REVIEW | Peter Hook & The Light ao vivo no Cine Jóia, São Paulo (06.12.2016)

capaSe eu tivesse que explicar como é um show do Peter Hook & The Light para uma pessoa que nunca os viu ao vivo, eu o descreveria da seguinte maneira: trata-se de uma ótima banda cover de New Order e Joy Division, com Hook à frente balançando o braço, fazendo caras, bocas e poses para o público e para os fotógrafos e regendo o coro da plateia. Ah, e de vez em quando ele toca baixo, só para variar.

Isso quer dizer que o show é meia boca? Não, muito pelo contrário! A combinação entre os catálogos do Joy Division e do New Order, que resistiram com excelência à passagem do tempo, e os inquestionáveis carisma e presença de palco de Peter Hook, sempre asseguram noites memoráveis. E se o repertório do concerto for baseado em duas coletâneas de sucesso das duas bandas, ambas intituladas Substance, as chances de alguem voltar para a casa decepcionado caem drasticamente para quase zero. Arrisque perguntar como foi o show para quem esteve no Cine Joia (São Paulo) na última terça-feira. Todo mundo voltou para casa feliz e satisfeito.

Mas a experiência acumulada em shows do Peter Hook & The Light (já são quatro no currículo) me fez chegar a uma drástica conclusão: as pessoas vão aos concertos muito mais para ver Hook do que para ouvir o The Light, que nada mais é do que uma banda de tributo cujo líder, meio que numa função de mestre de cerimônias, é ninguem menos que um dos homenageados. Façamos uma comparação com o show do New Order da quinta-feira da semana passada, no Espaço das Américas (também na capital paulista): o público que lotou a casa de espetáculos na Barra Funda deu mostras de que se importa pouco com a ausência de Peter Hook e que nem liga para a notória baixa interação do grupo com a audiência (ainda assim, os gritos para Gillian Gibert provaram que a tecladista possui algum tipo de carisma espôntaneo, mesmo permanecendo praticamente imóvel no palco durante todo o show). A música, nesse caso, parece falar mais alto.

Peter Hook, por sua vez, tem uma grande autoconsciência dos seus talentos sobre um palco e de seu “charme” – e, como era de se esperar, soube tirar proveito deles em seu favor. Ele sabe o que o público espera dele e dá exatamente aquilo o que ele quer, ainda que o verdadeiro baixista da banda seja Jack Bates, seu filho, e não ele. Hook escolhe a dedo as partes das músicas em que ele põe a mão no baixo (uma introdução, ou um solo), com direito a poses, para o delírio da galera, sempre com a câmera dos smartphones a postos. Na retaguarda, o The Light tocou de maneira competente, porém um tanto “ortodoxa”, canções que todo mundo sabia cantar. Os arranjos eram, de um modo geral, muito próximos aos das gravações originais – e isso era um verdadeiro paradoxo, haja vista que o New Order ao vivo, com Hook, não tinha o hábito de soar muito semelhante aos discos. Isso reforçou a aura de “banda cover” do The Light.

O público parecia não se importar com nada disso, é claro. Nem mesmo com a péssima sonorização do show. A acústica do Cine Joia se voltou contra a banda: quando a plateia cantava com mais entusiasmo, a casa se transformava em uma caixa de ressonância que amplificava o barulho do público, a ponto de fazê-lo ficar mais alto que o som do The Light. Além disso, os teclados e as programações eletrônicas de Andy Poole estavam muito baixos, o que diminuía especialmente o punch das canções do New Order. Durante “Blue Monday” mal se ouvia a sua memorável linha de baixo.

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Foto: Lucas Guarnieri (Rolling Stone Brasil)

Mesmo assim, a resposta da audiência ao material do New Order foi intensa. Os destaques certamente foram “Ceremony”, “Temptation”, a já citada “Blue Monday” e “Perfect Kiss” (cantada pelo guitarrista David Potts). “Confusion” (com o arranjo da versão regravada pelo New Order em 1987 e não o original produzido por Arthur Baker em 1983) e “State of the Nation” receberam uma reação mais morna. “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”, pelo contrário, levaram o público à catarse. A primeira parte do set terminou com o lado B mais lado A de todos os tempos: “1963”. Foi aprovada com louvor.

Após uma pausa de aproximadamente dez minutos, Peter Hook e banda retornaram ao palco para  homenagear o Joy Division. Tal como na primeira parte, o The Light combinou canções de Substance com lados B. As exceções foram “Disorder” e “Shadowplay”, ambas de Unknown Pleasures (1979), e que foram tocadas ainda no começo desse bloco. “Shadowplay”, em particular, não pôs o Cine Joia abaixo por um milagre. Já a primeira foi interrompida por um “acidente de percurso” com o baterista Paul Kehoe (um dos pedais do instrumento pareceu ter se desmontado) e, após a resolução do problema, a música foi reiniciada.

Como o material do Joy Division não tinha muita eletrônica, havia mais espaço para improvisar, o que fez com que a segunda parte do show fosse musicalmente mais interessante. Além disso, a voz de Hook se adapta melhor às músicas do Joy. A aprovação do público, por sua vez, foi extrema, graças em grande parte às hordas de fãs “modinha” do Joy Division e suas previsíveis camisetas de Unknown Plasures (o “uniforme” ajuda a identificar facilmente esse espécime que vem frequentando quase todos os shows de bandas oitentistas e alternativas nos últimos anos).

Com “Warsaw”, que abriu a sequência de canções do Substance do Joy Division, fomos transportados no tempo para a era de ouro do punk rock inglês, com direito a mosh e stage diving na plateia; “Digital” também foi um dos pontos altos com o público berrando “Day in, day out! Day in, day out!” com toda a força; “Autosuggestion” foi um daqueles momentos de pausa para recuperar o fôlego e, nessa hora, muita gente foi para o bar buscar uma cerveja; durante “Incubation”, quem descansou um pouco foi o próprio Peter Hook, que saiu brevemente de cena enquanto o The Light mandava ver; “Atmosphere” foi dedicada às vítimas do desastre aéreo que matou a equipe de futebol da Chapecoense, sagrando-se em definitivo como “Marcha Fúnebre do Rock”.

O desfecho não foi nenhuma surpresa, é claro: era a vez da esperada “Love Will Tear Us Apart”. Apesar da letra tratar de um casamento fracassado e em tom de pesar, o sentimento e o clima eram de regozijo e felicidade. Foi a apoteose de Peter Hook e sua banda – e do público também. Entretanto, o gran finale continha uma ironia: embora fosse uma celebração do “sério”, “incorrompido” e “sagrado” Joy Division, “Love Will Tear Us Apart”, principalmente ao vivo, soa escancaradamente pop e acena para (o que veio a ser) o “profano” New Order. Os tais fãs “modinha” vestidos de Unknown Pleasures, que habitualmente desdenham do New Order, ainda não foram espertos o bastante para sacar isso.

Aproveito o post para agradecer aos produtores responsáveis por trazerem Peter Hook ao Brasil por terem me ajudado a conseguir um autógrafo com dedicatória no meu exemplar do livro, Substance: Inside New Order.

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Meu exemplar autografado do último livro de memórias de Peter Hook

SET LIST:
In a Lonely Place
Procession
Cries and Whispers
Ceremony
Everything’s Gone Green
Temptation
Blue Monday
Confusion
Thieves Like Us
The Perfect Kiss
Sub-Culture
Shellshock
State of the Nation
Bizarre Love Triangle
True Faith
1963
No Love Lost
Disorder
Shadowplay
Komakino
These Days
Warsaw
Leaders of Men
Digital
Autosuggestion
Transmission
She’s Lost Control
Incubation
Dead Souls
Atmosphere
Love Will Tear Us Apart

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