REVIEW | New Order ao vivo no Espaço das Américas, São Paulo (01.12.2016)

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Cheers! Vamos brindar a mais um show do New Order no Brasil.

Para mim, ir a um show do New Order não é apenas ir a um concerto dessa que é a minha banda favorita há quase três décadas (vinte e oito anos para ser mais exato). Na verdade, é bem mais do que isso. Significa reencontrar amigos de várias partes do Brasil com os quais tenho coisas em comum (a banda entre elas); é me aventurar, com esses mesmos amigos, no encontro com nossos ídolos no aeroporto para tirar uma foto ou conseguir um autógrafo; é o “aquecimento” antes do show em algum bar; é o pós-show, com direito a invasões furtivas ao backstage para estar tête-à-tête com a banda mais uma vez; são os posts em série nos fórums da internet e, agora, no WhatsApp para discutir exaustivamente sobre qual seria o set list “perfeito”; é fazer novas amizades durante o papo com desconhecidos na fila para entrar no show…

Por tudo isso, confesso: não é tão fácil fazer uma resenha “objetiva” e “isenta” sobre qualquer apresentação ao vivo do New Order (ou sobre qualquer outra coisa relacionada à banda). Mas eu bem que tento. Espero poder retratar o que eu vi – e minhas impressões à respeito – não somente da maneira mais sincera ou honesta possível, mas também com justiça. Sim, justiça. Nem sempre o que leio na imprensa “de verdade”, como as resenhas e críticas escritas por profissionais, pode ser considerado justo.

Convicta de sua “legitimidade”, com frequência a chamada “crítica espcializada” ignora o reconhecimento do público e avalia um show de rock ou qualquer outro espetáculo com base no seu próprio gosto – ou, então, em um hipotético “perfil médio”. O que eu quero dizer com isso é: de um lado, o sucesso de audiência é menosprezado; de outro, se espera sempre que o artista que está ali dando o melhor de si sobre o palco, mas à sua própria maneira, aja de acordo algum tipo (falso ou ilusório) de “protocolo” ou “manual”. Não é raro ler uma crítica sobre um show do New Order na qual se pode ter a impressão de que o escritor do texto parecia frustrado ou decepcionado (muito mais do que o público) por não ter estado, ao longo de duas horas, diante de mais um grupo de roqueiros saltitantes como o U2, ou os Rolling Stones, ou o Green Day… Quem conhece a história do New Order sabe muito bem: a banda sempre foi um ponto fora da curva. Inclusive ao vivo. 

O maior atrativo em um show do New Order é o seu próprio catálogo, repleto canções que resistiram à passagem do tempo e que ajudaram a formatar tanto o pop eletrônico quanto o indie rock contemporâneos. Qualquer outro tipo de “distração” no palco, como as telas de led e os novos efeitos de iluminação que, quem sabe, tenham sido concebidos como substitutos do único integrante que genuinamente atraía os olhares da plateia – o ex-baixista Peter Hook – pouco ou nada acrescenta ao essencial: a música. Além disso, sempre foi parte do “charme” do New Order essa atitude meio “tô nem aí” que alguns não iniciados interpretam como desanimação ou falta de presença de palco.

Evidentemente, não foi diferente nessa última passagem da banda pelo Brasil (ocorrida na última quinta-feira, no Espaço das Américas) – o New Order pouco interagiu com o público. Gillian Gilbert de vez em quando encarava a plateia e, não mais do que uma ou duas vezes, liberou um sorriso e um tchauzinho para aqueles nas primeiras filas que gritavam incansavelmente seu nome; Bernard “Barney” Sumner arriscou, de modo bem mais contido do que nas ocasiões anteriores, aquele rebolado risível (até mesmo para os fãs) quando não estava com sua guitarra em punho; Tom Chapman, o baixista que pegou a vaga de Peter Hook, é quem parecia ser o mais “saidinho”: várias vezes aproximou-se da beirada do palco e fez algumas poses mais fotogênicas durante seus solos. Mas nada, evidentemente, que lembrasse as “macaquices” de Hook.

Já que falei em justiça, que ela então seja feita. Tom Chapman já está visivelmente mais à vontade e entrosado com a banda. Sua atuação foi impecável, tanto nas canções do último álbum – Music Complete – quanto no material mais antigo. Considerando sua ingrata condição, eu digo sem qualquer constrangimento que ele se saiu tão bem que eu não senti a falta de Peter Hook. E esse sentimento não era exclusivamente meu. Ouvi muitos comentários a esse respeito durante a saída do show. Um amigo me disse naquele dia, horas antes do concerto, que nós éramos como “filhos de pais separados”. Chapman seria uma espécie de “nova namorada do papai” ou uma madastra – tem gente que não gosta ou não aceita, mas também existem aqueles, como eu (e a maioria, felizmente) que pensa “ah, ela é bem legal, eu gosto dela”. E a vida continua. E o New Order também. Um pouco mudado, é verdade… mas quem não muda com o passar dos anos?

Bom, mas sobre o show… considerando que a casa estava lotada – como em geral tem sido as apresentações da banda alhures – é de se supor que entre fãs “doentes” haviam, também, aqueles que foram ao Espaço das Américas tendo como referências apenas os grandes sucessos. Shows de bandas veteranas, via de regra, são assim. Isso talvez explique porque o New Order vem optando por fazer apresentações mais conservadoras e “seguras”, dentre as quais a última em São Paulo não foi uma exceção. A banda exibiu exatamente o mesmo que vem mostrando pelos quatro cantos do mundo ao longo dessa turnê: uma combinação equilibrada do créme de la créme de Music Complete (seis músicas no total), lançado no ano passado, seus antigos clássicos e um par de canções do Joy Division. Nada de obscuridades e lados B. É o que acontece quando seu repertório é conhecido tanto pelos fãs de bandas cult quanto por aquela parcela do público de quem já se ouviu algo do tipo: “New Order? Ah, mas não é a banda que canta aquela música ‘Everytime I see you falling’? Pô, me amarro neles”

Concentrar o show nos maiores sucessos, incluindo os do Joy Division – esta talvez seja a maior de todas as concessões que o New Order vem fazendo há um bom tempo, o que é surpreendente se considerarmos que o grupo ficou universalmente famoso por não fazer concessões. Mas, diferente de Peter Hook, que segue em uma carreira solo que celebra exclusivamente o passado, o New Order (ainda) olha para frente. E vem colhendo os frutos: as músicas novas, ao contrário do esperado, contaram com uma reação que fez jus à excelente receptividade que o último álbum vem recebendo. Todas – todas mesmo – foram cantadas pelo público. “Singularity” abriu o show após o P.A. anunciar a entrada da banda com “Das Rheingold: Vorspiel”, de Richard Wagner; “Academic”, a terceira música do set, soou brilhante com seus resquícios de “Dream Attack” (faixa do álbum Technique, de 1989); “Restless” até teve seu refrão entoado a plenos pulmões pela audiência, mas minha opinião pessoal é a de que, dentre as faixas de Music Complete, ela é a mais fraca ao vivo; “Tutti Frutti” e “People on the High Line” inauguraram a segunda e mais dançante parte do show; “Plastic”, acompanhada de uma orgia de efeitos visuais (outra concessão feita pela versão atual do New Order), fez Bernard Sumner apontar para o público enquanto cantava “It’s official… You’re fantastic… You’re so special… So iconic”, em um de seus raros momentos de interação com o público que lotou o Espaço das Américas.

Mas é óbvio e ululante que os melhores momentos do show aconteceram todas as vezes em que o New Order engatou a marcha à ré. A primeira grande explosão de êxtase foi com “Regret”, a segunda da noite; “The Perfect Kiss”, que figurou entre as mais pedidas pelo público, também fez a temperatura subir em níveis estratosféricos; “Bizarre Love Triangle”, como de praxe, passou no teste de popularidade (rivalizando com “Regret” nesse quesito). Teve também “Crystal”, uma versão repaginada de “True Faith” e, poderosa como sempre, a histórica “Blue Monday”. Aliás, esse foi um momento particularmente importante para mim. “Blue Monday” foi o começo de tudo, a minha porta de entrada no tema New Order. Eu estava tão feliz por estar ali e por ter tido a oportunidade de vê-los mais uma vez que não consegui segurar os olhos marejados, o nó na garganta e o disparar do coração. Esse é o poder da música – o poder de nos levar de volta ao passado e de nos reconectar ao sentimento primordial que eclodiu naquela já distante primeira experiência. Esse sentimento, pessoal e intransferível, crítico de música algum consegue captar em um show. Por isso mesmo as resenhas dos jornais e das revistas são tão frias – e tão imprecisas também.

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Minha única foto do show, durante “Regret”: preferi saborear o show a tirar “zilhões” de fotos…

Voltando ao show… O set chegou ao fim com a obrigatória “Temptation” (a canção mais executada ao vivo pelo New Order), com Gillian tocando “Street Hassle”, de Lou Reed, no teclado. A banda deixou o palco para voltar muito pouco tempo depois e dar seu bis. Todo mundo já sabia o que ia acontecer: era a hora de celebrar o Joy Division. A banda sacou uma emocionante versão de “Decades”, que retornou recentemente ao repertório dos shows depois de 29 anos fora. Imagens de Ian Curtis no telão reforçavam o clima de tributo. Em seguida, vieram com a esperada “Love Will Tear Us Apart”, normalmente escalada para fechar a noite. Isto é, normalmente não quer dizer sempre. O New Order abriu uma exceção e presenteou o público com mais uma música. Numa atitude que chegou a lembrar seus velhos tempos de “do contra”, em vez de terminar sua apresentação com mais um de seus hits (o que seria uma escolha óbvia e natural) o grupo fez sua saideira, vejam só, com uma das faixas novas: “Superheated”. E o público aceitou numa boa. O telão exibiu a letra para todos cantarem junto – e o recado foi prontamente entendido pelos presentes. Em alusão aos últimos versos, Bernard Sumner deu a má notícia ao público após o derradeiro acorde: “It’s over!”. E assim terminaram duas horas de êxtase aprovadas pela plateia. A única aprovação que importa, aliás. “Obrigado mais uma vez, São Paulo! Vocês foram ótimos!”, agradeceu Sumner. Ora, Barney, nós é que agradecemos.

Há dez anos, eu vi meu primeiro show do New Order, em São Paulo; dez anos depois, eu voltaria a São Paulo para vê-los pela décima vez – e provavelmente a última. Talvez as lágrimas durante “Blue Monday” tivessem externalizado, também, o sentimento de despedida. Não cabe aqui esclarecer os motivos – a vida é assim, com o tempo outras coisas passam a exigir sua atenção e, de repente, você não está mais tão disponível para se dedicar às antigas paixões com a mesma intensidade. Por isso, encerro esta “resenha” com um relato: na fila para entrar no Espaço das Américas, uma garota de 18 anos, que foi sozinha de Curitiba a São Paulo, acabou se enturmando conosco (a “diretoria” do New Order Brasil). No final do show, entre tantas mãos que, na grade, disputavam um dos set lists colados com fita isolante no assoalho do palco, foi ela quem conseguiu por as suas naquele pedaço amassado de papel. Ela chorou de tanta alegria. Pouco tempo mais tarde, lá nos fundos, numa saída para o estacionamento, mais uma explosão de felicidade: ela conseguiu que e banda autografasse seu set list. Eu vi o brilho nos olhos dela. Eu achei algo bonito de se ver.

É isso aí: hora de passar a bola para essa garotada. Eu tive o bastante disso e, sinceramente, não tenho do que reclamar – aproveitei bastante. Bom saber que o New Order ainda desperta na molecada a mesma paixão que despertaou em mim 28 anos atrás. Enfim, é isso, it’s over

…mas só depois do show do Peter Hook.

SET LIST:
Singularity
Regret
Academic
Crystal
Restless
Your Silent Face
Tutti Frutti
People on the High Line
Bizarre Love Triangle
Waiting for the Sirens’ Call
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Decades [encore]
Love Will Tear Us Apart [encore]
Superheated [encore]

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NEWS | New Order terá relançamentos em setembro e outubro

CAE7BC47-251E-4A63-9AAE-6DDE5D7AD65AOs fãs do New Order não serão brindados apenas como um novo álbum – Music Complete – este ano. Por causa, provavelmente, da assinatura do contrato com a Universal Music Publishing, que passou a administrar o catálogo da banda anterior ao seu atual relacionamento com a Mute Records, antigos itens de sua discografia voltarão para as prateleiras “repaginados”.

O primeiro deles é a coletânea Singles. Lançada originalmente como um CD duplo em 2005, sua proposta era ser um contraponto ao clássico Substance, de 1987: enquanto este continha versões extended e remixes lançados originalmente em bolachas de 12″, formato ideal para os nightclubs, aquele trazia gravações editadas ou album versions, mais apropriadas para veiculação em rádio e TV, sendo que muitas delas tinham saído nos velhos discos compactos (7″). A reedição, além de trazer todas as faixas remasterizadas, terá “I’ll Stay With You” – do álbum Lost Sirens (2013) – como faixa bônus e será lançado também na forma de um box set com quatro LP’s de 180 gramas. A edição em CD será lançada no dia 18 de setembro, enquanto que a caixa com quatro vinis só sairá no dia 16 de outubro.

Outras peças fora de catálogo que serão reeditadas são as versões em vinil dos três álbuns que o New Order gravou pela London Records: Republic (1993), Get Ready (2001) e Waiting for the Sirens’ Call (2005). Com lançamento agendado para a mesma data de Music Complete, dia 25 de setembro, essas três reedições também virão com áudio remasterizado em bolachões de 180 gramas. Os tracklists, por sua vez, foram mantidos idênticos aos originais.

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MEMÓRIA | Um raro vislumbre de um mundo privado – Parte I

Hoje trago aqui no blog a primeira parte de uma tradução exclusiva de um dos momentos mais importantes da carreira do New Order na imprensa musical: um artigo / entrevista assinado por Paul Rambali para a edição de julho de 1983 da extinta revista britânica sobre música, moda, cultura e comportamento The Face. A matéria põe foco sobre a banda justamente no momento em que o grupo começava a deixar as sombras do Joy Division com o estouro de “Blue Monday”, o lançamento do LP Power, Corruption and Lies e a parceria com Arthur Baker em “Confusion”. Essa matéria, aliás, teve trechos vergonhosamente copiados ou “conceitualmente plagiados” pelo (hoje) renomado jornalista brasileiro Pepe Escobar para a edição de novembro de 1985 da revista Bizz sem que os devidos créditos às fontes fossem dados.

A segunda parte ainda se encontra em fase de tradução. E a foto do baterista Stephen Morris que ilustra a capa da revista foi tirada por Kevin Cummins.


coverUM RARO VISLUMBRE DE UM MUNDO PRIVADO – Primeira parte
New Order: entrevista a Paul Rambali para The Face, julho de 1983.

Em algum lugar nos arredores do sul de Manchester existe um cemitério. Próximo desse cemitério  temos uma sala de ensaios onde os quatro membros do New Order praticam seus feitiços. E eles entenderam a piada.

“Talvez porque nós soamos tão sombrios… Se é que soamos. As pessoas dizem que sim”.

Peter Hook prefere ser cauteloso com relação a qualquer definição sobre o grupo ou sobre sua música. Ele fica de braços cruzados dedilhando um baixo desplugado. Sobre seu joelho, um formulário de pedido de visto para os EUA para a próxima turnê do New Order.

“Escute isso”, ele grita! “Parece que eles estão atrás de nós: ‘Alguma vez você já ajudou na perseguição de povos por motivos de raça, cor ou credo, incluindo qualquer envolvimento com o Estado Nazista?’”.

O New Order é uma banda nazista? Essa cobrança, que veio à tona antes na imprensa musical, e que foi lançada sobre eles novamente em uma edição recente da revista Private Eye, parece que os flagrou de calças arriadas. Mas afinal, eles são nazistas?

A resposta é negativamente confusa. “Eu não sei”, Hook dá de ombros, “por que todos pensam que somos nazistas?”.

Eles escolheram o nome New Order – que, entre outras coisas, era o termo usado pelo Führer para o que ele pretendia impor ao mundo – porque parecia neutro. “Usaram-no no Tron, mas ninguem chama Walt Disney de nazista”, diz o guitarrista Bernard Sumner – cujo sobrenome real não é Albrecht, como aparece nas capas dos primeiros discos -, que não leva as acusações a sério.

“Você devia ter visto os outros nomes que tivemos na lista”, ele ri. “Temple of Venus… que nem era tão ruim. O que queríamos era transmitir a ideia de mudança, apenas isso”.

Mas eles não estão sendo sinceros. É evidente que não era “apenas isso”. Eles conheciam as conotações da expressão. A mudança se deu a partir de seu antigo nome, Joy Division, garantida pela morte do vocalista Ian Curtis. O nome Joy Division – uma gíria de guerra que se referia às alas dos campos de concentração onde as mulheres judias eram usadas pelos soldados alemães como prostitutas – era fortemente irônico, uma brincadeira mordaz sobre a posição da banda vis a vis a indústria do entretenimento e, talvez, o mundo em geral.

Chamar-se New Order foi, provavelmente, um ato de antagonismo taciturno, parte de uma ação mais ampla para preservar-se das mórbidas fixações da mídia londrina sobre o grupo, seu falecido ex-vocalista, sua música e o que ela certamente representa nas sombras, incluindo a depressão de 1979-1980. Desde então, eles se abrigaram em uma enigmática concha, evitando ser o centro das atenções e se encobrindo num silêncio recluso.

Suas raras, porém sempre lotadas, aparições em Londres foram confinadas em salões irlandeses. As capas de seus discos – ricas extensões planas, lisas e coloridas, com tipografia em negrito e logotipos opacos – contém o mínimo de informação: New Order, título, produtor, gravadora, data. Sua nova integrante, Gillian Gilbert, a namorada de 22 anos do baterista Stephen Morris, juntou-se ao grupo há dois anos, mas ainda tem que ser creditada nas capas.

Por esses e outros motivos, eles têm a fama de serem arredios, insolentes e, no mínimo, difíceis de se entrevistar. Recentemente um colunista da imprensa musical foi convidado para acompanhá-los em turnê no Texas. Seria um bom fundo para uma história, mas havia um problema. O jornalista teria que se bancar sozinho – um pedido sincero de uma banda sem apoio de uma grande gravadora, mas não é o tipo de coisa que a imprensa musical está acostumada a ouvir.

Sua recusa em subir a bordo do carrossel dos negócios e da moda no mundo da música deriva tanto de princípios quanto de um instinto de auto-preservação. Já como um quarteto insular, sua força interior teve que ser testada e endurecida para que eles sobrevivessem de forma convincente à morte de seu vocalista. Praticamente sozinhos entre seus contemporâneos, eles mantêm sua independência. Orgulhosos, teimosos e originais, eles cortejam o ressentimento e – talvez pelas mesmas razões – inspiram devoção.

Sem publicidade, sem vídeos promocionais, sem roupas novas nem fotos na capa, seu último single de 12” vendeu 250 mil cópias na Grã-Bretanha sozinho. “Blue Monday”, uma frágil melodia pregada a uma pesada batida vibrante (e sem conexão aparente com a canção homônima de Fats Domino), recebeu uma truncada, mas ao mesmo tempo arejada versão ao vivo no Top of the Pops – que de maneira significativa alterou sua posição nas paradas.

Por toda Europa, Japão e América do Norte discotecas chiques pulsam ao som de “Blue Monday” – uma versão estendida mixada à mais recente versão novaiorquina de “Planet Rock”. Não é uma mera casualidade que sua música transcenda gostos paroquiais. Ela tem a virtude da simplicidade universal; muitas vezes é pouco mais que uma atmosfera, distinta mas não específica. Os títulos taciturnos das músicas têm uma só palavra – “Ceremony”, “Isolation”, “Transmission”, “Temptation” etc – e são vagos e intercambiáveis à primeira vista, como as capas que elas carregam. Existe um forte sabor de mistério que, tendo eles inventado, não estão com pressa de dissipar.

“O que queremos é apresentar a música sem qualquer lixo periférico em torno dela”, argumenta Bernard Sumner. “Não importa quem tocou o que, ou os instrumentos que usamos ou mesmo quem somos. Se as pessoas gostam da música, isso é o que realmente importa; isso é o que eles estão comprando”.

Seu anonimato autoimposto atingiu esse estágio com o seu novo álbum, no qual apenas aqueles que conhecem a música saberão o que estão comprando. Onde quer que os mantenham, seus corações não estão nas capas dos discos. Desenhado por Peter Saville, o firmemente intitulado Power, Corruption and Lies não traz nenhuma informação além do número de catálogo e um crédito legalmente exigido para as rosas pintadas pelo impressionista francês Fantin-Latour impressas na parte frontal, que também traz uma pequena e falsa escala de cores em um dos cantos. “Peter queria uma pintura clássica na capa”, diz Sumner. “Gostamos da ideia, então ele nos mostrou uma seleção e escolhemos a que queríamos”.

Muita coisa para uma embalagem. Em seus primeiros dois meses de lançamento, o álbum já vendeu 75 mil cópias na Grã-Bretanha, e mais no exterior, especialmente Bélgica, Holanda e Alemanha. O New Order ainda vem sendo abordado para fazer negócios com gravadoras estrangeiras, apesar não ter muitas aberturas na Inglaterra. Em todo caso, eles se contentam em permanecer com o selo independente Factory Products, aberto em 1978 por Tony Wilson, apresentador da emissora de TV Granada.

“Não há um real motivo para nos mudarnos para uma gravadora grande”, diz Sumner. “A vantagem é que eles divulgariam você, te dariam dinheiro para vídeos e publicidade, mas e daí?”. Peter Hook coloca em perspectiva. “Em uma grande gravadora é provável que faríamos o mesmo dinheiro que estamos fazendo agora, mas se vendessemos o que Culture Club vende”.

Quanto eles ganham? Eles pagam a si mesmos um salário de £ 72 para cada um por semana. Mas todos eles dirigem carros último-modelo: Sumner tem um W-Reg Mercedes 200; Stephen Morris possui um Volvo Estate; e Peter Hook é dono de um Audi Coupe, mas sem tração nas quatro rodas – “Oh, eu bem que gostaria. Mas é muito caro”. O resto dos seus ganhos é gasto em equipamentos.

Mas eles dizem que suas vidas pessoais mudaram pouco. Eles ainda vivem nos mesmos lugares: Bernard em Macclesfield, Peter em Moston, Stephen e Gillian em Peel Green. Eles se vestem sobriamente, como sempre o fizeram. Exceto pelo rabo de cavalo de Peter Hook, eles poderiam se passar por jovens bancários suburbanos. Na falta do O-level e de uma grande carreira à espera – estão nisso apenas porque viram os Sex Pistols e o The Clash no Manchester’s Free Trade Hall em 1976 -, o futuro deles poderia ter sido mais comum.

Bernard, Peter e Ian Curtis se conheceram na Salford Grammar School. Aproveitando aquele momento em 1976 com seu amigo Terry – atualmente um técnico de som – e, mais tarde, com Stephen Morris, que tinha acabado de ser expulso da King’s College, em Macclesfield, eles formaram um grupo chamado Warsaw. Inspirados pelo título da canção “Warszawa”, do álbum Low de David Bowie, o Warsaw fez apropriados ruídos ameaçadores dando seus primeiros passos nos acordes sujos e primários do punk rock. Essa energia foi consumida rapidamente.

No final de 1977 essa experiência chegou ao fim. O Warsaw foi para o Pennine Sound Studios em dezembro e reapareceu poucos dias depois como Joy Division e com um EP chamado An Ideal for Living que caiu sobre as sensibilidades moldadas pelo rock progressivo e avant-garde do início dos anos setenta, mas enterradas pelo purgatório cultural punk. Sentindo uma espécie de unidade desesperada nessas gravações, Tony Wilson assinou o Joy Division com o seu novo selo e o grupo começou a trabalhar com o engenheiro de som dos estúdios Strawberry, Martin Hannett.

Mas não sem um curioso interlúdio. Eles caíram nas mãos do DJ de northern soul Richard Searling, que queria que eles gravassem um cover de “Keep On Keepin’ On”, de N. F. Porter – e que ele planejou vender para o selo TK, uma subsidiária da RCA. “Nós tentamos fazer, mas a gente não dava a mínima para versões cover”, relembra Sumner. “De um certo modo, nós o fizemos”, diz Hook. “Nós aprendemos o riff, que foi o máximo que conseguimos fazer, e o usamos em ‘Interzone’”.

No lugar da versão cover, eles levaram cinco dias no estúdio com Searling gravando seu próprio material. As fitas, que mais tarde compraram de volta por £ 1 mil, foram virtualmente demos de seu primeiro álbum. Seu grande momento foi a contribuição de Martin Hannett à sua música: as estruturas e o clima distintivos já estavam lá, a música era completa. Mas a banda lutava contra a sua natural introversão. Eles não tinham restrições, o que mais tarde permitiriam que fervilhassem tão insidiosamente nas mentes dos ouvintes.

Hannett, que trabalhou como químico, trouxe sua obsessão por eletrônica para a mesa de mixagem. Caixas com os mais novos brinquedos de estúdio chegavam dos Estados Unidos. Enquanto o grupo ensaiava, Hannett os equipava. Ele os colocou na linha, indo contra a maré mixando a voz e a guitarra atrás do baixo e da bateria, dando uma definição eletronicamente reforçada às suas arestas irregulares. As primeiras gravações com ele na produção apareceram no EP A Factory Sample, de 1978. Um álbum, Unknown Pleasures, apareceu um ano depois. Esparso, estatuesco, monolítico, como uma vasta paisagem desolada, era musicalmente original e emocionalmente angustiante.

Com o single “Temptation”, lançado no ano passado, o New Order rompeu com Hannett e começou a produzir seus próprios discos. Foi uma decisão consensual, dizem eles, complicada pelo fato de que Hannett estava processando a Factory Records por causa do funcionamento da empresa do qual ele também era diretor (isso já teria sido resolvido fora dos tribunais). A banda não nega que aprendeu com ele.

“Desde cedo ele nos ensinou o que fazer”, diz Hook. “Aprendemos a real física da gravação com ele, apesar de que poderíamos ter aprendido isso com qualquer um. Afinal, não havia muito compromisso de ambos os lados”.

“Produzir nós mesmos nos dá mais satisfação”, acrescenta Sumner. “Sabemos o que queremos e podemos fazê-lo. Com Martin muitas vezes as músicas acabaram diferentes, às vezes melhores, às vezes não. Nós sempre sabemos como queremos que elas soem. A nossa forma de compor uma canção é a começar por improvisar na sala de ensaios. Em seguida, tocá-la ao vivo. Às vezes você não tem nenhuma letra então tudo o que você tem é um punhado de baboseiras. Então você ouve as fitas ao vivo, escreve mais algumas palavras, volta e ensaia um pouco mais. Pelo tempo que levamos para gravá-la dá para saber bem como vai ficar”.

“Nós gastamos uma quantidade enorme de tempo juntos aqui”, comenta Hook. “Mas nós somos preguiçosos. Nós nos sentamos aqui até que ficamos tão entediados que, de repente, surge uma ideia”.

Tipicamente, eles não sentem necessidade de quaisquer opiniões externas sobre sua carreira ou sua música. “Eu não acho que as pessoas estejam em condições de nos dar conselhos”, diz Hook. “Uma carreira é um futuro planejado”, afirma Stephen Morris. “Não há nenhum plano para o futuro.  Nós não fazemos o que achamos que vai dar certo. Nós fazemos o que queremos fazer”.

No entanto, eles confiaram a mixagem final e os overdubs de uma música chamada “Confusion” à Arthur Baker, produtor de Afrika Bambaataa e Rocker’s Revenge. “Confusion” foi escrita e gravada no estúdio de Baker em Nova Iorque em três semanas de fevereiro passado, após uma introdução feita pela Factory dos EUA. “É um experimento”, diz Hook. “Estamos em posição de fazer isso agora”. Um experimento sobre o qual parece haver alguma apreensão. “Isso é porque não o ouvimos ainda”.

(continua em um próximo post!)

 

NEWS | New Order assina contrato com nova editora musical

CAE7BC47-251E-4A63-9AAE-6DDE5D7AD65APublico aqui essa “novidade” com considerável atraso. Em março deste ano, o New Order assinou um contrato com uma nova editora musical, a Universal Music Publishing. A notícia foi publicada no próprio site da UMP em março (e o moço que vos escreve “papou mosca” dessa vez). Com a assinatura desse contrato, a Universal passa a administrar, para distribuição em todo o mundo, o catálogo da banda até o nono álbum de estúdio, Lost Sirens. Ficou de fora do contrato, naturalmente, o disco que será lançado este ano pela Mute Records de Daniel Miller. Para compensar meu atraso na publicação da notícia aqui no blog, ofereço uma tradução do post original no site da UMP.

A Universal Music Publishing assinou um contrato de administração exclusivo e mundial com a lendária banda britânica New Order, conforme foi anunciado hoje por Paul Connolly, presidente da companhia na Europa e no Reino Unido.

O acordo com o New Order, que foi supervisionado pelo diretor de criação da UMP baseado em Londres, Darryl Watts, prevê a representação global do catálogo completo do New Order original, incluindo os seus nove álbuns de estúdio [N.T.: o “New Order original” na verdade gravou sete] e canções clássicas como “Blue Monday”, “Regret”, “Bizarre Love Triangle” e ”True Faith”.

Tendo uma carreira com mais de 8 milhões de álbuns vendidos, o New Order, que consiste no guitarrista Bernard Sumner, o baixista Peter Hook, o baterista Stephen Morris e a tecladista Gillian Gilbert, é uma das bandas mais influentes e aclamadas pela crítica dos últimos 30 anos. Seu estilo único de synth pop superou o fosso entre o pós-punk e a música eletrônica, combinando a estética da new wave com as texturas eletrônicas e os ritmos disco da cultura underground de clubes. A banda foi formada em 1980, após a dissolução do Joy Division, cujo catálogo Watts assinou contrato com a UMP em 2007.

Em relação ao acordo, Rebecca Boulton, da Prime Management (que gerencia Sumner, Morris e Gilbert), disse: “Estamos muito felizes por estar assinando nosso catálogo com a Universal Music Publishing e consolidando nosso ótimo relacionamento com Paul Connolly, Darryl Watts e toda a fantástica equipe da Universal. Eles fizeram um excelente trabalho no catálogo do Joy Division ao longo dos últimos 8 anos e estamos ansiosos para continuar esse sucesso com o New Order. Não foi uma decisão fácil fazer a mudança, no entanto o momento parecia certo para fazê-la”.

Membro da banda e baixista, Peter Hook [N.T.: corrigindo, ex-membro] disse: “Quando você chega aos 58 anos, não há muitas ocasiões importantes na sua vida, mas eu tive uma recentemente. Nossa edição musical foi renovada e Darryl Watts na Universal – que está fazendo um trabalho maravilhoso com o Joy Division – me disse ‘Eu tenho esperado 20 anos por esse momento’, então veja só… me acontece algo assim!”.

Watts comentou: “Bandas como o New Order são a razão de eu ter me apaixonado por música e o privilégio de trabalhar em contratações como esta é o motivo pelo qual ainda faço esse tipo coisa. Eles sempre foram verdadeiros inovadores. Simplificando, eles têm um conjunto incrível de músicas e estamos absolutamente encantados por representá-los”.

Connolly disse: “Nós somos privilegiados por representar as músicas de alguns dos compositores britânicos mais emblemáticos e culturalmente importantes de todos os tempos, como The Clash, Johnny Marr, Paul Weller, Sex Pistols, Elton John, The Cure, Eurythmics, Elvis Costello e Joy Division. Então, para ser confiado com um catálogo tão importante quanto o do New Order, é como uma honra muito especial”.

Seria (muito) bom mesmo que o catálogo do New Order, a partir de agora, ganhasse um tratamento tão digno quanto o catálogo do Joy Division. A qualidade técnica daquelas versões expandidas remasterizadas de 2008 ficou tão aquém do esperado (se comparadas com as do Joy Division) que uma revisão/atualização/relançamento já seria um bom começo… e, quem sabe, em um belo box set.

 

SOBRE FAC 553

Esta é uma página pessoal, portanto a “New Order BR Fac 553” não possui qualquer relação comercial ou de qualquer outro tipo com os integrantes atuais ou anteriores do New Order ou com sua gravadora – a Mute Records – ou a empresa que administra seu catálogo – Universal Music Publishing. A “New Order BR Fac 553” é herdeira do site anterior de Luis Aracri, o “N. O. Way”, que tinha um outro formato. O objetivo desta página é compartilhar informações sobre Joy Division, New Order e os demais projetos musicais nos quais seus integrantes estiveram envolvidos (Electronic, Bad Lieutenant, Revenge, Monaco, Freebass, Man Ray, Peter Hook & The Light, The Other Two, Be Music). Trata-se, portanto, de um espaço criado por um fã para outros fãs. As resenhas (reviews) apresentados pelo administrador da página são, portanto, de sua inteira responsabilidade e não possuem qualquer intento promocional.

Este blog também não disponibilizará para download material protegido por copyright (direitos autorais).

Foto criada em 22-03-15 às 12.13_lznLuís Aracri (autor do blog), casado, nasceu e vive no Rio de Janeiro, é professor universitário, obcecado por New Order e Joy Division desde de 1988 e nas horas vagas pratica fotografia ou apavora os vizinhos com o barulho do seu baixo (que um dia, quem sabe, ele aprende a tocar).