JOY DIVISION / NEW ORDER

JOY DIVISION (1977-1980)

  • Um concerto dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall em 04 de junho de 1976 organizado por Pete Shelley e Howard Devoto (que futuramente se chamariam The Buzzcocks) se transformou no marco zero da onda punk em Manchester, cidade do noroeste da Inglaterra. Não havia quase ninguem lá para vê-los, mas o show mudou a vida de quem estava na plateia, particularmente de dois rapazes que se conheciam desde os tempos de escola – Bernard Sumner e Peter Hook. Mais tarde se juntaria a eles um jovem alto, de olhos azuis, aspirante a estrela de rock e que queria ser como um de seus ídolos (Bowie, Iggy Pop, Lou Reed) – um certo Ian Curtis…

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“Foi horrível. Foi como uma batida de automóvel. Meu Deus, jamais tinha visto algo parecido na minha vida! Vi muitos grupos, Deep Purple, Led Zeppelin… Mas jamais vi algo tão caótico ou emocionante. E rebelde. Assim me senti. Eu só queria quebrar tudo”. (declaração de Peter Hook sobre o show dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall, Manchester, em 04 de junho de 1976, dada no documentário “Joy Division”, de Grant Gee, em 2007).

“Era um escândalo. Pensava ‘Eu posso fazer isso! Eu posso fazer isso!’. (declaração de Bernard Sumner sobre o mesmo show dos Sex Pistols, também dada no documentário “Joy Division”, de Grant Gee, em 2007).

“Nessa noite formamos uma banda… É fácil. ‘Formemos um grupo!’. Todo o resto é que é difícil. Fomos ver o segundo concerto dos Sex Pistols, o qual os Buzzcocks tocaram antes… e então estávamos nisso”. (Peter Hook, encerrando o assunto sobre o show dos Sex Pistols no documentário “Joy Division”).

Tony Wilson (20.02.1950 – 10.08.2007), ex-apresentador de TV e mentor da mítica Factory Records, disse “Não vejo a história do Joy Division como a história de um grupo pop. Vejo como a história de uma cidade que uma vez foi brilhante, audaciosa e revolucionária. Então, uns trinta anos depois, tornou a ser brilhante e revolucionária novamente. E no coração dessa transformação havia muitos grupos… e um em particular”. Wilson está se referindo a Manchester, cidade ao norte da Inglaterra que teve um papel relevante durante a Revolução Industrial e que, em meados da década 1970, era um centro urbano envelhecido, decadente e deteriorado. Não era um momento e um lugar salubres para qualquer um, principalmente para os jovens. Por isso, o punk representou para a juventude mancuniana uma importante válvula de escape.

Portrait of Joy Division

O Joy Division se destacou naquela cena justamente porque traduziu em versos e sons a paisagem e o espírito de seu entorno, além do lado sombrio da alma, melhor do que qualquer outro grupo. Curiosamente, apesar de terem surgido em meio a uma espécie de “movimento” local, ao mesmo tempo pareciam estar à margem dele, como um ponto fora da curva. O guitarrista Bernard Sumner assim resume: “Estávamos sós em nossa própria ilha. Nos assegurávamos que o que estávamos fazendo soava bem. Não prestava a atenção no que os outros faziam”. Aliás, foi Tony Wilson quem descreveu de forma precisa de que maneira o Joy Division se tornou um marco divisório: “O punk te permitia dizer ‘foda-se’, mas de alguma forma isso não poderia ir muito longe, era uma simples frase raivosa de duas palavras que era necessária para reacender o rock’n roll. Mais tarde alguem ia querer dizer ‘eu estou fodido’ e este alguem foi o Joy Division, usando a energia e a simplicidade do punk para expressar emoções mais complexas”. Mas, como a desconstrução de mitos sempre foi uma especialidade desses notáveis músicos autodidatas, eis uma frase do baterista Stephen Morris que dá uma outra tonalidade ao JD: “Não tínhamos a intenção de fazer uma música maravilhosa. Nós só queríamos ser notados”.

NEW ORDER (1980…)

  • Coube aos membros remanescentes do Joy Division, após a trágica perda de seu vocalista e timoneiro (que se suicidou no dia 18 de maio de 1980), a difícil tarefa de “fazer a América”, mas com um novo nome, um novo repertório e, pouco tempo mais tarde, um novo integrante. Ou melhor, nova. Quando em solo americano, especificamente em Nova Iorque, descobrem novos ambientes e novos sons: Paradise Garage, The Fun House, The Loft, disco, electro, New York house, italian post-disco… E o impacto foi equivalente ao do show dos Pistols anos antes.

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“Minhas influências mudaram totalmente em um ano” (declaração de Bernard Sumner dada no documentário da MTV europeia Past, Present and Future, em 1993).

“Tenho certeza de que o Joy Division estaria fazendo as coisas que fazemos agora” (declaração de Stephen Morris dada em entrevista concedida à revista Bizz, em 1987).

“A mudança não foi causada apenas por Nova Iorque… ‘Blue Monday’ tinha influências do Sylvester e do Kraftwerk… Ainda no Joy Division, Ian levava os discos do Kraftwerk para os ensaios e os ouvia como se fossem algo fantástico. E nós costumávamos colocar Kraftwerk para tocar em nosso P.A. antes dos shows. O uso de sintetizadores veio disso. Talvez Ian estivesse nos mostrando o caminho” (declaração de Bernard Sumner dada no documentário New Order Story, em 1993).

“Eu achava que outras músicas que escrevemos na época eram melhores. Eu pensava que ‘Temptation’ era uma música melhor, especialmente ao vivo. Eu pensava que ‘Everything’s Gone Green’ era melhor. E eu pensava que ‘Thieves Like Us’ era muito, muito superior. Mas ‘Blue Monday’ tem um impacto sonoro que muito, muitos poucos registros têm. Foi realmente um presente e foi bastante irônico – e muito triste, na verdade – porque roubamos de uma B-side de Donna Summer. É uma música estranha. Tornou-se um dos maiores registros de Manchester. Tivemos muita sorte de escrever ‘Love Will Tear Us Apart’ como Joy Division, que foi um recorde em Manchester e, depois, ‘Blue Monday’ como New Order. Temos um com cada banda. Fantástico!” (declaração de Peter Hook, New Musical Express, 2012).

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Na foto acima: New Order ao vivo no Top of the Pops, em 1983. Foi a primeira aparição da banda no popular programa de hits musicais da TV inglesa. Conseguiram este feito graças à “Blue Monday”, um sucesso bastante incomum: uma canção de pouco mais de sete minutos (longa demais para os padrões das rádios), sem refrão, lançada em um single de capa negra que parecia um disquete de computador e que não tinha o nome da banda ou foto dos integrantes. Segundo o vocalista e guitarrista Bernard Sumner, esta música foi escrita porque eles odiavam dar bis ao vivo. Então, decidiram compor um tema no qual pudessem simplesmente apertar o “play” e que deixassem as máquinas tocando tudo sozinhos enquanto iam embora do palco.

Sem dúvida, não houve banda igual ao New Order na década de 80 (o epíteto preferido da imprensa era “a banda independente mais importante do planeta”). Eles não apenas não gostavam de dar bis ao vivo, como também não eram muito chegados em fazer shows e suas turnês nada mais eram que uma “série selecionada de concertos” (palavras do baterista Stephen Morris), geralmente em pequenas salas no interior da Inglaterra. Eles também não apareciam nas capas de seus discos (exceto uma vez), nem publicavam nos encartes as letras das canções, seus próprios nomes ou quais instrumentos tocavam. Os títulos das músicas não apareciam nas letras. Eles mesmos produziam seus álbuns e singles e tinham contrato com uma gravadora alternativa local, a mesma que lhes abriu as portas quando ainda eram Joy Division. Odiavam publicidade e autopromoção (disseram “quem faz isso são os outros, não nós” ). Raramente apareciam em seus videoclipes (em geral, pediam para que os diretores não incluíssem o grupo neles). Não davam entrevistas, nem faziam playback em programas de TV. Preferiam usar roupas comuns do dia-a-dia. Sua música era acessível para o público que só ouvia rádio e, mesmo assim, eram queridinhos das tribos alternativas e da crítica musical – algo que, já naquele tempo, era considerado absurdo ou impensável. Sim, o New Order era um fenômeno muito esquisito daquela década… Algo nada fácil de explicar.  Como um grupo tão insular, tão fuck-the-star-system, conseguiu produzir hits e ser, ao mesmo tempo, um ícone indie ?

O enigma New Order torna-se ainda mais intrigante quando nos damos conta de que aquele grupo que outrora soava sombrio, depressivo e atmosférico em sua primeira encarnação se transformou, segundo palavras do ex-baixista Peter Hook em uma entrevista dada ao The Observer, em uma “versão branca e nortista da música disco negra americana”. Mas a mudança de direção e de estilo não tem a ver apenas com os clubes e discotecas de Nova Iorque: foi ainda como Joy Division que rabiscaram os primeiros esboços de suas futuras extravagâncias eletrônicas. E o tino para melodias pop já corria em suas veias desde “Love Will Tear Us Apart”. Portanto, aqueles que enxergam no New Order uma “traição” da “pureza” e “integridade” do Joy Division certamente não conhecem a fundo nenhuma das duas bandas, que são como as duas faces de um mesmo ser. Como (corretamente) escreveu o jornalista Arthur Couto Duarte: “Joy Division e New Order são as fases cíclicas da mesma doença (…) com alívio, constatamos que o êxito comercial do New Order jamais desonrou a reputação do Joy Division”.

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Em 1985, outro jornalista, Pepe Escobar, escreveu apropriadamente para a revista Bizz “não se enganem com a aparência da Nova Ordem, nem com os truques sonoros de sua sala de espelhos”, já chamando a atenção para a “dupla identidade” da banda. Como bem descreveu outro jornalista, Luke Turner (Virgin Media), “não existem muitos grupos que conseguiram combinar bem arte e pop”. A essência do New Order é a dualidade: sua trajetória é marcada pela criação de uma zona intermediária entre o avant garde e o popular, o rock e a dance music, a música orgânica e a eletrônica. O mesmo Turner também escreveu “o New Order tem alguma coisa para todos os gostos”, mas se existe uma frase-síntese a respeito dessa banda singular e que pode ser considerada definitiva, ela foi dita (ou melhor, escrita) por David Blot: “THE TRUE PUNKS DO DANCE MUSIC”.

 

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