque sem Ian algo havia se perdido, algo que nunca mais voltaria (…) A dinâmica havia mudado totalmente, era frustrante, tudo era diferente”.

 

Essas foram palavras de Bernard Sumner em seu livro de memórias, Chapter and Verse: New Order, Joy Division and Me (Bantam Press, 2014, 343 paginas), sobre o primeiro LP do New Order, Movement, lançado há exatos 35 anos. Disco “maldito”, os membros da banda constumam se referir a ele como the difficult one [trad.: “o difícil”], o que o depoimento de Sumner claramente confirma. O New Order não toca uma faixa sequer desse álbum desde 1989. Sumner jura que só o escutou depois de pronto uma única vez e, desde então, nunca mais conseguiu fazê-lo de novo. Os demais integrantes, por outro lado, costumam ser mais condescendentes com ele. O ex-baixista Peter Hook, em entrevista concedida aqui mesmo no Brasil à revista Bizz em 1988, disse: “Em Movement foi a primeira coisa que fizemos do zero (…) Tínhamos pouquíssimo tempo para compor, pois era importante para nós não parar e também porque tudo o que aconteceu foi tamanho choque que tínhamos que nos manter ocupados. Por isso quisemos gravar o mais rápido possível. É até hoje o único LP que fizemos assim, tão rápido. E isso transparece. Ficou um pouco confuso em certas partes. Mesmo assim, acho um bom disco. A tecladista Gillian Gilbert, reintegrada ao grupo em 2011 após dez anos “sabáticos”, disse no ano passado ao site Brooklyn Vegan o seguinte: “Particularmente, eu adoriaria revisitar Movement. Na época era algo para se deixar na prateleira, mas acho que ele soa muito bom hoje em dia”.

A já citada revista Bizz, na ocasião do lançamento do disco no Brasil (com quase dez anos de atraso), certamente foi mais gentil nas críticas ao LP do que a imprensa musical gringa em 1981. “O New Order preservava a sonoridade sombria e a aura misteriosa que envolvia o Joy Division enquanto buscava nas entrelinhas uma trilha musical própria. Mesmo as canções que mais rescendiam o som do Joy não deixavam de trazer lampejos de criatividade vindos de um grupo em busca de seu rumo musical. Em resumo, para os fãs de longa data é um disco essencial. Para quem conheceu o New Order pós-‘Blue Monday’, talvez apenas um disco esquisito para completar a coleção”. Todavia, quando o álbum saiu na Inglaterra pela Factory Records, deu munição para todos aqueles que vinham achincalhando o New Order e que acusavam o grupo de explorar oportunisticamente o que eles mesmos haviam criado, só que como Joy Division.

Realmente, pouca coisa em Movement remete ao som “clássico” do New Order. A resenha da Bizz não se equivocou quando disse que a busca por uma nova sonoridade não passava da mera insinuação. A sombra do Joy Division, tal como uma nuvem negra, pairava sobre as cabeças da Nova Ordem. “É um disco que carece de identidade, ele não tem uma cara própria”, disse Sumner em sua autobiografia, na qual ele confessa ainda que “Eu nunca havia cantado antes, de maneira que, no começo, eu me baseava em Ian, porque isso era o que eu conhecia. Levou tempo para encontrar meu próprio estilo como vocalista”. O envolvimento de Martin Hannett com a produção de Movement também ajuda entender o problema da “carência de identidade”. Hannett, que tinha sido um dos grandes responsáveis pelo sucesso dos discos do Joy Division, ajudando o grupo a criar, em estúdio, uma atmosfera e uma sonoridade únicas, não confiava na capacidade dos membros remanescentes de produzir canções do mesmo nível sem Ian Curtis. Ele não deu qualquer sinal de entusiasmo ou empolgação com o novo material e o tempo todo forçava a barra para que tudo o que eles fizessem pudesse soar o mais próximo possível do que tinham feito como Joy Division, embora a banda estivesse inclinada a encontrar um novo estilo. “O que nós queríamos em Movement era mais percussão. Martin ainda estava naquelas de colocar distorção em tudo. Mas nós queríamos que soasse mais limpo e mais pesado, em vez de tão delicado e leve. Nós pedimos para o Chris [Nagle, engenheiro de som] aumentar o volume da bateria para fazê-la soar mais grave, rotunda e pesada. Quando Martin voltou para o estúdio, ele perguntou ‘Vocês fizeram isso?’ e nós respondemos ‘Sim!’. ‘Ok, passemos para a faixa seguinte’. Ele não estava interessado em ouvir o que nós fazíamos. Não queria saber. Tivemos muitas brigas com ele. Discutimos muito sobre ‘Truth’ e ‘Everything’s Gone Green’, porque em ambas queríamos que a bateria eletrônica e os sintetizadores soassem mais fortes e mais altos”.

A relação com Hannett realmente se deteriorou durante as gravações de Movement. O produtor criticava – ou desprezava – tudo o que eles faziam. Bernard Sumner teve que regravar os vocais de uma música nada menos que quarenta e três vezes simplesmente porque ele não conseguia “soar como Ian” o suficiente. Para piorar a situação, Martin tinha entrado fundo na cocaína e, totalmente alucinado, chegou a trancafiá-los literalmente no estúdio, condicionando a liberação da banda à composição de uma música que fosse “realmente decente”. Como havia feito com os álbuns do Joy Division, Hannett cuidou sozinho da mixagem do álbum, vetando completamente a participação do New Order no processo. Ele, inclusive, se recusou a fazer um test pressing com a mixagem que o grupo havia feito com a ajuda de Chris Nagle para ouvir como soaria em disco. A “versão” de Hannett para Movement, para a decepção da banda, foi a que acabou sendo lançada.

Todavia, o primeiro LP do New Order tem momentos dignos de nota. “Dreams Never End”, a faixa que abre o disco, além de ser a canção mais “solar” de um trabalho predominantemente sombrio e introspectivo, é também uma grande composição: sua longa introdução foi o prenúncio de uma prática que se tornaria recorrente e cada vez mais bem desenvolvida no som do New Order (vide produções posteriores, como “Blue Monday”, “Thieves Like Us” e “The Perfect Kiss”); a inclusão de um “refrão de guitarra” no lugar de um refrão (vocal) de verdade é outro ponto forte.

A depressiva “Truth” também representou para o New Order um largo passo dado em direção ao futuro: ela foi a primeira canção da banda a usar uma bateria eletrônica programável (uma Doctor Rhythm DR55, da Boss) no lugar de uma bateria acústica convencional. “Chosen Time”, por sua vez, também antecipa, ainda que timidamente, o som que estaria por vir: a batida no estilo disco (porém “distorcida” pelos truques de estúdio de Hannett) e o riff de teclado, que soa como um sequenciador, são autênticos esboços das vindouras estripulias musicais no universo da electronic dance music. Por outro lado, faixas como “The Him” e “Doubts Even Here” mais parecem outtakes de Closer (1980), do Joy Division. Aliás, vale lembrar que os experimentos com sintetizadores e percussão eletrônica começaram, de fato, ainda nos tempos do Joy – sendo assim, Movement representa o estágio seguinte de um processo que, de certa forma, já havia sido desencadeado.

Assim chegamos a outro ponto de destaque: a capa do LP. Produzida por Peter Saville, que tinha sido o responsável pelo design dos vinis do Joy Division, ela é a recriação de um pôster originalmente desenhado em 1932 pelo artista futurista italiano Fortunato Depero. Como um clássico exemplo das apropriações feitas pelo punk e pela new wave no campo do design, a citação ao futurismo feita por Saville se ajustava de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, representava uma conexão com o interesse crescente da banda pela tecnologia musical, já que o movimento futurista valorizava o desenvolvimento industrial e técnico-científico. Além disso, o futurismo recorria a sobreposição de imagens, traços e pequenas deformações para transmitir a ideia de movimento e dinamismo. Aqui se evidenciam os links com a mudança de nome e a perseguição de um novo estilo, bem como com próprio o título do álbum. Intencionalmente ou não, a capa feita por Saville também pode ter contribuído com o estigma de “banda nazista” que cercava o New Order (“fama” que os perseguiu por um bom tempo e que começou ainda nos tempos do Joy Division), pois a primeira geração do futurismo exaltava a guerra e a violência, além do fato de terem existido afinidades ideológicas entre o movimento e o fascismo na Itália.

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“Remixando” a arte: a capa de Movement é inspirada em pôster do futurista italiano F. Depero.

No entanto, a criação de uma capa com base em um pôster – os futuristas abraçavam a propaganda como forma de comunicação e de ligação entre a arte e o design – foi a abordagem perfeita: que maneira melhor de apresentar uma mídia de massas (o disco de vinil) senão com uma arte que remete a um cartaz/anúncio?

Entretanto, mesmo com alguns méritos, do som à capa, Movement sempre teve dificuldade para conseguir algum prestígio. A revista Sounds o classificou como “absolutamente desastroso”. Para o New Musical Express, trata-se de um disco “terrivelmente maçante”. Bernard Sumner sempre declarou que se arrepende do seu lançamento e que preferia tê-lo regravado naquela época se tivessem tido tempo e dinheiro disponíveis para isso. Dentre os membros da banda, Peter Hook parece ter sido o único a dar-lhe, de fato, algum valor quando decidiu sair em turnê com seu atual grupo, o The Light, para tocá-lo ao vivo na íntegra (ao lado do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983). Em 2008, o álbum foi relançado em CD com áudio remasterizado e um disco recheado de extras – singles e lados B’s lançados na mesma época. Cinco anos depois, reapareceu em uma edição limitada em 300 cópias feitas em vinil transparente, sendo que 100 delas foram distribuídas de brinde durante a semana de reinauguração da loja de discos HMV da Oxford Street, Londres. Com Movement é assim: há quem ache, como Sumner, que o bom mesmo é ficar longe dele; e há também quem aposte na sua reavaliação. De que lado você está?

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