REVIEW | “People on the High Line” (7″ shaped picture disc)

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“People on the High Line”: agora em versão shaped picture disc de 7″

Se tem uma coisa da qual fã nenhum do New Order pode reclamar é da maneira como a Mute Records vem promovendo o álbum Music Complete, lançado no ano passado. A gravadora comandada por Daniel Miller empregou distintas estratégias promocionais nessa empreitada: os snippets do Twitter com trechinhos das músicas (e que funcionavam como teasers do CD), diversas versões do disco para diferentes gostos e bolsos (inclusive um mega-luxuoso box set de oito discos de vinil coloridos!), quatro singles, lançamento de faixas avulsas em formato digital aberto para o público bolar seus próprios remixes, concurso para vídeo promocional com prêmio em dinheiro… A última novidade é um shaped picture disc de sete polegadas do mais recente single, “People on the High Line”.

Lançado no dia 14 de outubro, ou seja, pouco mais de um mês depois que os outros formatos físicos saíram, o shaped picture disc de “People on the High Line” veio a ser o primeiro e, até este momento, único lançamento do gênero da carreira do New Order. O disquinho foi cortado tendo como molde a figura usada na capa da edição em vinil de 12″, que remete a um motivo da tapeçaria TudorEsse mesmo motivo, além daquele usado na capa da versão em CD, apareceram primeiro no etched vinyl da caixa Music Complete: Deluxe Vinyl Box Set. Aliás, vale relembrar que o conceito por trás do artwork do último LP teve inspiração Tudor: do enxaimel à tapeçaria.

Voltando ao picture disc… trata-se de uma edição limitada em 2.000 cópias numeradas. O humilde autor deste blog ficou surpreso por ter se tornado proprietário de uma das cinquenta primeiras cópias: a que chegou na minha caixa de correio veio com o número 45. Foi um golpe de sorte, uma vez que ao encomendar o disco na pré-venda não era possível escolher o número da cópia. Recebi comments de seguidores do Instagram do blog que me disseram que compraram os seus em lojas físicas (na Inglaterra) bem no dia do lançamento e obtiveram números como 1.225 ou 1.605. O exemplar que aparece no site dedicado ao designer Peter Saville – e que ilustra o comecinho deste post – é o de número 311. Como eu disse, tive sorte.

Esse shaped picture disc de “People on the High Line” é a única edição a trazer as versões edit da mixagem original (e, por essa razão, é a que foi usada no vídeo promocional) e do “Claptone Remix” (aproveitada em um vídeo promocional oficial alternativo). Mas o disco inclui um código para que se possa baixar um “pacote” de remixes: os dois do vinil e outros cinco, totalizando sete. Ponto a favor, é claro. Até porque, como é de praxe em picture discs, o som não chega a ser lá essas coisas – e dá para notar um discreto “chiado”. Em geral, esses discos são bonitos, mas ordinários…

Porém, como item de colecionador, ele faz bonito. E há de se convir que Peter Saville e seu parceiro, Paul Hetherington, realmente vêm caprichando nos artworks de Music Complete e seus singles.

Até este momento, não há qualquer indício de que teremos um quinto single saído de Music Complete, álbum cujo “ciclo” aparenta estar chegando ao fim. Para quem curte e coleciona, valeu a pena: além do álbum ser bom, ele originou vários itens bem legais de se ter.

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REVIEW | Avaliamos o relançamento de “Singles”

new-order-singlesLá pelos idos de1986/1987, o falecido “Mr. Manchester”, Tony Wilson, na época repórter e apresentador da Granada TV e chefe da gravadora Factory Records, comprou um Jaguar novo em folha e equipado com um CD player. Para saciar a sua vontade de poder ouvir todos os singles do New Order enquanto dirigia seu novo (e caro) “brinquedo”, a banda e seu selo conceberam o álbum Substance (agosto de 1987), o ducentésimo lançamento da Factory (FACT 200). O coneito por trás do disco (duplo) era o seguinte: reunir em um mesmo título todos os singles de 12” que o New Order havia lançado, desde o primeiro – “Ceremony”, de 1981 – até o mais recente – “True Faith”, de julho de 1987. Foi um grande sucesso: cerca de 2 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos.

Embora tenha álbuns em diversas listas de “Melhores Discos de Todos os Tempos” – Low Life (1985) e Technique (1989) são os que mais frequentemente aparecem -, o New Order se notabiizou mesmo pelos grandes singles de 12” gravou, sendo que alguns deles não faziam parte de um LP até Substance aparecer. Inclusive, a banda detém o recorde do formato: “Blue Monday” é, até hoje, o single de doze polegadas mais vendido de todos os tempos. Mas por que a escolha dos 12”? Na década de 1980 esse formato (o mesmo diâmetro de um long play) alcançou uma popularidade até então inédita, sobretudo porque possibilitava o lançamento de versões estendidas (acima de 5 minutos) ou remixadas das músicas de trabalho, o que contribuiu para sua larga utilização pelos DJs nos clubs. Os finais alongados ou demoradas passagens instrumentais facilitavam a vida daqueles que queriam fazer experimentos com as “carrapetas” enquanto o público suava na pista de dança. A musica do New Order parecia ter sido feita sob medida para esse formato.

Mas o bom e velho disco compacto, de sete polegadas, não tinha sido abandonado ainda. Devido ao seu menor diâmetro, os artistas daquela época frequentemente o utilizavam para lançar versões editadas e mais curtas de suas músicas para facilitar a veiculação nas rádios. Em torno de 3’30” e 4’00″ (aproximadamente), essas versões eram conhecidas como 7” Mix (“mixagem para sete polegadas”), 7” Edit (“editada para sete polegadas”) ou Radio Edit (“editada para rádio”) e também eram usadas nos vídeos promocionais. Com o surgimento do CD, a prática de lançar faixas editadas para os meios de comunicação não foi deixada de lado. Por isso, quase vinte anos mais tarde (2005), quando anunciaram que seria lançada uma nova coletânea de singles (e atualizada com tudo o que foi lançado de 1987 em diante), mas dessa vez com as versões editadas, os fãs pularam de alegria: uma parte nada insignificante desse material não havia sido lançada em formato digital ainda.

Singles foi criado como um contraponto ou complemento à proposta de Substance. Enquanto um disco era dedicado aos 12” e suas versões estendidas, o outro se concentrava nos compactos ou versões curtas lançadas em CD. A ideia era genial. Mas na época em que foi lançado, Singles não entregou o que vendeu. Diversas faixas eram, na verdade, album versions ou edits novos feitos exclusivamente para a coletânea. Em 2008, quando saíram as edições remasterizadas e expandidas dos álbums do New Order do período Factory, muita gente pensou “agora vai!” – mas, novamente, muita coisa ficou de fora, o que deixou os fãs frustrados. Melhor dizendo: irritados.

Mas Singles está de volta. A coletânea acaba de ser relançada – não apenas em CD duplo, seu formato original, como também na forma de um lindo (e dispendioso) box set de quatro vinis de 180 gramas. O press realease tenta justificar o relançamento: “Uma década após seu primeiro lançamento, Singles foi refinado para se transformar em uma digna representação da história da banda. O renomado Frank Arkwright remasterizou o material em Abbey Road a partir de cópias de alta qualidade das masters. Além da adição de ‘’I’ll Stay With You”, de Lost Sirens (2013), inclui os single edits e mixagens corretas de “Nineteen63”, “Run 2”, “Bizarre Love Triangle”, “True Faith”, “Confusion” e “Perfect Kiss”. O resultado é uma atualização da versão anterior do álbum”.

Fora a inclusão de “I’ll Stay With You”, algo sem propósito se considerarmos de que se trata de uma música que nunca foi lançada em single, a versão remasterizada e atualizada de Singles certamente vai arrancar um sorriso de satisfação até do fã mais exigente. Para começar, o trabalho feito por Frank Arkwright, que já havia remasterizado o material do Joy Division, é irrepreensível – está anos luz à frente do som demasiado alto e irritantemente estridente das Collector’s Editions dos álbuns do período 1981-1989. O outro ponto forte é a apresentação da caixa com os quatro LPs (vide fotos): aqui Peter Saville reinterpretou sua própria criação com um indefectível toque de luxo e requinte. Aliás, parece que o designer ultimamente vem dando o seu melhor no formato box set – vide as versões “encaixotadas” do álbum Music Complete.

Se há algum “defeito” a ser mencionado em Singles é que, mais uma vez, nem todas as versões das faixas estão corretas. Os edits de “Confusion” e “The Perfect Kiss”, por exemplo, não são os originais encontrados nos vinis de 7” lançados na Inglaterra na década de 1980; “Blue Monday”, como na edição anterior, aparece em sua apoteótica versão de pouco mais de sete minutos (a gravação editada fora rejeitada pela banda e até o presente momento continua existindo apenas em um raríssimo compacto promocional lançado no Japão em 1983); todavia, agora temos “Run 2” finalmente em formato digital.

Para quem deseja completar o catálogo do New Order em CD, pode se dizer que Singles chega quase lá, o que já é o suficiente para ser recomendado. Com relação ao box set de quatro LPs, fica a pergunta: vale o quanto pesa? A resposta é sim: é aquele tipo de item engrandece e embeleza uma boa coleção. E essa nova edição parece ser um bom prenúncio de que finalmente teremos, em um futuro próximo, “a” caixa do New Order (o baterista Stephen Morris disse em entrevistas recentes que a banda está preparando o que virá a ser o seu box set “definitivo” da banda). Depois do balde de água fria que foi o cancelamento de Recycle e o fiasco dos álbuns remasterizados e expandidos em CD, fica a esperança de que os fãs serão, enfim, recompensados pela longa espera!

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MEMÓRIA | “Brotherhood” (New Order) comemora 30 anos hoje

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O quarto LP do New Order foi lançado há trinta anos

Há exatos trinta anos, o New Order lançava (pela Factory Records) Brotherhood, seu quarto LP. Produzido pela própria banda e gravado em três estúdios diferentes – o Jam, em Londres; o Windmill Lane, em Dublin (Irlanda); e o Amazon, em Liverpool -, o disco representou uma pequena queda em um gráfico (hipotético, evidentemente) que vinha mostrando uma linha ascendente. Comparado com o seu antecessor, o magnífico Low Life (1985), que havia alcançado o sétimo lugar na parada britânica de álbuns, Brotherhood ficou duas posições abaixo. Na parada dos 200 Melhores Álbuns da revista americana Billboard, ele não repetiu, muito menos superou, o bravo 94o lugar conquistado por Low Life; em vez disso, foi o número 161. Todavia, o quarto rebento do New Order trazia o single “Bizarre Love Triangle”, que estourou nos Estados Unidos e na Austrália, abriu portas para o grupo na América do Norte (no Brasil também foi um enorme sucesso, só que um pouquinho mais tarde) e hoje, tendo se tornado um dos maiores hits da banda e um clássico da década de oitenta, é peça obrigatória nos shows. E a revista Rolling Stone a colocou na sua lista das 500 Maiores Músicas de Todos os Tempos.

Mas a verdade é que “Bizarre Love Triangle” ficou mais conhecida pelo remix produzido por Shep Pettibone, e que posteriormente foi incluído em Substance (1987), do que pela versão original que abre o lado B de Brotherhood. Este, por sua vez, foi concebido em meio a uma disputa entre o vocalista e guitarrista Bernard Sumner e o baixista Peter Hook com relação à direção que o New Order deveria seguir em termos musicais. Esse, aliás, deve ter sido o começo das divergências entre os dois. E isso talvez explique porque soaram um pouco menos inspirados nesse disco. Sumner, que de todos os quatro foi o que mais mergulhou de cabeça na experimentação com sintetizadores e nos ritmos dance, queria fazer um LP totalmente eletrônico; “Hooky” foi contra, pois ele era o grande defensor do lado mais rock do grupo, além de achar de que o New Order deveria continuar sendo uma mistura desses dois estilos.

Bernard Sumner acabou perdendo a queda de braço com o baixista simplesmente porque eles não tinham músicas totalmente eletrônicas o suficiente para preencher um álbum inteiro. Pelo contrário, as faixas nessa vertente que eles possuíam dariam, no máximo, a metade de um disco. O material que faltava foi formado, basicamente, por canções mais “roqueiras”, com o mínimo ou simplesmente nada de sintetizadores. A diferença entre os dois materiais era tão grande que a banda resolveu separá-los em cada lado do vinil: o lado A era o rock; o lado B era o dance. A escolha do título – Brotherhood, que em português quer dizer “fraternidade” ou “irmandade” – era uma espécie de “piada interna” porque representava exatamente o oposto do clima de divisão que se instalou ao longo da produção do álbum.

É praticamente desnecessário dizer que o lado de Brotherhood favorito de Sumner é o B, enquanto que o de Peter Hook é o A… Quer dizer, mais ou menos. Mais recentemente, por ocasião dos shows em que o agora ex-baixista, com sua banda The Light, vinha tocando os discos Low Life e Brotherhood na íntegra, Hooky andou declarando que atualmente ele vem gostando mais do lado B. Na verdade, no vinil, o número de faixas rock é maior que o de canções eletrônicas: são cinco contra quatro respectivamente. Porém, quando o álbum foi lançado em CD, se estabeleceu o equilíbrio: como faixa-bônus, após “Every Little Counts” (música que encerra a edição em vinil), foi adicionado o single “State of the Nation”.

Parte do que viria ser Brotherhood já existia em 1985 e era tocado ao vivo. O caso mais conhecido é o de “As It Is When It Was”, que a princípio seria uma canção que deveria ter feito parte de Low Life. Uma versão dela dessa época pode ser vista/ouvida em Pumped Full of Drugs, um home video ao vivo gravado no Japão. “Weirdo” e “Broken Promise” também já eram conhecidas das audiências dos concertos, enquanto a clássica “Bizarre Love Triangle” fez sua estreia, ainda como tema instrumental, em uma apresentação no The Pavillon, na cidade de Hemel Hempstead, no leste da Inglaterra, no dia 11 de novembro de 1985. Outras músicas, como “Every Little Counts” (uma espécie de hit não oficial do New Order, mas que não é tocada nos shows desde 1989), nasceram durante a produção do LP. Inclusive, essa faixa rendeu uma história curiosa. Ela se encerra repentinamente com um som que parece o de uma agulha de toca-discos sendo arrastada sobre o vinil, fazendo aquele ruído “arranhado” e estridente. Para alertar os consumidores, que poderiam pensar que talvez tivessem comprado um álbum com defeito de fabricação, a gravadora brasileira (a WEA) pôs um aviso no rótulo do lado B: “Música com efeito especial”. Provavelmente essa era uma maneira de evitar trocas desnecessárias ou devoluções. O baterista Stephen Morris explicou que a intenção inicial era encerrar “Every Little Counts” com um “efeito especial” diferente em cada formato de Brotherhood: na versão cassete, haveria o som de fita se “embolando” no cabeçote e, no CD, uma espécie de “tic-tic”. Essa ideia, infelizmente, acabou não sendo levada adiante.

A capa de Brotherhood, como quase todas dos discos do New Order, é um capítulo à parte. Como de costume, a direção de arte foi assinada pelo designer gráfico Peter Saville. A fotografia ficou a cargo de Trevor Key (um colaborador regular de Saville naquela época). Em seu livro de memórias, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), Bernard Sumner escreveu: “Nós nos demos muito bem com Saville e ainda nos damos. Mas ele tem muito pouco tempo às vezes. Uma vez nós estávamos em Heathrow [N.T.: aeroporto localizado nos arredores de Londres], prestes a embarcar em um avião, e ele chegou correndo, ofegante, com um cigarro na mão e dizendo ‘Esta é a capa de Brotherhood. Gostaram?’ (…) Nos tempos do vinil, quando as pessoas compravam os discos, a arte das capas era muito importante porque representava a banda e seu gosto. Nossa opinião era de que se você comprasse um disco com uma grande capa você estaria levando duas obras de arte pelo preço de uma”.

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Diferentes versões da capa de “Brotherhood”

Para a capa de Brotherhood, Saville usou uma fotografia, feita no estúdio de Key, de uma folha metálica de zinco-titânio submetida ao calor para que sua superfície deformasse. A técnica foi inspirada nos experimentos que o artista plástico neodadaísta francês Yves Klein fazia com os quatro elementos essenciais (fogo, água, ar e terra). Mas aqui se verifica, também, um retorno às influências do ready made e da found art. As inscrições que aparecem na capa são, na verdade, as informações de catalogação do fabricante da folha de metal – no meio das quais, curiosamente, aparece um “1986”, o ano de lançamento do álbum. Uma tiragem limitada da primeira prensagem de Brotherhood na Inglaterra possuía um efeito metálico real que posteriormente foi repetido na primeira edição em CD lançada pela Factory na Inglaterra e, anos mais tarde, na reedição da London Records pela série New Order Collection. As atuais edições remasterizadas em vinil e CD trazem um remake da arte original que apenas emula de forma grosseira o efeito. Todas as demais edições lançadas ao longo dos anos e no resto do mundo trazem a versão “econômica” (e pouco atrativa) da capa. Mas nada se compara com o que a WEA fez em 1987, quando lançou o disco no Brasil: a gravadora adicionou um “New Order” em maiúsculas e negrito bem na frente, descaracterizando o trabalho original. Isso, inclusive, chegou a causar mal estar no ano seguinte, quando a banda descobriu a “façanha” durante sua primeira passagem pelo país para shows.

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Placa de zinco-titânio utilizada para a produção da capa de “Brotherhood”: influência do artista plástico Yves Klein. 

Jean-Yves de Neufville chamou a atenção para a capa de Brotherhood na crítica/resenha que escreveu para a revista Bizz por ocasião do lançamento do álbum (na Inglaterra): “na prateleira da loja, não vá confundi-la com aquelas placas que separam os discos por ordem alfabética (…) É o New Order transmitindo sua não-imagem para obrigarem as pessoas a se concentrarem na sua música. Só nos resta obedecer”. No mesmo texto, Neufville classifica o disco como sendo “o mais recente e melhor da banda” e que possui “uma aparente simplicidade que esconde uma produção sofisticada”. Curiosamente, ao longo dos anos, Brotherhood foi sistematicamente atacado pelos fãs por justamente possuir uma produção mais “fraca” e “preguiçosa” em comparação com os demais itens da discografia da banda: sua engenharia de som e sua mixagem sempre foram alvo de críticas. Mesmo assim, particularmente no Brasil, o LP tem um imenso fã clube que chega inclusive a colocá-lo acima de uma obra-prima como Technique (1989).

A verdade é que Brotherhood divide opiniões até hoje. Para Q Magazine, que publicou uma resenha/crítica retrospectiva sobre o disco em 1993, o álbum “sofre com a ausência de grandes canções, com a exceção de ‘Bizarre Love Triangle'”. Posição não muito distante da de Josh Modell, do site de entretenimento A.V. Club: “um grande desconhecido do catálogo ofuscado por um single estrondoso”. John Bush, do site AllMusic.com, o vê de outra forma e disse que “para o bem ou para o mal, este New Order não tinha mais nada a provar, exceto continuar fazendo boa música”. David Quantick, da Uncut, escreveu que “era o New Order se tornando New Order e se alguem tinha o direito de não ser mais o Joy Division, esse alguem eram eles”. O baterista Stephen Morris fez coro junto aos críticos: em entrevista dada ao site Noisey este ano, disse que o disco “foi feito de um jeito esquizofrênico porque estávamos tentando colocar os sintetizadores de um lado e as guitarras de outro, o que não funcionou… Eu acho melhor quando se mistura um pouco mais”. Mistura na qual, à parte alguns errinhos aqui e ali, o New Order se tornou um dos principais especialistas.

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25 ANOS | Estreia do Electronic comemora aniversário

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Primeiro LP do Electronic: 25 anos

“Que eu me lembre, o momento mais triste da minha vida, descontando questões de família, foi quando nos reunimos em um quarto de hotel em Los Angeles antes de um show no Irvine Meadows. Conversávamos sobre a Factory, pois a gravadora estava passando por problemas financeiros, quando Bernard anunciou que ele estava saindo para fazer suas coisas sozinho. Foi um choque para mim. Eu não esperava por isso. Eu não esperava não haver mais o New Order” (Peter Hook, extraído do livro True Faith: An Armchair Guide to New Order, Joy Division and Side Projects, de Dave Thompson, Helter Skelter Pub., 2005).

E foi isso mesmo: no finzinho dos anos 1980 o vocalista e guitarrista Bernard Sumner foi o primeiro membro do New Order a se ejetar da banda para ter uma carreira paralela. O parceiro escolhido nessa empreitada foi Johnny Marr, o cultuado ex-guitarrista do Smiths (com quem, aliás, Peter Hook havia tentado trabalhar também). Os dois se conheceram em 1984, durante a gravação de “Atom Rock”, single do grupo Quando Quango, produzido por Sumner e que contava com a participação de Marr como guitarrista convidado. A dupla começou a compor seu material por volta de 1988, mas apenas no final do ano seguinte, após a divulgação do álbum Technique, do New Order, e de Mind Bomb, LP do The The no qual Johnny havia tocado, que os dois, já batizados como Electronic, soltaram no mercado seu primeiro compacto: “Getting Away With It”.

Lançado pela Factory Records, “Getting Away With It” (FAC 257), que contou com a participação de Neil Tennant, dos Pet Shop Boys (e que também co-escreveu a música), chegou ao 12o lugar na parada inglesa. Segundo o New Musical Express na época: “É o mais completo disco pop da semana, por uma margem infinita… Uma adorável melodia derivada de uma canção gentilmente reforçada por uma obtusa e apaixonada espirituosidade. O disco consegue ser muito mais que a soma de suas partes e teimosamente recusa-se a desistir de sua dose de mistério”. No ano seguinte, Sumner/Marr, acompanhados do tecladista Andy Robinson (que era o técnico de teclados e programador de MIDI do New Order; atualmente, substitui Rob Gretton no papel de empresário da banda), do percussionista Kesta Martinez e do baterista Donald “DoJo” Johnson (A Certain Ratio), fazem sua estreia nos palcos abrindo shows para o Depeche Mode em sua turnê World Violation Tour.

O album de estreia, intitulado pura e simplesmente Electronic, sairia há exatos 25 anos, também pela Factory Records (FAC 290). Ao contrário do que muitos pensavam, não soava como uma “mistura de New Order com The Smiths”. Na verdade, naquela época, o Electronic ainda se parecia mais com o primeiro do que com o segundo. De acordo com o falastrão Peter Hook “As pessoas diziam que o Electronic soava como o New Order sem o baixo, o que deixava o Bernard doido!”. Isso era verdade. Ou, como Sumner disse, com suas próprias palavras, em sua autobiografia Chapter and Verse (2014, Bantam Press): “Ainda que eu estivesse entusiasmado com o fato de que nesse álbum Johnny tinha a ambição de aprender a mexer com música eletrônica, me animava que ele prosseguisse tocando sua guitarra de maneira genial. Me lembro de ter dito a ele no estúdio ‘Johnny, se você não tocar a porra dessa guitarra nesse disco, vão dizer que a culpa é toda minha’; e ele respondeu ‘Ok, ok, Bernard… Mas para que serve mesmo esse botão?’.  Johnny é um músico progressista, de mente aberta, e queria experimentar coisas novas. Mesmo sendo um dos melhores guitarristas da Inglaterra, ele enxergava a música eletrônica como sendo o futuro”.

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Tenho até hoje o vinil que comprei em 1991, na extinta Mesbla

O blend resultante da fusão entre rock e música eletrônica certamente aproximou o som do LP de estreia do Electronic da identidade musical do New Order. Todavia, o envolvimento dos Pet Shop Boys (Neil Tennant e Chris Lowe) também contribuiu para que faixas como “The Patience of a Saint” soassem, segundo palavras do crítico musical carioca Tom Leão, como um “PSB esquisito”. Nesse caso, parece que estamos ouvindo um outtake de Behaviour, disco que os “Rapazes da Loja de Bichos de Estimação” lançaram meses depois de Electronic e que contou com uma mãozinha de Marr. Em todo caso, ainda que o primeiro dos três discos lançados pelo duo Sumner/Marr não superasse em nada o que o New Order já tivesse feito, nem trouxesse uma pitada sequer de The Smiths, ele foi um inquestionável sucesso: alcançou o segundo lugar na parada inglesa de álbuns e o primeiro na parada americana da Billboard Heatseekers (uma parada da revista Billboard dedicada a artistas novos ou em crescimento). O álbum vendeu mais de um milhão de cópias no mundo todo e recebeu resenhas positivas das principais revistas sobre música e cultura pop. Foi um dos “Discos do Ano” de 1991 para a Melody Maker e para o New Musical Express.

O disco saiu no Brasil, mas com relação a isso existe uma curiosidade. Enquanto que na Inglaterra o álbum foi lançado sem “Getting Away With It” (prática, aliás, comum naqueles tempos, isto é, singles que não eram incluídos nos LPs), aqui a faixa, que tocou nas rádios e na MTV, foi introduzida no vinil pela gravadora brasileira. Entretanto, acabaram deixando de fora da edição nacional a excelente faixa “Gangster”, presente apenas no CD. Todos os singles de Electronic tiveram seus vídeos exibidos no Brasil: “Get the Message”, “Feel Every Beat” e as duas versões para “Getting Away WIth It”. Nenhum deles entrou nas paradas brasileiras, nem nas rádios, nem no Disk MTV. Todavia, figuraram no Top 10 Europa, que a MTV Brasil exibia em sua programação.

Apesar de hoje em dia soar meio datado em termos musicais ou em matéria de timbres e texturas (o que, na verdade, é algo meio relativo se prestarmos bem a atenção no som das bandas eletrônicas e híbridas de hoje em dia), mais ou menos como ouvir nos dias de hoje um LP de disco music de quarenta anos atrás, Electronic se tornou, com o passar do tempo, um clássico dos anos 1990. Ele é um daqueles discos que parece soar melhor e mais brilhante hoje do que há vinte e cinco anos. Os relançamentos, primeiro em uma versão expandida em CD duplo (2013) e, depois, em vinil de 180 gramas (2014), só contribuem para manter sua longevidade e o interesse do público. Ainda é o melhor álbum feito por um integrante do New Order fora da banda titular. Os demais, o ex-baixista Peter Hook, o baterista Stephen Morris e a tecladista Gillian Gilbert, até fizeram coisas legais e que merecem uma revisão com um pouco mais de boa vontade (Revenge, Monaco, The Other Two) – mas nada que tenha chegado ao mesmo nível da estreia do Electronic.

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Minha primeira edição em CD (alemã) autografada: não foi comprada no eBay!

Para terminar, disponibilizamos a seguir, o scan de uma matéria no “Segundo Caderno” do jornal O Globo, escrita por Tom Leão, sobre o lançamento do nosso disco-aniversariante, em setembro de 1991 (quando o álbum já tinha saído lá fora). Só lamento dizer a ele que a sentença com a qual terminou seu texto, felizmente, não se concretizou…

Matéria Segundo Caderno

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REVIEW | Avaliamos “Complete Music” (New Order)

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Capa de “Complete Music”

Quando o New Order anunciou o lançamento de Music Complete, seu décimo álbum de estúdio, ninguem esperava grande coisa. Seu antecessor, Lost Sirens, de 2012, uma espécie de mini-LP produzido a partir de sobras de estúdio do já por si só pouco inspirado Waiting for the Sirens’ Call (2005), parecia ser a pá de cal que faltava para encerrar o enterro de uma banda que, além de ter perdido um dos seus principais integrantes, não fazia mais nada além de passar o chapéu em shows tão lotados de fãs nostálgicos quanto de grandes sucessos. Apesar da notícia da assinatura do contrato com a legendária gravadora Mute ter causado algum burburinho – principalmente depois que uma declaração mal interpretada obrigou James “LCD Soundsystem” Murphy a desmentir em nota rumores de que o grupo iria para a DFA Records -, ninguem esperava não mais que uma grande faixa apenas, três ou quatro canções “ok” e o restante só de fillers.

Mas, supreendentemente, o New Order fez bem mais que isso. Mesmo com um grande desfalque (o baixista Peter Hook, apartado desde 2007), a banda fez um disco nada menos que impecável e digno da reputação construída ao longo do mais de três décadas. Depois de uma trinca de álbuns mais orgânicos, baseados em guitarras, o New Order estava de volta com o batidão pop-dançante-eletrônico que ajudou a popularizar. Todavia, Music Complete, lançado em setembro do ano passado, não foi feito apenas para se dançar. O disco era um exemplo da rica paleta sons do New Order.

Uma das versões de Music Complete era uma edição limitada em vinil com oito discos coloridos que continha, além do álbum em sua versão original, todas as suas onze faixas com outra mixagem que as deixavam mais longas – em alguns casos até com o dobro da duração. Chamados de extended mixes, esses remixes eram um mimo exclusivo para fãs mais capitalizados e ávidos por itens de colecionador. Mas supostamente pensando no público médio, a Mute Records resolveu reunir essas versões extended em um CD duplo, batizado de Complete Music.

É interessante observar que, de acordo com o formato, esse material pode adquirir um sentindo completamente diferente. Como parte de uma edição limitada, os remixes de um álbum inteiro distribuídos por vários discos de vinil dentro de uma caixa são um autêntico “bônus de luxo”; mas quando transformados em um “álbum independente”, o que se tem é uma “versão alternativa” do disco original e que, de certa forma, concorre com ele. O problema é que, especificamente nesse caso, Complete Music leva uma desvantagem: ele nasceu de um CD irrepreensível. E remixes, como sabemos, são empreendimentos de risco – podem tanto elevar uma obra a um outro nível como destruí-la completamente. É como pisar em ovos.

Felizmente, a proposta por trás das versões estendidas das canções de Music Complete nem era tanto a de reinterpretá-las, que é o que a maioria dos remixers faz hoje em dia. A ideia era basicamente alongar as faixas. Pense, por exemplo, nos extended mixes de “The Perfect Kiss”, “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”. A intenção era recriar aquele tipo de remix de oito ou nove minutos dos singles do New Order na década de 1980. Porém, em Complete Music, temos resultados variados. Em geral, em boa parte ele não chega a superar o seu progenitor (“Restless”, “Unlearn This Heatred”, “Singularity”, “Tutti Frutti”, “Academy”); todavia, ele também nos oferece algumas recriações dignas das originais – faixas pouco badaladas, como “The Game” e “Stray Dog” (esta com a voz de Iggy Pop soando ainda mais profunda e calorosa), são boas surpresas. “People on the High Line”, por sua vez, ganhou músculos extras em seus grooves, além de cowbells adicionais. Mas o ponto alto, sem dúvidas, é “Plastic”: evocando seus mais antigos inspiradores (Moroder, Kraftwerk), o remix é uma autêntica trip com direito a bumbo “no talo” e vocoders. É tarefa ingrata escolher qual o melhor – o mix original ou o extended.

Quem pensou que Complete Music era uma jogada de marketing para vender as faixas bônus da caixa de vinis para um outro perfil de público, certamente subestimou o tino para negócios de Daniel Miller, o dono da Mute. O CD traz, no lugar dos extended mixes originais de “Nothing But a Fool” e “Superheated”, versões ineditas dessas faixas, rotuladas como extended mix 2. Trata-se de uma isca para fisgar, também, quem já havia comprado o box set. A estratégia foi além: de lambuja, quando se adquire o Complete Music o fã recebe um código para baixar o disco com os mixes originais. Deu tão certo que Music Complete voltou para o Top 20 da parada britânica de álbuns. No ano passado, ele atingiu o segundo lugar.

A capa do novo CD também é, de certa forma, um remix do projeto gráfico de Music Complete. Basicamente, o conceito e a arte são os mesmos, mas agora traduzidos em uma embalagem de papelão que imita uma capa de LP em miniatura, além de apresentar uma paleta de cores mais diversificada e vibrante.

Complete Music não é o que se pode chamar de item indispensável. Na verdade, é um disco absolutamente supérfluo e que nada acrescenta à discografia da banda, inclusive como conceito (o New Order já havia lançado discos de remixes e versões extended antes). É um item feito sob medida para saciar a sede e a extravagância dos completists, sempre ávidos a não deixar buracos em suas coleções. A verdade é que Music Complete, na sua versão original, simplesmente se basta por méritos próprios. O New Order provou, quando ninguem mais esperava, que ainda tinha lenha para queimar e fez uma boa fogueira. Complete Music tem um que de exibicionismo – algo do tipo “vejam agora que podemos fazer com esse fogo”, e, com ele, ao invés de produzir calor ou de preparar alimentos, acenderam fogos de artifício. Bonito, sem dúvida. Mas não passa de pirotecnia.

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DISCOS | “Que ‘Substance’ preto é esse?”

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Substance II: não é lenda urbana

No dia 27 de março, postei uma foto no perfil deste blog no Instagram que continha os álbuns do New Order em vinil, de Movement (1981) a Music Complete (2015). Dentre as coletâneas, apenas Substance (1987) estava representada. Todavia, algumas pessoas notaram que bem ao lado do famoso álbum duplo de capa branca, havia um “outro” Substance, só que com as cores invertidas, como se fosse um “negativo”. O usuário @childerico não resistiu e perguntou, “na lata”: “Epa!!! Que Substance preto é esse???”. Diante da curiosidade – e perplexidade – desse e de outros followers, resolvi fazer, dois dias depois, um post exclusivo sobre esse disco. Meu objetivo era justamente intrigar mais pessoas.

O LP em questão se chama Substance II. E, realmente, pouca gente ouviu falar dele ou já pôs os olhos nesse vinil. O sucesso foi enorme. Foi o post com o maior número de “curtidas” desde que o nosso Instagram foi ao ar. “Never seen it before!” [trad.: “Nunca vi esse antes!”] foi o comentário mais comum. A follower @beccas_vinyl escreveu assim: “Thanks for showing me something new today”. [trad.: “Obrigado por me mostrar algo novo hoje”] Mas apesar do espanto da maioria, é claro que há quem conheça o “irmão” do Substance “branco”: além dos colecionadores de raridades do New Order espalhados pelo mundo, temos também os… argentinos! Sim, nuestros hermanos. Na verdade, estamos falando de um disco que foi lançado única e exclusivamente na Argentina. Mas por que apenas os argentinos foram presenteados com uma “sequência” ou “parte II” da celebrada coletânea de singles de uma das mais importantes e influentes bandas mancunianas?

Bem, em primeiro lugar, Substance II não é propriamente um “outro” Substance. Ficou confuso? Expliquemos: na verdade, trata-se de um vinil duplo que reúne os mesmos b-sides que foram incluídos no “disco 2” da versão em CD de Substance. Em 1989, ano em que o Substance II foi lançado na Argentina, o compact disc já marcava sua presença nos mercados europeu, japonês e norteamericano, mas não na América Latina (o boom do formato no continente só aconteceria em meados da década de 1990). Foi quando a DG Discos, gravadora argentina que detinha os direitos sobre o catálogo do New Order no país, teve uma sacada que faltou à BMG Ariola aqui no Brasil: lançar o disco de lados B em outro LP duplo que complementasse o álbum de lados A. Também foi uma grande ideia a “capa negativa”, isto é, com a inversão das cores da capa original, além do “II” no lugar do “1987”. Todavia o álbum não tinha encartes (os vinis vinham abrigados em envelopes de papel couché pretos recortados no centro para que os selos, de cor vermelha, ficassem visíveis) e a foto do coral manipulada com a técnica do dichromat feita pelo Trevor Key, usada no encarte que guardava o LP 1 do Substance original, foi empregada na contracapa. Não há créditos para o autor do remix do projeto gráfico criado originalmente por Peter Saville, mas provavelmente deve ter sido obra do departamento de arte da própria DG Discos.

Aliás, cabem aqui algumas palavras sobre a DG. A gravadora porteña pertence à DG Producciones, empresa de produção de espetáculos de propriedade do produtor e representante artístico local Daniel Grinsbank, um sujeito que está no ramo da música há muitos anos e de muitas maneiras: ele já foi DJ (tinha um programa de rock na emissora de rádio Del Pueblo), manager e foi o responsável pelo famoso show gratuito dos Stones no Rio de Janeiro em 2006! Com a DG Discos, além de LPs do New Order, lançou no mercado argentino o fino da bossa do pós-punk: Victorialand (Cocteau Twins), Friends (The Bolshoi), In the Flat Field (Bauhaus), Express (Love and Rockets), Spleen and Ideal (Dead Can Dance), o disco homônimo dos Throwing Muses, entre outros.

A primeira vez que eu ouvi falar no Substance II foi justamente em 1989, com 12 anos de idade. A TV da sala (da casa de meus pais) estava ligada no programa Vibração, que era apresentado pelo skatista Cesinha Chaves, e exibido numa Rede Record ainda não comandada pelo “bispo” Edir Macedo. Eu curtia muito o programa – foi através dele que eu vi pela primeira vez clipes do New Order. Pois então… na ocasião eu não peguei todos os detalhes, só me recordo do Cesinha falar do Substance II e das “cores invertidas” da capa. Fiquei pensando que se tratava de um lançamento para breve no Brasil. Me empolguei. Mas o tempo foi passando e nada desse disco por estas bandas. Foi quando me passou pela cabeça que poderia ter saído apenas “lá fora”, mas eu nem cogitava a possibilidade de ser uma edição exclusivamente argentina… Com o passar dos anos, o disco tinha virado uma “lenda urbana” para mim (alguns amigos me diziam que o Substance II  era invenção da minha cabeça). Foi a chegada da internet que me fez descobrir que o álbum de fato existia – além de todo o resto que expliquei aqui. Mas daí até eu conseguir pôr minhas mãos em uma cópia foi um longo caminho.

Porém, desde que isso aconteceu, ofertas por ele começaram a vir de todos os lados…

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iTUNES | Turbinando um clássico

Sem Título2Minha porta de entrada no som do New Order foi o álbum duplo Substance, de 1987, que ouvi pela primeira vez quando eu tinha onze anos de idade. Sou grato até hoje ao meu primo Paulo Roberto (ou simplesmente “Beto” entre os familiares) que não somente me concedeu a chance da primeira audição como também me deixou levar o disco emprestado para casa no mesmo dia. Lembro-me bem que quando eu descobri que o Beto possuía uma cópia “daquele disco duplo de capa branca” que tinha “Blue Monday”, a música que havia feito um “estrago irreparável” na minha vida, não consegui ter paz de espírito enquanto não ouvisse aquele álbum de cabo a rabo. Acabei desenvolvendo uma forte ligação afetiva com esse LP (se tivesse que escolher um único disco para levar comigo para uma ilha deserta, não tenho dúvidas de que seria esse). Eu até me lembro que, naquela época, finalzinho dos anos 80 e comecinho dos 90, ter um Substance em sua discoteca era quase um símbolo de status.

Substance foi um dos maiores sucessos comerciais do New Order. Só nos EUA foram vendidas mais de um milhão de cópias, o que para uma banda independente era um grande feito. Mas o que tornou esse disco tão especial? Bom, vamos lá… Embora a banda tivesse lançado bons álbuns, sua especialidade mesmo eram os singles, principalmente os de 12 polegadas (mesmo diâmetro de um long play). O New Order produziu alguns durante a década de 1980 que se tornaram verdadeiros arrasa-quarteirão. A proposta de Substance era a de reunir, em um álbum duplo, todos os 12″ lançados, desde o primeiro – “Ceremony” – até o o último (na época) – “True Faith”. Algumas das faixas nunca haviam aparecido em um álbum antes, enquanto outras eram versões estendidas ou remixadas, mas, sobretudo, exclusivas do formato single. Ou pelo menos até aquele momento.

Todavia, Substance, como compilação, não foi 100% fiel ao material que reunia. Em razão das limitações do formato LP, faixas como “Sub-Culture” e “Shellshock” tiveram que ser editadas. Além disso, a banda substituiu as gravações originais de “Temptation” e “Confusion” por versões novas, regravadas. Na versão em CD, foram subtraídos 40 segundos de “The Perfect Kiss”, também por causa do limite de espaço. Todavia, na edição digital enquanto os dois vinis ocupavam um disco inteiro, um segundo disco reunia os b-sides, em sua grande maioria dub versions (remixes que continham apenas alguns trechos dos vocais e uma série de efeitos sonoros). Mesmo assim, algumas coisas ficaram de fora.

Longe de mim criticar ou contestar a perfeição. Substance é maravilhoso do jeito que é. Mas sempre pensei comigo: se não existissem as restrições impostas pelas limitações dos formatos LP e CD, como Substance poderia ser? Com o auxílio do iTunes e, evidentemente, com os meus conhecimentos sobre a banda, criei uma versão alternativa para essa obra-prima, que batizei de Substance: Unlimited Edition. O Unlimited (ilimitado) é mais no sentido de que agora não haveria mais nada que pudesse impedir, por exemplo, que uma faixa “x” ou “y” pudesse ser incluída com sua duração original, ou que fosse possível produzir um álbum com quantas músicas fossem necessárias. Para dar uma cara de “clássico turbinado”, inverti as cores da capa. Agora temos um Substance “sinistro”, como se diz (ou se dizia) aqui no Rio, e a capa preta vem a calhar.

Para começar, Substance agora é um álbum triplo, que totaliza 48 faixas. O “Disc 1” é uma versão expandida do LP duplo original. De início, pus duas faixas que anteriormente tinham sido incluídas no disco de b-sides da versão em compact disc: “Procession” e “Murder”. A primeira, embora originalmente tenha batizado um compacto, foi incluída também no lado A do EP 1981-1982 – também conhecido como Factus 8 – e por isso foi “promovida” ao “Disc 1″; e a segunda nunca foi lado B de single algum, pelo contrário, é a canção que batiza um 12” lançado pela Factory Benelux em 1984. Também decidi substituir as regravações de “Temptation” e “Confusion” pelos mixes originais. Todavia, os remakes não foram descartados: foram transladados para o fim do disco um como faixas-bônus. “Sub-Culture” e “Shellshock” agora aparecem completas, com suas durações originais (7’26” e 9’41”, respectivamente, em vez de 4’47” e 6’27”). Finalmente, “1963” também recebeu uma promoção e saiu do CD#2 do Substance original para se transformar em bonus track de minha Unlimited Edition. Na sua origem, “1963” é o lado B de “True Faith”, mas esse pode ser considerado como um daqueles famosos casos de single de “duplo lado A”, como “Strawberry Fields Forever” / “Penny Lane”, dos Beatles. Faz tanto sentido que, nos anos 90, com o New Order em uma nova gravadora, as duas músicas foram relançadas em singles separados.

O “Disc 2” corresponde a uma versão revista e ampliada do disco de lados B da versão em CD. Se por um lado “Procession”, “Murder” e “1963” migraram para o “Disc1”, por outro o “Disc 2” traz uma série de novidades. Agora estão presentes os dois b-sides de “Everything’s Gone Green” – “Cries and Whispers” (que não fazia parte do álbum original) e “Mesh”. E com “Hurt” aparecendo em sua versão integral, com 8’13”, temos o Factus 8 completo na minha Unlimited Edition. Remixes “dub” que ficaram de fora do CD#2 original puderam entrar sem problemas: “Dub-Vulture”, “Shellcock”, “I Don’t Care” (também conhecida como “Bizarre Dub Triangle”) e “True Dub” (também creditada como “Alternate Faith Dub”), sendo que este último escolhi para substituir “1963” como lado B de “True Faith”, ao lado da faixa-bônus “Evil Dust”. O “Disc 2” finaliza com uma segunda bonus track, “Confusion Dub 1987”, versão instrumental da regravação de “Confusion” contida no Substance original e no “Disc 1” da Unlimited Edition.

A cereja do bolo vem no “Disc 3”. Muito antes dessa coisa de bandas saírem em turnê tocando na íntegra seus álbuns clássicos, o New Order já havia executado ao vivo o álbum Substance (o LP duplo original, é claro) inteiro, tocando as faixas na ordem exata. Isso foi no Irvine Meadows, Califórnia (EUA), no dia 12 de setembro de 1987. Pus o show completo no terceiro disco da minha versão alternativa, incluindo as músicas que não fazem parte do álbum e que estão na encore: duas do Joy Division – “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart” – e uma do Velvet Underground – “Sister Ray”. Nem todas as versões ao vivo nesse show são fiéis às do disco. “Thieves Like Us”, por exemplo, foi tocada numa versão mais curta; em “Bizarre Love Triangle” a banda optou pelo arranjo original e que pode ser conferido no álbum Brotherhood (1986); o mesmo ocorreu com “Sub-Culture”, aqui mais próxima da versão de Low Life (1985) que a de Substance. Em todo caso, apesar da fonte da gravação não ser profissional, tem-se a impressão de um grande show, com uma resposta muito acalorada do público. E temos a banda, em um rápido momento de descontração no palco, dando uma canja de poucos segundos de “The Passenger” (instrumental apenas), de Iggy Pop!

A imagem abaixo é uma captura de tela do meu iTunes na qual o leitor poderá ter uma visão completa do meu Substance: Unlimited Edition. Confessa, vai… ficou poderoso, não é?


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