REVIEW | Peter Hook & The Light ao vivo no Cine Jóia, São Paulo (06.12.2016)

capaSe eu tivesse que explicar como é um show do Peter Hook & The Light para uma pessoa que nunca os viu ao vivo, eu o descreveria da seguinte maneira: trata-se de uma ótima banda cover de New Order e Joy Division, com Hook à frente balançando o braço, fazendo caras, bocas e poses para o público e para os fotógrafos e regendo o coro da plateia. Ah, e de vez em quando ele toca baixo, só para variar.

Isso quer dizer que o show é meia boca? Não, muito pelo contrário! A combinação entre os catálogos do Joy Division e do New Order, que resistiram com excelência à passagem do tempo, e os inquestionáveis carisma e presença de palco de Peter Hook, sempre asseguram noites memoráveis. E se o repertório do concerto for baseado em duas coletâneas de sucesso das duas bandas, ambas intituladas Substance, as chances de alguem voltar para a casa decepcionado caem drasticamente para quase zero. Arrisque perguntar como foi o show para quem esteve no Cine Joia (São Paulo) na última terça-feira. Todo mundo voltou para casa feliz e satisfeito.

Mas a experiência acumulada em shows do Peter Hook & The Light (já são quatro no currículo) me fez chegar a uma drástica conclusão: as pessoas vão aos concertos muito mais para ver Hook do que para ouvir o The Light, que nada mais é do que uma banda de tributo cujo líder, meio que numa função de mestre de cerimônias, é ninguem menos que um dos homenageados. Façamos uma comparação com o show do New Order da quinta-feira da semana passada, no Espaço das Américas (também na capital paulista): o público que lotou a casa de espetáculos na Barra Funda deu mostras de que se importa pouco com a ausência de Peter Hook e que nem liga para a notória baixa interação do grupo com a audiência (ainda assim, os gritos para Gillian Gibert provaram que a tecladista possui algum tipo de carisma espôntaneo, mesmo permanecendo praticamente imóvel no palco durante todo o show). A música, nesse caso, parece falar mais alto.

Peter Hook, por sua vez, tem uma grande autoconsciência dos seus talentos sobre um palco e de seu “charme” – e, como era de se esperar, soube tirar proveito deles em seu favor. Ele sabe o que o público espera dele e dá exatamente aquilo o que ele quer, ainda que o verdadeiro baixista da banda seja Jack Bates, seu filho, e não ele. Hook escolhe a dedo as partes das músicas em que ele põe a mão no baixo (uma introdução, ou um solo), com direito a poses, para o delírio da galera, sempre com a câmera dos smartphones a postos. Na retaguarda, o The Light tocou de maneira competente, porém um tanto “ortodoxa”, canções que todo mundo sabia cantar. Os arranjos eram, de um modo geral, muito próximos aos das gravações originais – e isso era um verdadeiro paradoxo, haja vista que o New Order ao vivo, com Hook, não tinha o hábito de soar muito semelhante aos discos. Isso reforçou a aura de “banda cover” do The Light.

O público parecia não se importar com nada disso, é claro. Nem mesmo com a péssima sonorização do show. A acústica do Cine Joia se voltou contra a banda: quando a plateia cantava com mais entusiasmo, a casa se transformava em uma caixa de ressonância que amplificava o barulho do público, a ponto de fazê-lo ficar mais alto que o som do The Light. Além disso, os teclados e as programações eletrônicas de Andy Poole estavam muito baixos, o que diminuía especialmente o punch das canções do New Order. Durante “Blue Monday” mal se ouvia a sua memorável linha de baixo.

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Foto: Lucas Guarnieri (Rolling Stone Brasil)

Mesmo assim, a resposta da audiência ao material do New Order foi intensa. Os destaques certamente foram “Ceremony”, “Temptation”, a já citada “Blue Monday” e “Perfect Kiss” (cantada pelo guitarrista David Potts). “Confusion” (com o arranjo da versão regravada pelo New Order em 1987 e não o original produzido por Arthur Baker em 1983) e “State of the Nation” receberam uma reação mais morna. “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”, pelo contrário, levaram o público à catarse. A primeira parte do set terminou com o lado B mais lado A de todos os tempos: “1963”. Foi aprovada com louvor.

Após uma pausa de aproximadamente dez minutos, Peter Hook e banda retornaram ao palco para  homenagear o Joy Division. Tal como na primeira parte, o The Light combinou canções de Substance com lados B. As exceções foram “Disorder” e “Shadowplay”, ambas de Unknown Pleasures (1979), e que foram tocadas ainda no começo desse bloco. “Shadowplay”, em particular, não pôs o Cine Joia abaixo por um milagre. Já a primeira foi interrompida por um “acidente de percurso” com o baterista Paul Kehoe (um dos pedais do instrumento pareceu ter se desmontado) e, após a resolução do problema, a música foi reiniciada.

Como o material do Joy Division não tinha muita eletrônica, havia mais espaço para improvisar, o que fez com que a segunda parte do show fosse musicalmente mais interessante. Além disso, a voz de Hook se adapta melhor às músicas do Joy. A aprovação do público, por sua vez, foi extrema, graças em grande parte às hordas de fãs “modinha” do Joy Division e suas previsíveis camisetas de Unknown Plasures (o “uniforme” ajuda a identificar facilmente esse espécime que vem frequentando quase todos os shows de bandas oitentistas e alternativas nos últimos anos).

Com “Warsaw”, que abriu a sequência de canções do Substance do Joy Division, fomos transportados no tempo para a era de ouro do punk rock inglês, com direito a mosh e stage diving na plateia; “Digital” também foi um dos pontos altos com o público berrando “Day in, day out! Day in, day out!” com toda a força; “Autosuggestion” foi um daqueles momentos de pausa para recuperar o fôlego e, nessa hora, muita gente foi para o bar buscar uma cerveja; durante “Incubation”, quem descansou um pouco foi o próprio Peter Hook, que saiu brevemente de cena enquanto o The Light mandava ver; “Atmosphere” foi dedicada às vítimas do desastre aéreo que matou a equipe de futebol da Chapecoense, sagrando-se em definitivo como “Marcha Fúnebre do Rock”.

O desfecho não foi nenhuma surpresa, é claro: era a vez da esperada “Love Will Tear Us Apart”. Apesar da letra tratar de um casamento fracassado e em tom de pesar, o sentimento e o clima eram de regozijo e felicidade. Foi a apoteose de Peter Hook e sua banda – e do público também. Entretanto, o gran finale continha uma ironia: embora fosse uma celebração do “sério”, “incorrompido” e “sagrado” Joy Division, “Love Will Tear Us Apart”, principalmente ao vivo, soa escancaradamente pop e acena para (o que veio a ser) o “profano” New Order. Os tais fãs “modinha” vestidos de Unknown Pleasures, que habitualmente desdenham do New Order, ainda não foram espertos o bastante para sacar isso.

Aproveito o post para agradecer aos produtores responsáveis por trazerem Peter Hook ao Brasil por terem me ajudado a conseguir um autógrafo com dedicatória no meu exemplar do livro, Substance: Inside New Order.

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Meu exemplar autografado do último livro de memórias de Peter Hook

SET LIST:
In a Lonely Place
Procession
Cries and Whispers
Ceremony
Everything’s Gone Green
Temptation
Blue Monday
Confusion
Thieves Like Us
The Perfect Kiss
Sub-Culture
Shellshock
State of the Nation
Bizarre Love Triangle
True Faith
1963
No Love Lost
Disorder
Shadowplay
Komakino
These Days
Warsaw
Leaders of Men
Digital
Autosuggestion
Transmission
She’s Lost Control
Incubation
Dead Souls
Atmosphere
Love Will Tear Us Apart

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REVIEW | New Order ao vivo no Espaço das Américas, São Paulo (01.12.2016)

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Cheers! Vamos brindar a mais um show do New Order no Brasil.

Para mim, ir a um show do New Order não é apenas ir a um concerto dessa que é a minha banda favorita há quase três décadas (vinte e oito anos para ser mais exato). Na verdade, é bem mais do que isso. Significa reencontrar amigos de várias partes do Brasil com os quais tenho coisas em comum (a banda entre elas); é me aventurar, com esses mesmos amigos, no encontro com nossos ídolos no aeroporto para tirar uma foto ou conseguir um autógrafo; é o “aquecimento” antes do show em algum bar; é o pós-show, com direito a invasões furtivas ao backstage para estar tête-à-tête com a banda mais uma vez; são os posts em série nos fórums da internet e, agora, no WhatsApp para discutir exaustivamente sobre qual seria o set list “perfeito”; é fazer novas amizades durante o papo com desconhecidos na fila para entrar no show…

Por tudo isso, confesso: não é tão fácil fazer uma resenha “objetiva” e “isenta” sobre qualquer apresentação ao vivo do New Order (ou sobre qualquer outra coisa relacionada à banda). Mas eu bem que tento. Espero poder retratar o que eu vi – e minhas impressões à respeito – não somente da maneira mais sincera ou honesta possível, mas também com justiça. Sim, justiça. Nem sempre o que leio na imprensa “de verdade”, como as resenhas e críticas escritas por profissionais, pode ser considerado justo.

Convicta de sua “legitimidade”, com frequência a chamada “crítica espcializada” ignora o reconhecimento do público e avalia um show de rock ou qualquer outro espetáculo com base no seu próprio gosto – ou, então, em um hipotético “perfil médio”. O que eu quero dizer com isso é: de um lado, o sucesso de audiência é menosprezado; de outro, se espera sempre que o artista que está ali dando o melhor de si sobre o palco, mas à sua própria maneira, aja de acordo algum tipo (falso ou ilusório) de “protocolo” ou “manual”. Não é raro ler uma crítica sobre um show do New Order na qual se pode ter a impressão de que o escritor do texto parecia frustrado ou decepcionado (muito mais do que o público) por não ter estado, ao longo de duas horas, diante de mais um grupo de roqueiros saltitantes como o U2, ou os Rolling Stones, ou o Green Day… Quem conhece a história do New Order sabe muito bem: a banda sempre foi um ponto fora da curva. Inclusive ao vivo. 

O maior atrativo em um show do New Order é o seu próprio catálogo, repleto canções que resistiram à passagem do tempo e que ajudaram a formatar tanto o pop eletrônico quanto o indie rock contemporâneos. Qualquer outro tipo de “distração” no palco, como as telas de led e os novos efeitos de iluminação que, quem sabe, tenham sido concebidos como substitutos do único integrante que genuinamente atraía os olhares da plateia – o ex-baixista Peter Hook – pouco ou nada acrescenta ao essencial: a música. Além disso, sempre foi parte do “charme” do New Order essa atitude meio “tô nem aí” que alguns não iniciados interpretam como desanimação ou falta de presença de palco.

Evidentemente, não foi diferente nessa última passagem da banda pelo Brasil (ocorrida na última quinta-feira, no Espaço das Américas) – o New Order pouco interagiu com o público. Gillian Gilbert de vez em quando encarava a plateia e, não mais do que uma ou duas vezes, liberou um sorriso e um tchauzinho para aqueles nas primeiras filas que gritavam incansavelmente seu nome; Bernard “Barney” Sumner arriscou, de modo bem mais contido do que nas ocasiões anteriores, aquele rebolado risível (até mesmo para os fãs) quando não estava com sua guitarra em punho; Tom Chapman, o baixista que pegou a vaga de Peter Hook, é quem parecia ser o mais “saidinho”: várias vezes aproximou-se da beirada do palco e fez algumas poses mais fotogênicas durante seus solos. Mas nada, evidentemente, que lembrasse as “macaquices” de Hook.

Já que falei em justiça, que ela então seja feita. Tom Chapman já está visivelmente mais à vontade e entrosado com a banda. Sua atuação foi impecável, tanto nas canções do último álbum – Music Complete – quanto no material mais antigo. Considerando sua ingrata condição, eu digo sem qualquer constrangimento que ele se saiu tão bem que eu não senti a falta de Peter Hook. E esse sentimento não era exclusivamente meu. Ouvi muitos comentários a esse respeito durante a saída do show. Um amigo me disse naquele dia, horas antes do concerto, que nós éramos como “filhos de pais separados”. Chapman seria uma espécie de “nova namorada do papai” ou uma madastra – tem gente que não gosta ou não aceita, mas também existem aqueles, como eu (e a maioria, felizmente) que pensa “ah, ela é bem legal, eu gosto dela”. E a vida continua. E o New Order também. Um pouco mudado, é verdade… mas quem não muda com o passar dos anos?

Bom, mas sobre o show… considerando que a casa estava lotada – como em geral tem sido as apresentações da banda alhures – é de se supor que entre fãs “doentes” haviam, também, aqueles que foram ao Espaço das Américas tendo como referências apenas os grandes sucessos. Shows de bandas veteranas, via de regra, são assim. Isso talvez explique porque o New Order vem optando por fazer apresentações mais conservadoras e “seguras”, dentre as quais a última em São Paulo não foi uma exceção. A banda exibiu exatamente o mesmo que vem mostrando pelos quatro cantos do mundo ao longo dessa turnê: uma combinação equilibrada do créme de la créme de Music Complete (seis músicas no total), lançado no ano passado, seus antigos clássicos e um par de canções do Joy Division. Nada de obscuridades e lados B. É o que acontece quando seu repertório é conhecido tanto pelos fãs de bandas cult quanto por aquela parcela do público de quem já se ouviu algo do tipo: “New Order? Ah, mas não é a banda que canta aquela música ‘Everytime I see you falling’? Pô, me amarro neles”

Concentrar o show nos maiores sucessos, incluindo os do Joy Division – esta talvez seja a maior de todas as concessões que o New Order vem fazendo há um bom tempo, o que é surpreendente se considerarmos que o grupo ficou universalmente famoso por não fazer concessões. Mas, diferente de Peter Hook, que segue em uma carreira solo que celebra exclusivamente o passado, o New Order (ainda) olha para frente. E vem colhendo os frutos: as músicas novas, ao contrário do esperado, contaram com uma reação que fez jus à excelente receptividade que o último álbum vem recebendo. Todas – todas mesmo – foram cantadas pelo público. “Singularity” abriu o show após o P.A. anunciar a entrada da banda com “Das Rheingold: Vorspiel”, de Richard Wagner; “Academic”, a terceira música do set, soou brilhante com seus resquícios de “Dream Attack” (faixa do álbum Technique, de 1989); “Restless” até teve seu refrão entoado a plenos pulmões pela audiência, mas minha opinião pessoal é a de que, dentre as faixas de Music Complete, ela é a mais fraca ao vivo; “Tutti Frutti” e “People on the High Line” inauguraram a segunda e mais dançante parte do show; “Plastic”, acompanhada de uma orgia de efeitos visuais (outra concessão feita pela versão atual do New Order), fez Bernard Sumner apontar para o público enquanto cantava “It’s official… You’re fantastic… You’re so special… So iconic”, em um de seus raros momentos de interação com o público que lotou o Espaço das Américas.

Mas é óbvio e ululante que os melhores momentos do show aconteceram todas as vezes em que o New Order engatou a marcha à ré. A primeira grande explosão de êxtase foi com “Regret”, a segunda da noite; “The Perfect Kiss”, que figurou entre as mais pedidas pelo público, também fez a temperatura subir em níveis estratosféricos; “Bizarre Love Triangle”, como de praxe, passou no teste de popularidade (rivalizando com “Regret” nesse quesito). Teve também “Crystal”, uma versão repaginada de “True Faith” e, poderosa como sempre, a histórica “Blue Monday”. Aliás, esse foi um momento particularmente importante para mim. “Blue Monday” foi o começo de tudo, a minha porta de entrada no tema New Order. Eu estava tão feliz por estar ali e por ter tido a oportunidade de vê-los mais uma vez que não consegui segurar os olhos marejados, o nó na garganta e o disparar do coração. Esse é o poder da música – o poder de nos levar de volta ao passado e de nos reconectar ao sentimento primordial que eclodiu naquela já distante primeira experiência. Esse sentimento, pessoal e intransferível, crítico de música algum consegue captar em um show. Por isso mesmo as resenhas dos jornais e das revistas são tão frias – e tão imprecisas também.

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Minha única foto do show, durante “Regret”: preferi saborear o show a tirar “zilhões” de fotos…

Voltando ao show… O set chegou ao fim com a obrigatória “Temptation” (a canção mais executada ao vivo pelo New Order), com Gillian tocando “Street Hassle”, de Lou Reed, no teclado. A banda deixou o palco para voltar muito pouco tempo depois e dar seu bis. Todo mundo já sabia o que ia acontecer: era a hora de celebrar o Joy Division. A banda sacou uma emocionante versão de “Decades”, que retornou recentemente ao repertório dos shows depois de 29 anos fora. Imagens de Ian Curtis no telão reforçavam o clima de tributo. Em seguida, vieram com a esperada “Love Will Tear Us Apart”, normalmente escalada para fechar a noite. Isto é, normalmente não quer dizer sempre. O New Order abriu uma exceção e presenteou o público com mais uma música. Numa atitude que chegou a lembrar seus velhos tempos de “do contra”, em vez de terminar sua apresentação com mais um de seus hits (o que seria uma escolha óbvia e natural) o grupo fez sua saideira, vejam só, com uma das faixas novas: “Superheated”. E o público aceitou numa boa. O telão exibiu a letra para todos cantarem junto – e o recado foi prontamente entendido pelos presentes. Em alusão aos últimos versos, Bernard Sumner deu a má notícia ao público após o derradeiro acorde: “It’s over!”. E assim terminaram duas horas de êxtase aprovadas pela plateia. A única aprovação que importa, aliás. “Obrigado mais uma vez, São Paulo! Vocês foram ótimos!”, agradeceu Sumner. Ora, Barney, nós é que agradecemos.

Há dez anos, eu vi meu primeiro show do New Order, em São Paulo; dez anos depois, eu voltaria a São Paulo para vê-los pela décima vez – e provavelmente a última. Talvez as lágrimas durante “Blue Monday” tivessem externalizado, também, o sentimento de despedida. Não cabe aqui esclarecer os motivos – a vida é assim, com o tempo outras coisas passam a exigir sua atenção e, de repente, você não está mais tão disponível para se dedicar às antigas paixões com a mesma intensidade. Por isso, encerro esta “resenha” com um relato: na fila para entrar no Espaço das Américas, uma garota de 18 anos, que foi sozinha de Curitiba a São Paulo, acabou se enturmando conosco (a “diretoria” do New Order Brasil). No final do show, entre tantas mãos que, na grade, disputavam um dos set lists colados com fita isolante no assoalho do palco, foi ela quem conseguiu por as suas naquele pedaço amassado de papel. Ela chorou de tanta alegria. Pouco tempo mais tarde, lá nos fundos, numa saída para o estacionamento, mais uma explosão de felicidade: ela conseguiu que e banda autografasse seu set list. Eu vi o brilho nos olhos dela. Eu achei algo bonito de se ver.

É isso aí: hora de passar a bola para essa garotada. Eu tive o bastante disso e, sinceramente, não tenho do que reclamar – aproveitei bastante. Bom saber que o New Order ainda desperta na molecada a mesma paixão que despertaou em mim 28 anos atrás. Enfim, é isso, it’s over

…mas só depois do show do Peter Hook.

SET LIST:
Singularity
Regret
Academic
Crystal
Restless
Your Silent Face
Tutti Frutti
People on the High Line
Bizarre Love Triangle
Waiting for the Sirens’ Call
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Decades [encore]
Love Will Tear Us Apart [encore]
Superheated [encore]

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RELATO | Um dia em Manchester

20-21-june-2012-053“E no sexto dia Deus criou Manchester…”

Recentemente, tirei um tempo da minha viagem de férias para fazer algo que, como fã de New Order e Joy Division, sempre sonhei: passar um dia em Manchester para explorar em sua paisagem urbana a história e a geografia do som que há quase três décadas tem sido a trilha-sonora da minha vida. Na verdade, acho que escolhi Londres como destino das férias como desculpa para, enfim, poder saciar essa vontade. Ainda que eu pretendesse não admitir a verdade (ao contrário do que estou fazendo agora), o objetivo, desde o começo, sempre foi Manchester. Esse sonho, aliás, ganhou força em novembro do ano passado durante uma estadia em Paris: além de ter visto meu primeiro show do New Order em solo europeu, um dos momentos mais importantes da viagem foi quando eu pus os pés no lendário Les Bains Douches, onde o Joy Division já havia tocado (o show, após anos nas mãos dos piratas, acabou ganhando lançamento oficial em CD e vinil, em 2001). Os minutos que passei em sua galeria de antigos pôsteres de concertos com os olhos fixos no cartaz do show que o Joy Division lá fez em 18 de dezembro de 1979 foram decisivos para essa escolha. 

Manchester, é claro, não deu ao mundo apenas Joy Division e New Order. A lista a seguir é de respeito: Hollies, Buzzcocks, The Smiths, Simply Red, Happy Mondays, Stone Roses, Oasis, Chemical Brothers. Tem coisa nova rolando na cidade, é claro – Blossoms é a nova sensação por aquelas bandas. Muito já se gastou de papel e tinta sobre sua cena musical e o seu legado: Shadowplayers: The Rise and Fall of Factory Records, de James Nice (Aurum Press, 2010, 432 páginas), From Joy Division to New Order: The True Story of Anthony H. Wilson and Factory Records, de Mick Middles (Virgin Books, 2002, 320 páginas), I Swear I Was There: Sex Pistols, Manchester and The Gig That Changed the World, de David Nolan (IMP, 2006, 192 páginas), The North Will Rise Again: Manchester Music City 1976-1996, de John Robb (Aurum Press, 2010, 400 páginas) e Manchester, England: The Story of a Pop Cult City, de Davi Haslam (Fourth Estate, 2000, 351 páginas) são alguns dos títulos mais conhecidos. Não é exagero dizer que Manchester é uma das grandes capitais mundiais do pop ao lado de Londres, Nova Iorque, Detroit e Seattle. Liverpool? Só se for no Guiness Book (que lhe deu o título de “Cidade do Pop” por causa de uma única banda).

Só que meu equivalente ao Hajj (peregrinação à Meca que os muçulmanos são obrigados a fazer pelo menos uma vez na vida) ou ao Caminho de Santiago de Compostela – guardadas as devidas proporções nos mais variados sentidos – não começou de fato em Manchester, mas em Londres. Fazia parte da minha programação na Square Mile uma ida à belíssima National Gallery. Para que? Eu queria ver com os meus próprios olhos o quadro A Basket of Roses, de Ignace Henri Jean Fantin-Latour (1836-1904), pintado em 1890, e usado pelo designer Peter Saville na capa do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983 (e considerada um dos trabalhos mais relevantes do artista gráfico). Aliás, eu queria algo mais do que apenas ver o quadro: além de ser fotografado com ele usando uma camiseta do disco que o traz em sua capa, eu queria repetir o gesto de Saville de 33 anos atrás e comprar um cartão-postal com uma reprodução da obra na gift shop do museu (o que consegui fazer). Essa história do postal merece um parênteses.

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Poder, corrupção e mentiras na National Gallery, em Londres

Com o título do álbum na cabeça – “poder, corrupção e mentiras” – Saville foi à National Gallery procurar um retrato de algum príncipe que pudesse usar na capa do disco. A intenção era, a partir da associação entre o nome do LP e o retrato usado na embalagem, fazer uma referência a Maquiavel. Bom, a ideia não era de fato tão boa assim e ele acabou desistindo dela no meio do tour pelo museu. Mas antes de ir embora, o designer entrou casualmente na lojinha de lembranças, onde pegou aleatoriamente um cartão-postal. Sua namorada na época, em tom de brincadeira, lhe disse: “Por que você não usa esse aqui na capa?”. Era um postal de A Basket of Roses. Os olhos de Saville brilharam – enfim, ele havia encontrado um “rosto” para Power, Corruption and Lies. Segundo ele, “as flores sugeriam a maneira pela qual o poder, a corrupção e as mentiras se infiltram nas nossas vidas, porque elas são sedutoras”. A justaposição entre a pintura figurativa e realista de Fantin-Latour com “textos” impressos em um código de cores criado por Saville para sugerir a ideia de uma linguagem que só poderia ser decifrada/decodificada por máquinas (como, por exemplo, um código de barras) foi a forma simbólica de retratar a “tensão” entre as duas faces do som do New Order (acústica/artesanal/manual e eletrônica/industrial/autômata) e de transmitir de modo subliminar a seguinte mensagem: por trás de máquinas que apenas aparentemente fazem tudo sozinhas (sequenciadores, drum machines) existem seres humanos… Bom, explicações à parte, o fato é que eu posso me considerar um sujeito de muita sorte: o dia escolhido para ir à National Gallery coincidiu com o único dia da semana (quarta-feira) em que a sala onde o Basket of Roses está exposto fica aberta à visitação – e eu nem sabia disso!

Enfim, com a foto feita e o postal guardado na mala junto com outros suvenires da viagem, eu só viria a pegar o trem para Manchester dois dias depois. No caminho, bastou passar por Macclesfield, terra natal de Ian Curtis e Stephen Morris, para já sentir aquele frio na barriga. Com a chegada em Manchester, a surpresa veio imediatamente após deixar a Piccadilly Station: embora eu não soubesse exatamente o que esperar, descobri uma cidade, em termos urbanísticos, muito diferente de Londres. Seu conjunto arquitetônico me deixou muito impressionado: edifícios como o do Town Hall, em Albert Square, o da Central Library, ou os dos hotéis Palace e Midland são verdadeiros deleites para os olhos. Se eu tivesse pesquisado um pouco mais, talvez tivesse me programado para ficar pelo menos mais um dia na cidade para poder ir além de seu roteiro musical.

Minha “peregrinação” em Manchester teve como primeiro ponto cardeal o que talvez é o mais sagrado dos lugares para quem, como eu, é ligado em música e cultura pop: o Free Trade Hall. Hoje funciona nele um hotel, mas originalmente o edifício foi erguido para eventos públicos, discursos políticos e concertos de música clássica (que ocorriam no Grande Pavilhão). O Free Trade Hall foi palco, em 1966, da primeira (e infame) apresentação de Bob Dylan com instrumentos elétricos – o que fez com que ele fosse vaiado e chamado de “Judas” pela plateia. Outros nomes importantes do rock tocaram lá: Frank Zappa, Pink Floyd e Genesis são alguns deles. Mas foi no pavilhão menor, chamado Lesser Free Trade Hall, que aconteceu o show que, segundo David Nolan, “mudaria o mundo”: o famoso concerto dos Sex Pistols no dia 04 de junho de 1976. O resto é história: havia apenas 40 pessoas no auditório, dentre elas Bernard Sumner e Peter Hook (Joy Division, New Order), Mick Hucknall (Frantic Elevators, Simply Red), Stephen Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Kevin Cummins (fotógrafo de rock), Paul Morley (jornalista e fundador da ZTT Records), Tony Wilson e Alan Erasmus (criadores do Factory Club e da Factory Records); sem falar nos organizadores do show, Pete Shelley e Howard Devoto, que formariam os Buzzcocks. Enfim, eram os nomes que ajudariam a colocar Manchester no mapa-mundi da música popular no anos seguintes.

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Free Trade Hall

Bem perto dali, encontramos outro “monumento” da história da música pop da cidade: a Manchester Central, antiga estação de onde partiam os trens para Londres antes da Piccadilly Station e que hoje é um parque de exposições, o Manchester Central Convention Complex. A mudança de função desse espaço aconteceu no final da década de 1970, quando ele recebeu o nome pelo qual ficou mais conhecido: Greater Manchester Exhibition Centre, ou pura e simplesmente “G-MEX”. O local foi palco, em 1986, dos shows do Festival of the Tenth Summer, um evento organizado por Tony Wilson e a Factory Records para celebrar os dez anos do famoso concerto dos Sex Pistols na cidade. Ao longo de um dia inteiro, se apresentaram nomes locais como New Order, The Smiths, OMD, The Fall e até bandas de cidades “amigas”, como Cabaret Voltaire (de Sheffield). O álbum ao vivo dos Smiths, Rank, que foi gravado no National Ballroom, Kilburn, em 23 de outubro daquele ano, traz no interior de sua capa uma foto feita no show do Festival of the Tenth Summer: garotos da plateia pelejando pela camisa do vocalista Morrissey. Eu tenho um LP pirata da apresentação feita pelo New Order chamado Solitude – nele, podemos ouvir “Ceremony” com a participação especial de Ian McCulloch, do Echo & The Bunnymen, nos vocais.

Mais alguns minutos de caminhada e, em seguida, fui parar em uma localidade conhecida como Knot Mill – outro lugar que podemos chamar de “místico”, para dizer o mínimo. Ali ficava o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, a famosa sala onde o Joy Division ensaiava e preparava novas canções. O T. J. Davidson’s ficou mais conhecido por ter sido o cenário para o vídeo promocional de “Love Will Tear Us Apart”. Se o prédio que outrora serviu de quartel-general para o Joy Division hoje não está mais lá (foi derrubado), por outro lado a construção onde um dia funcionou o Boardwalk, a casa noturna que lançou Stone Roses, The Charlatans, Happy Mondays, James e Oasis, continua de pé (mas atualmente servindo a outros desígnios). Há um vídeo de cerca de 30 segundos no You Tube publicado em 2010 que supostamente mostra o T. J. Davidson’s mas que, na verdade, exibe a fachada do antigo Boardwalk. Outra informação relevante: Tony Wilson chegou a morar ali em Knot Mill, em um apartamento localizado bem em frente ao edifício onde viria a ser o Boardwalk (inaugurado em 1986).

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Knot Mill: o edifício do Boardwalk (dir.) ainda está lá; o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, que ficava à esquerda e ao lado do prédio “10A”, não.

Naturalmente, um dos momentos mais melancólicos foi quando dei de cara com o edifício que hoje está de pé onde antes havia o mítico nightclub The Haçienda, também conhecido como “FAC 51”. O que torna a tristeza ainda maior é o fato do residencial de cor ocre se chamar The Haçienda Apartments (o jornalista Zeca Camargo também já escreveu sobre essa lamentável metamorfose). O condomínio vertical pode ter herdado o nome, mas não a história. Tinha gente que viajava até duas horas de carro até Manchester para curtir uma noitada no Haçienda. Nas suas origens, era um misto de boate e casa de shows onde se podia desfrutar de uma rica paleta de sons: punk, new wave, indie, disco, reggae, black music, northern soul. Depois, se tornou o epicentro da explosão do techno e da acid house na Europa. Na Canal Street, nos fundos do atual prédio, um artista local chamado Stewy eternizou seus grandes momentos em uma timeline gravada em metal, começando pela sua inauguração em 21 de maio de 1982. Sob comando da Factory Records, mas financiado pelo New Order, o lugar também viveu dias difíceis: foi palco da primeira morte por overdose de ecstasy publicamente reconhecida e cenário de brigas entre gangues, com direito a tiroteios em seu interior. Vários objetos que pertenciam a Haçienda hoje fazem parte do acervo do Manchester Museum of Science and Industry.

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Haçienda como era originalmente (e como nunca deveria ter deixado de ser).

A parada seguinte foi numa… loja da Tesco?! Não exatamente. O local onde hoje temos uma filial da famosa cadeia britânica de supermercados e comércio varejista – na verdade parte do belíssimo St. James Buildings – um dia foi outra casa noturna importante durante a era punk em Manchester: o Rafters. Ali aconteceu, no dia 14 de abril de 1978, o Chiswick Challenge, o lendário concurso de bandas organizado pela Stiff Records. O Joy Division se apresentou no concurso ao lado de outras 16 bandas, sendo a última a tocar (quando o local já estava praticamente vazio). Todavia, sua apresentação foi tão “intensa” que impressionaria Tony Wilson (quando este ainda era repórter da Granada TV) e, também, o DJ da casa, Rob Gretton. Rob se tornaria, desse ponto em diante, o empresário do Joy Division, mantendo essa função também com o New Order até sua morte, em 1999. O Rafters fechou suas portas em 1983.

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O antigo Rafters, agora transformado em Tesco

O roteiro não poderia deixar de contemplar o número 112 da Princess Street. Hoje, nesse endereço funciona a nova casa noturna e sala de concertos dirigida por Peter Hook (ex-baixista do Joy Division e do New Order), The Factory Manchester (“FAC 251”). No passado, a mesma construção abrigou o quartel-general da Factory Records. No atual site do Factory Manchester, se lê: “FAC 251: escritório da Factory Records… Construído por Tony Wilson. Projetado por Ben Kelly. Pago pelo New Order. Falido pelos Happy Mondays”. A porta de ferro com o logotipo da gravadora ainda está lá; Tony Wilson, de certa forma, também – através do stencil feito pelo já citado Stewy. Aliás, o Wilson foi – e sempre será – o grande personagem. Brian Epstein? Que me perdoem os fãs dos Beatles (eu adoro os Fab Four, que fique claro!), mas a história do seu empresário não foi parar no cinema (pelo menos não ainda). Ele também não ganhou um poema musicado em sua homenagem (“St. Anthony”, por Mike Garry e Joe Duddell) transformado em single beneficente que alcançou o primeiro lugar na parada inglesa. Não existe nenhum “Sr. Liverpool”, mas existiu um “Mr. Manchester”.

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O fim do “passeio” foi no Northern Quarter. O objetivo: ver e fotografar os mosaicos no Affecks Palace e as placas na calçada da Oldham Street. Precisei de uma ajudinha dos vendedores da Vinyl Revival para localizá-los. Os mosaicos fazem referência não apenas à história e o cenário musicais da cidade, mas, sinceramente, os ídolos do futebol ou as outras personalidades locais não me interessavam. Eu queria ver mesmo o mosaico com a turma da Factory (Martin Hannett, Tony Wilson, Alan Erasmus, Peter Saville, Rob Gretton), o outro com o pulsar CP1919 da capa de Unknown Pleasures, do Joy Division, aquele com o Sex Pistols, o Meat Is Murder dos Smiths, o Top of the Pops… Depois dos mosaicos, compras na Vinyl Revival (decorada com pôsteres originais da Factory Records, da Haçienda e do New Order, alguns deles autografados) e na Vinyl Exchange, e, finalmente, Oldham Street e suas placas que fazem referências aos principais marcos musicais da cidade: Buzzcocks (a primeira banda punk de Manchester), Short Circuit: Live at the Electric Circus (vinil de 10” da Virgin com o primeiro registro do Joy Division gravado ao vivo na noite de fechamento/despedida do Electric Circus), Factory Records etc.

O tour apenas parecia ter chegado ao fim… Na volta para a Piccadilly Station, parei em um restaurante qualquer da estação com minha esposa para comermos antes da volta para Londres e o que vejo dentro do estabelecimento? Um enorme pôster em forma de mapa de rede de metrô no qual as linhas e as estações são batizadas com títulos de álbuns e músicas dos Smiths.

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Essa é Manchester: uma cidade orgulhosa, que exalta não somente suas conquistas no campo da indústria e da tecnologia (o noroeste da Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial), mas que também reconhece a contribuição de seus artistas populares. Isso aparece representado não apenas por meio da street art, mas também está materialmente certificado através das placas comemorativas – heritage awards – da PRS (Perfoming Right Society, uma espécie de ECAD britânico), como as que estão fixadas na Haçienda e no Boardwalk. Para mim, foi uma oportunidade de poder ver e tocar o que eu havia aprendido a amar e cultuar através dos discos, dos livros, das revistas e dos documentários. De fato, existe algo em Manchester que é único e exclusivo. Ou, como certa vez disse Tony Wilson: “This is Manchester, we do things differently here”.

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NEWS | Peter “Incentivando” Hook e a alegria de um fã

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Meu humilde baixo Tagima Millenium 4: longe de ser um Yamaha BB 1200 ou um Chris Eccleshal Custom Built Viking I

No ano passado, com o objetivo de ter mais uma válvula de escape para o stress e as tensões do dia-a-dia, resolvi realizar um sonho antigo, dos tempos de adolescente: comprei um contrabaixo e me matriculei em uma escola de música para aprender a tocar. Isso à beira dos quarenta anos. Como fã de New Order que sou, é “óbvio e ululante” que um dos responsáveis por colocar esse sonho na minha cabeça foi Peter Hook (mas não apenas). De lá do começo das aulas para cá, meu professor (um jazzman convicto, formado pela Escola de Música da UFRJ) até que foi legal comigo (e com minhas limitações, típicas de quem pegou em um instrumento musical pela primeira vez assim meio tarde): “The Passenger”, de Iggy Pop, foi uma das primeiras músicas que ele me ensinou a tocar, além de ser minha praia musical; “Sunday Bloody Sunday” (U2) foi outra em que ele sacou que, ao mesmo tempo que era o tipo de som que era mais a minha cara, era apropriada para a minha técnica desavergonhadamente limitada. Mas nem por isso ele não deixou de me empurrar coisas como “Cantaloupe Island” (Herbie Hancock), “Equinox” (John Coltrane) e a (chata para caralho!) “The Chicken”, do seu amado-idolatrado Jaco Pastorius… (ooops, perdão, Mestre, não resisti…)

É claro que eu também procuro exercitar algo por conta própria e uma das coisas que adoro fazer é aprender a tocar músicas de minhas bandas favoritas exercitando o que chamam de “percepção musical” em vez de procurar as tablaturas na internet. “Excercise One”, do Joy Division, eu tirei dessa maneira, totalmente de ouvido. Assim foi com a introdução de “Krafty”, do New Order. Ambas linhas de baixo de autoria de Peter Hook. Mas eu também tinha feito o mesmo com “Israel”, do Siouxsie & The Banshees. Felizmente, as coisas que eu gosto são de simples execução muitas vezes, sobretudo para a mão esquerda (meu ponto fraco). Ramones só é problema por causa da velocidade – “Blitzkrieg Bop” me deixa exausto antes da música terminar! Conclusão: jamais diga que um baixista punk não sabe tocar. Ficar nesse ritmo um show inteiro (uma hora ou duas) não é para qualquer um, não…

Nos últimos dias, com base na percepção musical e nas dezenas de vídeos ao vivo que já assisti, aprendi a tocar três músicas do New Order: “Love Vigilantes”, “Run” e “Crystal” (exceto o solo). O que realmente faltou para ter aquele som verdadeiro do baixo do Peter Hook era o pedal de efeito chorus Electro Harmonix Clone Theory. Até ajustei os controles do instrumento e do amplificador para produzir uma timbragem similar, mas saiu um negócio, digamos, apenas “razoável”. De qualquer maneira, eu publiquei o “progresso” no Instagram do blog – afinal, foram três músicas em um feriado prolongado (da quinta-feira de Corpus Christi a domingo). E aconteceu o que eu não esperava: Peter Hook, através da sua própria conta no Instagram (na qual divulga seu trabalho atual com a banda The Light), deu seu like e deixou uma mensagem de incentivo. Ele escreveu: “Continue com o bom trabalho!”. Ganhei o dia! Já havia estado com Hooky em algumas ocasiões, nas quais ele me deu autógrafos e tiramos fotos. Mas isso é diferente. E eu já fiz uma promessa para mim mesmo: na próxima ocasião em que ele vier ao Brasil, vou levar o baixo até ele para que seja autografado.

A seguir, o print screen da publicação com o comentário do Hooky.

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Valeu, Hooky!

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REVIEW | Show: New Order, Casino de Paris, 04/11/2015

IMG_0483O que levou o New Order a escolher Paris como ponto de partida para a sua mini-turnê europeia que inaugura os trabalhos de divulgação (no palco) de seu mais recente trabalho – o até agora (muito) bem recebido Music Complete – é um segredo reservado somente à banda e seu management. Todavia, o que importa para o escritor deste blog é que uma feliz coincidência, ou golpe de sorte, me colocou no lugar e na hora certos. Uma viagem a trabalho me deu a oportunidade de realizar um velho “fetiche”: mesmo já tendo visto o New Order oito vezes, com e sem Peter Hook, dentro e fora do Brasil, eu nunca assisti a um show do grupo em solo europeu. Bem, o grande sonho mesmo era ver os caras “jogando em casa”, em Manchester, mas quem aqui está em condições de esnobar um show em Paris?

Chamar o presente texto de review seria muita presunção. Ele não preenche os devidos requisitos para isso – para início de conversa, nem tem a imparcialidade necessária. Contudo, já vi muita gente por aí escrever sobre discos e shows sem qualquer conhecimento sobre aquilo que está a avaliar para o público. E muitas vezes o ego do crítico é tão grande que ele assume posições indevidas e vai a um espetáculo acreditando que os músicos em um palco estão ali suando sob os holofotes para satisfazer a eles (os críticos), como em uma audição particular, e não ao público que pagou para vê-los. Não sou crítico profissional, mas acho que mesmo tratando de uma matéria sobre a qual sou deveras suspeito, se eu simplesmente me limitar a dizer o que achei bom e o que eu achei ruim, acho que vou parecer bem menos picareta que muito “crítico de música” por profissão.

Comecemos pelo venue. O Casino de Paris, localizado na Rue de Clichy, num ponto entre as estações de metrô Liège e Saint Lazare, tem a companhia de teatros e cafés, o que confere um ar boêmio ideal para um show. Quando eu cheguei, exatamente às 20:00, muitos grupos faziam seus warm ups nesses templos de boa bebida (vinho e pints) e sanduíches na baguette. Nem fiquei muito tempo do lado de fora. Logo no hall de entrada, já se podia ouvir o som do show de abertura (a banda era o Hot Vestry, cuja tecladista, Tilly, é filha de Stephen Morris e Gillian Gilbert). Quando finalmente acessei a pista, percebi que estava a assistir os minutos finais da apresentação do HV. Os instantes finais desse show e, também da apresentação do DJ Tintin serviram para duas coisas: para que eu arrumasse um bom lugar (nem precisava ser no gargarejo, já passei dessa fase) e para olhar melhor o interior da casa. O Casino de Paris é bem menor do que aparenta nas fotos espalhadas pela internet. Em alguns momentos, cheguei a pensar que era do tamanho do Circo Voador (Rio de Janeiro) ou até mesmo menor. Segundo a Wikipedia, a capacidade do fosse (pista) é de 1.800 pessoas. A capacidade total atual do Circo, a título de comparação, é de 2.800. Achei pouco para o New Order.

Outro problema: o palco era muito baixo. Aliás, um problemão em termos de visibilidade dependendo de onde se está na pista, ou da sua estatura. É bem verdade que eu prefiro shows indoor, mas custava acreditar que bandas como Coldplay e New Order haviam sido escaladas para tocar ali – com todo respeito ao valor histórico e à riqueza arquitetônica do lugar.

Bom, mas o Casino deixou uma impressão positiva em um aspecto importante: excelente acústica. Essa qualidade ficou evidente em todas as apresentações da noite: Hot Vestry, DJ Tintin e, salve salve, New Order. A outra coisa boa é que a casa estava lotada pelo menos – era um concerto sold out, isto é, com todos os ingressos vendidos (e tinha gente do lado de fora caçando ingresso de tudo quanto era jeito, pois chegaram até a me perguntar se eu tinha um sobrando para vender). Ficou evidente que o New Order precisava de um lugar mais espaçoso, por melhor que o Casino de Paris pudesse ser.

Mas como o que importa mesmo é o jogo com a bola rolando, vamos ao show. Confesso que fui esperando mais do mesmo: a banda entrando em cena ao som de alguma trilha de spaghetti western de Ennio Morricone, “Elegia” (de Low Life) como intro “substituta” para “Crystal” (que tem sido a opener dos shows há anos), depois “Regret”… Como reprises da Sessão da Tarde. Só que não. Pelo menos não desta vez. Ou pelo menos não será mais assim ao longo dessa nova turnê. Após uma intro diferente, que não consegui identificar, o New Order subiu ao palco sem muita conversa e escolheu como cartão de visitas um dos grandes temas de sua mais recente safra: “Singularity”.

Aposta alta, eu diria. Mas saíram ganhando. Funcionou muito bem como canção de abertura e, olhando a reação do público ao redor, tive a impressão que eu não fui o único a aprovar a escolha. Fora a execução, perfeita, o som estava tinindo, “brilhante”… E no lugar do vídeo chinfrim que havia sido produzido para a faixa quando ela foi incorporada ao set list no ano passado – antes de Music Complete ver a luz do dia – eles usaram imagens editadas de B-Movie: Lust & Sound in West Berlin 1979-1989, do trio Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck e Heiko Lange. As cenas do filme pareciam dialogar muito bem com versos do tipo “We’re working for a wage / I’m living for today / On a giant piece of dirt / Spinning in the universe”. Aliás, falando em vídeo, outra mudança: em vez de um único telão de led ao fundo, este agora é complementado por telas laterais dispostas diagonalmente (ver foto), o que resulta em um efeito cênico bem mais belo e atraente.

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No esteio de “Singularity” tivemos uma sequência de velhos números “infalíveis”, todos executados com a mais absoluta perfeição: “Ceremony” (será sempre um dos pontos altos do show), “Crystal” (caiu do topo do set list, mas não ficou má nessa posição), “Age of Consent” (que Tom Chapman, o substituto de Peter Hook, toca com igual maestria, e que fique registrado isso) e a versão de “5-8-6” turbinada com uma mãozinha do DJ e produtor Stuart Price (que retornou ao repertório de shows do New Order em 2011 para nunca mais sair). A surpresa aqui foi terem puxado “5-8-6” mais para a “primeira parte” do show, na qual tradicionalmente predominam os temas mais rock. É, parece que a banda anda inclinada a quebrar algumas de suas próprias regras novamente

Após esse bloco de clássicos, eles retornaram ao Music Complete com “Restless”. Eu adoro essa música, mas tal como na apresentação em Maida Vale para o BBC 6 Live há algumas semanas, existem algumas coisas nela que, pelo menos no meu ponto de vista, fazem com que ela entre no famoso hall das “Grandes Canções de Estúdio do New Order Que Não Soam Bem Ao Vivo”. No começo, parecia meio lenta e arrastada… Levou tempo para ela entrar no mesmo pique do disco, com aquela “pegada” ligeira. Mas chegou lá. Porém, não gosto das guitarras. É legal, em termos visuais, ver o Phil Cunningham empunhando uma linda Gretsch, mas eu ainda prefiro o dedilhado no violão da versão original. As guitarras elétricas, com seus acordes “chá-com-pão” banais, encobriam o baixo de Tom Chapman e as lindíssimas frases de teclado de Gillian Gilbert. Tome um 6,5 e olhe lá!

Mas vejam como são as coisas. Para quem achou, antes do show começar, que o máximo que poderia haver de surpresa era o New Order tocar músicas do novo disco, quem poderia imaginar que eles desenterrariam um lado B de 1984?! Meu queixo quase foi ao chão quando ouvi Tom Chapman tocar em seu baixo Rickenbacker a introdução de “Lonesome Tonight” (vi Peter Hook, o autor original do riff, tocar essa com o The Light, mas confesso que não me emocionou tanto quanto desta vez que vi com New Order… e com o Tom em seu lugar). Tudo conspirou para sair perfeito: até mesmo Bernard Sumner, afeito a lambanças em músicas que estão há muito tempo sem tocar, não desafinou, não errou a letra, nem errou nas suas partes de guitarra. Valeu, Barney.

Aliás, eu preciso dizer algo à respeito de Sumner. Achei a atitude de palco dele diferente da que havia me acostumado a ver nos shows que o New Order realizou na América do Sul. Pelas bandas daqui (ops, de lá, ato falho, esqueci que estou nas Zoropa), muito populismo: na Argentina, “We love the beef!”; no Chile, “We love the wine!”; no Brasil, “We love caipirinha! But not the traffic jam!”. Fora os sorrisinhos e as piadinhas troll. O Barney que eu vi aqui em Paris fazia um tipo mais sério e frio, sem muita comunicação com a plateia.

Quando finalmente soltaram “Your Silent Face”, para um bom entendedor uma música basta. Para quem nunca reparou, aqui vai um “segredo”: ela é aquela música “calma” que cria uma espécie de “pausa” para a plateia recuperar as suas baterias, porque, depois dela, costuma ser a hora do ballroom, do batidão. Não deu outra: o New Order colocou na pista a dobradinha mais dançante de Music Complete: “Tutti Frutti” e “People on the High Line”. Na primeira, Sumner finalmente cometeu o primeiro grande erro da noite entrando um pouco tarde com a voz, se desencontrando em seguida com os vocais pré-gravados de Elly “La Roux” Jackson. Mas pouco depois ele conseguiu encaixar a voz e a letra nos lugares certos e a música transcorreu até o fim sem mais nenhum problema – e acompanhada por um vídeo cheio de imagens com cores berrantes que irremediavelmente remetiam ao álbum Technique (1989). Aqui cabe dizer uma coisa: “Tutti Frutti” não é a minha favorita do novo LP, mas não tem como não reconhecer que a faixa se encaminha para a sua canonização junto a outros clássicos do repertório da banda. Não é exagero. Era só olhar ao redor para perceber o quanto o público realmente ama essa canção.

Já em “People on the High Line”, outra que teve que trazer Elly Jackson em versão virtual / sampleada, foi perfeição da primeira à última nota. O destaque vai, sem dúvida nenhuma, para a “cozinha”: Stephen Morris e Tom Chapman. O que se ouve no disco soa ainda melhor ao vivo. Mas nessa hora foi impossível não pensar em Peter Hook. Não, não pensamentos do tipo “ah, que falta que ele faz”. Foi algo do tipo “vendo Morris e Chapman tão bem entrosados assim parecem que eles tocam tanto tempo juntos quanto Morris e Hook tocaram”. Foi tão bom, mas tão bom, que eu gostaria que o Daft Punk tivesse assistido essa versão de “People on the High Line” só para convidar Tom Chapman e Stephen Morris para tocarem no seu próximo disco.

Meus olhos testemunharam uma ampla aprovação das músicas novas no show. Mas vejam que detalhe curioso: haviam se passado dez músicas e nenhuma do Joy Division havia sido tocada – e eles já estavam no bloco de faixas mais dance. Eu mal podia acreditar no que eu estava presenciando… Da mesma forma como mal pude acreditar com o que eles fizeram com “Bizarre Love Triangle”: tocaram-na com um novo arranjo, com base no remix feito por Richard X em 2005. Pode parecer “heresia”, mas o fato é que soou muito melhor ao vivo que a já desgastada e sem brilho versão que vinha sendo tocada, com pouquíssimas modificações, desde 1998. A mesma ousadia valeu para a faixa seguinte, “Waiting for the Sirens’ Call”. Enquanto a versão original foi estruturada sobre uma base de guitarra-baixo-bateria, tendo os teclados e os sintetizadores apenas como “ornamentos”, no Casino de Paris a banda apresentou-a com nova roupagem se apropriando do remix “Planet Funk”. Ninguem no local parecia incomodado com mais esse “sacrilégio”. Pelo contrário, tive a sensação nítida de que a banda ganhou pontos com isso.

E aí veio a quinta e última música de Music Complete da noite: “Plastic”. Uma música que eu acho ótima. O problema é que, após o enorme impacto da sequência “Tutti Frutti”, “People On the High Line”, e os remakes/remixes de “Bizarre Love Triangle” e “Waiting for the Sirens’Call”, ela não arrancou oh!‘s e ah!‘s de ninguem. Uma pena, porque também foi tocada com absoluta precisão. Talvez o melhor lugar para ela seja mais para o início do show.

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Daí para frente… Agora sim, tudo mais do mesmo. “The Perfect Kiss”, “True Faith” e, encerrando o set, “Temptation”. Em “True Faith”, fora uns synths extras na introdução e uma “paradinha” no terço final da música, é o mesmo arranjo apresentado desde 2011, com base nos remixes do Shep Pettibone e do Paul Oakenfold. Já em “Temptation”, a banda toda se perdeu no começo, os instrumentos se desencontraram e o constrangimento se instalou nos rostos de toda a banda, mas depois todo mundo “se entendeu” de novo e faixa seguiu seu rumo – apoteótico, como sempre. A pausa antes da encore foi uma das mais curtas que eu já vi. Ela começou com “Blue Monday” – a pérola que faltou no bloco dance. E depois, é claro, não podia ser diferente: o espaço do Joy Division permaneceu garantido e o show terminou com “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart” (esta última com os graves reverberando e estourando, foi a única “derrapada” no som, que esteve sempre impecável).

Fiquei feliz de ver o New Order com um show diferente daquele que vinha apresentando desde 2011. O repertório mostra que a banda conseguiu um equilíbrio bem razoável entre o material novo, os antigos sucessos (alguns com nova roupagem), um pouco de Joy Division para agradar quem faz questão e até “raridades” de seu catálogo. É claro que, ao longo dos próximos meses, esse set list a seguir pode sofrer alterações, mas como fã eu já vejo que essa lista aí já daria um bonito disco ou DVD ao vivo. Mas, falando especificamente do concerto em Paris, dos que eu vi, esse seguramente está entre os três melhores.

SET LIST:
Singularity
Ceremony
Crystal
Age of Consent
5-8-6
Restless
Lonesome Tonight
Your Silent Face
Tutti Frutti
People On the High Line
Bizarre Love Triangle (Richard X Remix)
Waiting for the Sirens’ Call (Planet Funk Remix)
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Temptation
Blue Monday (encore)
Atmosphere (encore)
Love Will Tear Us Apart (encore)

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OPINIÃO | O “Fator Gillian”

new_orde2Num show do New Order no Troxy, Londres, no dia 10 de dezembro de 2011, o terceiro da banda após sua controversa “reforma”, os fãs na plateia cantavam “Gillian! Gillian!” para dar as boas vindas à hoje Sra. Morris. A última vez que ela havia se apresentado ao vivo na capital inglesa com o New Order foi no Alexandra Palace, na virada do ano de 1998 para o de 1999. Mas esse mesmo coro já havia acontecido uma semana antes, no Brasil, durante a apresentação da banda na edição nacional do Ultra Music Festival. Nesse caso, fazia 23 anos que os brasileiros não recebiam a tecladista com o New Order em palcos daqui (em 2006 o grupo veio com Phil Cunningham em seu lugar).

Apesar de suas conhecidas timidez e discrição, de algum modo Gillian Gilbert conseguiu se fazer notar, pois manifestações como essas, em razão de seu retorno à banda após quinze anos sabáticos (ou quase), mostram que os fãs lhe reservaram um lugar especial em seus corações. Todavia, enquanto Gillian esteve fora, nunca se ouviu ou se leu que o New Order não era mais New Order sem ela como hoje se costuma dizer com relação à saída do baixista e membro-fundador Peter Hook. Inclusive hoje, quando a mídia impressa e on line dedica algumas linhas ao novo álbum do New Order – Music Complete, a ser lançado no dia 25 deste mês – diz-se sempre que será o primeiro disco da banda sem Hook em vez de se dizer que será aquele que celebrará a volta de Gilbert.

A explicação mais básica e rasteira para isso seria a força de um certo machismo ainda persistente no meio roqueiro. Essa resposta é tentadora e converge com a atual onda politicamente correta que infecta a opinião pública na atualidade. Mas no caso específico do New Order, essa diferença de tratamento teria outras causas. A primeira delas é que Peter Hook seria um “membro original” do New Order e, assim como Bernard Sumner (voz e guitarra) e Stephen Morris (bateria), remanescente do Joy Division. Gillian, por sua vez, só teria sido incorporada à banda algum tempo depois. A segunda é que Gilbert só teria entrado para o New Order para dar uma mãozinha à Bernard na guitarra e nos teclados, já que ele não conseguia ou tinha muita dificuldade de cantar e tocar qualquer um dos dois instrumentos ao mesmo tempo.

Peter Hook tem sido um contumaz propagador dessas versões. Segundo declaração dada a Andrew Harrison para o especial de 21 páginas da Q Magazine deste mês, Hook veio com “Ela só fazia qualquer coisa que Barney lhe dissesse (…) ela realmente não contribuiu musicalmente com nada que eu consiga me lembrar”. Todavia, o próprio Harrison fez questão de frisar em seu texto que ele “precisava saber o quanto disso é sincero e o quanto é a posição dele [Hook] diante do processo judicial”.

O “processo judicial” ao qual Harrison se refere é a ação que Peter Hook moveu nos tribunais contra seus ex-colegas com o intuito de impedi-los de prosseguir usando o nome New Order. Esse é o ponto. Hook vem desmerecendo e desqualificando Gillian publicamente em suas entrevistas como estratégia a ser usada no julgamento. Dessa forma, na visão do ex-baixista, o “novo New Order”, agora um quinteto, apenas teria DOIS membros fundadores e/ou fundamentais (Sumner e Morris), enquanto os outros três (Gilbert, Cunningham e o baixista franco-inglês Tom Chapman), além de não serem integrantes originais, não tiveram contribuição criativa/musical na definição do som da banda. Curiosamente, o baixista e compositor Roger Waters tentou estratégia semelhante para impedir que o guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason continuassem usando o nome Pink Floyd, na década de 1980. Mas, como todos sabem, Waters não ganhou a causa.

Substituto de Gillian nos teclados e na segunda guitarra por quase uma década (e agora seu parceiro na banda), Phil Cunningham tem uma opinião diversa com relação à contribuição da tecladista no New Order. Conforme declarou à mesma edição da Q Magazine, “Ela nos traz um pouco de calma. Melodicamente, ela adiciona coisas que nós não tivemos por um tempo”. Mas talvez a melhor análise sobre o papel de Gilbert venha de fora – em uma matéria do site Sound On Sound sobre as gravações de “True Faith” e “1963” (março/2005), o produtor Stephen Hague traçou um perfil de Gillian que difere daquele que vem sendo propagado por Hook.

“Gillian não executou nenhuma ideia minha ao longo das gravações. Houve apenas um momento em que eu disse ‘amanhã nós vamos trabalhar em suas partes de teclado’, e ela disse ‘ok, ótimo’. No dia seguinte, quando finalmente foi a sua vez, ela tinha um monte de ideias formadas para ambas as faixas. Apenas selecionamos os sons e os gravamos, com ela tocando-os todos com as mãos. Foi tão indolor… Embora ela parecesse estar em um silêncio distraído no fundo da sala dia após dia, ela tinha planejado completamente suas partes para as músicas. É uma verdadeira alegria trabalhar com ela”.

O que Hague teve o privilégio de ver in loco no estúdio chegava para o público e para a crítica musical sob forma de discos acabados, o que não eclipsa de modo algum os méritos de Gillian. Como bem observou o já citado Andrew Harrison,

“As pessoas que dizem que não é New Order sem Hooky nunca reclamaram que não é New Order sem Gillian. E ainda que Hook estivesse certo sobre os talentos dela, ela inegavelmente trouxe algo especial para a banda, uma sensibilidade diferente, mais aberta. Os discos do New Order com Gillian Gilbert são melhores que os discos sem ela e Music Complete é um deles”.

Querem uma prova? Comparem clássicos como Low Life (1985), Brotherhood (1986) e Technique (1989), ou mesmo o sombrio Movement (1981) e o orgânico Get Ready (2001), com os pouco inspirados Waiting for the Sirens’ Call (2005) e Lost Sirens (2013). Não há o que discutir. As famosas linhas de baixo de Peter Hook não foram suficientes para dar brilho ou viço aos dois últimos discos – que, coincidência ou não, são justamente os que Gillian não participou.

Bernard Sumner chegou uma vez a admitir, durante o festival Area-One, na Califórnia, em 2001, que a ausência da tecladista era sentida: “nós obviamente sentimos falta dela”. Isso foi dito uma década antes da banda se reunir sem Peter Hook e trazer Gilbert de volta!  Mas é Stephen Morris quem, em declaração à Q, sentenciou de uma vez por todas:

“Pegue um bando de rapazes e eles farão uma coisa. Mas coloque uma mulher junto deles e teremos algo diferente. Não é apenas banda, é vida”.

E que Peter Hook nos perdoe, mas o FAC 553 assina embaixo.

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FUTILIDADES | Encontrando o New Order e o Joy Division numa livraria em Juiz de Fora

Hora do almoço… Que tal dar um pulo no shopping pertinho aqui do meu trabalho, em Juiz de Fora? Vambora?

DSC02570Após bater um prato de comida industrializada na praça de alimentação, dei uma voltinha, olhei umas vitrines e bati o ponto no lugar de costume: a livraria (a única, aliás) do shopping. Ao percorrer os olhos pelas prateleiras da sessão de livros de arte e design, me chamou a atenção um certo livro importado sobre “capas de discos radicais”. É o seu terceiro volume. Esse, sem dúvida, é um assunto que me interessa. Mal havia começado a folhear o livro eu notei, na parte inferior de uma das páginas alaranjadas dos preâmbulos, um quadradinho com uma imagem familiar, acompanhada de um pequeno texto em inglês. O quadradinho em questão mostrava o que, além de ser um quadro do pintor romântico e realista francês Fantin-Latour, foi também a “embalagem” do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies (1983). O texto em questão, escrito por John Leahy, Diretor de Criação e Marketing da poderosa EMI (agora Virgin-EMI Records), traduzido para o português, dizia (aliás, diz) o seguinte: “Foi uma escolha difícil, mas se eu tiver que escolher uma capa teria que ser a de Power, Corruption and Lies do New Order. Para mim, grande parte do trabalho de Peter Saville para o New Order definiu a excelência da arte para as capas de disco daquela época. E seu trabalho anterior com o Joy Division aumenta sua fama de grandeza. É uma inspiração e uma contribuição positiva para os próprios discos”. Choveu no molhado, né? Ainda assim, é legal pegar um livro aleatoriamente em uma loja e, por uma absoluta coincidência, encontrar nele um elogio a aquilo que eu admiro há tantos anos.

Haveria mais manifestações de reconhecimento relacionadas à obra do New Order (ou à do Joy Division) em algum outro título disponível na mesma livraria? Ou mesmo simples citações? Fiquei tentado em descobrir. Não muito longe da sessão dos livros de arte estava a estante dos livros sobre música. Logo de cara, resolvi dar uma rápida vista em um título que quem é ligado em cultura pop já conhece bem ou já ouviu falar. É aquele calhamaço que indica mais de um milhar de discos para serem ouvidos antes de morrer. Pois bem, entre nada menos que mil e um títulos, encontrei quatro, dois do Joy Division – Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980) – e dois do New Order – Low Life (1985) e Technique (1989). Nada mal, heim?

DSC02563E o que o livro fala sobre Unknown Pleasures? O crítico que escreveu sobre o disco pôs em destaque a produção sofisticada de Martin Hannett. “O visionário Hannett pegou a guitarra metal de Bernard Dicken (também conhecido como Sumner), as melodias peculiares do baixo de Peter Hook e a inovadora combinação de bateria acústica e eletrônica feita por Stephen Morris e criou uma ambientação silenciosa e desconcertante, utilizando de forma pioneira efeitos digitais, gritos abafados e sons de vidro partido”. É claro que não podia faltar comentários sobre Ian Curtis, mas quem escreveu o texto cometeu o pecado de vincular “She’s Lost Control” à própria experiência do vocalista como epilético, quando, na verdade, a música se refere a uma outra pessoa – uma jovem que Ian conheceu quando trabalhava no serviço de encaminhamento de pessoas com necessidades especiais para empregos. Isso foi antes dele próprio ter seus primeiros ataques do grand mal. Por fim, o (não totalmente) desinformado crítico musical cita a famosa resenha “Death Disco”, de Dave McCullough, publicada na Sounds em 1979, e que dizia que quem estaria a ter pensamentos ruins acabaria se matando se ouvisse esse LP.

DSC02565Quando passo meus olhos pelas “pretinhas” sobre Closer, vejo os habituais comentários relacionando o clima fúnebre do álbum com a ruína de Ian Curtis. “Mais de 25 anos depois, continua sendo quase impossível separar a atmosfera inquietante da música do Joy Division, a degradação da personalidade de seu vocalista e seu suicídio”. Resgataram até um comentário de Tony Wilson, lá da década de 1990: “É como se compor este álbum tivesse piorado seu estado”. Mas há coisas muito melhores a serem ditas sobre Closer e, felizmente, o livro as diz. Mais uma vez, elogios rasgados ao trabalho de Martin Hannett na produção: “O ambiente criado por Hannett é praticamente um instrumento. Se antes ele fornecia um fundo melancólico, aqui seus delays e reverberações são parte da própria estrutura das músicas, tornando-as ainda mais soturnas”. Mas a parte do texto que eu particularmente mais gostei, sobretudo porque vai ao encontro do que eu penso há anos, é esta: “A adição de sintetizadores (sobretudo em ‘Isolation’ e em ‘Heart and Soul’) indica que, se Ian Curtis tivesse permanecido na banda, ainda assim ela pareceria o que se tornou, mais tarde, o New Order”. Bingo! Yes! Nada mais óbvio, é a verdade nua e crua que muitos que hoje idolatram o Joy Division mas torcem (injusta e incompreensivelmente) o nariz para o New Order se recusam a enxergar. “Isolation” é proto-New Order total. Já “Heart and Soul” antecipa outra característica que se tornaria comum no som do N.O., as “duas linhas de baixo” simultâneas: uma com notas graves tocadas no sintetizador (no New Order seriam usados sequenciadores) e outra com notas mais agudas tocadas pelo Peter Hook com o contrabaixo.

De vez em quando críticos musicais têm lampejos de lucidez…

DSC02564Hora de virar as páginas – nos dois sentidos. Deixemos para trás as obras-primas do Joy Division (não deixe de ouvi-las antes de morrer!) e nos concentremos agora no que o livro fala à respeito dos discos imprescindíveis do New Order. Em ordem cronológica, é a vez do Low Life.“O terceiro álbum do New Order brilhava com uma confiança recém-adquirida (…) Low Life firmou como uma potência da música britânica, entrando no Top 10 tanto na Inglaterra quanto, pela primeira vez, nos EUA”. Vamos colocar as coisas em perspectiva: o Joy Division era muito bom, sem dúvida, e Ian Curtis era um letrista talentoso e um vocalista carismático, com uma indiscutível presença de palco; mas muitas das inovações no som da banda eram, na verdade, inovações de estúdio saídas da mente turbinada de Martin Hannett. Foi como New Order que eles “chegaram lá” (deixaram de ser uma cult band para se tornar um grupo de sucesso) sem deixar de jogar no time dos independentes; e o New Order realmente foi revolucionário ao misturar o rock com os ritmos eletrônicos das pistas, meio que batendo no liquidificador Velvet Underground, Bowie, Kraftwerk, Stranglers, Sparks e Giorgio Moroder. Ou, como está sintetizado no livro, “‘The Perfect Kiss’ (lançado simultaneamente como um single de 12”) é um grandioso épico no estilo disco. As incomparáveis linhas melódicas de Peter Hook e os power chords de Gillian Gilbert nos sintetizadores mantém o som coeso, enquanto o baterista Stephen Morris e o vocalista Bernard Sumner adicionam cowbells, máquinas de fliperama, coaxar de rãs e ainda uma narrativa sobre AIDS, vingança – ah, e os prazeres da masturbação”. 

DSC02562Os comentários sobre Technique não são menos entusiasmados. Technique é uma obra-prima de sua época (…) definiu um gênero musical e entrou merecidamente para o primeiro lugar das paradas inglesas”. Minha paixão pelo New Order começou exatamente quando eu tinha 11 anos de idade – isso foi em 1988. O primeiro álbum deles que eu ouvi de cabo a rabo foi o duplo Substance, de 1987. Technique foi, então, o primeiro LP do New Order que eu peguei no lançamento depois de ter me tornado fã da banda (e guardo fresco na memória lembranças do single “Round and Round” tocando direto nas rádios daqui do Rio). Desceu redondo logo de cara e até hoje é um dos meus favoritos. “A música de abertura, ‘Fine Time’, gravada imediatamente depois de regressarem de uma noitada nos clubes, incluía um pastiche vocal surreal de Barry White sobre ritmos acid totalmente frenéticos. ‘Round and Round’ era techno de Detroit no estilo de Salford. Em outros momentos do álbum, faixas eletrônicas como ‘Love Less’ e ‘Mr. Disco’ completam perfeitamente a acústica baleárica e, enquanto as letras de Bernard Sumner documentam o final de seu casamento, a atmosfera obscura e instrospectiva, marca registrada do New Order, foi substituída por ecstasy e pores-do-sol na praia”. O texto seria perfeito para dar uma certa ideia do álbum a quem não sabe do que se trata se não fosse por um detalhe: “Love Less” NÁO É uma faixa eletrônica.

DSC02568Fecho o livro feliz de saber que tem gente (como eu) que acha que vale a pena ouvir esses discos antes de morrer. Mas o mais interessante é que esse mesmo livro tem um irmão que morava bem pertinho dele ali naquela mesma estante daquela mesma livraria. Só que esse parente co-sanguíneo recomendava mais de dez centenas de músicas para se ouvir antes de bater as botas em vez de discos inteiros. Para facilitar a minha busca, procurei pelo índice remissivo no final do livro para ver se encontrava os verbetes “Joy Division” e “New Order”, além de poder localizar as páginas onde as referências às duas bandas se encontravam. Como era de se esperar, a turma de “formadores de opinião” que indicou as mil e uma músicas listadas no volume não deixou para trás canções de quem tinha quatro álbum recomendados no irmão mais velho. No caso do New Order, embora apenas “Blue Monday” e “True Faith” tivessem ganhado atenção especial no corpo do livro, o índice remissivo listava, ao todo, quinze músicas, dentre elas: “As It Is When It Was”, “Bizarre Love Triangle”, “Confusion”, “Crystal”, “Everything’s Gone Green”, “Here to Stay”, “Love Vigilantes”, “Regret”, “Round and Round”, “Temptation”, “Turn My Way” e “World in Motion”. Honestamente, só acho que nem precisaria ser fã de carteirinha para colocar “The Perfect Kiss” no lugar de “Turn My Way”…

DSC02567Sobre “Blue Monday”, aquelas histórias que todo mundo já conhece… Que a banda a escreveu porque odiava dar bis ao vivo, que a Factory perdeu uma fábula em dinheiro por causa da capa, que a faixa também foi fruto de algumas trapalhadas em estúdio – apesar de terem roubado um tiquinho de Donna Summer aqui, outro tantinho de Klein + MBO e Sylvester ali, mais um sample de “Uranium” do Kraftwerk etc. Nenhuma novidade. Incrível como conseguiram esquecer o cliché mais batido: é “o single de 12″ mais vendido de todos os tempos”. A respeito de “True Faith”, o mais divertido é que o texto nada mais é do que um descarado resumo feito a partir do artigo publicado em inglês na Wikipedia, feito, inclusive, a partir de outras fontes (o lado bom é que, se a editora vier aqui reclamar sobre desrespeito aos direitos autorais, eu esfrego essa lambança na cara dela). A falta de esmero na pesquisa não ficou só nisso, não: no box contido no canto inferior esquerdo da página, onde se lê a lista dos artistas que regravaram a música, se deram ao trabalho de mencionar covers obscuros como os de Dreadful Shadow e Code 64 e se esqueçam do mais pop-baba de todos, o do George Michael!

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Bom, o livro também diz que, antes de morrer, você tem que ouvir “Transmission” e “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, só que a minha cara-de-pau chegou ao fim e fiquei sem graça de continuar fotografando as páginas desses livros bem no meio da loja, na frente de todo mundo… Olha, para quem não tinha levado o iPod no bolso, foi como se tivesse tirado essa horinha do almoço para ouvir ouvir um pouco esses velhos Mancs. O bacana da boa música é que ela também está aí para ser “lida”. E uma visita à livraria pode virar um encontro musical!