REVIEW | New Order, ao vivo no Teatro Caupolicán (Chile, 09.01.2019)

img_8213Após a rocambolesca história envolvendo problemas no translado de seu equipamento da Cidade do México até Santiago, eis que o New Order finalmente cumpriu, há exatamente uma semana, a promessa de repor o show cancelado no Chile em novembro do ano passado. De quebra, a banda ainda conseguiu encaixar na sequência uma data em Miami para viabilizar o retorno ao Novo Continente.

Mas o assunto aqui é o concerto em Santiago e, mais uma vez, a banda foi recebida pelos chilenos sobre o palco do Teatro Caupolicán, ex-Teatro Monumental. Com capacidade para 4.500 pessoas, o Caupolicán foi fundado em 1939 e desde o começo foi idealizado para abrigar importantes apresentações artísticas – e até mesmo desportivas. Já acolheu artistas muito distintos como Iron Maiden, Air Supply, Peter Frampton, NOFX, Duran Duran, Simply Red, The Prodigy e, é claro, New Order. Mas o estado bastante envelhecido de suas instalações contrasta com a beleza das fotos de divulgação postadas em seu site oficial…

Apesar do prazo para venda de ingressos ter sido estendido em função do adiamento do show, o New Order regressou ao Caupolicán sem que todas as entradas tivessem sido vendidas, o que não quer dizer que a banda tocou para um tatro vazio. Muito pelo contrário, aliás. Se não foi um concerto sold out, certamente chegaram bem perto disso. Todavia, os chilenos parecem gostar de chegar bem em cima da hora porque, em um piscar de olhos, o lugar passou de vazio a abarrotado poucos instantes antes do grupo pisar no palco. 

Com relação ao show, o New Order fez a espera valer a pena e apresentou ao público uma performance daquelas dificeis de se colocar defeito. Gillian Gilbert até tocou uma nota errada no solo de teclado de “Age of Consent” e Bernard Sumner foi Bernard Sumner ao substituir um verso de “Ceremony” por uma “bronca cantada” para o pessoal da iluminação (ele trocou “travel first and lean towards this time” por “turn the fucking light off quickly”), mas isso foi tudo em meio ao que poderíamos chamar de “falhas”. De resto, foi um show redondinho.

Apesar da reclamação de “Barney” sobre a luz, o set de iluminação e os vídeos exibidos nos telões de led de alta definição mostraram o quanto a banda conseguiu se desenvolver em termos de efeitos visuais, uma vez que antes da saída do baixista Peter Hook (em 2007) esse era um aspecto pouco valorizado pelo New Order. Se o vocalista não parecia tão contente assim com um foco de luz direto no seu rosto em “Ceremony”, por outro lado não escondia uma alegria genuína por estar ali diante daquela plateia. Nem ele, nem o guitarrista/tecladista Phil Cunnigham e o baixista atual, Tom Chapman. Os chilenos não puseram o Caupolicán abaixo de tanto pular e cantar por milagre, o que deixou o grupo muito descontraído e à vontade (é claro que não poderíamos chegar a essa conclusão se olhássemos apenas para uma estatuesca Gillian Gilbert, ou para um Stephen Morris quase que totalmente encoberto por sua bateria).

O som estava perfeito da primeira à última música, com os instrumentos soando equilbrados e muito bem separados uns dos outros; o set list foi acertado porque conseguiu balancear hits (apenas “Regret” ficou de fora), músicas mais recentes (foram cinco faixas do disco Music Complete, de 2015), favoritas dos fãs (como “Sub-Culture” e “Vanishing Point”), canções do Joy Division (no bis) e até uma surpresa (“World”, cuja última vez que havia sido tocada foi no Brasil, em 2014), tudo em duas horas e meia de show. Somando todos esses acertos, a apresentação beirou a perfeição.

Com o show encerrado e o Caupolicán ficando vazio, eu e um colega de New Order Brasil encontramos o Andy Robinson, um dos managers da banda, no curralzinho lá no fundo da pista onde ficam o engenheiro de som e chefe da iluminação. Eu disse a ele: “Andy, dentre os shows do New Order que eu tive a oportunidade de assistir, esse foi um dos melhores”. E ele respondeu: “Mas isso foi graças a vocês [o público]”.

Quanta modéstia!

SET LIST:
Singularity
Ceremony
Age of Consent
Crystal
Academic
Your Silent Face
Tutti Frutti
Sub-Culture
Bizarre Love Triangle
Vanishing Point
World (The Price of Love)
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Atmosphere (Joy Division – encore)
Decades (Joy Division – encore)
Love Will Tear Us Apart (Joy Division – encore)

P.S.: Sob a mesa controladora do chefe da iluminação havia um set list… Eu o puxei e perguntei se poderia ficar com ele. A resposta foi “sim”. De volta ao hotel, descobri que era o set list do show de Buenos Aires no ano passado! O que estava fazendo ali (já que o repertório em Santiago teve pequenas mudanças), sinceramente não sei…

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REVIEW | New Order ao vivo, Arena “Sabiazinho”, Uberlândia (30.12.2018)

IMG_7427Em sua sexta passagem pelo Brasil, o New Order incluiu na sua agenda de shows uma inesperada aterrissagem por Uberlândia, uma espécie de “capital” da região do Triângulo Mineiro. Com aproximadamente 683 mil habitantes (segundo estimativa do IBGE feita este ano), Uberlândia é uma cidade maior do que a terra natal da banda, Manchester (441 mil hab.), possui o terceiro maior IDH do estado Minas Gerais e o 23o maior PIB do país. Os números dão uma dimensão da importância do município mineiro, mesmo assim a cidade carece ainda de um histórico de shows internacionais que faça páreo com grandes capitais nacionais como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. Em todo caso, os uberlandenses devem sentir um certo orgulho por já terem conseguido recepcionar nomes de diferentes estilos como A-Ha, Shakira, Slash (ex-Guns N’ Roses), Simple Plan e, agora, o New Order.

Todavia, na ausência de uma casa de espetáculos apropriada para receber nomes internacionais (e nacionais também), o principal espaço para shows é o “Sabiazinho”, apelido simpático do ginásio poliesportivo local que atende verdadeiramente pelo nome Arena Multiuso Presidente Tancredo Neves. Apesar da determinação (e do êxito) de colocarem Uberlândia no radar do management do New Order, os produtores locais certamente sabiam de que se tratava de uma aposta de risco e, por essa razão, reservaram para o show apenas metade do ginásio, reduzindo a capacidade do mesmo de 8 para 4 mil pessoas. Um decisão acertada, aliás. O público presente não chegou a lotar o lugar e se tivessem usado o ginásio por inteiro a banda tocaria mais para grandes bolsões de espaços vazios.

A plateia era predominantemente mais velha, formada em geral por quarentões e cinquentões, uma turma que certamente conheceu o New Order em seu auge na década de 1980. Essa é uma observação importante. Quem já assistiu a banda ao vivo em São Paulo (cidade na qual tocaram em todas as seis ocasiões em que estiveram aqui) deve ter notado que lá a presença de jovens de vinte e poucos anos (ou menos), vestidos com camisetas do Joy Division, sempre foi grande, chegando a rivalizar, pelo menos em quantidade, com os “tiozinhos”. Pelo visto, o público do New Order em Uberlândia não passou pela renovação que se vê nas grandes metrópoles (o que não é uma crítica, mas, sim, uma constatação).

Mas e o show? Em geral, foi uma performance com muitas virtudes, mas com alguns “pecados” aqui e ali também. Aliás, se não fosse assim, não seria New Order, é claro. Devido às dimensões reduzidas do palco, o set de iluminação e a disposição das telas de led ao fundo tiveram que sofrer mudanças e adaptações. Todavia, isso não chegou a produzir grande impacto nos efeitos visuais, que terminaram sendo um destaque à parte (nesse aspecto, a banda evoluiu bastante de 2011 para cá). Com relação ao som, este estava bastante desequilibrado no primeiro terço do show, com a guitarra do vocalista Bernard Sumner muito mais alta que a de Phil Cunningham (que também toca teclados e percussão eletrônica), enquanto que o baixo de Tom Chapman e o sintetizador de Gillian Gilbert pareciam mais atrás dos demais instrumentos em algumas músicas.

Esse primeiro bloco, formado basicamente por canções que tinham uma “pegada” mais rock, foi bastante “morno” na verdade. Apesar de alguns picos de calor, em “Regret” e “Crystal”, a banda não parecia tão entusiasmada (com exceção de Tom Chapman, cada vez mais à vontade no posto que outrora pertenceu a Peter Hook) e a reação do público, em geral, não chegou a ser explosiva. Entretanto, após “Your Silent Face”, um novo show parecia ter começado. “Tutti Frutti”, single do último álbum do New Order, Music Complete (2015), inaugurou o bloco mais eletrônico e dance e daí em diante o clima esquentou de vez e em todos os sentidos. O som melhorou, ficando mais bem balanceado, o público vibrou com muito mais intensidade e a banda (principalmente Sumner) ficou visivelmente mais descontraída e envolvida com a plateia (mas sempre no limite do habitual estilo low profile do grupo). Músicas que passaram anos fora do set list dos shows, como “Sub-Culture” e “Vanishing Point”, emocionaram; os mega-sucessos “Bizarre Love Triangle”, “True Faith” e “Blue Monday” transformaram o ginásio em um enorme salão de baile; a obrigatória “Temptation” fechou o set com louvor.

Se o show tivesse terminado ali já teria sido suficiente para ser considerado “histórico” em Uberlândia, mas ainda havia mais. O New Order reservou o bis para celebrar sua “primeira encarnação” – a banda tocou três canções do Joy Division, levando muita gente às lágrimas (de regozijo, vale ressaltar). Foram elas “Atmosphere” (mas aqui novamente o teclado de Gillian Gilbert parecia ter desaparecido em meio ao som dos demais instrumentos), “Decades” e, finalmente, a apoteótica “Love Will Tear Us Apart”. Balanço final: um set list adequado que trouxe todos os hits que a banda teve no Brasil, músicas novas, favoritas do público e clássicos do Joy Division, ou seja, 40 anos de história bem condensados em duas horas (20 músicas no total). Há quem diga, no entanto, que o New Order de hoje em dia é um grupo acomodado porque prefere se manter seguro na zona de conforto que conquistou. Mas é assim desse jeito que eles conseguem entrar em campo com o jogo ganho – e o público só tem a agradecer.

SET LIST:
Singularity
Regret
Age of Consent
Restless
Crystal
Academic
Your Silent Face
Tutti Frutti
Sub-Culture
Bizarre Love Triangle
Vanishing Point
Waiting for the Sirens’ Call
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Atmosphere (encore)
Decades (encore)
Love Will Tear Us Apart (encore)

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REVIEW | Peter Hook & The Light ao vivo no Audio Club, SP (10.10.2018)

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Foto: Yuri Murakami (Music Drops)

Num bar bem próximo ao Audio Club, em São Paulo, algumas horas antes do show do Peter Hook & The Light, um grupo de fãs que dividia uma mesa havia chegado a uma melancólica conclusão: que fazer ininterruptas turnês pelo mundo tocando os velhos sucessos em palcos minúsculos e para pequenas audiências era algo um tanto quanto deprimente para quem havia feito parte de uma banda que outrora foi sinônimo de vanguarda.

Provavelmente muitas pessoas pelo mundo afora compartilham esse mesmo sentimento. Mas basta Peter Hook entrar em cena e começar a palhetar seu baixo (sempre colocado à altura dos joelhos) para esse lamento desaparecer. Como já dissemos aqui no blog em ocasiões anteriores, Hook conhece bem as armas que tem e sabe usá-las com destreza. Ele tem carisma e presença de palco, o que faz com que boa parte da plateia nem se incomode tanto com o fato de que seus vocais são sofríveis e que, ainda por cima, ele não consegue tocar baixo e cantar ao mesmo tempo (coube a Yves Altana a tarefa de dar aquele par extra de mãos nas quatro cordas). Além disso, ao contrário da versão atual de sua ex-banda, ele oferece ao público porções bem mais generosas de clássicos do Joy Division, para o delírio de uma nova geração de fãs que surgiu no rastro do revival em torno do grupo nas últimas décadas. E de quebra suas turnês vêm percorrendo quase a totalidade do extenso catálogo que ele ajudou a construir ao longo de trinta anos. Em outras palavras: Hook é o sujeito que costuma entrar em campo com o jogo já ganho.

Mas no palco do Audio o que se viu ao longo de duas horas e meia de performance foi uma apresentação com vários altos e baixos. Comecemos pela sonorização: no set de abertura, totalmente dedicado ao Joy Division, o som estava tinindo e “no talo”; mas foi só entrar no repertório do New Order, mais eletrônico e cheio de camadas, que os problemas aqui e ali começaram a aparecer. Embora os baixos elétricos de Hook e Altana soassem bem potentes, os grooves eletrônicos de certas faixas eram praticamente inaudíveis. Em “Fine Time” e “All the Way”, por exemplo, algumas linhas de teclado também soavam muito baixas. Uma bela versão de “Run” foi lamentavelmente prejudicada em seus instantes finais por um apagão (literalmente falando) no sintetizador do tecladista Martin Rebelski. No bis – estelar – as coisas pareciam mais bem equilibradas novamente nesse aspecto, para sorte do público (que, diga-se de passagem, não lotou a casa).

Com relação à parte musical, havia chegado a vez de Peter Hook revisitar em solo brasileiro os álbuns Technique (1989) e Republic (1993). De um lado, um disco que muitos consideram a obra-prima do New Order e que veio a ser o último lançado pela banda na gravadora Factory; de outro, um LP bem sucedido comercialmente, puxado por um single poderoso, mas que contém um repertório bastante irregular em termos de qualidade.  Ao vivo, Hook e sua banda até que se esforçaram para oferecer à plateia uma versão de Technique digna do seu sucesso e de sua importânciamas poucos foram os momentos de brilho no bloco dedicado ao álbum. Dentre eles, “Round and Round”, “Vanishing Point” e “Dream Attack”.

Curiosamente, o disco mais fraco – Republic – ganhou do The Light uma interpretação mais competente que seu badalado antecessor. Entretanto muitos nem perceberam. Durante o bloco de canções do disco muita gente saiu da pista e foi para o bar ou simplesmente ficou perambulando pela casa, tirando selfies e jogando conversa fora. Uma versão pouco animada do clássico “Regret” (que abriu essa terceira parte do show) pode ter plantado uma semente de dúvida no público. Todavia, quem não arredou o pé curtiu boas e bem executadas versões de “World”, “Spooky”, “Young Offender”, “Liar” e “Times Change”. A decepção foi “Avalanche”, faixa que encerra Republic: em vez de tocada ao vivo, teve sua versão original de estúdio lançada no P.A. para servir de pausa para respirar antes da apoteótica encore.

No bis, “Hooky” e o The Light voltaram ao palco com sangue nos olhos. “Blue Monday”, mesmo com seu groove soando baixo, fez a pista lotar novamente. E o que rolou em seguida foi um bailão daqueles: “Ceremony”, “Temptation”, “True Faith” e, como gran finale, “Love Will Tear Us Apart”.

Considerando os resultados desiguais entre as canções dos álbuns tocados na íntegra (desta tour e, também, das outras anteriores), o ideal seria que Peter Hook e seus colegas do The Light fizessem um show só de canções escolhidas a dedo, como costumam fazer no set abertura dedicado ao Joy Division e nas encores. Isso resultaria num concerto bem mais equilibrado e sem o risco de ter a pista esvaziada em alguns momentos. Afinal, convenhamos: será que o público estaria mesmo interessado em ouvir, na próxima turnê, o disco Waiting for the Sirens’ Call da primeira à última faixa?

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REVIEW | “New Order’s Technique & Republic Live in London” (Peter Hook and The Light)

largeAcaba de sair pelo selo Live Here Now (e através da plataforma direct to fan Pledge Music) uma amostra do que está para vir na quarta-feira próxima, dia 10 de outubro, no palco do Audio, em São Paulo: New Order’s Technique & Republic Live in London, o novo CD (triplo) de Peter Hook e seus fiéis escudeiros do The Light, e cujo repertório cobre, na íntegra, os dois LP’s de sua ex-banda que atingiram o topo da parada de álbuns na Inglaterra em 1989 e 1993, respectivamente, além de um set só de músicas de outro antigo grupo seu, um certo Joy Division.

O disco e a subjacente turnê que já está percorrendo a América Latina (Hook toca amanhã em Buenos Aires) representam mais uma etapa do projeto iniciado pelo baixista em 2010, que é o de tocar ao vivo todos os álbuns e singles já lançados pelo Joy Division e pelo New Order e em ordem cronológica. Agora chegou a vez de Technique Republic, além de compactos como “World in Motion”. O show que acabou de sair em CD foi gravado no Electric Ballroom, em Candem Town (arredores de Londres) no dia 28 de setembro deste ano. Como de costume, a qualidade da gravação produzida pela equipe da Live Here Now é impecável – e se mantém dentro do atual “conceito” de registros ao vivo que soam quase como se fossem gravações de estúdio. Entretanto, o som excessivamente limpo, destituído daquela “sujeira” natural típica de um concerto ao vivo – os urros da plateia, reverberações, ecos etc. – pode às vezes colocar em relevo aquilo que seria preferível não se ouvir direito, que pode ser um grave sem muita potência (um dos grandes males de quase todos os discos ao vivo do The Light) ou os vocais sofríveis de Peter Hook.

Com relação a esse segundo quesito, vale dizer que até não foi uma má ideia convocar o guitarrista David Potts para dar um reforço extra em muitas músicas – e, convenhamos, tal estratégia foi a salvação em algumas faixas. Mas na maioria das vezes o intento não logra êxito e Potts, cujo timbre vocal é mais semelhante ao de Bernard Sumner (vocalista e guitarrista do New Order) que o de Hook, não consegue resolver a parada. “Regret” sem a voz (ainda que sem brilho e já bastante cansada) de Sumner definitivamente não funciona. O baixista parece não ter feito direito os seus cálculos e desconsiderou que Technique Republic talvez sejam os discos do New Order cujas as músicas mais teriam sido especialmente projetadas para se adequarem ao tom de Bernard (uma preocupação virtualmente inexistente em LP’s anteriores). E uma vez que a banda optou por não mexer muito nos arranjos, temos aquela incômoda sensação de que alguem está tentando fazer peças quadradas passarem através de buracos redondos.

Com relação aos aspectos estritamente musicais, temos altos e baixos ao longo do disco. Mas tais oscilações pouco têm a ver com as recentes mudanças na formação do The Light. Nos teclados, a vaga de Andy Poole (que estava na banda desde 2010) foi preenchida por Martin Rebelski (ex-Doves); no segundo baixo, Yves Altana substitui Jack Bates, filho de Hook, que por ora está a prestar serviços ao Smashing Pumpkins. O set de abertura do show, composto só de músicas do Joy Division, desce redondo – sendo esse o material mais exaustivamente tocado por Peter Hook e o The Light ao longo desses últimos oito anos (fora o extra de que o timbre grave da voz do baixista se encaixa melhor no repertório do JD), não existem ressalvas a serem feitas aqui. Ao todo são três pedradas punk (“No Love Lost”, “Warsaw” e “Leaders of Men”), “Digital” e seu interminável refrão, a soturna “Autosuggestion” e a clássica “Transmission”. Um começo de show desses faz “Fine Time”, de Technique, parecer um anticlímax, sobretudo porque a versão do The Light nos faz ter a estranha sensação de que falta algo… Stephen Morris, talvez? Ou Bernard Sumner emulando Barry White com a ajuda do vocoder?

“Fine Time” realmente soa aqui como prenúncio da destruição de um álbum clássico, mas a sequência formada por “All the Way”, “Loveless” e “Round and Round” consegue apagar temporariamente a má impressão inicial, com destaque para a última. Infelizmente, o crescendo é interrompido por fracas versões de “Guilty Partner” e “Run”. Todavia, Hook e sua banda conseguem se recuperar com boas execuções de “Mr. Disco”, “Vanishing Point” e “Dream Attack”. Apesar de uma competente sequência final, a versão para os palcos da maior obra-prima do New Order passa longe da apoteose que o público espera.

Por incrível que pareça, Republic, considerado um disco inferior e desequilibrado, se saiu melhor nesse registro ao vivo que seu gabaritado antecessor. Como dissemos anteriormente, esqueça a versão do The Light para “Regret”. Por outro lado, os ouvintes se surpreenderão com ótimas interpretações de singles como “World” e “Spooky”, ou de faixas menos badaladas como “Young Offender” e “Times Change” (o único rap já gravado pelo New Order); “Liar” surpreendentemente soa aqui muito melhor que a gravação original; já “Ruined in a Day”, que ganhou um belíssimo arranjo que mesclou partes de versão original com trechos do (excelente) remix feito pela dupla K-Klass em 1993, perdeu alguns pontos por causa de uma constrangedora atuação de Hook como vocalista (para variar…); e misteriosamente a performance de Republic se encerra com uma decente execução de “Special”, já que inexplicavelmente o tema instrumental “Avalanche”, que conclui a versão de estúdio do álbum, ficou de fora do tracklist (a presente resenha foi feita a partir de uma versão para download adquirida oficialmente no site da Pledge Music).

Já as músicas do bis – aquelas escolhidas a dedo para todo mundo cantar junto – não ficaram fora do disco, é claro: “World in Motion”, “Blue Monday”, “Temptation” e “Love Will Tear Us Apart” (Joy Division) fazem o gran finale. Com uma sequência dessas quase é possível esquecer os tropeços encontrados aqui e ali ao longo desse New Order’s Technique & Republic Live in London. Para os fãs mais viscerais é um item que muito provavelmente não poderá faltar na coleção. Já para os não tão obcecados assim, é certo de que não deve suscitar grande procura. Afinal, para o público médio interessa muito mais ver Peter Hook em ação no palco – com toda a força de seu carisma –  do que ouvi-lo em um CD ao vivo. E ele saciará essa nossa necessidade mais uma vez na quarta-feira. Até lá.

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REVIEW | “New Order: Decades”, um documentário com poucas surpresas

no-920x584No dia 22 de setembro, o canal Sky Arts exibiu na Inglaterra o documentário New Order: Decades. Dirigido por Mike Christie (um premiado diretor de documentários para TV paga) e produzido pela Caravan Productions especialmente para o canal, Decades explora o processo de criação do show So It Goes – uma série de cinco concertos produzidos originalmente para a edição do ano passado do Festival Internacional de Manchester através de uma parceria entre o New Order, o maestro Joe Duddell e o artista visual Liam Gillick e que foram reapresentados em versão levemente estendida em Turim (Itália) e Viena (Áustria) em maio deste ano. O conceito original por trás de So It Goes era o seguinte: o New Order apresentaria em um palco especialmente desenhado (e construído nos antigos estúdios da Granada TV) doze canções de seu vasto catálogo escolhidas dentre aquelas raramente tocadas ao vivo (hits como “Blue Monday” ficariam de fora), na companhia de uma “orquestra de sintetizadores” formada por doze estudantes da Royal Northern School of Music (regidos por Duddell) e com efeitos visuais projetados por Gillick. Além de falar do processo criativo colaborativo, Decades perpassa também um pouco da história da banda e traz algumas performances registradas em Viena.

A escolha dos estúdios da extinta Granada TV (uma emissora de televisão sediada em Manchester) para a realização dos cinco concertos originais não foi aleatória. Naquele mesmíssimo local a banda, ainda como Joy Division, fez sua primeira aparição na tevê. Foi no programa Granada Reports, apresentado pelo repórter televisivo Tony Wilson (1950-2007), em 20 de setembro de 1978. Mais tarde Wilson os assinaria com sua gravadora, a Factory Records – e o resto é história. O documentário começa seis semanas antes do primeiro concerto, com a banda voltando às instalações da Granada TV e contando como tudo aconteceu naquele já longínquo setembro de 78. Há, inclusive, uma cena inusitada: nas paredes dos estúdios se lê “Love Will Tear Us Apart, September 20 1978, Joy Division TV debut”, mas o vocalista e guitarrista do New Order, Bernard Sumner, adverte que existe um erro ali – e com a palavra passada ao baterista Stephen Morris, o público descobre que, em vez de “Love Will Tear Us Apart”, foi “Shadowplay” o tema tocado pelo JD em sua estreia na televisão.

Mas isso não chega a ser novidade alguma para fãs de longa data (inclusive o vídeo está disponível no You Tube). Aliás, toda vez que Decades revisita a biografia da banda praticamente nada é acrescentado ao que já se sabe sobre o New Order. De inédito mesmo temos maiores explicações de como o show foi desenvolvido em termos técnico-musicais. Cada uma das canções escolhidas foi “desmontada”, com a devida separação de suas micropartes, e estas foram rearranjadas por Duddell para que pudessem ser tocadas, cada uma, exclusivamente por um único músico. O resultado foi o seguinte: partes originalmente sequenciadas ou programadas seriam executadas 100% ao vivo. Isso mesmo: no sequencers. Além disso, foi ideia de Sumner a construção de uma estrutura atrás da banda para abrigar a “orquestra de sintetizadores” que lembrasse uma parede e, dessa forma, evocar a ideia de um wall of sound. Esses detalhes são, pelo menos para o fã mais geek, preciosos, assim como as cenas de ensaios, com destaque para uma filmada em Cheshire, no estúdio caseiro de Morris, e na qual o New Order toca uma vibrante versão de “Disorder”, do Joy Division.

Mas o que dá água na boca mesmo são cinco performances completas registradas no Museums Quartier, em Viena, durante o Wien Festwochen 2018: “Plastic”, “Sub-Culture”, “Bizarre Love Triangle”, “Your Silent Face” e “Decades” (Joy Division). Dito de outra forma, o melhor de Decades é quando as palavras são deixadas temporariamente de lado para dar lugar à ação. Com essas amostras é possível vislumbrar como tudo funciona (bem) na prática. O problema é que quando se chega ao final de Decades é impossível não ficar com a sensação de que teria sido bem melhor se a produção fosse um film concert com o show completo em vez de um documentário com poucas surpresas. Todavia, não há informações sobre um eventual lançamento da íntegra do concerto, nem a respeito de quando a Sky pretende exibir o documentário para seus assinantes no Brasil.

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REVIEW | “AfterParty” (ShadowParty remix EP)

027ede03106bab00c49dd3a889b5b371No embalo de uma mini-turnê compreendida entre os dias 08 e 15 de setembro, o ShadowParty, banda / projeto paralelo de integrantes do New Order (Phil Cunningham e Tom Chapman) e do Devo (Josh Hager e Jeff Friedl), lançou recentemente nos formatos streaming e digital download um EP chamado AfterParty que contém remixes de duas faixas de seu álbum de estreia lançado em julho deste ano: “Reverse the Curse” e “Present Tense”.

O lançamento foi puxado por uma premiére do remix que Gillian Gilbert e Stephen Morris, do New Order, fizeram para “Reverse the Curse” assinando como The Other Two (projeto paralelo de Gilbert e Morris nascido nos anos 1990). A divulgação em primeira mão do remix do The Other Two foi feita pela Clash Magazine em seu site na última sexta-feira, dia 07 de setembro. Recentemente, a dupla falou de sua colaboração com o ShadowParty em entrevista concedida durante o Festival N6, em Portmeirion.

Em uma primeira e apressada audição, o remix não impressionou muito, não. Todavia, a remistura do The Other Two cresce a cada nova tentativa. Mas quem acertou a mão mesmo em “Reverse the Curse” foi o A Certain Ratio – em vez de um remix propriamente dito, a banda gravou um arranjo totalmente novo, com destaque para a bateria cheia de swing de Donald “Dojo” Johnson. O problema é que quando entram os vocais de Denise Johnson (irmã de Donald, vocalista do ACR e convidada especial no álbum do ShadowParty) parece que estamos ouvindo, na verdade, um novo (e ótimo) single do A Certain Ratio.

Já o último dos três remixes de “Reverse the Curse” é de autoria de Derek Miller, produtor e DJ conhecido também pela alcunha Outernationale – e que já lançou um bom EP de regravações e remixes de músicas do Joy Division chamado Atmosphere lançado pela Haçienda Records (gravadora de propriedade de Peter Hook) e que conta com Paul Haig (ex-Josef K) nos vocais. Mas voltando ao remix… a releitura de Miller / Outernationale é tão recomendável quanto seu EP-tributo ao JD.

Sobre os dois remixes de “Present Tense” em AfterParty… O primeiro, que atende pelo nome “Stereotype Remix”, é feito sob medida para embalos de sábado à noite, sendo, portanto, o mais dançante entre todos do EP. Todavia, é o remix mais “comum” e no qual transbordam os clichês das pistas. A outra versão, que atende por “Beg, Steal or Borrow Remix”, segue uma linha muito próxima, mas tem um clima  mais “viajante” e, por essa razão, oferece uma perspectiva um pouco melhor.

O saldo geral é bastante positivo. Não é nada com pinta de alta rotação no smartphone, entretanto AfterParty nos arranca mais sorrisos de aprovação do que o álbum epônimo de estreia. O que em outras palavras quer dizer que, neste caso, os remixes funcionam melhor que as versões originais. Vale destacar que não há previsão de lançamento do EP em um versão física. Talvez nem precise.

Ouça o EP completo no Spotify.

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REVIEW |CD de estreia do ShadowParty (New Order + Devo)

SharedImage-81403O que acontece quando bandas veteranas e bem sucedidas resolvem dar um break nas suas atividades? A resposta é simples: seus integrantes continuam produzindo música e fazendo shows em projetos solo ou em parceria com outros músicos.

É bem esse o caso dessa turma que se juntou para formar um novo grupo. Phil Cunningham (guitarra, teclados) e Tom Chapman (baixo), ambos do New Order, resolveram unir forças com Josh Hager (guitarra, teclados) e Jeff Friedl (bateria), que tocam no Devo. Dessa união nasceu o ShadowParty. Em comum entre as duas duplas está o fato de serem incorporações recentes em suas respectivas bandas (se bem que, no caso de Cunningham, lá se vão dezessete anos com o New Order, primeiro como músico contratado e, depois, como membro efetivo).

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Se você espera que o som do ShadowParty seja uma mistura de New Order com Devo, é melhor deixar para lá tal expectativa. Se por um lado a banda compartilha com essas formações das antigas o gosto pela mistura entre rock e música eletrônica, cabe dizer que o ShadowParty, musicalmente falando, está mais para o N.O. do que para o Devo. Aliás, a sombra do New Order paira sobre o auto-intitulado álbum de estreia de diversas maneiras. O disco (cuja versão em vinil tem uma “capa-raspadinha” que esconde uma mensagem em código) acaba de ser lançada pela Mute Records, atual etiqueta do combo de Manchester. E não para por aí: na lista de convidados especiais, temos a cantora Denise Johnson (A Certain Ratio, Primal Scream) e o maestro e arranjador Joe Duddell, e ambos ostentam currículos como colaboradores do New Order.

Outra presença ilustre no disco – e que nada tem a ver com o New Order desta vez – é o guitarrista Nick McCabe, ex-The Verve. Cabe aqui deixar bem claro que McCabe não faz parte oficialmente do ShadowParty, entretanto a imprensa gringa vem escrevendo sobre eles como se fossem um “supergrupo” formado por músicos do Devo, do New Order e, também, do Verve, o que, além de incorreto, parece coisa de jornalismo marrom.

E o disco? É bom? A mesma imprensa lá de fora vem fazendo elogios ao álbum. De nossa parte aqui do blog, o que temos a dizer é: não está com essa bola toda, não. É um disco bastante irregular e desequilibrado. As faixas “Celebrate” e “Present Tense” até foram escolhas acertadas para singles, mas fora essas duas é bem difícil pinçar uma terceira que cumpra bem esse papel. Há bons momentos aqui e ali, como em “Reverse the Curve”, “Vowel Movement” e “The Valley”; medianos como “Sooner or Later”; descartáveis como “Truth” e “Taking Over”; e sonolentos como “Marigold” e “Even So”.

Mas, no geral, a estreia do ShadowParty pode ser classificada como “esquecível”. É um daqueles álbuns que você ouve umas três ou quatro vezes no máximo e depois deixa para lá. Até vale alguma coisa como um descompromissado exercício de férias para o quarteto, mas não é nada que deva de fato ser levado a sério – pelo menos não em termos de uma carreira duradoura. Se bem que, no caso de Chapman e Cunningham, as férias nem estão sendo tão longas assim. Neste mês o New Order está excursionando pelos EUA e em novembro eles aterrissam de novo na América do Sul.