REVIEW | “Be a Rebel” (New Order)

O New Order lançou hoje seu primeiro single desde “People on the High Line”, de 2016. “Be a Rebel” vinha sendo esperada pelos fãs desde que Bernard Sumner declarou ao The Times em julho deste ano que estava trabalhando na mixagem dessa faixa durante o lockdown. Não se trata necessariamente de uma música “nova” – na verdade, é uma sobra de estúdio vinda diretamente das sessões de gravação do último álbum do grupo, o excelente Music Complete (2015). Sumner, em uma outra entrevista, só que publicada pela Classic Pop Magazine em junho de 2015, foi categórico quando disse que a banda tinha escrito algo em torno de 15 músicas para Music Complete, mas que a Mute Records (atual gravadora do New Order) queria um álbum com apenas dez. Nessa mesma entrevista, o decano vocalista/guitarrista deixou claro que, ainda que o disco saísse com as dez canções que a Mute desejava, ele ficaria incomodado se não pudesse finalizar todas as músicas.

E parece que ele levou a promessa à cabo durante a quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus. Ou quase. Em nenhum momento foi mencionado por Sumner ou por qualquer outro integrante do New Order de que outras faixas verão a luz do dia no futuro, então por ora “Be a Rebel” será tudo (isto é, se não contarmos a caixa com a edição definitiva do álbum Power, Corruption and Lies e o vindouro novo disco ao vivo Education Entertainment Recreation, que não tem data ainda para sair).

O site do New Musical Express definiu “Be a Rebel” como uma faixa “agridoce”. Nas redes sociais, as reações dos fãs foram, em geral, positivas – e em alguns casos chegaram a ser acaloradas e entusiasmadas. Bom, mas será que o novo single do New Order, que ganhará ainda este ano versões em mídias físicas que incluirão remixes, vale tanta euforia?

Não se trata, de uma maneira alguma, de uma canção ruim. Além disso, “Be a Rebel” possui os ingredientes de um single de sucesso (mas se chegará a alcançar posições altas nas paradas, isso são outros quinhentos). Entretanto, há muitas coisas nela que podem incomodar. Por exemplo: num exame mais superficial, a música soa bastante como o Electronic (o extinto projeto solo de Bernard Sumner em parceria com o ex-Smiths Johnny Marr). Alguns trechos específicos chegam inclusive a remeter a um outro side project dos integrantes do New Order, neste caso o duo The Other Two, formado nos anos 1990 pelo casal Gillian Gilbert e Stephen Morris. Porém, as aventuras solo dos membros remanescentes do New Order que conhecemos hoje como sendo o “clássico” não necessariamente representam padrões engrandecedores de comparação. Não que o Electronic e o The Other Two fossem ruins, mas, convenhamos, não eram assim tão bons (ou pelo menos não quando postos frente a frente com o poderoso catálogo da Nova Ordem).

Por outro lado, sucessivas e mais atentas audições revelam um cenário mais desolador, infelizmente. “Be a Rebel” peca pela absoluta falta de personalidade. Quem tiver uma memória auditiva mais acurada certamente terá a incômoda sensação de que o novo single do New Order se parece com incontáveis faixas eurodance da década de 1990, começando pelos timbres (incluindo aqueles inconfundíveis riffs de piano que ajudaram a popularizar o sub-gênero conhecido como italo house), mas passando também pela sequência de acordes que compõem a estrutura básica da canção. A pegada dance e a voz e a guitarra de Sumner funcionam como boas “pegadinhas” aqui, isto é, são artifícios que escondem o que “Be a Rebel” realmente é: uma fotocópia de uma fotocópia, um clone de outros tantos clones. É uma faixa genérica. Se trocarmos a voz de Bernard pelos vocais, por exemplo, de Neil Tennant, ela se transforma imediatamente num outtake dos Pet Shop Boys. Ou então experimente imaginar Catherine Quinol cantando “Be a Rebel”… e ela se transformará, num passe de mágica, em um single do Black Box. Trocando em miúdos: ela soa como se tivesse sido criada por aqueles produtores especialistas na fabricação de sucessos dance em massa a partir de fórmulas prontas. Poderia ser uma música nova de qualquer um, não um novo single de uma banda com o legado do New Order.

Entretanto, os fãs mais empolgados com o novo lançamento da banda parecem cativados por sua atmosfera nostálgica que parece reviver a explosão do eurodance dos anos 90. Nesse sentido, “Be a Rebel” desenvolveu o poder de despertar em muita gente uma memória afetiva em torno de jardineiras, calças baggy, cores cítricas e os áureos tempos da MTV. De certo modo, Music Complete também era nostálgico, mas havia algo naquele álbum que parecia olhar para frente. Se tivesse sido incluída no disco, “Be a Rebel” certamente soaria deslocada.

Por enquanto, “Be a Rebel” está disponível apenas em formatos digitais no You Tube, nas plataformas de streaming e para download pago. Em novembro os fãs poderão colocar as mãos em uma edição limitada em 5.000 cópias prensada em vinil de 12″ cinza (já disponível para a pré-venda). Se o mercado para formatos físicos não estivesse rolando ladeira abaixo, não seria supresa alguma ver essa faixa sendo empurrada goela abaixo em uma enésima coletânea junto à fina flor do catálogo do New Order (“Blue Monday”, “True Faith”, “Regret”), com direito a algumas belas peças de Music Complete de lambuja, como “Singularity” e “Tutti Frutti”. Afinal, hoje em dia ninguem mais precisa comprar um CD com uma coleção inteira de músicas que já tem por causa de uma única faixa.

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