REVIEW | “New Order’s Technique & Republic Live in London” (Peter Hook and The Light)

largeAcaba de sair pelo selo Live Here Now (e através da plataforma direct to fan Pledge Music) uma amostra do que está para vir na quarta-feira próxima, dia 10 de outubro, no palco do Audio, em São Paulo: New Order’s Technique & Republic Live in London, o novo CD (triplo) de Peter Hook e seus fiéis escudeiros do The Light, e cujo repertório cobre, na íntegra, os dois LP’s de sua ex-banda que atingiram o topo da parada de álbuns na Inglaterra em 1989 e 1993, respectivamente, além de um set só de músicas de outro antigo grupo seu, um certo Joy Division.

O disco e a subjacente turnê que já está percorrendo a América Latina (Hook toca amanhã em Buenos Aires) representam mais uma etapa do projeto iniciado pelo baixista em 2010, que é o de tocar ao vivo todos os álbuns e singles já lançados pelo Joy Division e pelo New Order e em ordem cronológica. Agora chegou a vez de Technique Republic, além de compactos como “World in Motion”. O show que acabou de sair em CD foi gravado no Electric Ballroom, em Candem Town (arredores de Londres) no dia 28 de setembro deste ano. Como de costume, a qualidade da gravação produzida pela equipe da Live Here Now é impecável – e se mantém dentro do atual “conceito” de registros ao vivo que soam quase como se fossem gravações de estúdio. Entretanto, o som excessivamente limpo, destituído daquela “sujeira” natural típica de um concerto ao vivo – os urros da plateia, reverberações, ecos etc. – pode às vezes colocar em relevo aquilo que seria preferível não se ouvir direito, que pode ser um grave sem muita potência (um dos grandes males de quase todos os discos ao vivo do The Light) ou os vocais sofríveis de Peter Hook.

Com relação a esse segundo quesito, vale dizer que até não foi uma má ideia convocar o guitarrista David Potts para dar um reforço extra em muitas músicas – e, convenhamos, tal estratégia foi a salvação em algumas faixas. Mas na maioria das vezes o intento não logra êxito e Potts, cujo timbre vocal é mais semelhante ao de Bernard Sumner (vocalista e guitarrista do New Order) que o de Hook, não consegue resolver a parada. “Regret” sem a voz (ainda que sem brilho e já bastante cansada) de Sumner definitivamente não funciona. O baixista parece não ter feito direito os seus cálculos e desconsiderou que Technique Republic talvez sejam os discos do New Order cujas as músicas mais teriam sido especialmente projetadas para se adequarem ao tom de Bernard (uma preocupação virtualmente inexistente em LP’s anteriores). E uma vez que a banda optou por não mexer muito nos arranjos, temos aquela incômoda sensação de que alguem está tentando fazer peças quadradas passarem através de buracos redondos.

Com relação aos aspectos estritamente musicais, temos altos e baixos ao longo do disco. Mas tais oscilações pouco têm a ver com as recentes mudanças na formação do The Light. Nos teclados, a vaga de Andy Poole (que estava na banda desde 2010) foi preenchida por Martin Rebelski (ex-Doves); no segundo baixo, Yves Altana substitui Jack Bates, filho de Hook, que por ora está a prestar serviços ao Smashing Pumpkins. O set de abertura do show, composto só de músicas do Joy Division, desce redondo – sendo esse o material mais exaustivamente tocado por Peter Hook e o The Light ao longo desses últimos oito anos (fora o extra de que o timbre grave da voz do baixista se encaixa melhor no repertório do JD), não existem ressalvas a serem feitas aqui. Ao todo são três pedradas punk (“No Love Lost”, “Warsaw” e “Leaders of Men”), “Digital” e seu interminável refrão, a soturna “Autosuggestion” e a clássica “Transmission”. Um começo de show desses faz “Fine Time”, de Technique, parecer um anticlímax, sobretudo porque a versão do The Light nos faz ter a estranha sensação de que falta algo… Stephen Morris, talvez? Ou Bernard Sumner emulando Barry White com a ajuda do vocoder?

“Fine Time” realmente soa aqui como prenúncio da destruição de um álbum clássico, mas a sequência formada por “All the Way”, “Loveless” e “Round and Round” consegue apagar temporariamente a má impressão inicial, com destaque para a última. Infelizmente, o crescendo é interrompido por fracas versões de “Guilty Partner” e “Run”. Todavia, Hook e sua banda conseguem se recuperar com boas execuções de “Mr. Disco”, “Vanishing Point” e “Dream Attack”. Apesar de uma competente sequência final, a versão para os palcos da maior obra-prima do New Order passa longe da apoteose que o público espera.

Por incrível que pareça, Republic, considerado um disco inferior e desequilibrado, se saiu melhor nesse registro ao vivo que seu gabaritado antecessor. Como dissemos anteriormente, esqueça a versão do The Light para “Regret”. Por outro lado, os ouvintes se surpreenderão com ótimas interpretações de singles como “World” e “Spooky”, ou de faixas menos badaladas como “Young Offender” e “Times Change” (o único rap já gravado pelo New Order); “Liar” surpreendentemente soa aqui muito melhor que a gravação original; já “Ruined in a Day”, que ganhou um belíssimo arranjo que mesclou partes de versão original com trechos do (excelente) remix feito pela dupla K-Klass em 1993, perdeu alguns pontos por causa de uma constrangedora atuação de Hook como vocalista (para variar…); e misteriosamente a performance de Republic se encerra com uma decente execução de “Special”, já que inexplicavelmente o tema instrumental “Avalanche”, que conclui a versão de estúdio do álbum, ficou de fora do tracklist (a presente resenha foi feita a partir de uma versão para download adquirida oficialmente no site da Pledge Music).

Já as músicas do bis – aquelas escolhidas a dedo para todo mundo cantar junto – não ficaram fora do disco, é claro: “World in Motion”, “Blue Monday”, “Temptation” e “Love Will Tear Us Apart” (Joy Division) fazem o gran finale. Com uma sequência dessas quase é possível esquecer os tropeços encontrados aqui e ali ao longo desse New Order’s Technique & Republic Live in London. Para os fãs mais viscerais é um item que muito provavelmente não poderá faltar na coleção. Já para os não tão obcecados assim, é certo de que não deve suscitar grande procura. Afinal, para o público médio interessa muito mais ver Peter Hook em ação no palco – com toda a força de seu carisma –  do que ouvi-lo em um CD ao vivo. E ele saciará essa nossa necessidade mais uma vez na quarta-feira. Até lá.

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