RELATO | Atrás do New Order em Lima

no15O show do New Order em Paris em novembro do ano passado, sobre o qual já relatei em outros posts, não foi o primeiro que “caiu no meu colo” durante uma viagem por motivos profissionais. Isso já havia acontecido em abril de 2013, quando essa mesma formação do New Order (Bernard Sumner, Gillian Gilbert, Stephen Morris, Phil Cunningham e Tom Chapman) voltou à América do Sul para duas apresentações: uma em Lima, Peru, e outra em Bogotá, Colômbia (esta última como atração do festival Estereo Picnic). Eu participaria de um encontro / congresso latinoamericano de profissionais da minha área em Lima e o calendário do evento coincidiu com a data da apresentação do New Order na Explanada Sur do Estadio Monumental, na capital peruana. Só que, ao contrário de Paris, eu tive companhia brasileira nesse show. Parcerias de outros carnavais do grupo New Order Brasil tambem estavam de passagens e ingressos comprados para curtir o show em Lima: Ricardo, Marcelo, Andréa, Robertão e Luis Sobrinho. Belo time.

Exceto eu, todos se hospedaram na região de Miraflores. Eu era o único no Centro Histórico, mas me instalei lá por questões de praticidade: o congresso no qual estava inscrito aconteceria em espaços espalhados por diversos pontos da parte antiga da cidade, então era mais cômodo me estabelecer nessa área do que ficar em um lugar mais afastado. Mas foi uma ótima escolha por outros motivos também, como hospedagem mais barata, proximidade com diversos pontos de interesse turístico (a Plaza Mayor, a Casona da Universidade de San Marcos, a Catedral e outras igrejas do período colonial, balcones restaurados e conservados, museus, um polo gastronômico etc) e um ponto de venda e resgate de ingressos da Teleticket a cinco minutos a pé do meu hotel, dentro de um grande supermercado. Inclusive, quando estive lá para buscar meu bilhete, reparei que o quisque era todo coberto por pôsteres de shows de diversos artistas, locais e internacionais – o que me fez perguntar à atendende se não haveria algum do show do New Order sobrando para me dar. Infelizmente, não havia nenhum (não havia sequer um fixado no quiosque), mas a moça achou em uma gaveta dois flyers (os últimos) que gentimente me ofereceu no lugar do pôster.

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Flyers oficiais do show em Lima

Na noite do show, fui me encontrar com Ricardo, Marcelo e Robertão no hotel em que estavam hospedados, em Miraflores. De lá pegaríamos um táxi para o Estadio Monumental, que ficava bem longe ali. Andrea estava lá desde o começo da tarde, pois queria garantir para si um excelente lugar (na grade, em frente ao palco, é claro). Luis Sobrinho apareceria por lá depois. Só nos veríamos todos já no interior do setor “Blue Monday” (o de preço mais salgado, mas era o que compreendia as primeiras fileiras da pista). Quando nos encontramos lá dentro, Andréa já havia conseguido demarcar seu “território” no gargarejo. Em uma rápida conversa, nos disse que dentre as poucas coisas que havia conseguido discernir enquanto ouvia a passagem de som do lado de fora, teve a impressão de ter escutado “World” (se a tocaram ou não no soundcheck, não fez diferença, pois também não a tocaram no show). Enquanto o público ia chegando, bem devagar, demos uma sacada no lugar. Era estranho uma banda se apresentar do lado de fora de um estádio de futebol em vez do lado de dentro!

No dia anterior, os Killers tinham tocado no Monumental, mas “literalmente falando”. Já a Explanada Sur del Estadio Monumental, onde o New Order tocaria naquela noite, é um espaço aberto ao lado do estádio que não pertence ao complexo esportivo (ao contrário de uma área de estacionamento que também é usada para shows e eventos e com a qual costuma ser confundida muitas vezes). Na Explanada Sur já se apresentaram nomes como Guns N’ Roses, Placebo, The Cranberries, David Guetta e Aerosmith. Não sei ao certo qual a capacidade máxima do lugar, nem quantas pessoas estiveram no show do New Order, mas o fato é que a Explanada demorou bastante a ficar cheia (convenhamos que o trânsito lá fora não ajudava nem um pouco) e o concerto, que deveria ter começado às 21:00, teve início com uma hora de atraso. Enquanto esperávamos, eu matei minha fome com uma espécie de choripán peruano, acompanhado de uma garrafa de Inca Cola. Ainda antes do show começar, fui reconhecido por um grupo de chilenos que faziam parte do fórum em espanhol do NOOL (New Order On Line), que eu também frequentava – e eles acabaram se juntando a nós. Foi muito legal ter a companhia deles.

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New Order Brasil em Lima!

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NOOLers brasileiros e chilenos

Às 22:00 o show finalmente começou. Foi aí que me dei conta de que o lugar, enfim, havia ficado cheio. Esse foi o segundo show que eu assisti com a formação atual do New Order – o primeiro foi em São Paulo, no Sambódromo do Anhembi, em 2011, pouquíssimas semanas depois da banda voltar à ativa reformulada. A apresentação em Lima, ao contrário da de São Paulo, desceu redonda. O time estava mais entrosado, o som era melhor e a plateia estava com aquela empolgação típica de primeira vez (o New Order nunca havia tocado lá). Ninguem parecia se importar com a ausência de um certo Peter Hook. Mas para nós, que tínhamos visto o grupo outras vezes, o concerto teve outros aspectos interessantes. Eles tocaram “Touched by the Hand of God” (com um novo arranjo), que não era apresentada ao vivo desde 2002; também foi o début ao vivo de “I’ll Stay With You”, faixa de Lost Sirens. Pela reação (explosiva!) do público, os pontos altos foram “Regret”, “Ceremony” e “Bizarre Love Triangle”, cantadas a plenos pulmões. Porém, nada foi tão curioso, pelo menos para os meus olhos, do que ver os peruanos pogando (fazendo a famosa “roda punk”) em “The Perfect Kiss” e “Temptation”!

O melhor da noite, no entanto, foi o after gig. Depois que o show acabou nós não fomos embora…Quer dizer, pelo menos não todos nós. Eu, Marcello, Andréa e Robertão ficamos. Os demais se foram junto com a multidão. Quando a Explanada Sur já estava bem vazia, nós nos misturamos com a turma do staff (afinal, além da entourage, um show envolve um grupo imenso de prestadores de serviços locais) e, sem sermos notados, fomos parar na grande área atrás do palco. Marcello e eu montamos guarda no que parecia ser um dos acessos ao backstage – nos pareceu ser um lugar estratégico para nos posicionarmos, pois havia acabado de estacionar uma van ali bem em frente e, em seguida, uns caras montaram uma espécie de corredor até o veículo com aquelas grades de organizar fila, com direito a “leão de chácara” para fazer a segurança. Nos ocorreu que em breve a banda poderia passar por esse corredor para entrar na van. Enquanto isso, Andréa e Robertão adotaram outra estratégia e se enfiaram por uma espécie de beco – e desapareceram nas sombras! Enquanto esperávamos próximo à van, a única figura “conhecida” que nos deu o ar da graça foi a engenheira de som, Dian Barton. Para não perder a oportunidade, nós a convidamos para tirar uma foto conosco e, em seguida, perguntamos se a banda ainda estava no camarim e se ela poderia quebrar um galho e dar um jeito da gente entrar… A resposta foi algo como um diplomático, mas pouco convincente “Eh… fiquem aqui que eu vou ver com a Rebecca [Boulton, do management da banda]”.

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Com a sound engineer Dian Barton, no backstage

É claro que ela nos deixou lá em pé comendo mosca, até que Andréa reapareceu no meio das sombras daquele beco dizendo “Psiu! Psiu! Aí é a maior furada, venham comigo!”. Nós a seguimos no ato por dentro de um corredorzinho estreito, mas curto. Quando saímos dele, voilá! Estávamos no backstage! “Enquanto vocês estavam lá a gente conseguiu chegar até aqui e encontramos o Andy. Eles nos ofereceu água e cerveja e ficou conversando com a gente. Disse que logo logo vem alguem da banda vir aqui falar conosco”, disse Andréa. O “Andy” em questão é o Andy Robinson, o outro empresário do New Order. Andréa já havia conversado com ele um dia antes, na coletiva de imprensa. Minutos depois, quem aparece para dar uma palavrinha com a gente? A “bateria eletrônica humana”: Stephen Morris (o único, aliás, a sair do camarim). Pura simpatia. Com muita paciência, humildade e carisma, conversou com todos nós e nos deu autógrafos (ele assinou o canhoto do meu ingresso e um lote imenso de encartes de CDs do Robertão). Ele não ficou muito tempo – logo chegaram uns caras que entraram no camarim com caixas e mais caixas de pizza. Stephen foi atrás e nenhum outro New Order saiu de lá depois. Mas já estava de bom tamanho. O show tinha sido ótimo, tivemos a sorte de ver e conversar com Stephen Morris e ainda saímos de lá com uma informação preciosa que Andréa colheu com o Andy Robinson: o horário do voo da banda para Bogotá no dia seguinte.

Somente Marcello, eu e Robertão estivemos de plantão no aeroporto para vê-los. Não sei se era um esquema especial para aquele dia (por causa do New Order), mas somente quem tinha viagem marcada para aquela data poderia entrar no salão de check in. Tivemos que contar com a cara-de-pau do Marcello, que mostrou para o funcionário do aeroporto a reserva dele, que na verdade era para o dia seguinte, e como se fosse para nós três, só que contando para que o sujeito não pegasse o papel para ler. Felizmente, obtivemos sucesso e entramos. Também não demorou muito para que a banda aparecesse. Abordamos primeiro o Bernard Sumner (enquanto isso os demais passaram batidos em direção ao guichê da companhia aérea). Barney também foi gente finíssima. Mas eles estavam já meio atrasados, então nada de muita conversa, nem autógrafos – somente fotos. “Agora tenho que correr para o check in, pessoal. Um abraço!”. Mesmo assim, fomos atrás porque como os demais se adiantaram, talvez conseguíssimos falar com mais alguem. E esse alguem foi Gillian Gilbert, vencedora do troféu Doçura-Fofura. Nessa altura, Steve já estava quase no salão de embarque de tanta pressa! Mas Gillian foi simpática, paciente e posou para fotos conosco com toda a simplicidade e humildade que existe no mundo. Infelizmente, não foi desta vez que demos uma moral para o Phil Cunningham e o Tom Chapman. Ficou para o ano seguinte.

As histórias dos shows do New Order pela América do Sul em 2014 merecem, pelo menos, uns dois posts! Aos poucos, com calma, vou colocando tudo “no papel” para publicar – com direito a fotos, é claro. Por hora, dexarei vocês curtindo um pouco da repercussão dos shows do New Order em Lima na imprensa local.

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RELATOS | Lugares sagrados: Les Bains Douches (Paris)

IMG_0938No post retrasado eu contei a história sobre minha ida a Paris em novembro do ano passado: o motivo da viagem foi profissional, mas durante minha estadia lá um show do New Order (o concerto de estreia da atual turnê para ser mais exato) caiu no meu colo. Não foi uma viagem de férias, mas valeu como se fosse. Aproveitei o período laborativo na capital francesa não apenas para conhecer o que a cidade tem de melhor (belos recantos, museus fabulosos, cafés aconchegantes, gastronomia, pontos turísticos famosos etc), mas, também, alimentar um pouco mais o meu velho vício…

Além do show do New Order no Casino de Paris, tive uma vontade irrefreável de conhecer um lugar que tem um significado especial para fãs como eu: o Bains Douches. Hoje é um edifício histórico e hotel de luxo na região do Boulevard de Sèbastopol; na sua origem, era uma therme, isto é, uma casa de banho coletivo construída em 1885 por François Auguste Guerbois (1824-1891), tendo sido então um conhecido ponto de encontro de artistas e intelectuais. Mas no final dos anos 1970, quando saiu das mãos da família Guerbois, se transformou em um nightclub e espaço para shows. Lá se apresentaram muitos artistas e bandas punk, pós-punk e new wave francesas e estrangeiras – dentre elas o Joy Division.

Ok, ok… O Joy Division já tocou em diversos lugares pela Europa, isso eu já sei. Não faria sentido ir procurar e conhecer vis-à-vis em cada viagem pelo “Velho Continente” cada boteco, inferninho ou espelunca em que o Joy Division (ou o New Order) já se apresentou. Só que o Bains Douches é um pouquinho diferente. Em primeiro lugar, o local mantém uma pequena galeria-museu onde conserva pôsteres originais dos shows dos grupos que se apresentaram ali, incluindo o do Joy Division. Em segundo, o show que a banda fez lá em 18 de dezembro de 1979 foi gravado, tocado diversas vezes por uma rádio francesa, exaustivamente pirateado, até que, por fim, foi transformado em um disco ao vivo oficial. Diga-se de passagem, é considerado, tanto em termos técnicos quanto em termos musicais, um dos melhores registros en directe do JD.  

“Nós lançaremos o [show no] Bains Douches se encontrarmos um bom registro desse concerto. Me parece que há uma francesa que tem uma boa cópia do show mas ninguem consegue encontrá-la”. Essas foram palavras de Tony Wilson no comecinho dos anos 2000. Na verdade, existem duas fontes do show no Bains Douches: uma gravação amadora, feita por alguem no meio da plateia, e outra profissional, que pertence à emissora francesa de rádio France Inter. O disco Les Bains Douches 18 December 1979, lançado em 2001, foi feito com base na gravação da France Inter. Cinco canções foram transmitidas ao vivo no programa Feedback, de Bernard Lenoir: “Inside”, “Shadowplay”, “Transmission”, “Day of the Lords” e “Twenty Four Hours”. Ao longo dos anos, essas e outras músicas foram tocadas em transmissões posteriores, na mesma emissora e pelo mesmo radialista. Todavia, o álbum não foi produzido a partir das fitas originais de Lenoir / France Inter – a fonte é a gravação de uma transmissão de 1994.

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CD Les Bains Douches 18 December 1979lançado em 2001.

Uma vez que a transmissão dos anos noventa, feita no programa Les Inrockuptibles para celebrar os quinze anos de aniversário do show, tocou apenas nove das dezesseis músicas originalmente executadas, o CD (cuja capa, feita por Peter Saville, é uma versão “desconstruída” do poster do show) foi “completado” com canções gravadas ao vivo em dois concertos na Holanda. Além da edição original em CD de Les Bains Douches 18 December 1979, tenho uma reedição em vinil de 180 gramas lançada no ano passado pela DOL Records que traz apenas o show de Paris (mais uma vez incompleto) e o pôster “íntegro” na capa.

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Uma das edições em vinil do disco Les Bains Douches: esta traz o pôster do show “íntegro” na capa.

Mas voltando à minha visita ao Bains Douches… Antes de entrar passei um bom tempo na calçada oposta, do outro lado da estreita rua Bourg-l’Abbé, fotografando e admirando a fachada. Só depois tomei coragem de entrar para perguntar pelos pôsteres (embora, na verdade, eu estivesse à procura apenas de um em específico). Nada muito complicado: você passa pela entrada, vire à sua direita e, em seguida, vire à esquerda. É um corredor pequeno, estreito e todo preto, com focos de luz amarela apontados para os cartazes. E “ele”, como eu já esperava, estava lá. Não sou muito bom com selfies e com câmeras de smartphone, então as fotos que tirei lá dentro não são lá essas coisas. Mas o que valeu mesmo foi o momento. Na saída, cheguei a perguntar na recepção se o hotel comercializa réplicas dos pôsteres – ou se eles tinham conhecimento de cópias licenciadas disponíveis. A resposta foi um lacônico não. 

(Esse dia, infelizmente, foi marcado no fim por um episódio muito trágico: foi quando um grupo de fanáticos sem vergonha, com armas e aos gritos de “Deus é grande”, aprontou mais uma das suas… O resto vocês viram na televisão.)

E olhem o que eu descobri, porém meses depois do show do New Order em Paris: a banda ficou hospedada lá no Bains Douches enquanto esteve na cidade! Perdi a chance de “sincronizar” minha visita com a estadia deles no hotel… Mas aí é querer ter sorte demais.

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WHO IS? | Mark Reeder: o homem da Factory (e do New Order) na Alemanha

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Mark Reeder: de Manchester a Berlim

Já dissemos isso aqui em outra ocasião, mas não custa nada repetir: o sucesso de um artista solo ou banda não depende apenas de talento. Um pouco de sorte cai bem, é claro, mas ter pessoas certas atuando nos bastidores, fora da luz dos holofotes, também faz a diferença. Que o digam os Beatles: sim, eles eram geniais e carismáticos, mas a história deles teria sido a mesma sem Brian Epstein, George Martin ou Geoffrey Emerick? Talvez não. Quando se fala de Joy Division e New Order, impossível não mencionar Tony Wilson, Rob Gretton ou Martin Hannett. Para o bem ou para o mal. Ao longo da história dessas duas bandas, outros nomes mais ou menos ilustres foram deixando sua marca. Um exemplo é Arthur Baker, o DJ e produtor norteamericano que com a seminal “Confusion” ajudou o New Order criar um blend de synth pop inglês e puro eletrofunk negro novaiorquino. O resultado foi eternizado em vinil.

Falaremos mais de Arthur Baker em outra ocasião. O personagem deste post é outro. Ele atende por Reeder. Mark Reeder. Mas quem ele é? Como Baker, ele é produtor musical. Bom, pelo menos é isso o que ele é hoje na maior parte de seu tempo. Entretanto, Reeder tem um longo currículo de serviços prestados à música – o que inclui vínculos sólidos e permanentes com o New Order. Assim como Baker.

Reeder, como o New Order, é de Manchester (norte da Inglaterra). Em 1977, ele criou, ao lado de Mick Hucknall (do Simply Red), a banda punk Frantic Elevators. O primeiro contato com o membros do Warsaw (versão embrionária do Joy Division) aconteceu nessa época, período no qual vinha se formando em Manchester uma cena punk cuja explosão fora detonada por uma histórica apresentação dos Sex Pistols na cidade. Mas Reeder não ficou muito tempo com os Frantic Elevators (que, na verdade, sequer duraram muito) e, no ano seguinte, mudou-se para a Berlim Ocidental. A transferência para a (hoje extinta) República Federal da Alemanha, no entanto, deu início ao relacionamento que perdura até os dias de hoje: Reeder se transformou no representante da Factory Records em solo alemão e a promoção de bandas como Joy Division e A Certain Ratio estava em suas mãos.

Em 1981, quando o Joy Division já havia se transformado em New Order, Reeder passou a administrar três carreiras simultâneas: homem da Factory na Alemanha Ocidental, engenheiro de som de bandas locais como Malaria! e Die Toten Hosen, e integrante (como guitarrista e tecladista) de um novo grupo, chamado Die Unbekannten (“o desconhecido”), formado com Alistair Gray (nos vocais) e Tommy Wiedler (ex-Nick Cave & The Bad Seeds, na bateria). O Die Unbekannten se transformaria, pouco tempo mais tarde, no Shark Vegas, com Wiedler sendo substituído por Leo Walter e, também, com a aquisição de um novo integrante, o baixista e tecladista Helmut Wittler. Com o Shark Vegas, Mark Reeder saiu em turnê com o New Order pela Europa Ocidental em 1984 (Alemanha Ocidental, Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica).

Mas até então, nada de colaborações em estúdio. Isso só viria a ocorrer, pela primeira vez, em 1986: o single de maior sucesso do Shark Vegas, “You Hurt Me”, foi produzido pelo vocalista e guitarrista do New Order, Bernard Sumner, que também contribuiu com um trecho de guitarra. O disco seria lançado pela Factory Records e, também, pelo selo da banda Die Toten Hosen. “You Hurt Me” foi uma peça-chave não apenas na consolidação da relação Reeder-Factory-New Order, como também aprofundou a amizade entre o músico-produtor radicado na Alemanha e Sumner, que vinha sendo cultivada desde os tempos em que Mark promovia o Joy Division em solo germânico. “You Hurt Me” hoje está disponível em CD em diversas coletâneas, dentre elas Twice As Nice: Be Music, DoJo, Mark Kamins & Arthur Baker Productions, lançada pela LTM Recordings em 2004.

Reeder também foi um personagem fundamental por trás do single responsável pelo retorno triunfal do New Order no começo do século XXI. Em 1999, o produtor era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao amigo, Bernard Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e a deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa. Chamaram-na de “Crystal”. Nascia um clássico.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, a “mão invisível” do destino agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records (gravadora do New Order na época), Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a versão do New Order fosse lançada. É a lei do dinheiro. Mas o resto é história: “Crystal” atingiu o #8 na parada britânica de singles, #1 na parada Hot Dance Singles Sales da revista Billboard (EUA) e ajudou a colocar o álbum Get Ready (2001) em sexto lugar na Inglaterra. A versão “original” hoje pode ser encontrada em um dos álbuns “solo” de Reeder: Collaborator, de 2014 (Factory Benelux).

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12″ com remixes de Corvin Dalek para sua “versão original” de “Crystal” com Mark Reeder (lançado após versão do New Order)

O imbroglio envolvendo “Crystal” não abalou a relação Reeder/Sumner, ou Reeder/New Order. Em 2009, dois anos após a tensa separação do New Order (marcada por desentendimentos públicos com o hoje ex-baixista Peter Hook), saiu o primeiro e único álbum do Bad Lieutenant, Never Cry Another Tear (Triple Echo Records), grupo que Bernard Sumner formou com os guitarristas Phil Cunningham (ex-Marion, New Order) e Jake Evans (ex-Rambo & Leroy). Mark, a pedido de Sumner, remixou os dois singles do “Bad Loo”: “Sink or Swin” e “Twist of Fate”. Essas versões foram posteriormente incluídas em uma outra compilação de remixes de Reeder, Five Point One (2011). Aliás, tanto Five Point One quanto Collaborator são dois discos altamente recomendáveis – o blog assina embaixo.

Este ano, Mark Reeder voltou a dar o ar da graça para os fãs do New Order. Ele foi um dos responsáveis pelos remixes do último e mais recente single da banda, “Singularity”, o terceiro saído do álbum Music Complete, lançado no ano passado. “Singularity” acabou alcançando o primeiro lugar da parada britânica de singles físicos (CD e vinil). A escalação de Reeder não foi por acaso. Para promover o single, foi feito um vídeo contendo cenas extraídas do filme alemão B-Movie: Lust and Sound in West Berlin 1978-1989, lançado no ano passado. O personagem principal da película é o próprio Reeder. Dirigido por Jörg Hoppe, Klaus Maeck, Heiko Lange e Miriam Dehne, é um filme experimental, que mescla imagens documentais e outras reconstituídas, mas dispostas cronologicamente, e que retrata o desenvolvimento não apenas de uma cena musical, mas de todo um caldo cultural, que vai do punk até a Love Parade (maior festa de música eletrônica da Alemanha) e a criação da MFS. Mark também esteve diretamente envolvido na trilha-sonora do filme, como curador e, também, estrela de várias faixas. Uma versão “reconstruída” de “Komakino”, do Joy Division, foi incluída. Junto com lançamento do filme em DVD e Blu Ray, foi lançada também a trilha-sonora em CD e LP duplos. 

Reeder é mais um elo da conexão New Order – Alemanha que começou, evidentemente, com Ian Curtis, ainda nos tempos do Joy Division, e sua obsessão por tudo o que vinha de lá (como o Kraftwerk, por exemplo). Porém, para ficarmos apenas na nossa paróquia, recomendamos uma espiada nos trabalhos do moço com outros artistas como John Foxx, Depeche Mode, Marsheaux, Anne Clark ou Westbam. Vale a conferida.

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MEMÓRIA | Primeiro single do New Order comemora 35 anos

Há exatos 35 anos, era lançado pela Factory Records, um selo independente de Manchester, cidade do norte da Inglaterra, o primeiro disco do New Order. Não era ainda um álbum com uma coleção inteira de músicas, mas um single. No lado A, tínhamos uma tema pós-punk de primeira, com um riff esparso de guitarra, o baixo em destaque e uma bateria marcial; já o lado B nos presenteava com um tema mais soturno e depressivo, com camadas de teclados que sugeriam, ao mesmo tempo, atmosferas fantasmagóricas e etéreas que despertavam sentimentos que se confundiam entre o medo e o pesar. Assim eram “Ceremony”, a hoje clássica canção do lado A, e “In a Lonely Place”, a melancólica sinfonia eletrônica registrada no lado B.

O single, batizado apenas de “Ceremony”, também conhecido como “FAC 33” (seu número de catálogo segundo o mitológico sistema de catalogação da Factory), foi o cordão umbilical que ligou o recém nascido New Order à sua encarnação anterior – o Joy Division. “Ceremony” e “In a Lonely Place” foram as duas últimas canções que Bernard Sumner (guitarra, teclado), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) escreveram ao lado de Ian Curtis, a voz e o lirismo do Joy Division. Quando Curtis saiu de cena tirando sua própria vida, em maio de 1980, isso não significou o fim da linha para os outros três. Todavia, eles sentiam que não seria a mesma coisa ser Joy Division sem aquele pelo qual sempre tiveram profunda e real amizade. Mudar o nome do grupo parecia ser uma opção lógica. E assim o fizeram – eles passaram a se chamar New Order, uma sugestão do empresário, Rob Gretton. O passo seguinte seria escrever músicas novas – e, por que não, finalizar as outras duas em que estavam trabalhando quando Ian ainda estava vivo.

Eles possuíam fitas de ensaio das duas canções. Em ambas, a maior dificuldade era transcrever o que Ian cantava, já que a qualidade das gravações deixava muito a desejar. Essas fitas vieram a público pela primeira vez em 1997, através do box set quádruplo de CDs Heart and Soul, dedicado ao catálogo e às raridades do Joy Division. Anos mais tarde, em 2011, seria lançado especialmente para o Record Store Day um EP em vinil de 12 polegadas (edição limitada em apenas 800 cópias) que trouxe, no lado A, as versões de estúdio gravadas pelo New Order e, no lado B, essas gravações caseiras, mas desta vez com “In a Lonely Place” completa (em Heart and Soul a gravação está cortada). Vale ressaltar que antes de “Ceremony” finalmente ser levada ao estúdio pelo New Order, ela já havido sido tocada ao vivo pelo Joy Division no dia 02 de maio de 1980 no High Hall da Universidade de Birmingham – aliás, ela (a música) chegou a fazer parte da passagem de som antes do show! Já “In a Lonely Place” nunca foi executada ao vivo pelo Joy Division – isso só viria a ser feito depois que a banda já tinha se tornado New Order.

“Ceremony” e “In a Lonely Place” foram incorporadas aos shows do New Order, figurando ao lado de canções novas em folha, como “Truth” e “Dreams Never End”. Em geral, o material que a banda compôs após a mudança não era tão diferente do que faziam como Joy Division. E no caso de temas como “Truth”, se notava que o grupo estava prosseguindo em uma rota que o JD já vinha tomando: em direção ao uso cada vez mais frequente dos sintetizadores. Isso não estava evidente apenas no último tema escrito pelo Joy Division, “In a Lonely Place”, como também em várias outras faixas, como “Isolation”, “Decades”, “As You Said” ou “The Eternal”. Em todo caso, nos primeiros meses de New Order eles ainda não tinham “o” vocalista e essa função era dividida entre os três. “Ceremony”, por exemplo, era cantada nos shows pelo baterista Stephen Morris; já “In a Lonely Place” ficava a cargo de Sumner, que é quem viria a se fixar no cargo em definitivo.

Foi durante a turnê norteamericana que o Joy Division teve que cancelar devido à morte de Ian Curtis que o New Order gravou seu primeiro single. Aconteceu quando, em setembro de 1980, a banda estava de passagem por Nova Jersey, onde fizeram um show no Maxwell’s (já fizemos um post sobre esse concerto). As gravações foram feitas nos Eastern Artists Recording Studio e tiveram como produtor Martin Hannett – o homem por trás da produção de todo o material do Joy Division na Factory. A escolha de “Ceremony” como single parecia óbvia – apesar de letra, era uma música mais upbeat. “Dreams Never End” também teria sido uma boa opção (e em outro momento chegou a ser cogitada a ser lançada como single), mas acabou reservada para ser tornar a (excelente) opening track de álbum de estréia do New Order, Movement, lançado em novembro de 1981. Colocar “In a Lonely Place” no lado B também parecia lógico, já que ela era uma música “irmã”. Bernard Sumner assumiu os vocais nas duas faixas.

A Factory somente lançaria o disco no dia 06 de março de 1981. O single saiu em dois formatos no vinil: compacto e 12 polegadas. A capa do vinil grande, feita por Peter Saville (como de costume), com seu fundo verde-musgo e uma tipografia em tom de cor que lembra o dourado, tem um aspecto ou uma leve semelhança com os tradicionais livros de hinos religiosos ingleses. Além disso, a banda já estava um tanto mudada a essa altura. Ela havia deixado de ser um trio para se transformar em um quarteto. Se juntou aos três egressos do Joy Division a namorada de Morris, Gillian Gilbert, ex-Inadequates (banda punk que ensaiava em uma sala ao lado da do Joy Division), e que passou a dar uma ajudinha a Bernard Sumner na guitarra e nos teclados. Ela havia sido incorporada ao grupo ainda no ano anterior, quando Sumner já estava se estabelecendo como o dono do microfone. Com a sua entrada, eis que acontece algo surpreendente: o New Order decide fazer uma nova gravação de “Ceremony”, agora com Gillian fazendo uma segunda guitarra. A nova versão foi lançada em setembro de 1981, novamente com “In a Lonely Place” como b-side, mas ao contrário daquela, esta não foi regravada. A nova “Ceremony” foi lançada apenas em vinil de 12 polegadas, ganhou uma capa nova e daí em diante foi considerada “a versão definitiva”: foi ela que passou a ser incluída em todas as coletâneas e compilações, com exceção de uma, Singles (2006), que foi quando a gravação original foi lançada em CD pela primeiríssima vez. Ela retornaria em 2008 na versão remasterizada e expandida do álbum Movement, tendo sido incluída no CD bonus. A diferença entre as duas: enquanto a primeira é uma gravação mais rude, mais grosseira (pelo menos para os padrões de Hannett), a segunda (também produzida por Hannett!) tem um som mais limpo, os instrumentos estão mais bem gravados, os tom-tons da bateria de Morris estão distribuídos pelo estéreo e passam ora da esquerda para direita, da direita para a esquerda…

Mas é a versão original que conta como marco histórico, essa é que é a grande verdade. Sem falar que ela tem, mesmo com os seus “defeitos”, um grande séquito de fãs (eu não estou entre eles, prefiro a segunda versão). Ainda me lembro, quando a primeiríssima gravação ainda era desconhecida da maior parte do público brasileiro, que muita gente caiu na pegadinha que se espalhou pelos programas de compartilhamento de músicas de que era uma “versão de estúdio perdida” de “Ceremony” com Ian Curtis nos vocais!!! Quantas discussões tive no hoje falecido Orkut tentando esclarecer as pessoas que tal gravação não existe e que elas estavam diante pura e simplesmente da primeira versão feita pelo New Order. Hoje o mal entendido está desfeito. Só não suporto quando leio por aí que cada vez que o New Order toca “Ceremony”, está tocando um “cover do Joy Division”. Fala aqui com a minha mão, fala…

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MEMÓRIA | Reading Festival 1993: um show histórico

A falência da Factory Records foi decretada no dia 27 de novembro de 1992. Na ocasião, a gravadora já havia encomendado a produção de algumas cópias em cassete de um pre mix das faixas (ainda em versões instrumentais) do novo álbum que o New Order estava preparando, Republic. A Factory chegou, inclusive, a catalogar essa fita com o código FACT 300. Não mais do que cinco cópias foram feitas e hoje elas estariam sob zelosa proteção de colecionadores anônimos. Como se sabe, Republic acabou não saindo pela gravadora criada em 1978 pelo repórter a apresentador de TV Tony Wilson (1950-2007). Segundo Bernard Sumner, vocalista e guitarrista do New Order, o grupo acabou assinando com a London Records por dois motivos: 1) a gravadora quitaria a gigantesca dívida que a Factory tinha com a banda; 2) a London bancaria o término de Republic. O disco acabou sendo oficialmente lançado apenas em maio do ano seguinte.

Republic não foi escrito e gravado unicamente sob o peso dos últimos suspiros da Factory – e da monstruosa dívida que a gravadora tinha com o New Order: a boate Haçienda, da qual a banda e a Factory eram sócios, também passava por dias difíceis, o que incluía problemas financeiros também. Para muita gente, Republic é um disco que foi feito para socorrer a Factory (o que não deu certo), a Haçienda e, evidentemente, o próprio New Order. No documentário New Order Story, de 1993, o baterista Stephen Morris deu a seguinte declaração: “Estamos em Montreux, para participar do festival de jazz daqui… O que nunca nos ocorreu… Para salvar nossas vidas, talvez?”. Apesar de questionado por Sumner, que o corrige dizendo “Não. Estamos aqui porque Quincy [Jones] nos pediu”, a fala de Morris não deixa de ser reveladora.

Seja como for, Republic até teve um excelente desempenho na Inglaterra, ficando em primeiro lugar na parada de álbuns – e se mantendo nessa posição por 19 semanas. O single “Regret” foi um grande sucesso. Mas a turnê de promoção do disco acabou sendo uma das mais curtas da história da banda: todos os shows se concentraram entre os meses de junho e agosto de 1993. O último concerto, realizado no Reading Festival (Inglaterra), acabou sendo não apenas o mais aclamado da turnê, mas entrou para a história como um dos melhores da carreira do New Order. Além disso, ele se tornou emblemático porque representa o melhor período do grupo em matéria de performances ao vivo.

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Poster oficial com o ‘line up’ do Reading Festival 1993

O New Order foi o headliner da terceira e última noite do festival, ocorrida no dia 29 de agosto de 1993. No mesmo dia, se apresentariam no palco onde a banda tocaria nomes como Dinossaur Jr., Lemonheads, The Breeders e até os super-virtuoses (e malas!) do Primus. Na ocasião, havia rumores de que o New Order se separaria. Os boatos foram desmentidos por Bernard Sumner durante o show – diante da plateia, ele pegou o microfone e disse “Não se deve acreditar em tudo o que se lê na imprensa”. Mas essa declaração seria bem menos lembrada do que a famosa mudança que Sumner fez na letra de “True Faith”, citando de maneira maldosa o (hoje) falecido Rei do Pop: “When I was a very small boy… Michael Jackson played with me… Now that we’ve grown up together… He is playing with my willy” [trad.: “Quando eu era um garotinho… Michael Jackson brincava comigo… Agora que nós estamos crescidos… Ele brinca com meu pinto”].

O set list merece destaque – equilibrado, misturava de forma adequada os hits, músicas novas e um par de canções menos badaladas, mas de valor afetivo para os fãs. Os críticos e resenhistas, não apenas lá de fora, mas daqui do Brasil também, elegeram o show do New Order como sendo o melhor daquela edição do festival. O mais interessante é que existem registros desse show. Desde a filmagem amadora (vide o vídeo acima, com “True Faith”), até gravação soundboard do áudio. Para se ter uma ideia, esse concerto foi tocado em um programa da Rádio Transamérica (101,3 FM) do Rio de Janeiro (eu cheguei a gravá-lo em uma fitinha cassete). Além disso, um dos discos piratas ao vivo mais famosos do New Order, inclusive por causa da excelente qualidade sonora, é um CD intitulado Electronic Ecstasy… e que consiste no show (incompleto) do Reading Festival ’93.

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O show repercutiu até na imprensa brasileira!

Além disso, em seus arquivos, a BBC possui no formato CD discos de transcrição de um programa apresentado na Radio 1 por Mark Goodier no qual o show foi tocado. É extremamente difícil desviar um disco desses dos porões da BBC para as mãos de um colecionador, mas felizmente eu tive essa sorte. Como no CD pirata Electronic Ecstasy, o show está incompleto (faltam “Dream Attack”, “As It Is When It Was”, “True Faith” e “Bizarre Love Triangle”), mas o som é de altíssima qualidade.

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Bootleg do show em Reading

Considerando que o New Order lançou oficialmente duas músicas desse show no disco número 4 da caixa Retro (2002) – “Regret” e “As It Is When It Was” -, não deixa de ser surpreendente o fato do concerto nunca ter virado um disco ao vivo legítimo. Aliás, é ainda mais surpreendente se considerarmos as reações dos integrantes da banda diante das gravações existentes. Sumner, em uma ocasião, disse: “Eu me lembro de alguem tocar um disco pirata desse show em uma loja de roupas e de soar fantástico”; o agora ex-baixista Peter Hook foi mais enfático: “Quando eu ouvi as fitas do show, eu quase chorei… Eu pensei ‘porra, que desperdício!'”. Dave Thompson, autor de True Faith: An Armchair Guide to New Order, tem uma teoria própria para explicar o motivo pelo qual a apresentação no Reading Festival ’93 não teria sido lançada oficialmente na íntegra. Segundo ele, “fãs e colecionadores preferem ver e ouvir uma performance mais antiga… mas eles [referindo-se à banda] certamente curtem mais esse [o show em Reading]. Sou fã e colecionador, mas adoraria ver esse show virar um disco ao vivo oficial e torço para que isso um dia aconteça.

Curiosamente, o livro de Thompson, uma referência em matéria de detalhes sobre tudo o que foi gravado e lançado (ou não) pelo New Order, vacilou ao mostrar o set list incompleto do show. A lista inteira é essa aqui: “Ruined in a Day”, “Regret”, “Dream Attack”, “Round and Round”, “World”, “As It Is When It Was”, “Everyone Everywhere”, “True Faith”, “Bizarre Love Triangle”, “Temptation”, “The Perfect Kiss”, “Fine Time” e “Blue Monday”. Por outro lado, o livro revela que após o show cada membro do New Order foi para a sua casa e eles não se comunicaram mais entre si durante cinco anos. Sim, de fato o tempo provou que não houve separação para valer (em 1998 eles fariam outro show incrível em Reading e esse, felizmente, saiu em DVD), mas o longo hiato após uma curtíssima turnê de um álbum feito sob nuvens negras diz claramente que o clima na banda não era dos melhores. Mesmo assim, foi o período em que exibiram sua melhor forma no palco – e o ponto culminante foi o show de 29 de agosto de 1993.

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MEMÓRIA | Uma noite em Nova Jersey

NEW ORDER

No lugar do Joy Division, o New Order: Sumner, Morris (juntos na foto) e Hook vão para os EUA sem Ian Curtis em setembro de 1980.

A história todos conhecem: em maio de 1980, quando o Joy Division estava às vésperas de fazer seu primeiro tour pelos Estados Unidos, Ian Curtis, o jovem e também talentoso vocalista e letrista, tirou sua própria vida na casa onde viveu seu desastroso casamento, em Barton Street (Macclesfield, Grande Manchester). Mesmo desolados, seus companheiros, Bernard Sumner (guitarra e teclado), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) decidiram continuar – na semana seguinte ao funeral já estavam ensaiando uma canção nova, partindo de um riff escrito por Hook. Estava nascendo “Dreams Never End”, a primeira de um novo lote de músicas. O Joy Division havia ficado para trás – foi enterrado junto com Ian Curtis. No horizonte à frente, os três remanescentes miravam o futuro, mas agora como New Order.

Exceto os fãs fiés e de longa data, o público médio pensa que Gillian Gilbert, então namorada do baterista de Stephen Morris, teria sido imediatamente convidada para tocar teclados e guitarra na nova banda. Mas não foi assim. Gillian fez sua estreia no New Order em novembro de 1980, em um concerto no Squat, em Manchester. Antes de ser incorporada ao grupo, o New Order existiu durante um breve período como um trio. Além disso, nesse curto espaço de tempo entre o segundo concerto, em Liverpool, e o último antes do ingresso de Gillian, em Boston (EUA), Sumner, Hook e Morris se revezavam na função de vocalista (o primeiro show, no Beach Club, em Manchester, foi totalmente instrumental).

Apesar do cancelamento dos shows do Joy Division na América do Norte (havia um concerto agendado no Canadá também), o New Order com três integrantes pegou um avião, atravessou o Atlântico e foi para os Estados Unidos fazer um punhado de apresentações. O primeiro, na cidade de Hoboken, em Nova Jersey, dia 20 de setembro de 1980, é particularmente interessante. Essa apresentação aconteceu no Maxwell’s, um tradicional bar e music venue local, no qual muitas outras bandas de sucesso já tocaram: R.E.M., Pixies e Smashing Pumpkins estão entre elas.

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A fachada atual do Maxwell’s, em Hoboken (Nova Jersey). Hoje o local se chama Maxwell’s Tavern.

Mas o que torna o show do Maxwell’s particularmente especial? Em primeiro lugar, talvez tenhamos que admitir que muito do interesse em torno desse concerto se deve ao fato dele ter sido gravado e pirateado – se não fosse por isso, ele perderia metade do seu “charme”. Recentemente, um novo bootleg chamado Grieving in the Dark (2014) o trouxe à tona novamente. Muitas vezes uma coisa ou fato adquire significado ou valor histórico simplesmente por estar documentado.

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Um dos LPs piratas do show no Maxwell’s: “Grieving in the Dark” (2014).

Para início de conversa, esse foi o único show da viagem pelos Estados Unidos no qual banda tocou com seu equipamento original. Antes do concerto seguinte, no Hurra’s, em Nova Iorque, a banda foi literalmente saqueada: os instrumentos e demais equipamentos foram roubados. Para realizar o próximo show, o grupo teve que sair às pressas para comprar tudo novamente. E acabaram levando gato por lebre: Bernard, por exemplo, levou uma guitarra Gibson ES-335 de segunda mão pensando que fosse nova, enquanto Peter Hook comprou uma guitarra barítono acreditando ser um baixo de seis cordas (ele só tomou conhecimento do engano quando percebeu que não conseguia afinar o instrumento).

O segundo detalhe acerca desse show diz respeito ao revezamento nos vocais. Quem já teve oportunidade de ouvir as primeiras gravações demo do New Order, feitas nos Western Works Studio, em Sheffield, julho de 1980, deve ter estranhado por exemplo, a voz do baterista Stephen Morris em “Truth” e, principalmente, em “Ceremony”. No Maxwell’s, a banda tocou um set de oito músicas, mas Bernard Sumner, justamente aquele que viria a ser o vocalista em tempo integral, cantou apenas em “In a Lonely Place”. O tecladista nessa canção era Stephen Morris, que cedeu a vaga de baterista para uma drum machine. Alguem aí consegue imaginar “In a Lonely Place” tocada com uma bateria eletrônica? Pois é, mas isso um dia já aconteceu…

Nas demais músicas, Morris e Peter Hook se alternaram nos vocais. “Cries and Whispers”, “Mesh” e “Dreams Never End”, por exemplo, foram cantadas por Hook (a última continuaria a ser cantada pelo baixista mesmo depois de Sumner ter sido eleito o vocalista oficial); “Procession”, “Truth” e “Ceremony” contaram com a voz de Steve. “Procession”, aliás, é outro caso curioso. Trata-se de uma versão embrionária ainda, executada com bateria eletrônica no lugar da bateria acústica. Ao que tudo indica, também não era lá muito fácil para o Steve tocar bateria e cantar ao mesmo tempo. De um modo geral, as músicas desse set ainda não se parecem totalmente com suas versões definitivas, sobretudo no que diz respeito às letras.

Mas, pelas contas do leitor, falta ainda uma música. Sim, é verdade, mas essa é um caso à parte. Nesse show, a banda tocou uma canção pela primeira e única vez. Cantada por Peter Hook, ela segue a formação básica de guitarra-baixo-bateria e soa um tanto à beira do punk rock. Como nenhum dos integrantes havia anunciado o nome dela ao microfone, ela ficou conhecida ao longo dos anos com nomes genéricos nada criativos como “Untitled” (sem título) e “Unreleased Track” (faixa nunca lançada). O mistério em torno do nome dela foi solucionado quando, em 2008, foi lançado 1 Top Class Manager (Anti-Archivists, 220 páginas), um livro com scans dos cadernos de anotações do finado ex-empresário do Joy Division e do New Order, Rob Gretton. Segundo as notas de Gretton, essa música se chamaria “Hour”.

Do repertório desse período inicial do New Order, apenas “Homage” (que não fez parte do set list do Maxwell’s, mas foi tocada em outros shows e aparece na fita demo do Western Works Studio) e a desafortunada “Hour” (que não resistiu à sua primeira apresentação pública e imediatamente caiu), não foram gravadas e lançadas mais tarde. “Ceremony” e “In a Lonely Place”, começaram a ser criadas quando Ian Curtis ainda estava vivo, mas se transformaram no primeiro single do New Order, em 1981; “Dreams Never End” e “Truth” entrariam no LP de estreia, Movement, lançado no mesmo ano; “Procession” ganharia um compacto próprio, também em ’81, mas reapareceria no ano seguinte ao lado de “Mesh” no EP Factus 8 (também conhecido como 1981-1982); “Cries and Whispers” entraria no lado B do single “Everything’s Gone Green”, lançado na Bélgica pela Factory Benelux.

Bom, chega de tanto falatório… Quem quiser curtir o show no Maxwell’s, Hoboken (NJ), 20 de setembro de 1980 (mesmo sendo uma gravação pirata com todas as falhas e falta de qualidade típicas do gênero), pode descarregá-lo AQUI.

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MEMÓRIA | 1986/1987: o New Order conquista os EUA (e o mundo)

8e0704ba4bb4328098d54e41f6dd8309“Foi um show sensacional. Eu estava mais ou menos na quarta fileira, do mesmo lado onde Peter Hook estava no palco. Acho que me lembro de Bernard vestindo um short e uma camiseta da Adidas. Mais de uma vez vi garotas correndo e subindo ao palco para abraçá-lo”.

O trecho acima, publicado no site New Order On Line, faz parte de um breve relato de Tim Treat sobre o show do New Order no Poplar Creek Music Theatre, Chicago (EUA), no dia 16 de agosto de 1987. A cena descrita por Tim mostra o quanto a banda, naquela altura, já se encontrava bem distante no tempo e no espaço da atmosfera que cercava os concertos de sua primeira encarnação. A título de compração, o contraste entre essa apresentação e o famoso – porém infame – show do Joy Division no Derby Hall, em Bury (Inglaterra), no dia 08 de abril de 1980. Em vez de um anfieatro com capacidade para 20 mil pessoas, no qual já haviam tocado estrelas de primeira grandeza do rock/pop como Peter Frampton, B.B. King, Liza Minelli e Tina Turner, o Derby Hall era um antigo edifício vitoriano neoclássico com pouco mais de 500 lugares; além disso, o show do Joy Division ficou marcado por um grande tumulto, com direito a garrafas atiradas no palco e pancadaria generalizada. O episódio está bem representado no filme Control, de Anton Corbijn.

O show em Chicago, bem como toda turnê do New Order pelos Estados Unidos naquele ano, simbolizavam uma conquista: o sucesso comercial aliado à independência. A banda finalmente havia alcançado o sucesso que parecia reservado ao Joy Division, mas que fora adiado graças ao suicídio de seu vocalista e, também, timoneiro: Ian Curtis. Muitos talvez não saibam, mas naquela época, o último terço da década de 1980, não existia ainda o revival em torno do Joy Division; seu nome ainda não desfrutava do reconhecimento nem do sucesso com os quais foi laureado tardiamente. Foi como New Order que os sobreviventes do fim trágico operado por Curtis – Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris – conseguiram “chegar lá”. Naqueles tempos poucas eram a bandas que detinham o sucesso de público e, ao mesmo tempo, os aplausos da crítica.

O ano de 1987 foi, portanto, especial para o New Order. O grupo havia conquistado um dos maiores – e mais difíceis – mercados da música pop mundial: o norteamericano. Curiosamente, foi nos Estados Unidos (mais especificamente em Nova Iorque), bem no comecinho da década de oitenta, que o New Order encontrou a “tábua de salvação” que lhes libertou das sombras de Ian Curtis e do Joy Division. Já mais abertos às experimentações com sintetizadores e percussão eletrônica, resultado do período de estágio com o produtor Martin Hannett, o homem por trás das inovações sonoras presentes nos dois LPs do Joy Division – Unknown Pleasures e Closer -, Sumner, Morris e Hook, além de Gillian Gilbert (convidada a juntar-se ao trio poucos meses após a reestreia como New Order), incorporaram à sua música os beats e os grooves do pop eletrônico negro. Quando voltaram para a Inglaterra, já não eram mais os mesmos.

Em sua terra natal, produziram, em seguida, uma sucessão de singles de doze polegadas de grande êxito, como “Temptation”, “Blue Monday”, “Thieves Like Us” e “The Perfect Kiss”, bem como álbuns que, naquela época, tinham ares de novidade (Power, Corruption and Lies e Low Life), embora ninguem tivesse ideia precisa (pelo menos não naquele tempo) do quanto esses discos estavam antecipando o futuro do pop. Mas a “Conquista da América” começou a ser pavimentada mesmo em 1986, cinco anos depois das primeiras incursões pelos clubs de Nova Iorque. O filme Pretty in Pink, de John Hughes, lançado em fevereiro daquele ano, além de ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria, ajudou a popularizar a música do New Order, já que trazia em sua trilha sonora três canções da banda (mas apenas “Shellshock” foi incluída no LP). Meses mais tarde, em novembro, o single “Bizarre Love Triangle”, o único saído do álbum Brotherhood, tomou de assalto as paradas de sucessos nos EUA: entrou no Top 10 na parada oficial de singles e ocupou a quarta posição na parada de Dance Club Songs da revista Billboard. Nada mal para uma música que, na Inglaterra, havia atingido o primeiro lugar tão somente na parada independente (na parada oficial não chegou sequer ao Top 50, vejam só).

Mas o New Order tomou de vez a América para si em agosto de 1987, quandos os singles da banda apareceram reunidos em um álbum duplo intitulado Substance. Dos doze singles incluídos no LP, nove não faziam parte de nenhum outro álbum já lançado pelo grupo; os demais, por outro lado, eram remixes expandidos em vez de album versions. O disco fez um enorme sucesso nos dois lados do Atlântico, mas foi nos Estados Unidos onde ele alcançou sua maior marca, ultrapassando 1 milhão de cópias vendidas. O impacto de Substance sobre o mercado norteamericano foi algo sem precedentes – de uma hora para outra resenhistas de influentes publicações estadudinenses, do The Village Voice à Playboy, estavam dedicando linhas ao disco e à banda. Também foi em 1987 que os LPs do New Order, de Power, Corruption and Lies a Substance, começaram a ser distribuídos no mercado brasileiro pela WEA (no ano seguinte a banda estaria aqui pela primeira vez para uma série de shows).


Fotos: New Order nos EUA com Echo & The Bunnymen (1987)

O lançamento de Substance nos EUA foi o estopim de uma turnê norteamericana ao lado do Echo & The Bunnymen (outra importante banda britânica da década de 1980) e o glam gothic Gene Loves Jezebel. A excursão começou em Minneapolis, no dia 13 de agosto de 1987, e terminou Berkeley, Califórnia, no mês seguinte. Foram lançados, para fins de divulgação da turnê, dois discos promocionais: um flexi disc de dez polegadas que trazia um remix de “State of the Nation” e um set de três vinis de doze polegadas (cada um dedicado a uma das bandas), com o qual o New Order contribuiu com “True Faith”. Ambos os discos são hoje peças de colecionador.

A turnê foi um sucesso de público e os shows foram, na sua grande maioria, realizados em grandes espaços, como o já citado Poplar Creek, e também em outros famosos anfiteatros norteamericanos, como o Red Rocks, em Denver (Colorado), e o Irvine Meadows, na Califórnia. E anos mais tarde a revista Rolling Stone, em seu Album Guide (2004), afirmaria que Substance, ao lado de Purple Rain de Prince e Immaculate Colection de Madonna, seria um “guia para a música popular da década de 1980”. O LP acabou indo parar na Enciclopédia de Música Popular de Colin Larkin em 1989.

Nada mal para uma banda que já foi recebida no palco com garrafadas apenas sete anos antes, não é?