REVIEW | Livro: “Record Play Pause – Confessions of a Post-Punk Percussionist Volume 1” (Stephen Morris)

Stephen+Morris+Record+Play+Pause

Quando será que vai sair a autobiografia da Gillian Gilbert?

A banda das incontáveis coletâneas vem aumentando, também, sua coleção de autobiografias. Depois de Peter Hook e Bernard Sumner, agora chegou a vez de Stephen Morris, ex-Joy Division e (ainda) baterista do New Order, que acaba de lançar lá fora pela editora Constable o seu Record Play Pause: Confessions of a Post-Punk Percussionist Volume 1 (416 páginas). O título dá a pista: o que temos por hora é “apenas” a primeira parte. Nos catálogos de algumas livrarias on line vem sendo acrescentado um The Joy Division Years como forma de indicar para o leitor que a história do New Order provavelmente será foco do volume seguinte.

Não há como avaliar esse primeiro tomo das memórias de Morris sem comparar (pelo menos em determinados aspectos) com os livros lançados previamente por Hook e Sumner. Por ter feito a escolha de distribuir toda sua biografia e trajetória no mundo da música ao longo de três títulos, Peter Hook ofereceu aos fãs do Joy Division e do New Order uma história extremamente rica em detalhes e informações. Nesse aspecto, a autobiografia de Sumner, publicada em volume único, perde de goleada. Ainda que o segundo volume das memórias de Morris não tenha uma previsão de lançamento, já podemos supor que em matéria de profundidade e detalhamento Record Play Pause tem tudo para conquistar um potencial segundo lugar na preferência dos fãs.

As diferenças, todavia, não param por aí. Ainda que o mais provável é que todos esses livros tenham sido escritos por ghost writers (prática comum em se tratando de autobiografias de astros da música), cada um deles foi desenvolvido em um estilo de escrita que parece refletir com alguma precisão a personalidade de cada “autor”. Os livros atribuídos a Peter Hook, por exemplo, possuem uma linguagem carregada de um humor escrachado e irreverente. Já o livro de Sumner tem um estilo de escrita mais low profile, se parecendo às vezes com uma entrevista. Mais uma vez, Record Play Pause parece ficar no meio do caminho entre os dois. O senso de humor mais sofisticado de Stephen Morris, por vezes sarcástico e mordaz, comparece. O texto dá voz à personalidade conhecidamente nerd e excêntrica do baterista.

O primeiro volume de Record Play Pause cobre um período que vai da infância de Morris em Macclesfield (cidade que fica nos arredores de Manchester) até os primeiros passos do New Order. Dividido em três partes, duas delas são dedicadas ao Joy Division, desde suas origens punk como Warsaw até o fim trágico com a morte de Ian Curtis. Naturalmente, há muita coisa no livro que já foi dita alhures, seja nas autobiografias de Sumner e Hook, seja em tantos outros livros já publicados sobre o Joy Division e o New Order. Isso não quer dizer, entretanto, que Morris não traz para o leitor alguma coisa diferente ou nova aqui ou ali.

Record Play Pause revela ao leitor fatos da vida pessoal de Morris que ajudam a entender como aquele garoto oriundo da pequena burguesia de Macclesfield (em contraste com Hook e Sumner, que vieram da classe operária de Salford) se tornou um dos percussionistas mais celebrados de sua geração. Está tudo ali: o interesse pela música (em especial bandas como uma forte veia experimental / vanguardista, como Hawkwind, Captain Beefheart, Can, Velvet Underground e Van Der Graaf Generator), seu desejo de aprender a tocar um instrumento musical, do clarinete (por sugesão de seu pai) à bateria (demonstrando, desde o começo, predileção pelo estilo repetitivo de bateristas como Moe Tucker e Jacki Liebezeit), além, é claro, das primeiras experiências com drogas.

A terceira parte certamente é a que mais prenderá a atenção do leitor. Nela Morris traça o perfil de figuras importantes para a história da banda, como Rob Gretton (o falecido ex-empresário do Joy Division e do New Order) e Tony Wilson (repórter televisivo e chefe da gravadora Factory), esmiuçando o relacionamento que o grupo tinha com eles; detalha as gravações dos dois LPs que o Joy Division produziu durante sua curta existência (o que inclui generosas descrições de aspectos técnicos); conta como conheceu Gillian Gilbert e de que maneira os dois engataram o relacionamento amoroso que dura até hoje; e explica como ele e Bernard Sumner foram “capturados” pelos instrumentos eletrônicos. Tudo isso costurado pelo humor tipicamente britânico (ou seja, irônico ou autodepreciativo) do baterista.

Record Play Pause não chega a ser “o livro” sobre o Joy Division, mas segue a mesma linha das autobiografias anteriores, que retrata o grupo de uma forma bem menos “séria” ou “solene”, o que contraria o mito de “banda depressiva” que repousa no imaginário coletivo há anos. Apesar dos já conhecidos problemas de seu finado ex-vocalista, o ambiente interno do JD era qualquer coisa, exceto depressivo. Resta saber agora que outros mitos Morris ajudará a derrubar quando lançar o volume que cobrirá a história completa do New Order.


P.S.: Para minha imensa alegria, fui presenteado com uma cópia promocional de Record Play Pause assinada pelo Stephen Morris (foto). Todavia, o responsável por conseguir esse exemplar me pediu que eu mantivesse sua identidade em sigilo… de qualquer forma, gostaria de deixar registrado meus agradecimentos por tamanha consideração.

IMG_1276

Minha cópia promocional de Record Play Pause assinada pelo autor.

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<<OBS.: texto modificado em 26/07/2019, às 10:23.>>

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