NEWS | Nos deixou Johnny Hansen, do Harry

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John Arthur “Johnny” Hansen: o vocalista e guitarrista do Harry faleceu ontem (07/04) em Santos.

Junto com o céu cinza e a chuva que chegaram ao Rio de Janeiro veio uma triste notícia: Johnny Hansen, vocalista e guitarrista da lendária (e importante) banda santista Harry, nascida na década de 1980, faleceu ontem. A causa da morte não foi divulgada, segundo o site do jornal Tribuna do Litoral.

O Harry, embora desconhecido do grande público, foi uma das bandas mais importantes de sua geração no Brasil. Foi um dos primeiros grupos em nosso país a mesclar rock com música eletrônica (e isso lembra quem mesmo?). Influenciado por Sex Pistols, Chrome, Kraftwerk, Cabaret Voltaire, Skinny Puppy, Joy Division e New Order, o Harry (que também era formado por Roberto Verta, Richard Johnsson e César di Giacomo) foi um ponto fora da curva em se tratando de rock brasileiro dos anos 80: cantavam em inglês e sua música tinha uma atmosfera mais sombria (o que contrastava completamente com o ambiente litorâneo de Santos, cidade de origem da banda).

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Harry ainda como trio. Hansen está à esquerda na foto.

O que os torna relevantes é o fato de terem sido ousados o bastante para produzir em solo brasileiro um tipo de música que não encontrava por aqui condições favoráveis para florescer – pelo menos não naquela época. E nada tinha a ver com o som: sua produção estava perfeitamente afinada com o seu tempo – o synthpop vindo da Inglaterra já havia tomado de assalto as principais rádios comerciais. Entretanto, fazer rock eletrônico no Brasil nos anos oitenta era um gesto heróico, um ato de resistência, já que estamos falando de um tempo em que havia restrições à entrada de equipamentos eletrônicos e de informática no país.

A importância do Harry chegou a ser reconhecida no exterior. Há pouco mais de uma década a gravadora Soul Jazz Records lançou uma compilação chamada The Sexual Life of the Savages que reunia tesouros do pós-punk brasileiro (Mercenárias, Chance, Fellini, Akira S e As Garotas Que Erraram, entre outros). O Harry contribuiu com a faixa “You Have Gone Wrong”. Em 1997, participaram de um disco-tributo ao New Order só com bandas brasileiras chamado Essence. Considero a versão deles para “Doubts Even Here” um dos melhores covers do New Order já feitos.

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A formação clássica do Harry, com Hansen ao fundo.

Minha história pessoal com Hansen começa em 2005, bem na época em que sua discografia (um EP e dois álbuns) estava sendo relançada em CD em uma caixa. Eram os tempos do Orkut. Eu havia lido uma entrevista dele na internet no qual ele havia dito, quando perguntado sobre o New Order, que “assim como o David Bowie, morreu e puseram impostores no seu lugar”. Pus o link da entrevista no fórum da comunidade “New Order Brasil” e, em seguida, o que se viu foi uma saraivada de críticas, um esboço do que hoje costumamos chamar de “linchamento virtual”. Enéas Netto, o chefe da gravadora Cri Du Chat Disques (especializada em música eletrônica e que estava lançado o box set do Harry na ocasião), acompanhou tudo e chamou o próprio Hansen “para se justificar”. Ele acabou se tornando um dos frequentadores mais assíduos da comunidade – e um dos mais divertidos também. Além disso, acabamos ficando amigos.

Pouco tempo depois eu o entrevistei para uma matéria que escrevi sobre o álbum Fairy Tales, de 1987, e que foi publicada no extinto site Gramophone. Conversávamos regularmente via MSN (na verdade, ele ainda era grande fã do New Order) e, através desses contatos, fui apresentado a aquele que viria a ser um dos meus melhores amigos fora do Rio de Janeiro. Hansen também me ajudou a completar a coleção do Harry me ofertando cópias novas em folha do EP Caos (de 1986) em vinil e a coletânea Chemical Archives (1994) em CD. Guardo ambos como se fossem troféus.

Já o Harry seguia vivo, mas com outra formação. Em 2014 a banda lançou o disco Electric Fairy Tales, uma versão mais “roqueira” e pesada do clássico Fairy Tales – uma espécie de antagonista feroz dos insossos álbuns de releituras acústicas que ainda hoje infestam o mercado. O grupo estava numa vibe mais orgânica e visceral.

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A versão mais recente do Harry. Hansen é o segundo da direita para a esquerda.

Não deixa de ter seu lado “poético” o fato da notícia da morte de Hansen ter chegado junto com o céu cinza. “Sky Will Be Grey” é o título da faixa de abertura de Fairy Tales. E a música do Harry foi feita sob medida para dias assim. Mórbido, mas sem ser triste, assim uma de suas músicas definia seu som.

Um abraço, “camarada John Arthur”!

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