REVIEW | “New Order: Decades”, um documentário com poucas surpresas

no-920x584No dia 22 de setembro, o canal Sky Arts exibiu na Inglaterra o documentário New Order: Decades. Dirigido por Mike Christie (um premiado diretor de documentários para TV paga) e produzido pela Caravan Productions especialmente para o canal, Decades explora o processo de criação do show So It Goes – uma série de cinco concertos produzidos originalmente para a edição do ano passado do Festival Internacional de Manchester através de uma parceria entre o New Order, o maestro Joe Duddell e o artista visual Liam Gillick e que foram reapresentados em versão levemente estendida em Turim (Itália) e Viena (Áustria) em maio deste ano. O conceito original por trás de So It Goes era o seguinte: o New Order apresentaria em um palco especialmente desenhado (e construído nos antigos estúdios da Granada TV) doze canções de seu vasto catálogo escolhidas dentre aquelas raramente tocadas ao vivo (hits como “Blue Monday” ficariam de fora), na companhia de uma “orquestra de sintetizadores” formada por doze estudantes da Royal Northern School of Music (regidos por Duddell) e com efeitos visuais projetados por Gillick. Além de falar do processo criativo colaborativo, Decades perpassa também um pouco da história da banda e traz algumas performances registradas em Viena.

A escolha dos estúdios da extinta Granada TV (uma emissora de televisão sediada em Manchester) para a realização dos cinco concertos originais não foi aleatória. Naquele mesmíssimo local a banda, ainda como Joy Division, fez sua primeira aparição na tevê. Foi no programa Granada Reports, apresentado pelo repórter televisivo Tony Wilson (1950-2007), em 20 de setembro de 1978. Mais tarde Wilson os assinaria com sua gravadora, a Factory Records – e o resto é história. O documentário começa seis semanas antes do primeiro concerto, com a banda voltando às instalações da Granada TV e contando como tudo aconteceu naquele já longínquo setembro de 78. Há, inclusive, uma cena inusitada: nas paredes dos estúdios se lê “Love Will Tear Us Apart, September 20 1978, Joy Division TV debut”, mas o vocalista e guitarrista do New Order, Bernard Sumner, adverte que existe um erro ali – e com a palavra passada ao baterista Stephen Morris, o público descobre que, em vez de “Love Will Tear Us Apart”, foi “Shadowplay” o tema tocado pelo JD em sua estreia na televisão.

Mas isso não chega a ser novidade alguma para fãs de longa data (inclusive o vídeo está disponível no You Tube). Aliás, toda vez que Decades revisita a biografia da banda praticamente nada é acrescentado ao que já se sabe sobre o New Order. De inédito mesmo temos maiores explicações de como o show foi desenvolvido em termos técnico-musicais. Cada uma das canções escolhidas foi “desmontada”, com a devida separação de suas micropartes, e estas foram rearranjadas por Duddell para que pudessem ser tocadas, cada uma, exclusivamente por um único músico. O resultado foi o seguinte: partes originalmente sequenciadas ou programadas seriam executadas 100% ao vivo. Isso mesmo: no sequencers. Além disso, foi ideia de Sumner a construção de uma estrutura atrás da banda para abrigar a “orquestra de sintetizadores” que lembrasse uma parede e, dessa forma, evocar a ideia de um wall of sound. Esses detalhes são, pelo menos para o fã mais geek, preciosos, assim como as cenas de ensaios, com destaque para uma filmada em Cheshire, no estúdio caseiro de Morris, e na qual o New Order toca uma vibrante versão de “Disorder”, do Joy Division.

Mas o que dá água na boca mesmo são cinco performances completas registradas no Museums Quartier, em Viena, durante o Wien Festwochen 2018: “Plastic”, “Sub-Culture”, “Bizarre Love Triangle”, “Your Silent Face” e “Decades” (Joy Division). Dito de outra forma, o melhor de Decades é quando as palavras são deixadas temporariamente de lado para dar lugar à ação. Com essas amostras é possível vislumbrar como tudo funciona (bem) na prática. O problema é que quando se chega ao final de Decades é impossível não ficar com a sensação de que teria sido bem melhor se a produção fosse um film concert com o show completo em vez de um documentário com poucas surpresas. Todavia, não há informações sobre um eventual lançamento da íntegra do concerto, nem a respeito de quando a Sky pretende exibir o documentário para seus assinantes no Brasil.

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REVIEW | “AfterParty” (ShadowParty remix EP)

027ede03106bab00c49dd3a889b5b371No embalo de uma mini-turnê compreendida entre os dias 08 e 15 de setembro, o ShadowParty, banda / projeto paralelo de integrantes do New Order (Phil Cunningham e Tom Chapman) e do Devo (Josh Hager e Jeff Friedl), lançou recentemente nos formatos streaming e digital download um EP chamado AfterParty que contém remixes de duas faixas de seu álbum de estreia lançado em julho deste ano: “Reverse the Curse” e “Present Tense”.

O lançamento foi puxado por uma premiére do remix que Gillian Gilbert e Stephen Morris, do New Order, fizeram para “Reverse the Curse” assinando como The Other Two (projeto paralelo de Gilbert e Morris nascido nos anos 1990). A divulgação em primeira mão do remix do The Other Two foi feita pela Clash Magazine em seu site na última sexta-feira, dia 07 de setembro. Recentemente, a dupla falou de sua colaboração com o ShadowParty em entrevista concedida durante o Festival N6, em Portmeirion.

Em uma primeira e apressada audição, o remix não impressionou muito, não. Todavia, a remistura do The Other Two cresce a cada nova tentativa. Mas quem acertou a mão mesmo em “Reverse the Curse” foi o A Certain Ratio – em vez de um remix propriamente dito, a banda gravou um arranjo totalmente novo, com destaque para a bateria cheia de swing de Donald “Dojo” Johnson. O problema é que quando entram os vocais de Denise Johnson (irmã de Donald, vocalista do ACR e convidada especial no álbum do ShadowParty) parece que estamos ouvindo, na verdade, um novo (e ótimo) single do A Certain Ratio.

Já o último dos três remixes de “Reverse the Curse” é de autoria de Derek Miller, produtor e DJ conhecido também pela alcunha Outernationale – e que já lançou um bom EP de regravações e remixes de músicas do Joy Division chamado Atmosphere lançado pela Haçienda Records (gravadora de propriedade de Peter Hook) e que conta com Paul Haig (ex-Josef K) nos vocais. Mas voltando ao remix… a releitura de Miller / Outernationale é tão recomendável quanto seu EP-tributo ao JD.

Sobre os dois remixes de “Present Tense” em AfterParty… O primeiro, que atende pelo nome “Stereotype Remix”, é feito sob medida para embalos de sábado à noite, sendo, portanto, o mais dançante entre todos do EP. Todavia, é o remix mais “comum” e no qual transbordam os clichês das pistas. A outra versão, que atende por “Beg, Steal or Borrow Remix”, segue uma linha muito próxima, mas tem um clima  mais “viajante” e, por essa razão, oferece uma perspectiva um pouco melhor.

O saldo geral é bastante positivo. Não é nada com pinta de alta rotação no smartphone, entretanto AfterParty nos arranca mais sorrisos de aprovação do que o álbum epônimo de estreia. O que em outras palavras quer dizer que, neste caso, os remixes funcionam melhor que as versões originais. Vale destacar que não há previsão de lançamento do EP em um versão física. Talvez nem precise.

Ouça o EP completo no Spotify.

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REVIEW |CD de estreia do ShadowParty (New Order + Devo)

SharedImage-81403O que acontece quando bandas veteranas e bem sucedidas resolvem dar um break nas suas atividades? A resposta é simples: seus integrantes continuam produzindo música e fazendo shows em projetos solo ou em parceria com outros músicos.

É bem esse o caso dessa turma que se juntou para formar um novo grupo. Phil Cunningham (guitarra, teclados) e Tom Chapman (baixo), ambos do New Order, resolveram unir forças com Josh Hager (guitarra, teclados) e Jeff Friedl (bateria), que tocam no Devo. Dessa união nasceu o ShadowParty. Em comum entre as duas duplas está o fato de serem incorporações recentes em suas respectivas bandas (se bem que, no caso de Cunningham, lá se vão dezessete anos com o New Order, primeiro como músico contratado e, depois, como membro efetivo).

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Se você espera que o som do ShadowParty seja uma mistura de New Order com Devo, é melhor deixar para lá tal expectativa. Se por um lado a banda compartilha com essas formações das antigas o gosto pela mistura entre rock e música eletrônica, cabe dizer que o ShadowParty, musicalmente falando, está mais para o N.O. do que para o Devo. Aliás, a sombra do New Order paira sobre o auto-intitulado álbum de estreia de diversas maneiras. O disco (cuja versão em vinil tem uma “capa-raspadinha” que esconde uma mensagem em código) acaba de ser lançada pela Mute Records, atual etiqueta do combo de Manchester. E não para por aí: na lista de convidados especiais, temos a cantora Denise Johnson (A Certain Ratio, Primal Scream) e o maestro e arranjador Joe Duddell, e ambos ostentam currículos como colaboradores do New Order.

Outra presença ilustre no disco – e que nada tem a ver com o New Order desta vez – é o guitarrista Nick McCabe, ex-The Verve. Cabe aqui deixar bem claro que McCabe não faz parte oficialmente do ShadowParty, entretanto a imprensa gringa vem escrevendo sobre eles como se fossem um “supergrupo” formado por músicos do Devo, do New Order e, também, do Verve, o que, além de incorreto, parece coisa de jornalismo marrom.

E o disco? É bom? A mesma imprensa lá de fora vem fazendo elogios ao álbum. De nossa parte aqui do blog, o que temos a dizer é: não está com essa bola toda, não. É um disco bastante irregular e desequilibrado. As faixas “Celebrate” e “Present Tense” até foram escolhas acertadas para singles, mas fora essas duas é bem difícil pinçar uma terceira que cumpra bem esse papel. Há bons momentos aqui e ali, como em “Reverse the Curve”, “Vowel Movement” e “The Valley”; medianos como “Sooner or Later”; descartáveis como “Truth” e “Taking Over”; e sonolentos como “Marigold” e “Even So”.

Mas, no geral, a estreia do ShadowParty pode ser classificada como “esquecível”. É um daqueles álbuns que você ouve umas três ou quatro vezes no máximo e depois deixa para lá. Até vale alguma coisa como um descompromissado exercício de férias para o quarteto, mas não é nada que deva de fato ser levado a sério – pelo menos não em termos de uma carreira duradoura. Se bem que, no caso de Chapman e Cunningham, as férias nem estão sendo tão longas assim. Neste mês o New Order está excursionando pelos EUA e em novembro eles aterrissam de novo na América do Sul.

 

REVIEW | Avaliamos “NOMC15”, o novo ao vivo do New Order

C6z6n2VWcAYX3reAntes de mais nada, alguns esclarecimentos. Originalmente, o novo disco ao vivo do New Order, intitulado NOMC15 (uma espécie de “sigla” para New Order Music Complete 2015), deveria ter saído anteontem. Todavia, poucos dias atrás os clientes que fizeram o pre-order do álbum no site da plataforma Pledge-Music foram informados do adiamento do lançamento para o dia 16 de junho. A notícia só não foi um banho de água fria completo porque a Pledge-Music garantiu que esses clientes teriam acesso ao download do álbum antes que os formatos físicos (CD duplo e vinil triplo transparente) finalmente fossem lançados. Dito e feito: ao abrir minha caixa de e-mails na sexta-feira, eis que encontrei o link para baixá-lo nos formatos de arquivo MP3 e FLAC. Joia!

Aqueles que já estão acostumados com a plataforma Pledge-Music (o que não é o meu caso) não se surpreenderam com o adiamento. Para quem não sabe do que estamos falando, seguem aqui mais algumas explicações: a Pledge-Music é uma plataforma direct-to-fan, isto é, ela permite que artistas produzam e comercializem seu trabalho por fora do esquema das grandes gravadoras ou dos conglomerados de mídia; através dessa plataforma, músicos e bandas podem distribuir seus discos diretamente aos fãs, ou contar com uma mãozinha deles para financiar novos projetos, um sistema um tanto quanto parecido com o crowdfunding. Todavia, segundo relatos, as mudanças nas datas de lançamento são comuns, infelizmente.

Por trás de NOMC15 está a “gravadora” Live Here Now (ex-Abbey Road Live Here Now), que se vem se notabilizando há alguns anos por gravações ao vivo de altíssima qualidade sonora que são distribuídas/comercializadas poucos instantes após o fim dos shows, com capa/arte e tudo o mais (graças a um super-esquema de produção), ou vendidas diretamente ao público via plataformas como a Pledge-Music. Essa não foi a primeira vez que o New Order lançou um disco ao vivo pela Live Here Now – o álbum Live at the London Troxy foi produzido nesse esquema (aliás, vale dizer que ele acabou de ser relançado).

NOMC15 contém a segunda noite da banda no Brixton Academy, Londres, bem no comecinho da turnê do álbum Music Complete, em novembro de 2015. Tive a sorte e o privilégio de ver o show de estreia dessa tour em Paris umas duas semanas antes. Os set lists foram idênticos e lembro-me bem de ter pensado, logo após a saída do show, que o concerto, exatamente daquele jeito como eu havia visto, daria um bom registro ao vivo. Mas a razão me dizia que se a banda tivesse que escolher um show da nova turnê para lançar, certamente não seria um dos primeiros, já que isso não é muito comum.

Mas pode se dizer que o show da noite de 17 de novembro de 2015 foi escolhido a dedo pelo New Order. Foi uma apresentação inspirada, numa casa lotada e com um “bônus”: a cantora Elly Jackson, que participou de duas faixas de Music Complete (“Tutti Frutti” e “People on the High Line”), subiu ao palco para cantá-las na companhia dos veteranos. Um diferencial importante, haja vista que em todos os demais shows da turnê ela foi (e vem sendo ainda) substituída por playbacks. Há coisas que, para o bem ou para o mal, a tecnologia musical não consegue reproduzir – dentre elas o calor e o feeling de uma voz humana ao vivo.

Vale mencionar que o New Order adquiriu uma certa “má fama” quando o assunto é performances ao vivo. Para muita gente, o grupo “é muito bom em disco, mas fraco no palco”. Essa “impopularidade” com relação aos shows não chega a ser uma completa uma injustiça. A banda era mesmo um tanto desleixada nesse aspecto – para não dizer punk. Para piorar, o New Order detestava dar bis – e não poucas foram as vezes que promotores e produtores incluíram a seguinte advertência ao público na bilheteria: “AVISO: talvez o grupo não toque ‘Blue Monday’!”. Na verdade, os mais fanáticos adoravam isso… Mas o New Order já não é mais assim há bastante tempo. Eles tocam praticamente o mesmo set list todas as noites, com tudo muito bem ensaiadinho (os erros são cada vez mais raros); eles agora dão encores e tocam “Blue Monday” sempre. É esse New Order que nos oferece esse NOMC15.

Uma das tarefas mais ingratas de um disco ao vivo é tentar reproduzir a atmosfera de um show para aqueles que não estavam lá. Ingrata, não… é praticamente impossível. Todavia, existem alguns que até chegam perto. Mas para isso existe um “segredo”: um pouco de “sujeira” na gravação ajuda. Bootlegs, em princípio, parecem toscos (muitos são registrados com gravadores simplórios por alguem da plateia), mas conseguem, graças a essa mesma falta de apuro técnico, nos “teletransportar” quase que por mágica para o meio do público. Ora, mas qual o motivo de tanta divagação? Digamos o seguinte: os avanços tecnológicos nem sempre conseguem transformar uma performance fantástica em um álbum ao vivo de igual nível. NOMC15 é soberbamente bem gravado e mixado; entretanto, às vezes mais parece que estamos a ouvir um disco de estúdio com algum som de plateia de vez em quando do que um memorável concerto.

A alta qualidade sonora chega, às vezes, a esterilizar algumas canções. Três exemplos: “Crystal”, “Ceremony” e “True Faith”. Pude assistir in loco as mesmas versões e arranjos de NOMC15 em Paris (tenho, inclusive, uma gravação pirata desse show) e, acreditem: os ruídos, os urros da plateia, a reverberação, o eco, etc, todas essas “imperfeições” engrandecem esses temas. Por outro lado, é preciso reconhecer que, em outros casos, o som cristalino e bem definido nos ajuda a “descobrir” detalhes que muitas vezes nos escapam quando estamos em frente às paredes de P.A.’s e misturados à multidão. “Waiting for the Sirens’ Call” seria um belo exemplo: a faixa teve o seu arranjo reconstruído para essa turnê tendo como base um remix feito pela banda italiana Planet Funk; o que no show não passa de um momento morno (daqueles que muita gente  aproveita para ir pegar uma bebida no bar), se transformou, no disco, em uma grandiosa apoteose de sintetizadores. O mesmo vale para uma das mais novas: (a excelente) “Plastic”.

A lista de músicas até que resume bem a trajetória da banda: temas novos (cinco ao todo: as três já citadas mais “Singularity” e “Restless”), os grandes hits (“Bizarre Love Triangle”, “The Perfect Kiss”, “Temptation”, “Crystal”, “True Faith” e, é claro, “Blue Monday”), canções menos famosas (“5-8-6” e “Your Silent Face”), obscuridades (“Lonesome Tonight”, lado B do single “Thieves Like Us” e uma das surpresas da turnê) e, evidentemente, um par de temas do Joy Division (“Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart”). Fãs mais radicais e “malas” lamentarão a ausência de canções de Movement, mas o que realmente vem fazendo falta são faixas do disco mais perfeito e bem sucedido da banda: Technique, de 1989. Talvez a recusa de tocar as músicas desse LP seja um resquício daquele antigo New Order…

Para os caçadores de pelo em ovo, alguns discretíssimos tropeços aqui e ali podem ser encontrados, sim!, como uma batida errada em “Ceremony” (coisa rara em se tratando de Stephen Morris, “a bateria eletrônica humana”), um teclado entrando ligeiramente atrasado em “Tutti Frutti”… Se eles não existissem, não seria o New Order, é claro. Mas não passam de gotas insignificantes num oceano de pontos a favor – em outras palavras, o saldo geral em NOMC15 é positivo. Até mesmo o som do baixo de Tom Chapman, mixado um tanto atrás dos demais instrumentos (o que é um retrocesso em matéria de New Order), não chega a nos fazer sentir desesperadamente a falta de Peter Hook (por estranho que isso possa parecer). Mas é certo que os detratores do New Order “certinho” vão discordar disso veementemente.

O correto é dizer que NOMC15 é um disco que reflete tanto a transformação do New Order em artistas completos (que jogam bem tanto em estúdio quanto ao vivo) quanto o crescimento e amadurecimento de seu público – ou, melhor dizendo, da parte dele que quer ver sua banda favorita fazendo bonito no palco, ainda que um tanto burocraticamente e sem a espontaneidade e a atitude de outrora. É como diz a primeira linha do refrão de “Times Change” (trad.: “os tempos mudam”): “A vida nunca mais será a mesma”

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REVIEW | Avaliamos os novos discos ao vivo de Peter Hook & The Light

Peter_Hook_Digi-600x425Peter Hook deve gostar muito de ouvir o tilintar das caixas registradoras… afinal, que razão ele teria para pegar três shows seus com o The Light (seu atual grupo) e lançá-los distribuídos em seis CDs (dois álbuns duplos e dois simples), ou ainda em nove discos de vinil (avulsos)? Não, caro leitor, você não leu errado: são meia dúzia de discos laser e uma novena de LPs.

A última vez que me lembro de ter visto algo assim foi quando a New State Recordings lançou, em 2006, uma coleção de doze singles de vinil contendo remixes clássicos e recentes de faixas do New Order. Conheço gente que até hoje não conseguiu completar a coleção devido à dificuldade para se conseguir os doze discos juntos. Quem ficou babando pelos novos lançamentos do The Light vem passando por um perrengue parecido. Eu explico…

Quando Hook anunciou o lançamento, foi dito que as versões em vinil dos álbuns Unknown Pleasures Live in Leeds, Closer Live in Manchester, Movement Live in Dublin e Power, Corruption and Lies Live in Dublin seriam edições limitadas produzidas exclusivamente para o Record Store Day 2017 (ocorrido no último dia 22 de abril). Só que muita gente se queixou de que não havia uma loja sequer entre as inscritas no evento que possuísse em estoque os nove discos (coloridos, faltou dizer). Resultado: mesmo quem estava disposto a abrir a carteira e fazer tamanha extravagância acabou não obtendo êxito. Até este momento não sei ao certo o que dizer sobre essa bizarra estratégia comercial.

Entretanto, como as edições em CDs já chegaram em nossas mãos, foi possível fazer uma avaliação dos novos lançamentos para o blog. Será que valem a pena? Bom, leiam as análises individuais de cada álbum e tirem suas próprias conclusões!

Unknown Pleasures Tour 2012 – Live in Leeds (☆☆☆): Este registro do show realizado dia 29 de novembro de 2012 no The Cockpit, uma popular casa noturna que fechou suas portas em 2014, é o terceiro lançamento oficial de uma versão ao vivo completa do álbum Unknown Pleasures (isso se não colocarmos na conta o CD triplo So This Is Permanence, que apresenta Peter Hook e o The Light interpretando em uma única noite todo o repertório gravado pelo Joy Division). No mínimo isso revela o quanto o disco é estimado pelo baixista. Todavia, se eu tiver que escolher a melhor das três versões ao vivo de Unknown Pleasures, fico com Live in Australia, de 2011. De interessante em Live in Leeds é o fato de Hook nos brindar com um set mais longo e que inclui uma seleção mais variada de faixas de outros períodos do Joy Division, abrangendo desde a fase punk com “The Drawback” e “Warsaw” até canções de Closer. Todavia, essas faixas reaparecem em versões melhores no disco Closer Tour 2011: Live in Manchester (a exceção talvez seja “Atrocity Exhibition”…).  Aqui, de uma maneira geral, falta um pouco de punch. Na ocasião em que o show no The Cockpit foi gravado, Nat Wason ainda era o guitarrista do The Light. Destaques: “Disorder”, “New Dawn Fades”, “Shadowplay”, “Interzone”, “Atrocity Exhibition”, “Something Must Break”.

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Unknown Pleasures Live in Leeds

Closer Tour 2011 – Live in Manchester (☆☆☆☆): também com Nat Wason na guitarra, aqui temos o The Light apresentando uma razoável versão da obra-prima do Joy Division no FAC 251 The Factory, um clube do qual Peter Hook é sócio e que fica no prédio que outrora sediava o quartel-general da Factory Records. Tal como Live in Leeds, é um CD duplo – o que quer dizer que além do álbum Closer tocado na íntegra temos diversas outras faixas do Joy Division. “From Safety to Where…?” transformou-se de cara em uma das minhas favoritas. Mas vamos com calma! Até chegarmos nela temos ainda que passar por uma ótima versão da instrumental “Incubation” (que abre o disco), além de “Dead Souls” (apenas “ok”) e “Autosuggestion” (em versão superior a aquela apresentada no ano passado aqui no Brasil). Dentre as canções de Closer, destacamos “Atrocity Exhibition”, “Colony” (interpretada na voz arrepiante de Rowetta, dos Happy Mondays) e “The Eternal”. Cabe aqui mencionarmos uma certa dificuldade do baterista Paul Kehoe de emular o estilo “rápido, porém lento” de Stephen Morris no Joy Division – o que ficou evidente, por exemplo, na arrastada interpretação de “Passover” e numa versão “sem-sangue-nos-olhos” de “Novelty”. Por sua vez, “Decades”, minha faixa favorita de Closer, não chegou aos pés da apoteótica versão que o New Order vem apresentando em seus shows. No balanço geral, é um disco melhor que Unknown Pleasures Live in Leeds. Vale a pena também por “These Days”,  “Warsaw” e pelos vocais guturais de Hook em “Transmission”.

Movement Tour 2013 – Live in Dublin (☆☆☆☆): Inexplicavelmente, esse show gravado no dia 22 de novembro de 2013 no The Academy, em Dublin, foi dividido em dois CDs simples, cada um deles trazendo uma interpretação completa de um álbum do New Order. Este, com foco em Movement (primeiro LP da banda), abre com uma seleção de sete faixas do Joy Division. Talvez a intenção de Hook tenha sido evidenciar a ligação, em termos musicais, entre o JD e o som do New Order em seu álbum de estreia. Em Movement Live in Dublin, temos versões ainda melhores de “Incubation”, “Autosuggestion” e “The Drawback”, mas a falta de brilho em canções como “Passover” e “Wilderness” se repete. Só que desta vez o guitarrista não é mais Nat Wason, mas, sim, um velho companheiro de Hook: David Potts (ex-Revenge e ex-Monaco). Fãs mais ardorosos do rancoroso baixista que me perdoem, mas ainda não nasceu uma versão de “Ceremony” feita pelo The Light que realmente me agrade – e o mesmo digo para a clássica “Dreams Never End”. Entretanto, as interpretações de “Procession” e “Cries and Whispers” são dignas de elogios e aplausos, assim como quase toda releitura de Movement, com destaque para “Truth”, “Senses”, “Chosen Time” e “Doubts Even Here”.

Power, Corruption and Lies Tour 2013 – Live in Dublin (☆☆☆☆): Aqui temos a continuação do show cuja primeira parte foi incluída no CD anterior. Com exceção de “Love Will Tear Us Apart”, que encerra o disco, o resto é puro New Order. O álbum começa com uma versão espectacular e arrebatadora de “Everything’s Gone Green” – single originalmente lançado em 1981, logo após Movement, e que é considerado por Peter Hook (e, também, pelos seus ex-colegas de banda) o primeiro lampejo do som clássico do N.O. Sem muita enrolação, o disco segue com “Age of Consent”, faixa que dá início à interpretação do The Light para Power, Corruption and Lies. Apesar de ortodoxas, isto é, com arranjos muito próximos aos da gravações originais de estúdio, as versões ao vivo desse Live in Dublin possuem um incontestável frescor, o que faz desse CD o melhor entre os quatro. Todavia, um dos raros pontos fracos aqui são os vocais de Hook. A voz do baixista até que se ajusta um pouco melhor ao repertório do Joy Division ou ao material inicial do New Order. Mas não é o caso, por exemplo, de “Leave Me Alone”, “True Faith” (todavia impecável na parte instrumental) e “Temptation”. O disco inclui ainda um registro de “Blue Monday” que é bastante representativo de uma das grandes “falhas” desse pacote lançamentos ao vivo: a falta de um grave mais “cheio” e poderoso. Cabem aqui menções honrosas para “The Village” e “Ultraviolence”.

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Closer Live in Manchester (no alto), Movement Live in Dublin (esquerda) e Power, Corruption and Lies Live in Dublin (à direita).

Os discos vêm embalados em bonitos estojos tipo digipak cujas artes recriam ou reciclam, com muito bom gosto, os projetos gráficos dos álbuns originais. Entretanto, surpreende o fato de que nenhum deles traz encartes / libretos com fotos dos shows ou textos. Também é de se estranhar que não existem créditos para o artista gráfico (ou escritório de design) responsável pela parte visual, o que sugere que as capas podem ter sido produzidas pelo departamento de arte da própria gravadora (Westworld Recordings). Esse “desleixo” é algo a se lamentar, principalmente porque as capas ficaram realmente muito boas.

Depois de incontáveis coletâneas de gravações de estúdio, agora chegou a vez do mercado ficar abarrotado de álbuns ao vivo com o material do Joy Division e do New Order – não podemos nos esquecer que no mês que vem chega NOMC15, registro de um show da turnê do disco Music Complete feito em Londres em 2015. E o New Order já tem outros três discos ao vivo oficiais em seu catálogo: BBC Radio One Live in Concert (1992), Live at the London Troxy (2012) e Live at Bestival (2013). Pelo visto, se depender de Peter Hook os fãs de ambas as bandas terão discos ao vivo para mais umas duas gerações.

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NOTA: É com profundo pesar e tristeza que publico este post, já que ontem mais uma vez a loucura e o desprezo pela liberdade e pela vida ganharam as manchetes. Manchester chora as vítimas da insensatez, da ignorância e da falta de escrúpulos daqueles que querem impor aos outros, através da violência e do medo, sua enviesada e distorcida visão de mundo. Minhas condolências às famílias dos mortos no ataque à Manchester Arena. E registro aqui minha torcida pela recuperação dos feridos. Foi a música que primeiro me conectou a Manchester; agora, o que me conecta à cidade é a solidariedade e a empatia.

REVIEW | “Music Complete: Remix EP”

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Mais do mesmo… Music Complete: Remix EP

No último dia 07 de abril o New Order divulgou através de suas redes sociais o lançamento de um novo EP com remixes de cinco faixas de seu último trabalho de estúdio, o álbum Music Complete. Sob o título Music Complete: Remix EP, o novo título foi disponibilizado apenas no formato streaming (Spotify e You Tube) e digital music download para clientes da Apple Store. O “disco” teria sido lançado como parte da campanha de divulgacão da próxima tour pelos Estados Unidos, que começará no dia 13 de abril, em Nova Iorque, e que contará também com uma participação no festival Coachella. Não há informações sobre algum eventual lançamento em formato físico do EP (e nosso “radar” não detectou ainda a existência de algum CD promo exclusivo).

Em sua divulgação direta via Twitter e Instagram, os fãs são informados que Music Complete: Remix EP contém remixes “raros e inéditos”, mas há um pouco de “exagero” nisso. De inédito, “People on the High Line (Purple Disco Machine Remix)”, com sua pegada house, assinado pela dupla alemã Purple Disco Machine, e “Academic (Mark Reeder’s Akademix)”, do produtor Mark Reeder, um amigo e colaborador de longa data do New Order. Os três remixes restantes não são necessariamente “raros”, como veremos a seguir.

“The Game (Mark Reeder Spielt Mit Version)”, também produzido por Reeder, já havia sido lançado no ano passado em sua forma editada na coletânea A Symbol of Cosmic Order, da gravadora dinamarquesa Stella Polaris (existem rumores de que os remixes do Mark Reeder nesse novo EP podem reaparecer em uma nova coletânea do produtor em breve). Por sua vez, “Tutti Frutti (Takkyu Ishino Remix)” já era conhecido por ter sido incluído na versão japonesa do vinil de 12″ e, também, na caixa Wrapping Cloth ‘Furoshiki’ Box Set de Music Complete (também lançada exclusivamente no Japão e comentada aqui no blog). “Restless (Agoria Dub)”, de Sébastien Devaud, além de também fazer parte da mesma caixa editada na Terra do Sol Nascente, chegou a ser disponibilizada pelo site DirrtyRemixes.

De um modo geral, os remixes escolhidos para compor o EP são muito bons – com exceção, talvez, de “People on the High Line”. Todavia, a questão é: qual o senso de propósito desse lançamento? De 2015 para cá temos visto um bocado de remixes de Music Complete por aí, para todos os gostos, bolsos e formatos. Seria muito mais interessante, por exemplo, que o anunciado disco ao vivo NOMC15 viesse acompanhado de um respectivo DVD ou Blu-Ray, por exemplo, ou que os concertos na Opera House de Sidney com a Australian Chamber Orchestra ganhassem um lançamento caprichado. Será que realmente um EP de remixes lançado via streaming vai ajudar a vender mais ingressos de uma meia dúzia de shows nos EUA?

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REVIEW | “New Order Presents Be Music”

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New Order “mijando” no penico dos outros…

O ano de 1982 representou uma espécie de ponto de inflexão para o New Order. Após uma excursão pelos Estados Unidos no ano anterior, a banda deu início à virada em direção à dance music que a transformou em um dos grupos mais importantes e influentes de sua geração. De volta à Inglaterra, o New Order gravou a pulsante “Temptation” (faixa que marcou a ruptura definitiva com o Joy Division, sua encarnação anterior) e abriu uma casa noturna em Manchester  – a mítica Haçienda – tendo como parceira no empreendimento a sua própria gravadora – a não menos mítica Factory Records. Também foi em 1982 que seus integrantes começaram a se lançar em novas aventuras produzindo e remixando discos e faixas de outros artistas dance, muitos deles companheiros na Factory. À medida em que adquiriam novos equipamentos (sequenciadores, samplers, baterias eletrônicas), originalmente para explorar em seus próprios discos as possibilidades abertas pelas novas tecnologias musicais, Sumner, Hook, Gilbert e Morris passavam a compartilhar seus brinquedos e o know how obtido com as bandas que estavam produzindo. Era uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que fertilizavam o trabalho de outros músicos, as experiências realizadas nos quintais alheios serviam de laboratório para o que viriam a fazer em suas próprias gravações.

Nessas aventuras “fora de casa”, os membros do New Order mantiveram suas “identidades secretas” individuais preservadas atrás de uma marca: Be Music. Originalmente, Be Music era o nome da editora musical criada pela banda e seu empresário, Rob Gretton (1953-1999), para o licenciamento do seu catálogo e para o recebimento de royalties e direitos autorais. Todavia, Gretton teve a ideia de transformar a Be Music em algo maior e mais ambicioso. O falecido ex-manager do New Order queria que a banda fosse vista publicamente como uma entidade única – o objetivo era fortalecer a unidade do grupo e evitar que um ou mais membros fizessem um nome fora do New Order… e lucrassem com isso. Quando Peter Hook produziu, em fevereiro de 1982, uma faixa dos Stockholm Monsters chamada “Death Is Slowly Coming”, o crédito foi para a “entidade” em vez de para o baixista. Resumindo: nada de marketing pessoal ou luzes de holofotes sobre um integrante específico – naquela época eles eram radicalmente avessos a qualquer tipo de autopromoção, idolatria ou à ideia de uma eventual personalidade dominante na banda. Claro, isso tudo foi antes de Electronic, The Other Two, Revenge etc…

A Factory Benelux, filial belga da Factory Records que sobreviveu ao colapso de sua matriz, numa louvável iniciativa reuniu no recém-lançado New Order Presents Be Music o extenso material produzido e remixado por integrantes do NO entre 1982 e 2015. Editado em dois formatos (LP duplo e box set com três CDs), a nova compilação, no entanto, não foi a primeira dedicada às produções da Be Music. Em 2003, a LTM Recordings (gravadora administrada pelo britânico James Nice, o mesmo sujeito que atualmente também é o manda-chuva da Factory Benelux) lançou Cool As Ice: The Be Music Productions. No ano seguinte, a LTM editou uma sequência para a compilação anterior que se chamou Twice As Nice e que incluía, também remixes e produções assinadas por Arthur Baker, Donald “DoJo” Johnson (A Certain Ratio) e Mark Kamins. Pois então: uma parte de New Order Presents Be Music já havia sido reunida em compilações específicas antes. Esse é o caso, por exemplo, de “Looking From a Hilltop (Megamix)” do Section 25; “Cool As Ice”, de 52nd Street; “Love Tempo”, do Quando Quango; e “Fate/Hate”, de Nyam Nyam.

Mas por abranger um período mais extenso e não se concentrar apenas nas produções feitas para grupos do cast da Factory, New Order Presents Be Music é, até o momento, a compilação mais completa e atualizada sobre Be Music. Além disso, todas as faixas que fazem parte da coletânea foram remasterizadas especialmente para o projeto. E mesmo não sendo um álbum do New Order propriamente dito, de uma certa forma é quase como se fosse. Em primeiro lugar, algumas faixas foram escritas e gravadas pelos próprios integrantes da banda, como no caso de “Theme”, uma criação de Peter Hook usada como tema de abertura dos shows do grupo Lavolta Lakota; “Inside”, originalmente lado A de um EP ultralimitado (500 cópias) que Gillian Gilbert e Stephen Morris lançaram em 2011 com uma trilha sonora produzida especialmente para uma exposição do designer Peter Saville na galeria francesa Frac Champagne-Ardenne; e “Video 5-8-6”, uma canção de 22 minutos do próprio New Order tocada na noite de inauguração da Haçienda e a partir da qual nasceram algumas das faixas do álbum Power, Corruption and Lies (1983). Para ficar ainda mais com cara de disco do New Order, a capa, texturizada em ambos formatos, foi criada por Matthew Johnson para o Peter Saville Studio – todavia, não há indicações de que Saville tenha trabalhado como diretor de arte dessa vez.

O maior problema de New Order Presents Be Music são as diferenças entre as edições em CD e em vinil. Para começar: a versão digital possui 36 faixas, contra apenas 12 do LP! Além disso, o box set vem acompanhado de um livreto de 48 páginas com informações detalhadas e fotos das capas dos singles compilados. Em plena era do naufrágio do CD e da guinada de 360o do vinil, a versão long play bem que poderia ter recebido um tratamento melhor para agradar o fã clube do formato. Sem falar que a “mutilação” operada pela Factory Benelux no bolachão preto sacrificou algumas pérolas como “You Hurt Me” (do Shark Vegas), na qual Bernard Sumner também contribuiu como músico convidado; “Motherland” (do obscuro The Royal Family and the Poor); “Telstar” (cover do clássico instrumental dos Tornadoes assinado pelo Ad Infinitum); “Tell Me” (da banda de synthpop Life, da qual fazia parte Andy Robinson, ex-programador e técnico de teclados do New Order, e agora empresário do grupo); e “Knew Noise” (Section 25), lado B do single “Girls Don’t Count” produzido em 1979 por Ian Curtis e Rob Gretton, mas creditado à Fractured Music (uma espécie de embrião da Be Music).

O material mais recente produzido e/ou remixado pelos integrantes do New Order, por sua vez, forma um conjunto mais irregular. Além disso, se resume basicamente a contribuições do Stephen Morris ou do The Other Two (dupla formada por ele e a tecladista Gillian Gilbert). As colaborações com o Factory Floor, Helen Marnie (vocalista do Ladytron) e Tim Burgess (dos Charlatans) são, digamos assim, “ok”. Já o remix de “Daggers”, do Fujiya & Miyagi é pura bobagem descartável.

Também é de se estranhar a ausência das duas faixas gravadas e lançadas pelo New Order, mas sob o rótulo Be Music, em um flexi disc promocional distribuído de brinde para os frequentadores da Haçienda em sua primeira véspera de Natal, em 1982. “Ode to Joy” (um cover bizarro de “Ode an die Freunde”, de Beethoven) e “Rocking Carol” (uma tradicional canção natalina tcheca) foram recentemente incluídas na reedição da coletânea Ghosts of Christmas Past: Remake (da gravadora Les Disques du Crépuscule, hoje também sob o comando de James Nice) e apesar de fazer total sentido a inclusão delas numa compilação de bandas alternativas tocando/cantando canções natalinas, elas tinham que estar em New Order Presents Be Music também.

O saldo, todavia, é positivo. O novo álbum, de um modo geral, atinge o objetivo de apresentar ao ouvinte uma visão panorâmica de um lado pouco conhecido, mas ainda assim relevante, do New Order. Presents Be Music nos mostra que a influência de uma banda não se mede apenas pelo impacto de seus próprios discos. Seja como sócios de uma das danceterias mais famosas da Europa nos anos oitenta e noventa, seja como produtores e remixers, os membros do New Order ajudaram, de diversas maneiras, a traçar as coordenadas que definiriam a direção seguida pela música popular – alternativa ou mainstream – nos últimos anos.

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NOTA: Foi uma longa pausa de dezembro do ano passado até aqui… De lá para cá, passei por uma trabalhosa mudança e uma inesperada internação… Mas agora parece que as coisas estão voltando para os trilhos – incluindo o blog! Vejo vocês no próximo post. Um abraço.