REVIEW | Tudo sobre “Substance: Inside New Order”, de Peter Hook

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Stephen Morris, que terá as memórias de sua carreira como baterista do Joy Division e do New Order lançada em 2018 pela editora Constable, disse o seguinte em uma entrevista recentemente publicada ao Irish Times: “Quando você escreve uma autobiografia, é comum promover-se como um heroi – a não ser que você seja brutalmente honesto”. Morris está certo. Também não é difícil encontrar aqueles autores que se colocam no papel de “pobre vítima” – este seria o caso, por exemplo, de Deborah Curtis em seu livro Touching From a Distance, biografia do seu finado marido, Ian Curtis, a eterna voz do Joy Division. O tom impresso por Deborah nas páginas de seu livro é a da viúva apartada e alienada pela política “namoradas e esposas ficam de fora” supostamente praticada pela banda.

O mais recente livro de memórias de Peter Hook, ex-baixista do New Order (e que também fundou o Joy Division), não chega a ser um caso de autoindulgência. Capítulo final de uma trilogia que se iniciou com The Haçienda: How Not to Run a Club (2010, 368 páginas) e, em seguida, passou por Unknown Pleasures: Inside Joy Division (2013, 252 páginas), o novo volume, intitulado Substance: Inside New Order (Simon & Schuster, 768 páginas!), se dedica a escrutinar nos mínimos detalhes a história do New Order, dando ao leitor livre acesso à “privacidade” da banda de uma maneira que somente um ex-integrante sem papas na língua, como é o caso de Hook, poderia fazer.

Entretanto, não é porque o músico não se coloca no papel de heroi, ou de vítima, que ele não destila alguma dose de veneno endereçado diretamente aos seus ex-colegas, hoje desafetos. Segundo Hook, o guitarrista e vocalista Bernard Sumner, por exemplo, é um “babaca” (adjetivo usado sem qualquer economia ao longo do livro) mau humorado que não gosta de ser contrariado (tudo tinha que ser feito sempre da maneira como ele queria) e que, com o tempo, tornou-se um “ditador” que pôs fim à democracia que existia dentro do grupo; Steve Morris, por sua vez, é retratado como um tipo “estranho” ou “esquisitão”, dono de uma personalidade excêntrica.

Já a tecladista Gillian Gilbert… bem, para Peter Hook ela seria menos do que nada. De acordo com o baixista, ela pouco teria contribuído musicalmente com a banda e, na verdade, seu papel no New Order se limitava a tocar nos teclados e na guitarra o que tinha sido escrito por Sumner. Hook vai além: diz que ele e Bernard sempre nutriram o desejo de “convidá-la a se retirar”, mas nunca tiveram coragem de fazê-lo por ela ser a companheira de Morris. Com base nessa constrangedora situação, Hook aconselha: “jamais tenha um casal na banda”.

É importante sublinhar que Substance: Inside New Order, vai, é claro, além do rancor que o autor guarda de seus ex-parceiros. Peter Hook brinda os fãs com detalhes e histórias sobre as gravações dos álbuns da banda, além de comentários sobre cada faixa; conta causos sobre as turnês, o que inclui inúmeros relatos sobre tumultos e motins nos shows (a frase mais ouvida pela banda era “vocês jamais voltarão a tocar aqui de novo”); satisfaz os leitores mais nerds com explicações e minúcias sobre os instrumentos e equipamentos usados pelo New Order ao longo de sua carreira; e escancara até mesmo segredos sobre sua vida pessoal e íntima, como a relação conturbada com a atriz cômica britânica Caroline Aherne, falecida em julho deste ano.

Substance é uma autêntica (e verdadeira, até que se prove o contrário) história de sexo, drogas e rock’n roll: aventuras com groupies, o consumo (excessivo) de substâncias legais e ilegais, além de histórias por trás das músicas, marcam ponto em quantidades generosas no novo livro de Peter Hook. É uma obra de fõlego em ambos os sentidos: tanto para Hook, que se lançou na hercúlea tarefa de contar a história do New Order da maneira mais completa e rica possível, quanto para os leitores, que terão pela frente uma exaustiva jornada de leitura.

E talvez o maior problema do livro seja justamente esse: no afã de escancarar a “intimidade” da banda em todas as suas facetas, dos momentos divertidos/engraçados às tensões e conflitos, Hook talvez tenha exagerado um pouco na mão e preencheu pelo menos 1/3 (ou mais até) de sua magnus opus literária com muitos casos irrevelantes, de problemas na aduana devido a erros no preenchimento das declarações dos equipamentos ao susto por causa de uma aranha (“do tamanho da minha mão”, diz o baixista) no quarto de engenheiro de som Mike Johnson em um hotel na Austrália. O livro está repleto de histórias assim, o que pode tornar a leitura mais cansativa. No começo o leitor até se diverte, mas à media em que histórias desse tipo se sucedem ocupando grandes espaços da narrativa entre os episódios e acontecimentos de maior significância é impossível não se sentir um pouco entediado. Algo do tipo “ok, Hooky, outra boa história, engraçada mesmo, mas já passei da metade do livro e… quando é que você finalmente vai falar de acid house e Technique?”. Mais ou menos por aí.

Uma outra “falha” detectada é o fato dele não ter entrado em muitos detalhes sobre como eles foram influenciados pela cena club de Nova Iorque no comecinho da década de 1980. Nesse sentido, a autobiografia de Bernard Sumner, Chapter and Verse: New Order, Joy Division and Me (Bantam Press, 2014, 313 páginas), tão criticada publicamente por Hook, é bem mais esclarecedora. Afinal, esse foi um momento-chave na trajetória da banda – e que ajuda a entender como o New Order teria saído das sombras do Joy Division. Hook não aprofunda – pelo menos não tanto quanto Sumner – sobre o impacto que casas noturnas como Paradise Garage, Fun House e Danceteria provocaram no grupo e em sua música.

Mas uma grande qualidade de Substance é que o livro é recheado de fotos do acervo pessoal de Peter Hook. Existem três seções de fotografias coloridas que mostram Hook com o New Order, com amigos e colaboradores, com os músicos de seus projetos solo (Revenge, Monaco e The Light), com os filhos e a atual esposa etc. Há imagens no corpo do texto também (em preto e branco), sendo que algumas delas são pôsteres e ingressos de shows e anúncios de sintetizadores.

Resumindo: é impossível uma obra de tamanha magnitude não conter alguns “pecados” aqui e ali; todavia, não restam dúvidas de que Substance é, até o presente momento, a obra mais completa (em termos de volume de informações) sobre o New Order. No entanto, ela representa um ponto de vista, ou melhor, a história tal como teria sido vivida e experimentada por Peter Hook. Como disse Stephen Morris na mesma entrevista citada no primeiro parágrafo, [uma biografia] é apenas o ponto de vista de uma pessoa… Quando se olha para trás não dá para ser objetivo sobre o passado, porque sua opinião é sempre colorida pela sua experiência”. É importante ter isso em mente quando ler não apenas o livro de Hook, mas qualquer outra (auto)biografia. 

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REVIEW | New Order em álbum beneficente: “Stand as One: Glastonbury Live 2016”

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Stand as One: iniciativa da Oxfam.

Em agosto deste ano, o New Order voltou a Worthy Farm, em Pilton (Inglaterra), para o que veio a ser sua quarta participação no tradicional Festival de Glastonbury, um dos maiores da Europa. A banda foi uma das principais atrações do Other Stage, por onde também passaram (não necessariamente nos mesmos dias) outros nomes de peso da cena alternativa, como James, Editors, Disclosure, CHVRCHES e LCD Soundsystem. Mas, no exato momento em que o New Order se apresentava, o outro palco, chamado Pyramid, recebia uma das maiores vozes do pop britânico na atualidade: ninguem menos que Adele. Todavia, para os veteranos de Manchester e seus fãs, foi como se a cantora-celebridade e seu público nem estivessem em Worthy Farm. Como em 2014 no Lollapalooza, em São Paulo, quando a plateia teve que escolher entre os representantes da velha guarda indie e um Arcade Fire no auge da popularidade, o New Order fez (de novo) um show digno de sua história e importância para uma audiência que sabia bem o que (ou melhor, quem) queria ver. 

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O show do New Order chegou a ficar um tempo no You Tube – e quem viu, curtiu. Quem não viu, restam agora dois consolos: de um lado, os incontáveis vídeos amadores feitos por quem esteve lá e que ainda estão disponíveis por aí; de outro, um “reles” registro oficial em áudio cedido pela própria banda para um recém-lançado CD beneficente da Oxfam (organização criada em 1942 para dar ajuda humanitária aos povos oriundos de países prejudicados por conflitos). Dedicado à memória de Jo Cox, ativista britânica e integrante do Partido Trabalhista inglês assassinada em junho, e com o propósito de arrecadar fundos para os projetos da Oxfam de auxílio a refugiados, Stand as One: Glastonbury Live 2016 (Parlophone) traz 16 contribuições de artistas que se apresentaram no festival este ano (a versão em MP3 para download contém três faixas a mais).

O New Order colaborou com uma excelente versão ao vivo de um de seus maiores sucessos: “Bizarre Love Triangle”. Presente em todos os set lists da banda, esse clássico de 1986, famoso pelos diversos remixes e reinterpretações que ganhou ao longo dos anos, aqui aparece com a sua mais recente roupagem: um arranjo novo, produzido a partir de um remix feito por Richard X. De tempos em tempos, o New Order atualiza alguns itens de seu catálogo para as apresentações ao vivo. Foi assim com “5-8-6” (que não foi tocada na última edição do Glastonbury), “True Faith” e “Waiting for the Sirens’ Call”. Se não fosse por esse “detalhe”, corria o risco do New Order soar como uma banda cover de si mesmo. Ainda assim, há quem não goste e que preferiria ouvi-los tocar as suas músicas exatamente do jeito como elas são em estúdio.

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Vale a pena conferir a excelente versão ao vivo de “Bizarre Love Triangle” em Stand as One

Esse é o caso, por exemplo, do Editors, que ofereceu para Stand as One uma versão da ótima “Munich” do jeitinho como ela é no álbum de estreia da banda britânica (a faixa só está disponível na versão download). Mas sendo esse um de seus melhores singles, a escolha pode ser considerada acertada. Tão certa, aliás, quanto a inclusão de uma “versão de arena” bem poderosa de “Starlight”, do power trio Muse (com direito a plateia cantando junto a plenos pulmões). Ao lado deles na categoria “auge da carreira”, temos o Coldplay, outra atração do Pyramid Stage, com “Birds”, cuja guitarra soa como The Edge (U2). Da turma que está em ascenção, destaque para as contribuições dos Foals (“What Went Down”) e CHVRCHES (“Bury It”). Todavia, esqueçam a bobagem pretensiosa e chata chamada “Saeglópur”, a cortesia dos islandeses do Sigur Rós. Façam o mesmo com “Eyes Shut” (Years & Years) e “Right Here” (Jess Glyne).

No disco, a ausência sentida foi justamente a da atração mais badalada do festival este ano, Adele. Não há uma faixa sequer de seu show em Stand as One. Será que ela não foi chamada a contribuir? Teria havido problemas com o licenciamento de suas músicas? Ou foi algo a ver com posições políticas? Enfim, não se sabe. O fato é que a inclusão de algum título do seu set list certamente valorizaria mais o disco do que as contribuições de artistas sem grande público em termos internacionais como John Grant, Laura Mvula e Baaba Maal (com todo respeito a eles e seus fãs). Por outro lado, fico feliz em ver o New Order dando uma força nessa questão que, além de importante, está na ordem do dia. E para quem justamente está mais interessado nas questões humanitárias que mobilizaram o projeto Stand as One do que nas músicas, vale a pena mencionar o convidativo preço do CD: £ 9,99 (sem as despesas de envio). O disco pode ser encomendado AQUI.

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REVIEW | Fritz von Runte remixa “Music Complete”

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DJ Fritz Von Runte remixou Music Complete

Uma das grandes novidades desta semana foi o lançamento de um novo pack de remixes do último álbum do New Order. Intitulado Music Remixed, essa nova versão do (excelente) disco lançado pela banda há um ano é assinada pelo DJ Fritz von Runte e está disponível para download gratuito. Não se trata de aventura mambembe. Ao contrário, por exemplo, de uma versão fake de Music Complete só com versões radio edit (encurtadas) que vazou na internet pouquíssimo tempo depois do CD ter sido lançado, Music Remixed tem pinta de ser um “produto autorizado”. Ritz von Runte literalmente recriou/reinterpretou todas as músicas – e ficou tão bem feito que soa como ele tivesse tido acesso a cópias das fitas multitrack originais. Entretanto, em suas mídias sociais, o New Order não se pronunciou sobre o “lançamento”.

Mas antes de compartilharmos com o leitor do blog nossas impressões sobre Music Remixed, falaremos um pouco sobre Fritz von Runte. Ele é DJ/produtor há vinte anos e iniciou sua carreira no Rio de Janeiro. Hoje ele está radicado em Manchester (coincidência?) e já provocu algum barulho quando lançou, em 2011, um álbum só de remixes de David Bowie chamado Bowie 2001 e no qual recheou as músicas com samples saídos do clássico de Stanley Kubrick 2001: Uma Odisseia no Espaço. No ano anterior, ele lançou pela gravadora 24 Hour Service Station um EP chamado Fritz von Runte versus Freebass Redesign, no qual apresenta seus remixes para quatro faixas do Freebass, o fracassado power trio de baixistas capitaneado por Peter Hook.

Ao sair à procura de Music Remixed, não espere por algo parecido com Complete Music, o álbum oficial de remixes de Music Complete lançado pela Mute em maio deste ano. Fritz von Runte fez juz à sua reputação e optou por recriar de modo drástico todas as músicas, conservando poucas partes das versões originais (sem contar os vocais, evidentemente). Até mesmo o título das músicas ele mudou. Mas o resultado, como é de se esperar em discos só de remixes, é irregular – é impossível gostar de Music Remixed por inteiro. Mas, como já se esperava, ele tem (sim!) seus bons momentos.

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Capa de Music Remixed

O remix de “Tutti Frutti”, intitulado “Synthetic Fun”, é um exemplo. A versão de von Runte faz a canção voltar no tempo até os anos oitenta e ficar com um clima meio post disco. De alguma forma fez sentido. “Stray Dog”, o “poema musicado” com a participação de Iggy Pop, passou a se chamar “Bachelor in Paradise” e, aqui, surpreende ainda mais: a voz do ex-Stooge, que parece saída das sombras, se encaixou com perfeição com a batida e o groove – e o que passamos a ter é um rap meio esquisitão, mas delicioso. Já “Academic”, ou melhor, “Hip, Hot and 21”, é o momento “épico” do disco: é o remix mais longo (13’12”) e ambicioso do pacote. Ele transita entre o ambient e o trip hop. Mas consigo imaginar os fãs ardorosos da canção chamarem a reinvenção proposta por Fritz de “sacrilégio”. Na verdade, diríamos que é um dos pontos altos de Music Remixed ao lado de “Here Comes the Hard Pack”, a robótica releitura de “Unlearn This Hatred” (colaboração entre o New Order e Tom Rowlands, dos Chemical Brothers).

Na categoria “dão para o gasto”, temos “Perfect Timing” (“Restless”), “Play Safe, Lose Out” (“Nothing But a Fool”), “Homeless Vehicle” (“The Game”) e “This Was Tomorrow” (“Singularity”). Esqueçam “Nine Swimming Pools” (“Superheated”) e “Tasteful Rubbish Is Still Rubbish” (“People On the High Line”). E no quesito “quase lá”, ficamos com “I Love Plastic” (“Plastic”).

O problema geral com Music Remixed, contudo, é que ele não consegue acompanhar “em alma” o álbum original. Apesar da melancolia sempre presente em todos os discos do New Order, com Music Complete a banda voltou para a balada e para as pistas – sua habitual maneira de exorcisar demônios. O resultado é um CD mais eletrônico que os três anteriores e, também, mais pop, mais upbeat. Por outro lado, na releitura de Fritz Von Runte, predomina um som mais lento, uma espécie de downtempo “cansado”. Apesar de algumas sacadas legais aqui e ali, como um todo Music Remixed parece ir para um lugar diferente: o lounge.

Uma pequena amostra em vídeo desse trabalho – “Synthetic Fun” / “Tutti Frutti” – pode ser conferida no You Tube, vejam a seguir:

 

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REVIEW | Single: “People on the High Line”

2016-06-imute553-webPara começar, “People on the High Line” talvez não tenha sido a melhor escolha. Mas quem se importa quando se trata do quarto single? E provavelmente este será o último saído de Music Complete – com ele, a caixinha que vinha de brinde com “Restless” (o primeiro) para colecionar todos os CDs singles derivados do álbum fica, enfim, cheia. Mas o problema com “People on the High Line” não é que ela seja uma faixa ruim… muito pelo contrário! Digamos que ela é uma daquelas gratas surpresas do disco, além de ser a apoteose de Tom Chapman, o substituto de Peter Hook na função de baixista. Porém, é uma canção que se aprecia bem mais no contexto de uma coleção variada de músicas do que como um single. Nesse aspecto, “Plastic” talvez funcionaria melhor.

Mesmo assim, a versão editada, assinada por Richard X, é um gol de placa – tanto quanto foi sua versão extended para as edições Deluxe Vinyl Box Set e Complete Music, que reaparece no single. Mas de um modo geral, “People on the High Line” é, dos quatro singles extraídos de Music Complete, o que possui os remixes mais fracos. O pior deles, de longe, é o do produtor australiano Carmelo Bianchetti, também conhecido por “Late Nite Tuff Guy” ou “LNTG”. Apesar da boa intenção de colocar em destaque a guitarra funky de Phil Cunningham, seu remix é tedioso, chato. Já o do DJ alemão Claptone vem ganhando bastante publicidade desde antes dos formatos físicos serem lançados, haja vista que foi o primeiro remix a ser mostrado ao público (e o único, além do extended mix, a fazer parte do vinil de 12″). Mas não é essa Coca-Cola toda, não. Quer dizer, não é ruim – mas também está longe de merecer tanto destaque.

O mais interessante é o remix feito pelo coletivo italiano Planet Funk – responsável, anos atrás, por uma excelente remixagem de “Waiting for the Sirens’ Call” que o próprio New Order aproveitou para recriar a canção ao vivo para a atual turnê. Usando como linha vocal principal um canal de voz harmônico que na gravação original praticamente não é percebido, e no qual o timbre de Bernard Sumner soa um tom abaixo, o pessoal do Planet Funk levou a música a um novo e diferente território. Naturalmente, teve gente por aí que não gostou. Mas o grande barato quando o assunto são remixes é a absoluta falta de unanimidade – e opiniões extremadas do tipo “ame-o” ou “deixe-o”.

Um dos remixes da banda britânica Hybrid, o “Armchair Remix”, também propõe uma atmosfera que difere do clima de balada que impregna a faixa. Sem batidas ou grooves, essa versão soa mais flutuante e etérea. A outra contribuição do trio, “Hybrid Remix”, é diferente: o salão de baile volta à cena e o resultado obtido rivaliza apenas com a recriação da turma do Planet Funk. Na opinião do blog, são as duas melhores versões.

O tracklist completo do mais novo lançamento está disponível, a princípio, na edição em CD (que, na mesma linha dos anteriores, vem em uma capinha fina de papelão). Todavia, aqueles que adquirirem o vinil de 12” (branco), que traz dois remixes, um de cada lado do disco (ok, já dissemos isso!), receberão um código para baixar tudo em MP3 (outra estratégia empregada nos singles antecedentes). Aliás, tanto a Mute Records quanto o New Order vêm dando conta muito bem da promoção do álbum Music Complete e de seus singles: “People on the High Line”, mesmo sem um vídeo promocional (ainda), alcançou o primeiro lugar do UK Physical Singles Chart, seguindo a mesma trilha de “Singularity” (o single anterior).

Falta ainda vir ao mercado a edição shaped picture disc de 7”, cujo lançamento está previsto para o dia 07 de setembro. Mas quando sair, estaremos aqui para avaliar em comentar!

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REVIEW | “Music Complete (Wrapping Cloth ‘Furoshiki’ Box Set)”

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O “Music Complete” da terra (e dos tempos?) de Ultraman

Recentemente, o último álbum do New Order ganhou no Japão uma nova edição em uma bela (e um tanto quanto exótica) caixa. Intitulada Wrapping Cloth Box Set, essa última versão do disco Music Complete lançada na Terra do Sol Nascente pela Traffic Records (que representa a banda para o selo Mute no Japão) foi especialmente criada para promover a passagem do New Order pelo país do National Kid e do Ultraman em maio deste ano. Originalmente, essa edição havia sido planejada para ser distribuída/comercializada exclusivamente nos shows que o grupo faria nos dias 25 e 27 na capital japonesa (o local foi o Shinkiba Studio Coast). Entretanto, por motivos não explicados, a Traffic, aos poucos, expandiu o mercado: disponibilizou cópias para um evento para convidados (e com participação do New Order) em Shibuya; em seguida, colocou-as a venda na Tower Records Japan; e, finalmente, “liberou geral”. Ainda assim, trata-se de uma edição limitada – mas o número total de cópias não foi divulgado.

Se você achou a edição Deluxe Vinyl Box Set, com nada menos que oito discos de vinil coloridos, “extravagante”, prepare-se agora: Wrapping Cloth Box Set contém o álbum Music Complete no formato cassete (isso mesmo, você não leu errado!), acompanhado dos seus três primeiros singles – “Restless”, “Tutti Frutti” e “Singularity” – em CD; e para adicionar um “charme especial”, a caixa, que é no estilo clamshell, vem dentro de um furoshiki, isto é, uma espécie de “embrulho” tradicional que os japoneses fazem com panos (nesse caso, o que foi usado traz a capa de Music Complete estampada nele). Eis então o primeiro ponto forte dessa nova edição: o designer Peter Saville conseguiu, com maestria, produzir uma das melhores recriações de seu próprio trabalho, desta vez adaptando-o à cultura do país do lançamento – o que quer dizer que é como se os japoneses estivessem recebendo do New Order e de seu artista gráfico um presente segundo seus próprios costumes. Genial.

Mas por que Music Complete em cassete? Estaríamos, após a “volta do vinil”, ante os primeiros lampejos de um possível revival das fitinhas? Bom, talvez não seja bem isso. Este blog tem seu próprio palpite – ou melhor, sua própria teoria. É provável que o verdadeiro objetivo da caixa seja vender, sob forma de um pacote atraente, os CDs singles. Vamos aos fatos: o compact disc laser, formato de mídia digital criado pela Philips e pela Sony no comecinho da década de 1980, está em crise. No Japão, a queda nas vendas impactou a produção. Entre 2001 e 2011, por exemplo, houve uma redução de cerca de 40% na produção japonesa de discos laser de áudio (dados divulgados pela agência de notícias EFE). Quando o assunto são singles, a “encrenca” é maior. As gravadoras ainda os lançam por questões pro forma, como no caso dos álbuns, mas vendem muito, muito pouco (apesar de serem bem baratos). Tanto que hoje em dia os downloads, os streamings e até mesmo os vinis contribuem bem mais para colocar um single nas paradas que os CDs. Provavelmente, essa Wrapping Cloth Box Set foi a estratégia encontrada pela Traffic Records não somente para divulgar os shows do New Order no Japão, mas também para assegurar a venda, “numa tacada só”, em um luxuoso bundle, de três CDs singles. O álbum Music Complete seria, na verdade, somente uma “isca”, um golpe de marketing; e na compra de um box set com três discos o fã levaria como um “brinde” ou “mimo” a fita, um objeto vintage de função quase “decorativa” e cujo verdadeiro significado seria simbólico ou afetivo.

Prestando bem a atenção nos disquinhos da caixa, os fãs e colecionadores perceberão que há (sutis) motivos para encomendá-la que não seja apenas seu belíssimo visual, além do tal “brinde”. Os CDs possuem remixes que NÃO fazem parte dos tracklists de seus correspondentes ocidentais. “Tutti Frutti”, por exemplo, inclui a versão “Takkyu Ishino Remix”, outrora disponível apenas no 12” japonês, e “Tom Rowlands Remix”, usado como B-side do “Singularity” europeu; também é o caso do “Agoria Dub” de “Restless”, que só era conhecido por um lançamento não oficial no site DirrtyRemixes; e “JS Zeiter Remix Instrumental”, este totalmente inédito em qualquer edição de “Singularity” (não confundir com “JS Zeiter Dub”, pois são remixes diferentes). Provavelmente a Traffic Records “liberou” a venda desse box ao perceber que haveria interesse dos fãs de fora do Japão em comprá-lo para obter essas “exclusividades” das edições nipônicas.

De um modo geral, é um belo item/pacote. Contudo, ele possui pontos positivos que são, ao mesmo tempo, negativos. O primeiro deles é com relação ao visual: é bem verdade que a ideia da caixa vir embalada num furoshiki é brilhante, mas é preciso desembrulhá-la com atenção, procurando observar bem como foram feitos a dobradura e o laço que arremata no final, caso contrário não será possível fechá-la / reembalá-la exatamente da mesma maneira, o que pode comprometer sua apresentação – em outras palavras, é tudo muito bonito, mas dá um trabalhão danado! Além disso, até não é uma má ideia, se a suposição do blog estiver correta, fazer do cassete de Music Complete mais um “presente” ou “brinde” que objeto principal; todavia, uma vez que hoje em dia poucos no mundo possuem tape decks em operação para poder, eventualmente, realizar o fetiche de ouvir o New Order do século XXI em uma fita, era de se esperar que, seguindo o exemplo das edições em vinil, houvesse um cartão com um código para que se possa baixar o álbum em formato digital – sem isso, é preciso ter, obrigatoriamente, o disco em outra mídia. Da versão digital de Music Complete, foram incluídos no box set apenas o booklet do CD e um livreto que costuma acompanhar a maior parte das edições japonesas e que contém as letras das músicas em dois idiomas: inglês e japonês.

Pode-se supor que com Deluxe Vinyl Box Set e Complete Music, esse Wrapping Cloth “Furoshiki” Box Set deve concluir a série de edições de luxo / especiais do álbum Music Complete. Com a atual crise da indústria fonográfica, expressa principalmente na queda nas vendas de CDs, os produtos premium ou deluxe, orientados para fãs e colecionadores, ainda que sejam caros e se limitem a um número mais reduzido de cópias, costumam se salvar – e a razão disso é porque oferecem ao consumidor uma experiência que não se restringe apenas à música. Muitas vezes, são praticamente objetos de arte. De uma certa maneira, o New Order foi pioneiro nisso ao apresentar seus discos com capas inteligentes desde a década de 1980. Uma característica que, pelo visto, a banda não perdeu.

O blog aproveita a ocasião para agradecer ao amigo Marcelo Danno, outro grande fã do New Order, pela ajuda transoceânica na aquisição da caixa. Isso mostra que New Order BR FAC 553 vem cumprindo seu papel de aproximar os aficcionados por essa que é uma das bandas mais importantes e influentes de sua geração.

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REVIEW | “Unknown Pleasures (Joy Division)”, por Chris Ott (coleção “O Livro do Disco”)

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O livro do disco: “Unknown Pleasures” para se ler.

Já que estivemos falando de livros e presentes de Dia dos Namorados, eis que na data dedicada aos casais no Brasil – o último domingo, dia 12 – minha esposa me apareceu com esse livrinho convidativo: Unknown Pleasures (Joy Division), escrito pelo jornalista Chris Ott e lançado por aqui pela editora Cobogó em sua coleção O Livro do Disco. Como hoje o seminal álbum de estreia de Ian Curtis, Bernard Sumner, Stephen Morris e Peter Hook está completando seu 37aniversário, achei que esse era um momento oportuno para apresentar aqui meu review sobre o livro.

A proposta da coleção O Livro do Disco, segundo a editora, era disponibilizar no Brasil uma série de livros dedicados a álbuns clássicos e influentes do pop nacional e internacional seguindo os moldes da 33⅓ Seriesda Bloomsbury Publishing, que foi a “inventora” da coisa toda. Todavia, enquanto o equivalente brasileiro conta com apenas 11 títulos, que vão de The Velvet Underground & NicoAs Quatro Estações da Legião Urbana, seu irmão gringo mais velho já contabiliza 115 volumes. Aliás, os itens da coleção dedicados aos discos lançados lá foram são traduções dos originais lançados pela Bloomsbury na 33⅓ . Eu até já tinha visto por aí os títulos da Cobogó, mas confesso que não me lembro de ter dado de cara com esse sobre Unknown Pleasures antes. A ficha catalográfica é de 2014, mas a primeira impressão é do ano passado.

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O original da espécie

Confesso que fiquei um pouco decepcionado com a apresentação do livro logo de cara. Enquanto os títulos da 33⅓ trazem, sem excessão, a capa do álbum estampada na própria capa do volume, a Cobogó, certamente por questões de direitos de reprodução, optou por um layout que, embora seja bonito e contenha as cores da arte original do LP, é um desastre sob outros aspectos: uma figura abstrata, formada por círculos concêntricos, que possivelmente remete à imagem de um disco de vinil, mas que se destaca de maneira quase imponente, enquanto que, sob ela, de modo bem menos chamativo (como se nem tivesse tanta importância assim), temos o nome da coleção, o título do álbum, o artista e o nome do autor.

Também senti um cheiro forte de cliché quando Ott, crítico musical e ex-colaborador do site (ou seria melhor chamar aquilo de “antro dos malas sem alça”?) Pitchfork, escreveu o seguinte no “Prefácio” redigido  (intencionalmente?) em um dia 18 de maio: “Hoje faz 23 anos que – aos 23 anos – Ian Curtis cometeu suicídio”. Para mim, não podia ser pior. E continua: “Sua voz singular alçou as canções angustiantes do Joy Division…”. Não foi um bom começo, para ser sincero. Só faltou o autor dizer que estava ouvindo “Atmosphere” naquele exato momento em que ele escrevia essas “melosidades”.

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Meu exemplar do dito cujo

Felizmente, tudo muda do primeiro capítulo em diante. Trata-se de um livro bem escrito e baseado em fontes seguras – isso é o mínimo, aliás, que se espera de um bom jornalista. E faço questão de colocar isso em destaque porque estou cansado de ler matérias por aí cheias de informações incorretas. O mais curioso é que Unknown Pleasures (Joy Division) nos entrega mais do que promete – o livro vai muito além do primeiro disco da banda. Tanto que, num total de 110 páginas, Ott só começa a falar realmente do Unknown Pleasures a partir da página 63. O que o leitor que o comprar terá nas mãos é, talvez, a melhor história condensada já escrita do Joy Division. Estou falando algo que está anos-luz à frente do constrangedor (impublicável, aliás) Joy Division / New Order: Nada É Mera Coincidência, de Helena Uehara (editora Landy, 2006, 114 páginas). Está tudo lá: do primeiro show dos Sex Pistols em Manchester (04 de junho de 1976) à trágica morte de Ian Curtis e o lançamento póstumo de Closer (1980), que hoje em dia prefiro a Unknown Pleasures.

Curiosamente, o livro de Chris Ott é uma versão expandida de um artigo que ele havia publicado no Pitchfork, chamado “An ideal for listening” e que havia sido desavergonhadamente republicado (com outro título) no site World In Motion, de David Sultan (um famoso “especulador” no mercado de raridades do New Order e do Joy Division e que atualmente tem sido uma espécie de “mecenas” do baixista Peter Hook). Ott não se queixou da “apropriação indébita” (o próprio deixa isso claro no livro). Mas isso não é bonito. Nos anos 1990, quando eu tinha uma página pessoal sobre o New Order chamada Technique Page, tive a minha “história condensada” da banda (naquela época ainda com informações incorretas ou equivocadas, reconheço) descaradamente copiada e colada no site de uma emissora de rádio – sem que os devidos créditos me fossem dados, é claro.

Para concluir, voltemos ao livro: se você quer uma boa (e confiável) biografia de bolso sobre o Joy Division, essa parece ser a melhor opção. Naturalmente, não substitui a leitura de outros títulos mais volumosos e escritos por quem viveu aquela história diretamente (Peter Hook, Bernard Sumner, Deborah Curtis), mas funciona bem como “passe de entrada”.

REVIEW | Livro “Peter Saville: Estate 1-127”

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Como eu não vi esse livro antes?

“Garimpando” na internet em busca de algo com o qual minha esposa pudesse me presentear no Dia dos Namorados (sei que parece confuso, mas é isso mesmo), encontrei uma coisa que, apesar do meu sempre alerta radar de fã, passou despercebido: um livro sobre o designer gráfico Peter Saville, o homem por trás da identidade visual da legendária gravadora Factory (da qual foi um dos fundadores) e das capas impessoais e totalmente fora do lugar comum dos discos do Joy Division e do New Order. Publicado em 2007 pela editora de arte JRP, de Lionel Bovier, o livro se chama Peter Saville: Estate 1-127. Bom, antes de mais nada, cabe esclarecer que esse não é o único livro dedicado a Saville e seu trabalho. Em 2003 a editora Frieze lançou Designed by Peter Saville, que foi um enorme sucesso (hoje já está fora de catálogo). E também em 2007 a Thames & Hudson publicou Factory Records: The Complete Graphic Album – FAC 461, um grande volume dedicado à contribuição dele e de outros artistas gráficos à definição da “imagem da Factory”. O livro da Thames & Hudson, ao contrário de Designed by Peter Saville, continuou sendo reimpresso.

Mas parece que Peter Saville: Estate 1-127 não foi uma “surpresa” apenas para mim. Após publicar uma foto do livro no Instagram deste blog, logo apareceram comentários de outros fãs da categoria “casca grossa”, estrangeiros inclusive, nos quais estes confessavam que nunca o tinham visto antes. Depois que o livro foi entregue aqui em casa (alguem achou mesmo que eu não o encomendaria?), pude não somente entender melhor sua proposta, mas também desenvolver um palpite sobre o por que dele não ser tão conhecido – pelo menos não entre fãs de Joy Division, New Order e Factory Records. Estate 1-127 tem como tema a exposição sobre Peter Saville realizada em 2005 no Migros Museum für Gegenwartskunst (Museu de Arte Contemporânea de Migros), em Zurique (Suíça). Essa exposição foi menos dedicada ao produto final e às obras acabadas que aos métodos e processos de trabalho do designer. Por isso, é provável que o público-alvo do livro seja formado, em sua maioria (tal como a audiência da exposição), por apreciadores de arte contemporânea e profissionais/estudantes de artes visuais do que fãs de música pop.

Por isso, não espere por um livro recheado de fotos de capas de discos. Algumas delas até dão o ar da graça, mas a proposta é fazer as pessoas conhecerem um pouco mais o processo criativo do artista. Até porque Saville não passou a vida toda fazendo somente emabalagens originais e elegantes para guardar espécimes daquele nosso “preto que satisfaz” (o vinil). Ele já produziu trabalhos e campanhas para Dior, Lacoste e Stella McCartney, desenhou a camiseta da seleção inglesa de futebol para a Umbro em 2010 e mais recentemente foi convidado pela prefeitura de Manchester para desenvolver o novo design da cidade: de placas com os nomes das ruas a abrigos de pontos de ônibus. Sendo seu modus operandi o foco principal de Estate 1-127, o livro mostra maquetes, esboços, páginas de enciclopédias ou de catálogos de perfuradores, objetos achados/recolhidos no lixo, em brechós, garage sales e o que mais pudesse servir de inspiração ou material a ser trabalhado (no sentido tanto literal quanto conceitual).

Mas tão importante quanto o “acervo” apresentado no livro são os ensaios que ele inclui (em inglês) e que, de maneira “didática”, isto é, da forma mais pedagógica que se é possível chegar quando o assunto são textos sobre arte, nos ensinam a entender o trabalho de Saville. Segundo um dos ensaístas, Heike Munder: “Em contradição com o mero papel de apoio para um propósito externamente determinado, o trabalho de Saville enfatizou o espírito da época [zeitgeist] e seus métodos espelham uma ideia de si mesmo como um produtor cultural dentro de uma estrutura social. Saville tirou proveito de variadas categorias de imagens e diversas fontes históricas da vanguarda clássica – como o construtivismo e o futurismo italiano – e as importou em suas tarefas criativas, entrelaçando esses materiais que ele reciclou em um complexo processo de aplicação. Ao invés de simplesmente copiar, ele se dedicou a uma forma inteligente de apropriação, na qual o original é engenhosamente incorporado e transformado, ao invés de ser degenerado em uma citação”. Ao ler isso, impossível eu não me lembrar de um sujeito (bem ignorante) em uma comunidade do extinto Orkut que disse que a capa de Movement (New Order) era tão simples e sem graça que até o filho pequeno dele seria capaz de criar e fazer.

Estate 1-127 também mostra o lado fotógrafo de Peter Saville – um talento pouco conhecido. O livro traz uma série de fotos de sua autoria chamada It All Looks Like Art to Me Now [trad.: “tudo parece arte para mim agora”], na qual cenas protagonizadas por objetos, como um rolo de fita crepe pendurado na fechadura de uma porta ou materiais de uma obra/reforma repousados sobre a pia de uma cozinha, capturados por suas lentes em lugares que vão desde um estúdio da emissora alemã de televisão WDR à Frieze Art Fair de Londres, nos remetem facilmente a “esculturas” ou instalações em uma galeria de arte contemporânea. Nesse trabalho, mais uma vez se evidencia o gosto pelo ready made e, naturalmente, a influência incontestável de Marcel Duchamp e do dadaísmo (um de seus “lemas” era: “use todas as superfícies como espaço de trabalho, inclusive carpetes, mesas de café, armários e cômodas”). O próprio conceito por trás dessa série fotográfica – “tudo parece arte para mim agora” – serviu de mote para uma exposição posterior de Saville, chamada Accessories to an Artwork, realizada na galeria de arte Paul Stolper (Londres), em 2008, e que teve os pedestais das peças em exibição desenhados e construídos pelo próprio designer – dando a entender que mesmo eles, reles e banais pedestais de galerias e museus, também seriam (ou poderiam ser) obras de arte.

O livro Estate 1-127 foi, pelo menos para mim, um belo achado. Como eu já havia comentado alguns parágrafos acima, talvez não seja exatamente o que um interessado em cultura pop esteja buscando – nem todo mundo que ama essa maravilhosa arte de fazer capas de discos é amante de arte. O percentual de fãs de música realmente interessado em questões de conceito e de método por trás das artes de seus álbuns e singles favoritos é muito reduzido. Mas, no caso de Peter Saville, quando a curiosidade ultrapassa o que está impresso no quadrado de papelão, descobre-se por trás daquela imagem um complexo universo de referências, tanto da dita “alta cultura” quando da chamada “cultura popular” ou do cotidiano, cujas fronteiras são totalmente dissolvidas. Essa é a diferença entre um artista e quem apenas desenha capas de LPs e CDs.

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REVIEW | Avaliamos a caixa “B-Box: Lust & Sound In West Berlin”

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Unboxing the B-Box

Fazia um bom tempo que não se publicava aqui no blog um video review, mas o lançamento da caixa B-Box, um item luxuoso (e de tiragem limitada) que propõe uma verdadeira imersão no universo do fime/documentário B-Movie: Lust & Sound in West Berlin 1978-1989, parecia ser um ótimo motivo para ficar em frente a câmera e apertar o “REC”. Dirigido por Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck, Heiko Lange e Miriam Dehne, o filme é um registro do cenário musical e cultural de vanguarda da antiga Berlim Ocidental ao longo da década de 1980 e que procura revelar o que despertou o fascínio de gente como David Bowie, Iggy Pop ou Nick Cave, que gravaram trabalhos importantes e inspiradores enquanto estiveram por aquelas bandas, como LowThe IdiotTender Prey. O filme foi construído a partir do que foi capturado pela câmera de Mark Reeder, músico e produtor que deixou Manchester (Inglaterra) em 1978 para ir a Berlim encontrar seus ídolos do krautrock (como Edgar Froese, do Tangerine Dream) e que por lá acabou ficando. Além de se tornar o representante da Factory Records na então Alemanha Ocidental, tornando-se doravante o responsável por divulgar o Joy Division e o A Certain Ratio, Reeder trabalhou com nomes locais como Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten, Nick Cave & The Bad Seeds),  Die Toten Hosen e Malaria!, e teve suas próprias bandas (Die Unbekannten e Shark Vegas). A caixa é uma experiência completa através de diferentes mídias: o filme, a trilha sonora, livro… Maiores detalhes no vídeo e, também, na galeria de fotos. Já sobre a relação entre Reeder/B-Movie e o Joy Division ou o New Order, é só dar uma conferida em um post que fizemos anteriormente.



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REVIEW | Livro: “The ‘Blue Monday’ Diaries”, de Michael Butterworth

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Michael Butterworth: testemunha da criação de um clássico

“Outros artistas vêm fazendo música sintetizada sequenciada há alguns anos, mas esta é talvez a primeira vez  que uma banda de rock  usa essas técnicas no coração de sua música. Eles estão experimentando muitas coisas que lhes são novas – novas, inclusive, para o engenheiro de som”.

O fragmento acima vai de encontro do que sempre pensei à respeito do New Order: apesar de ser contemporâneo de grupos que também faziam um tipo de música sintetizada, como Depeche Mode, Ultravox, OMD ou Yazoo, o (outrora) quarteto oriundo de Manchester, que nasceu forjado no seio de uma tragédia, é outra coisa. É uma banda híbrida – encontro entre o rock, a música eletrônica e a “profana” disco music. Ouçam atentamente Power, Corruption & Lies, o segundo álbum do New Order, lançado em 1983: nele Bernard Sumner (voz e guitarra), Gillian Gilbert (teclado e guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria e teclado) não apenas deram forma definitiva ao seu som, como também criaram algo que, de fato, pouco se assemelhava ao que os outros estavam fazendo. Não soava como Construction Time Again, ou You and Me Both, por exemplo.

Aliás, o autor da citação que introduz este texto teve o privilégio de acompanhar de perto, como uma “mosca na parede”, o dia-a-dia das gravações de Power, Corruption & Lies e, também, do que viria a ser o single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos: “Blue Monday”. Michael Butterworth (Manchester, b. 1947), conhecido na Inglaterra pelos seus contos e romances de ficção científica, e, também, como um dos fundadores da editora e distribuidora de livros Savoy, foi o cara certo no lugar e na hora certos. Ele foi testemunha ocular do momento em que o New Order se convertia, enfim, naquela banda – conexão entre o rock e a música dance, e situada na fronteira entre o pop e o avant garde. Seu “diário de bordo” de tudo o que rolou no Britannia Row Studios, em Londres, ficou registrado em quatro cadernos. Recentemente redescobertos, serviram de base para um item doravante obrigatório para os fãs: The Blue Monday Diaries: In the Studio With New Order (Plexus, 189 páginas).

Antes de mais nada, Butterworth procura explicar para o leitor que por trás da história do seu diário sobre o New Order trabalhando em estúdio existem alguns precedentes – o que o obriga a recuar no tempo até a década de 1970, em Manchester. O que muita gente não sabe é que existia na cidade um circuito de livrarias alternativas que tinha uma estreita relação com a cena musical local. Canções do Joy Division, primeira encarnação do New Order, e de outras bandas “do pedaço”, como The Fall e A Certain Ratio costumavam “frequentar” os alto falantes do sistemas de som interno das lojas de livros. Stephen Morris e o finado Ian Curtis eram clientes dessas livrarias antes mesmo do Joy Division existir. Foi nesse contexto que o autor teve o primeiro contato com a banda. Mais tarde, quando já tinham se transformado em New Order, não foi difícil convencer o grupo e seu empresário, Rob Gretton, a aceitá-lo como companhia no estúdio para a realização de um projeto: um livro sobre o New Order (o que acabou não acontecendo naquela época por desistência dos editores).

Algo marcante em The Blue Monday Diaries é, sem dúvida, a minúcia e a riqueza de detalhes. Todavia, o afã do autor de transcrever para o livro absolutamente tudo o que foi registrado em seus cadernos, inclusive as mais irrelevantes observações, faz com que ele caia em redundâncias indubitavelmente descartáveis. Por exemplo, incontáveis vezes Butterworth se detém em informações dispensáveis, como o que os membros da banda estão vestindo, de que cor, se tem estampa (e como ela é) etc. Ele também descreve quase todas as idas com a banda ao estúdio pela manhã: a que horas, quem estava na direção do carro, qual percurso fizeram e se pararam em algum lugar antes; Michael também sempre relata inúmeras vezes a volta do estúdio para o apartamento alugado em Londres e, a cada vez, informa ao leitor quem foi para cama primeiro, a que horas, quem ficou acordado até mais tarde e por aí vai. E mais: cada momento que alguem da banda ou Rob colocava um baseado, um comprimido de speed (anfetamina) ou um tablete de LSD na boca foi devidamente narrado no livro. Por fim, outra repetição irritante eram as constantes comparações que Butterworth insistia em fazer entre o mercado editorial e a indústria musical.

Mas fora essa lista de “mais do mesmo”, sobra algo bom? A resposta é sim. Aprende-se bastante sobre o modus operandi da banda naqueles tempos – tanto no que diz respeito ao processo criativo (como escreviam as músicas e as letras) quanto com relação à produção em estúdio (não se esqueçam que Butterworth documentou o momento em que o New Order já estava produzindo seus próprios discos). Como qualquer outra banda, suas músicas nasciam em uma sala de ensaios e a partir de jams (improvisos), que eram gravadas; no meio do “caos”, encontravam cinco segundos que lhes pareciam interessantes e resolviam desenvolver algo mais elaborado a partir daí, mas sem uma letra; com a música pronta, os sequenciadores, drum machines, isto é, toda a parte techno, entravam depois, no estúdio. Tudo o que iria ser feito em um dia de gravação era previamente decidido de forma consensual e democrática. As letras via de regra vinham no final.

Outro ponto a favor do livro é a maneira como ele ilumina melhor o papel ou as qualidades individuais de cada um dos membros. Bernard Sumner, por exemplo, é o principal arranjador da banda e, junto com Stephen Morris, está sempre às voltas com a “domesticação” dos instrumentos eletrônicos. Mas é particularmente interessante o modo como Butterworth descreve Gillian Gilbert – justo ela que, atualmente, tem sido alvo de ataques ferozes do baixista Peter Hook, hoje fora da banda (ele insiste em dizer que Gillian nunca trouxe alguma contribuição para o New Order). Observando-a trabalhar em um overdub para a faixa “Ecstasy”, o autor escreveu:

“Ela começa a tocar uma animada linha de baixo no Moog [Source], que é corrigida na fita multicanal por Mark. Na maior parte do tempo ela está perfeita e intencionalmente imóvel, de pernas cruzadas, enquanto seus dedos tocam com entusiasmo. Ela se mantém no ritmo e o persegue, bordando-o com padrões compactos e curtos que me fazem lembrar saltos em um jogo de amarelinha. Ela é amorosa, carinhosa e, de repente, vejo porque Rob queria que ela fizesse parte do grupo. Se eu fosse aquela batida [da música], eu ficaria feliz em ser pego por ela”.

Mas se existe um grande mérito nesse livro, mais do que ser um making of de um grande single e de um belíssimo álbum, é o de servir como documento de como era fazer música eletrônica há 34 anos. Hoje com um laptop, um software e alguns plug ins, se pode produzir um álbum inteiro de pop eletrônico sem sequer precisar da infraestrutura de um grande estúdio de gravação, o que era impossível em 1982/1983. The Blue Monday Diaries mostra a luta de Barney, Stephen, Gillian e Peter para conseguir dominar o que hoje equivaleria ao Homem de Neanderthal para a espécie humana, só que com nomes estranhos que pareciam saídos de antigos filmes sci-fi: Sequential Circuits Prophet V, Powertran ETI 1024 Custom Built Sequencer, E-Mu Systems Emulator… São comuns no livro os relatos de problemas de mal funcionamento de toda essa parafernália e, igualmente, de como era difícil manipulá-los. Mas é claro que, com o passar dos anos, o New Order acompanhou as viradas da tecnologia musical. Durante muito tempo eles levaram para os palcos parte do equipamento usado em estúdio, como os sequenciadores. Atualmente eles usam gravadores hard disk multipista, o que significa que os sequenciadores foram aposentados, pelo menos para uso nos shows.

The Blue Monday Diaries só não leva uma nota dez porque Butteworth é bastante chegado em divagações – dentre elas, destacam-se aquelas nas quais o autor procura convencer o leitor de supostas conexões existentes entre a música do New Order (e a do Joy Division também) com a ficção científica, seu habitat natural. Além disso, a Savoy, sua antiga empresa do ramo editorial (e que também chegou a se aventurar pela indústria musical), ganhou espaço muito além do merecido no livro. Em alguns momentos, cheguei a me perguntar se estava a ler sobre New Order/”Blue Monday”/PC&L ou sobre Butterworth/Savoy/mercado literário/sci-fi. Em todo caso, pelas qualidades já citadas, é uma obra recomendável e que pode ser considerada um warm up para o livro de memórias sobre o New Order que Peter Hook dever lançar ainda este ano – e que deve acrescentar mais detalhes sobre as gravações, de “Blue Monday”, Power, Corruption & Lies e de outras faixas e álbuns.

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REVIEW | “Singularity” (single)

CeUye1EUIAAtoTA“Singularity” foi a primeira faixa do material que a banda estava escrevendo para o álbum Music Complete a ser apresentada publicamente. Isso aconteceu ao vivo, no dia 30 de março de 2014, em Santiago, no palco Playstation, enquanto encerravam a segunda noite da edição chilena do festival Lollapalooza com o Soundgarden (que estava em outro palco). Eu estava lá – e mal podia acreditar que, pela primeira vez, pude assistir o début de uma música antes mesmo dela ser lançada. Me recordo de, no dia seguinte, ter encontrado o vocalista e guitarrista Bernard Sumner no aeroporto Arturo Merino Benítez, quando a banda estava para embarcar em um voo a caminho da Argentina, e de ter dito a ele de que eu havia gostado muito da “música nova” (o que era a mais absoluta verdade, ainda que o som do show em Santiago estivesse muito ruim). Barney, que estava autografando meus encartes dos CDs Singles e Live at Bestival 2012, levantou a cabeça, arregalou os olhos, abriu um largo sorriso de satisfação e disse, com toda a simplicidade que há no mundo: “Yeah, que bom que você gostou!”.

Por causa da foto de um set list de ajuste entre iluminação e BPMs (batidas por minuto) que caiu na internet, instantaneamente a música ficou conhecida como “Drop the Guitar” – um título, alías, com toda pinta de provisório. Mas a banda não demorou muito para divulgar, em seu próprio site oficial, que seu nome verdadeiro era “Singularity”. No final de semana seguinte, em São Paulo (Autódromo de Interlagos), Bernard Sumner pegou o microfone e encerrou de vez a história antes de tocá-la novamente: “Esta se chama ‘Singularity’ e não ‘Drop the Guitar’, como andam dizendo por aí. Procurem na Wikipedia!”.

Da primeira apresentação ao público, em março de 2014, ao seu lançamento como single, em março de 2016, se passaram dois anos. De lá para cá, “Singularity” assumiu uma posição alta no repertório da banda: além de ter derrubado “Crystal” do posto de opener dos shows, ela é hoje uma das músicas de Music Complete que os fãs mais gostam. Recentemente, a banda apresentou uma versão ao vivo irrepreensível no The Late Show with Stephen Colbert que ganhou destaque no site da revista Rolling Stone. Todavia, como single, “Singularity” recebeu da atual gravadora da banda, a Mute Records de Daniel Miller, o mesmo tratamento dos dois anteriores, “Restless” e “Tutti Frutti”: primeiro saiu uma versão editada disponível no formato digital single download, seguido da divulgação do vídeo promocional e do áudio de um ou dois remixes no canal oficial da banda no You Tube, até que, finalmente, vieram os lançamentos em formatos físicos (CD e clear vinyl de 12″ colorido).

“Singularity” não traz nenhum lado B, somente remixes (os últimos singles do New Order a trazerem b-sides foram “Here to Stay” e o re-issue de “World in Motion”, ambos em 2002). Se no passado um remix costumava ser, via de regra, apenas um rearranjo dos elementos originalmente contidos na versão oficial, hoje em dia é uma autêntica reinterpretação, uma faixa “nova” construída a partir de alguns pedaços – samples – da canção original. Nesse terceiro single de Music Complete, o New Order recrutou para o seu time de colaboradores gente como Steve Dub, Erol Alkan, Mark Reeder, J. S. Zeiter e a banda Liars.

Pessoalmente, apesar de gostar muito de “Singularity”, sempre tive a impressão de que não era uma música lá muito fácil de se remixar. Opinião compartilhada, aliás, por um dos remixers escalados para essa empreitada (Mark Reeder). O engenheiro de som Craig Silvey, por exemplo, errou a mão na hora de passar a tesoura na gravação original para criar a versão “Single Edit”. Não que a culpa fosse dele – mas eu acho muito difícil encontrar pontos apropriados na faixa onde se pode fazer uma edição sem que a intervenção cirúrgica não pareça muito evidente. O mesmo já não se pode dizer da versão estendida. O DJ californiano Steve Dub ficou com o trabalho mais fácil – alongar a música em vez de encurtá-la – e se deu melhor. Seu “Extended Mix” é o mesmo que foi incluído na edição Deluxe Vinyl Box Set de Music Complete e o resultado final não é menos que magnífico.

O produtor musical e DJ Erol Alkan é, sem sombra de dúvida, um dos nomes badalados dentre os escolhidos para turbinar “Singularity”. Por ter sido durante tanto tempo o DJ residente do club londrino Trash, que também já recebeu shows de bandas como LCD Soundsystem e Bloc Party, e por ter remixado faixas de Hot Chip e Chemical Brothers, suas contribuições estavam entre as mais aguardadas entre os fãs gringos dos New Order. Todavia, seus “Stripped Remix” e “Extended Rework” não estariam, ao meu ver, entre os mehores remixes de “Singularity”. Não são ruins, todavia. Apenas ok. O “escorregão” fica por conta mesmo do “Liars Remix”: a banda nova-iorquina assinou um remix que, embora conserve grande parte dos elementos da gravação original, peca pela falta de imaginação. A tentativa de emular um som mais dark, como se quisessem prolongar a atmosfera soturna da introdução do mix oficial, soa estéril e fútil. Resumindo: esquecível (ele é uma espécie de bonus track na versão download do single, que pode ser obtida através de uma senha/código que acompanha a edição em vinil de 12″).

Por outro lado, quem curte techno vai viajar nos remixes de J. S. Zeiter, que também atende pelo nome de MCMLXV. Ele nos oferece seu “J. S. Zeiter Remix” (disponível na versão em CD) e sua contraparte predominantemente instrumental, “J. S. Zeiter Dub” (incluída no vinil). Não chegam a ser memoráveis, mas os considero melhores que os remixes do super-idolatrado Erol Alkan, principalmente a versão dub. Mas a “cereja do bolo” mesmo são as reinterpretações de Mark Reeder (“Duality Remix” e “Individual Remix”). Reeder merece mesmo um pouco mais de destaque aqui. Ele é um velho conhecido do New Order – na verdade, ele é um amigo próximo desde os tempos do Joy Division. Naquela época ele fazia parte de uma banda chamada Shark Vegas, mas ainda na década de 1980 ele se mudou para a Alemanha Ocidental, onde se tornou um representante da Factory Records e, também, produtor musical, DJ e dono da gravadora Mastermind for Success. É de Reeder e de outro DJ, o húngaro Corvin Dalek, a primeiríssima versão de “Crystal” (já com os vocais de Barney Sumner), que viria a se tornar um hit do New Order. Além disso, Reeder é a figura central do filme B-Movie: Lust and Luxury in West Berlin 1979-1989, que mistura imagens documentais e reconstituídas para traçar uma espécie de painel musical e cultural da outrora Berlim Ocidental, do punk à Love Parade, e que foi usado na montagem no vídeo promocional de “Singularity”.

O “Duality Remix” é surpreendentemente curto para os padrões de hoje – a versão disponível no CD está editada e possui 3’49”, enquanto que a gravação que acompanha o download tem 4’57”. Apesar da pequena duração, esse remix é um gigante. Seguramente, é o melhor de todos. Já o “Individual Remix” não é uma versão estendida do anterior. Pelo contrário, é um remix totalmente diferente, ainda que possua trechos e partes que remetam ao “Duality”. Trata-se de uma versão mais elaborada e complexa, mas peca justamente por dispensar a concisão e a perfeição objetiva da outra. Mesmo assim, é uma pérola.  Heil Mark Reeder!

Como bonus track, o CD e o 10 Track Audio Download (adquirido não apenas via código que acompanha o vinil, mas também através de download pago direto) trazem o remix de Tom Rowlands (Chemical Brothers) para “Tutti Frutti” e que havia sido disponibilizado para ser baixado de graça em dezembro do ano passado como “presente de Natal” para os fãs.

Para finalizar: a edição em vinil de 12″ de “Singularity” contém ainda um “brinde” um tanto quanto curioso. Trata-se de uma folha de papel branca impressa com um diagrama causal do buraco negro, acompanhado de um texto explicativo. De acordo com a astronomia, um buraco negro se forma quando uma estrela em colapso gravitacional desaba sua massa em direção ao seu próprio centro, tornando-se capaz de atrair ou “sugar” para o interior desse ponto toda matéria próxima. O buraco negro seria um exemplo de “singularidade gravitacional” (sacaram a conexão?). Observando com atenção o diagrama causal do buraco negro, se descobre com facilidade qual foi a inspiração do designer Peter Saville para a capa de “Singularity”.

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