HISTÓRIA | “Technique” comemora 30 anos

techniqueEm uma entrevista concedida a Ian Harrison em 2008 para o livreto de uma edição remasterizada em CD de Technique, o hoje ex-baixista do New Order, Peter Hook, disse que o disco foi “uma disputa por poder entre eu e os sequenciadores… e eu resistia bravamente, porque eu ainda queria que nós fossemos uma banda de rock”. A declaração tem que ser entendida em seu devido contexto: o vocalista e guitarrista Bernard Sumner, também em entrevista a Harrison, explicou que “nós ficamos conhecidos por esse som eletrônico dançante e teria sido loucura de nossa parte parar de fazê-lo… era o espírito daquela época”.

O “espírito daquela época” ao qual Sumner se referiu era o que, com o tempo, ficou conhecido como “O Segundo Verão do Amor”: a dance music (em especial a vertente conhecida como acid house) havia tomado de assalto os dois lados do Atlântico em 1988 e foi um dos pilares de uma nova subcultura urbana marcada pelo hedonismo, pelo consumo nada moderado de LSD e ecstasy, um colorido berrante e o apogeu tanto de casas noturnas como 500 Club (também conhecido como “The Five”), Shoom e The Future, como também de festas ilegais (muitas delas em armazéns abandonados). Esse foi o caldo primordial que deu origem às raves e aos clubbers.

O New Order já estava metido nisso antes mesmo de começar a gravar Technique naquele mesmo ano. Ao lado de sua gravadora, a Factory Records, a banda era proprietária de um desses hoje lendários nightclubs: o Haçienda. Após alguns anos funcionando na base do “tranco”, o Haçienda enfim emplacou entre o finzinho da década de 1980 e o começo dos anos 1990. Nessa época tinha gente que chegava a viajar mais de duas horas de carro até Manchester para suar na sua pista de dança. O lugar também ficou famoso pelas brigas entre gangues e pelos tiroteios, mas isso (assim como sua atrapalhada administração) é uma outra história… O fato é que o Haçienda foi um dos grandes responsáveis por difundir o som acid house pela Europa, já que o gênero havia surgido originalmente nos Estados Unidos – e de quebra o clube ajudou a catalisar uma cena derivada que ficou conhecida como Madchester: bandas de rock alternativo que misturavam o pop psicodélico dos anos 1960 com batidas eletrônicas dançantes (Stone Roses, Inspiral Carpets, Happy Mondays etc).

O New Order era, então, uma espécie de “padrinho” dessa nova cena. Embalados por toda essa efervescência (e por uma aversão aos estúdios “sombrios e horríveis” de Londres, nos dizeres de Hook), seus integrantes fizeram as malas e foram para a ensolarada Ibiza, na Espanha, para gravar o que seria seu novo álbum. O estúdio Mediterranean, onde deram início às gravações, nem era tão bom assim. Mas tinha uma piscina e um bar aberto 24 horas. Porém, ao contrário do que diz a mitologia que rodeia Technique, o LP não foi totalmente gravado em Ibiza. Na verdade, o New Order produziu muito pouco enquanto esteve lá. Isso porque parte da estadia foi gasta nas discotecas locais em noitadas regadas a balearic beat, álcool e drogas. “Nunca nos divertimos tanto”, disse o mesmo Peter Hook à MTV europeia em 1993.

Uma vez que a atmosfera de Ibiza não era propícia à concentração e não combinava com uma rotina de trabalho duro em estúdio, o New Order se viu obrigado a voltar para a Inglaterra para terminar o seu rebento. As gravações prosseguiram então no estúdio Real World, de propriedade de Peter Gabriel, e que ficava em Wiltshire. Mas o estrago já estava feito: o novo material continha influências do acid house e do balearic beat. O grupo que um dia foi o sombrio Joy Division acabou por fazer de Technique seu disco mais “ensolarado” até então. Tal como diz a letra de “Dream Attack”, escrita por Bernard Sumnner (como todas as outras do LP), “Nada neste mundo se compara à música que eu ouvi quando acordei hoje de manhã… Ela pôs o sol em minha vida, cortou meu coração com uma faca… Foi como nenhuma outra manhã”.

O primeiro single, “Fine Time”, foi lançado ainda em 1988 e exatamente quando a banda estava de passagem pelo Brasil. Inclusive, os brasileiros foram os primeiros a ouvir, ao vivo, faixas do disco que ainda sequer havia sido lançado na Inglaterra. “Fine Time” teve um desempenho apenas razoável na parada britânica ao alcançar o décimo primeiro lugar. Mas com o lançamento do álbum em janeiro do ano seguinte e do segundo single, “Round and Round”, em fevereiro, Technique acabou indo parar no topo da parada inglesa. Era o primeiro disco do New Order a conseguir esse feito.

Aplaudido tanto pela crítica quanto pelo público, Technique se transformou na obra-prima do New Order; é o trabalho mais bem acabado da banda e se tornou, também, parâmetro de comparação com tudo o que veio depois. Veio a ser, inclusive, o último álbum totalmente produzido pelo grupo. O disco também figura em diversos rankings, como o dos “40 Melhores Álbuns dos Anos 80”, da Q Magazine, ou dos “500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos” do New Musical Express.

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O deus Dionísio (Baco para os romanos) representado como um menino

A capa, com suas cores fogosas, foi produzida pelo designer Peter Saville em parceria com o fotógrafo Trevor Key e mostra a estátua de um querubim. O artista gráfico o encontrou em uma feira de antiguidades e o alugou para que Key pudesse fazer a foto. Segundo Saville, o querubim evocava uma “imagem dionisíaca” (Dionísio, para os gregos, ou Baco, para os romanos, era o deus das festas campestres, do vinho, da libido e da fecundidade) que representava apropriadamente o hedonismo movido a drogas do “Segundo Verão do Amor”. Saville também costuma relatar uma bizarra coincidência envolvendo a capa criada para Technique: uma de suas inspirações nesse trabalho foram as serigrafias de Andy Warhol, porém antes de ver a capa pronta Rob Gretton, empresário da banda (falecido 1999), disse ao designer que o álbum se chamaria Peter Saville’s New Order em referência a The Velvet Underground and Nico Produced by Andy Warhol, LP de estreia do Velvet Underground que teve tanto o disco quanto a capa produzidos pelo maior expoente da pop art. Todavia, a banda acabou mudando o título do long play sacando uma palavra do verso “You’ve got love technique” (trad.: “você tem a técnica do amor”), de “Fine Time”.

 

No Brasil o álbum foi lançado alguns meses mais tarde, puxado pelo sucesso estrondoso de “Round and Round” nas rádios. Algumas das emissoras de pop/rock daqui chegaram a sortear entre os ouvintes cópias promocionais de Technique que possuíam um encarte extra exclusivo em forma de LP que continha as letras das músicas em inglês e em português. Essas cópias hoje são verdadeiras peças de colecionador e são muito procuradas por fãs gringos da banda.

A turnê de Technique se estendeu entre os meses de janeiro e agosto de 1989, com destaque para nada menos que 35 datas só nos EUA, compreendidas entre abril e julho. Mas foi justamente durante essa temporada em solo norteamericano, especificamente horas antes do concerto no Irvine Meadows Amphitheatre (em Irvine, Califórnia), que ocorreu a famosa reunião da banda com Tony Wilson, chefe da Factory, na qual a banda não somente tomou conhecimento do tamanho do buraco financeiro da gravadora (que financiava sua participação no Haçienda com a receita da venda dos discos do New Order), como também foi comunicada sobre a intenção de Bernard Sumner de “dar um tempo” para cuidar de um projeto solo (o Electronic, ao lado do ex-Smith Johnny Marr). O próximo álbum, Republic, só viria quatro anos depois.

O que aconteceu nesse intervalo todo mundo sabe: após um inédito primeiro lugar na parada de singles do Reino Unido com o tema oficial da seleção inglesa de futebol no Mundial de 1990 (“World in Motion”), o grupo se desmembrou em projetos paralelos de menor expressão (além do Electronic de Sumner, vieram o Revenge de Peter Hook e o The Other Two do casal Gillian Gilbert e Stephen Morris), a Factory faliu e o Haçienda virou um ralo por onde escoava rios de dinheiro. Em outras palavras: os excessos e o desbunde do final da década de 1980 haviam se transformado em ressaca. Mas quando se coloca Technique para ouvir, é impossível não ter a sensação de que a festa afinal foi muito, muito boa. É um disco que ainda hoje soa moderno e original – e ele pode ser considerado a imagem invertida de Unknown Pleasures, que eles haviam lançado ainda como Joy Division dez anos antes. Não seria a dor e o êxtase os dois lados da mesma moeda?

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2 comentários

  1. Thalys · fevereiro 18

    Poxa, acabei de conhecer seu site e Instagram e parabéns pelo conteúdo! Dá pra ver que você é muito nerd nesse assunto e se empolga tanto pelo saudosismo de quando conheceu a banda quanto pelo gosto genuíno que tem no trabalho deles. Eu mesmo conheço New Order desde criança também apesar de só ter dezoito anos, haha. Meu pai tinha um DVD de flashback com os clipes de True Faith e Bizarre Love Triangle e sempre acabava ouvindo essas músicas em casa… de uns tempos pra cá eu comecei a me aprofundar nas músicas deles e quero garantir alguns discos deles na minha coleção, haha. Muito obrigado, vou passar horas e horas lendo seu site! 😀

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    • neworderbrfac553 · fevereiro 20

      Olá! Li seu comentário com enorme satisfação. Fique à vontade no site/blog, ele foi feito para isso: compartilhar minha paixão pela banda com aqueles que também curtem e querem se aprofundar. Obrigado pela visita e pelo comment. Até!

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