NEWS | “Movement” ganhará versão definitiva em caixa no ano que vem

61kMxR-O9IL._SL1500_Anotem em suas agendas: no ano em que Unknown Pleasures, seminal LP de estreia do Joy Division, comemorará 40 anos do seu lançamento, chegará às lojas de discos gringas a luxuosa (e cara) caixa com a “versão definitiva” do primeiro álbum do New Order. De acordo com a própria banda em suas redes oficiais, Movement: The Definitive Edition será lançado em abril do ano que vem e virá recheado com tudo aquilo que os fãs da banda esperam há anos – e principalmente após a frustrante experiência com as edições remasterizadas e expandidas de parte da discografia do grupo lançadas no formato CD em 2008.

O conteúdo do box set será o seguinte: o álbum original em vinil e em CD mini vinyl replica, um bonus disc com gravações demo feitas nos estúdios Western Works (Sheffield) e Cargo (Rochdale) e fitas de ensaio de faixas como “Procession” e “Chosen Time”, e um DVD abarrotado de performances ao vivo, dentre elas o show no Hurrah’s (Nova Iorque), de 26 de setembro de 1980, com a banda se apresentando ainda como um trio e com os três integrantes remanescentes do Joy Division – Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris – se revezando na função de vocalista (Gillian Gilbert, então namorada de Morris, seria incorporada ao grupo no mês seguinte). Um pequeno trecho desse concerto pode ser visto no You Tube.

A edição deste mês da revista Uncut traz uma longa matéria de capa sobre esse período da carreira do New Order e “entrega” que Movement: The Definitive Edition poderá ser tão somente o primeiro de uma série de lançamentos nesse formato. A pré-venda no site oficial da banda inclui um bundle exclusivo que traz a caixa mais reedições em vinil dos singles “Ceremony” (em suas duas versões), “Everything’s Gone Green” e “Temptation” com um desconto especial. O preço apenas do box set está estimado em aproximadamente £120 (cerca de R$ 590 reais).

LP / CD1 (original album)       

  1. Dreams Never End
  2. Truth
  3. Senses
  4. Chosen Time
  5. ICB
  6. The Him
  7. Doubts Even Here
  8. Denial

CD2 (previously unreleased tracks)   

  1. Dreams Never End (Western Works Demo)
  2. Homage (Western Works Demo)
  3. Ceremony (Western Works Demo)
  4. Truth (Western Works Demo)
  5. Are You Ready For This? (Western Works Demo)
  6. The Him (Cargo Demo)
  7. Senses (Cargo Demo)
  8. Truth (Cargo Demo)
  9. Dreams Never End (Cargo Demo)
  10. Mesh (Cargo Demo)
  11. ICB (Cargo Demo)
  12. Procession (Cargo Demo)
  13. Cries And Whispers (Cargo Demo)
  14. Doubts Even Here (Instrumental) (Cargo Demo)
  15. Ceremony (1st Mix – Ceremony Sessions)
  16. Temptation (Alternative 7”)
  17. Procession (Rehearsal Recording)
  18. Chosen Time (Rehearsal Recording)

New Order – Movement DVD

Live Shows
Hurrah’s, NY 1980:
In A Lonely Place
Procession
Dreams Never End
Mesh
Truth
Cries & Whispers
Denial
Ceremony

Recorded on 27th September, 1980.
Produced, directed and filmed by Merrill Aldighieri

Peppermint Lounge, NY 1981:
In A Lonely Place
Dreams Never End
Chosen Time
ICB
Senses
Denial
Everything’s Gone Green
Hurt – instrumental
Temptation

TV Sessions
Granada Studios 1981:
Doubts Even Here
The Him
Procession
Senses
Denial

BBC Riverside 1982:
Temptation
Chosen Time
Procession
Hurt – instrumental
Senses
Denial
In A Lonely Place

Extras
Ceremony CoManCHE Student Union 1981
In A Lonely Place Toronto 1981
Temptation Soul Kitchen, Newcastle 1982
Hurt Le Palace, Paris 1982
Procession Le Palace, Paris 1982
Chosen Time Pennies 1982
Truth The Haçienda 1983
ICB Minneapolis 1983

12” Singles

Ceremony (version 1) 
Recorded at Eastern Artists Recordings in East Orange, New Jersey, during the US visit the previous September, New Order’s first single might, in an alternative universe, have been Joy Division’s next. The 12” single, originally released in March 1981 (the 7” having been released in January) including the original version of ‘Ceremony’, will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Ceremony (version 1)
Side 2
In A Lonely Place

Ceremony (version 2) 
The alternative, re-recorded version of ‘Ceremony’ now also featuring Gillian Gilbert in the band was released later in 1981 and will feature the later alternative ‘cream’ sleeve rather than the original green and copper. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Ceremony (version 2)
Side 2
In A Lonely Place

Everythings Gone Green  
Originally released on Factory Benelux in December 1981, this 12” featured Everythings Gone Green, which had previously been on the reverse of the band’s second 7” single ‘Procession’ in September 1981,and ‘Cries And Whispers’ and ‘Mesh’ whose titles were flipped on the cover causing confusion amongst fans and compilers ever since. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Everythings Gone Green
Side 2
Cries And Whispers
Mesh

Temptation  
Featuring the full versions of both tracks this 12” was first release in May 1982 and were the first self-produced released recordings. With ‘Temptation’ being a cast iron New Order classic, this is an essential part of any New Order collection. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Temptation
Side 2 
Hurt

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REVIEW | Coletânea “Substance” celebra 30 anos hoje

cd-duplo-ingles-new-order-substance-importado-D_NQ_NP_468511-MLB20589450448_022016-FQuão relevante pode ser uma coletânea no âmbito da obra de um artista ou até mesmo para além dela? Pode um disco que reúne material já lançado por um cantor ou banda ter um significado e uma importância tão grandes – ou maiores até – que a de álbum de canções inéditas?

Há quem despreze os discos compilatórios – e existem razões para isso. Na maioria das vezes eles representam uma maneira fácil das gravadoras amealharem um bocado de dinheiro resumindo em um único título uma carreira de sucesso. É uma forma de vender um artista para um outro perfil de publico – o que só tem interesse por grandes sucessos – ou de fazer os fãs mais fiéis comprarem novamente aquilo que eles já possuem.

Todavia, algumas coletâneas conseguem algo mais do que arrecadar milhões. Querem um exemplo? Legend, que reúne os grandes êxitos de Bob Marley & The Wailers, se transformou em algo muito maior que o “o disco de reggae mais vendido de todos os tempos”. Ele está na lista dos 500 Maiores Álbuns da revista Rolling Stone, que é nada menos que o maior guia de cultura pop da face da Terra. Além disso, ele introduziu milhares pessoas à música de Marley e, muito provavelmente, ao próprio universo do reggae. Tudo isso faz dele um disco essencial – aquele item que deveria se fazer obrigatório em qualquer discoteca que se preze.

Nessa mesma lista dos 500 Maiores Álbuns da História da Rolling Stone encontramos uma outra super-coletânea. Lançado há exatos trinta anos, Substance, álbum duplo que reúne todos os singles de doze polegadas do New Order lançados entre 1981 e 1987, é outro exemplo de uma compilação que foi além das vendagens milionárias. Páginas dedicadas ao disco foram publicadas não somente nas tradicionais revistas e tabloides sobre música, mas também na Playboy e até mesmo no influente Village Voice. O Album Guide, também publicado pela Rolling Stone, o descreve como “puro prazer”, além de considerá-lo “um guia para o pop da década de 1980”. Para Thomas Erlewine, do site AllMusic.com, Substance “é o trabalho mais bem-sucedido e inovador do New Order uma vez que expandiu a noção do que uma banda de rock’n roll, e particularmente uma banda de rock indie, pode fazer”. Em 1989, o LP foi incluído na famosa Enciclopédia da Música Popular editada por Collin Larkin. Não é pouca coisa.

Muito do êxito de Substance tem a ver com a própria reputação que o New Order construiu em torno de seus singles de doze polegadas. Para o crítico musical Robert Christgau, o disco “apresenta a disciplina e a química de uma banda cujo estilo musical é potencializado pelas mixagens em seus 12 polegadas”. Há quem diga que uma das idiossincrasias do grupo é o fato do New Order nunca ter feito um grande álbum (algo do qual eu e muita gente por aí discorda), mas que, em contrapartida, teria produzido em série singles arrebatadores do calibre de “Temptation”, “Confusion”, “Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle”, “True Faith”, entre outros.

Mas parte do que tornou Substance um disco de forte apelo foi o fato de que todo o material incluído nele não havia sido lançado em um long play antes. Nos primeiros anos, o New Order tinha por hábito não incluir os singles nos seus álbuns. Por essa razão, canções como “Ceremony”, “Everything’s Gone Green”, “Thieves Like Us” e a já citada “Blue Monday” apareceram pela primeira vez em um disco cheio somente quando do lançamento de Substance. Isso representa dois terços do álbum. O outro terço é constituído por faixas que até saíram em outros discos de estúdio, a exemplo de “The Perfect Kiss” e “Bizarre Love Triangle”, mas aqui elas aparecem em versões remixadas e/ou estendidas até então disponíveis exclusivamente nos singles de doze polegadas.

Mesmo assim, para que tudo coubesse em dois bolachões foi preciso passar a tesoura em algumas músicas. “Shellshock” e “Sub-Culture” foram editadas; na versão em CD foram limados 40 segundos da apoteótica sequência final de “The Perfect Kiss”; “Temptation” e “Confusion” foram inteiramente regravadas especialmente para o disco. Nada disso, no entanto, diminuiu o brilho da coletânea que, só nos Estados Unidos, vendeu mais de dois milhões de cópias.

Outro grande mérito de Substance é do retratar com precisão o processo de transição musical operado pela banda – da sonoridade sombria e depressiva dos primeiros anos (e que mantinha o New Order mais na linha de sua encarnação anterior, o Joy Division) ao batidão eletrônico. O disco tem algo para diferentes gostos, do pós-punk ao electrofunk.

A ideia de lançar Substance, como era de se esperar, partiu do chefe da gravadora da banda na época, a Factory Records. Tony Wilson, que também era repórter e apresentador de TV na emissora Granada, de Manchester, havia comprado um novo e caro brinquedo: um Jaguar equipado com um CD player, uma novidade para a época. Tony pensou: “e se eu pudesse ouvir todos os singles do New Order de uma só vez no meu carro?”. Assim nasceu Substance. Segundo o agora ex-baixista Peter Hook: “nós fizemos Substance porque Tony queria ouvir todos os singles do New Order em seu carro… o que foi uma ótima razão se considerarmos o sucesso desse disco”.

A aposta no álbum foi tão grande que a Factory produziu uma edição promocional com capa em formato gatefold diferente da original e limitada em mil cópias numeradas para distribuir de graça para os funcionários da gravadora e os amigos mais chegados. Além disso, havia diferenças entre as edições de Substance lançadas na Inglaterra: em CD os dois LP’s aparecem juntos em um único disco, ao mesmo tempo em que traz um segundo compact disc só com lados B; na versão britânica do cassete foram incluídos faixas extras como “Dub-Vulture”, “Shellcock”, “I Don’t Care” e “True Dub” (esta última somente em uma edição ultralimitada). Substance também foi transformado em uma coletânea de vídeos lançada nos formatos VHS e videolaser (somente no Japão) em 1989, mesmo ano em que a gravadora DG Discos editou oficialmente na Argentina o obscuro Substance II, que nada mais era que o disco de lados B da edição em CD transformado em vinil duplo. Tanto o The Gatefold Substance quanto Substance II e as edições em cassete inglesas são hoje valiosas peças de colecionador.

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Para todos os gostos… De cima para baixo, da esquerda para a direita: Substance (o original), Substance II (só lados B, lançado na Argentina) e The Gatefold Substance (promo).

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The Gatefold Substance

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Substance II

A capa de Substance, criada por Peter Saville (para variar), também tem sua própria história. Em meados da década de 1980, Saville havia se lançado na tarefa de recriar/reimaginar a utopia modernista. Sentindo que a arte e o design estavam, naquela altura, à beira de um novo momento, ele concluiu que o futuro de ambos seria mais orgânico e menos linear. Com relação a esse aspecto peculiar das artes visuais, o designer começou a se interessar pela geometria da natureza. Em parceria com o fotógrafo Trevor Key, Saville passou a se dedicar à produção de uma série de imagens contemporâneas a partir da natureza, ou como o próprio artista gráfico descreveu, “de flores para a decoração do lobby da IBM no ano 2000”. Assim nasceram diversos estudos feitos com base em formas naturais que eram fotografadas e recoloridas através de uma técnica chamada dichromat. Desse modo nasceram as capas de singles como “True Faith” (1987) e “Touched by the Hand of God” (1988), além, é claro, do projeto gráfico para Substance – cada um dos vinis vinha guardado em uma capa individual (a do LP 1 traz uma flor, enquanto a do LP 2 é ilustrada por um coral), com ambas abrigadas no interior de uma capa maior onde se lê apenas o nome da banda, o título do disco e o ano com tipografia em alto relevo negra.

O New Order apresentou Substance ao vivo na íntegra (isto é, exatamente as mesmas faixas do disco e na mesma ordem) uma única vez. Foi no Irvine Meadows, Califórnia, dia 12 de setembro de 1987. Atualmente, o briguento Peter Hook e seu novo grupo, o The Light, vêm rodando o mundo em uma turnê no qual executam não apenas o álbum do New Order, como também o irmão homônimo e mais novo dedicado ao Joy Division. Esse show passou aqui pelo Brasil em dezembro do ano passado (e eu, obviamente, marquei presença).

Dando uma lida nos comentários na conta do blog no Instagram, o post sobre o trigésimo aniversário de Substance trouxe hoje declarações como: “foi o álbum em que tudo começou para mim”, “foi o meu primeiro disco do New Order”, “uma das melhores coletâneas”, “foi crucial na minha adolescência” e “há trinta anos esse disco mudou muitas vidas para sempre, incluindo a minha”. Todas essas frases traduzem o exato sentimento que o autor deste blog tem com relação a esse álbum. Ele também foi a minha porta de entrada no som do New Order e ajudou a me guiar para todo o resto: Joy Division, Manchester, Nova Iorque, Haçienda etc. Ele é meu desert island record. É por causa de Substance que hoje me dedico a escrever com paixão sobre essa turma que veio lá do noroeste da Inglaterra…

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NEWS | FBN anuncia nova compilação de faixas produzidas e remixadas pelos membros do New Order

fbn60Enquanto estamos na contagem regressiva para os shows do New Order e do Peter Hook & The Light no Brasil, o site da Factory Benelux – originalmente uma licenciada da Factory Records para os mercados de Bélgica, Holanda e Luxemburgo que sobreviveu ao naufrágio da sua matriz inglesa  – anunciou recentemente o seu próximo lançamento, a compilação New Order Presents Be Music.

Para quem está por fora: “Be Music” era a editora musical criada pelo New Order no começo da década de 1980 não apenas para o recebimento dos royalties sobre o seu catálogo mas também para servir de “assinatura” toda vez em que seus integrantes estivessem envolvidos em trabalhos fora da banda como produtores ou remixers.

Ao longo dos anos oitenta, Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris produziram vários artistas do cast da gravadora Factory Records, como Section 25, 52nd Street, Quando Quango, Royal Family & The Poor, entre outros. A LTM Recordings, que pertence ao atual comandante da Factory Benelux, James Nice, já havia editado duas coletâneas dedicadas às produções da Be Music: Cool As Ice (2003) e Twice As Nice (2004). Mas New Order Presents Be Music promete ser mais completa. Em um box set de três CDs (ou em LP duplo), a nova compilação, que será lançada em fevereiro do ano que vem, incluirá também remixes mais recentes, produzidos em sua maior parte por Stephen Morris, feitos para nomes como Factory Floor, A Certain Ratio e Section 25. De lambuja, será incluído “Knew Noise”, faixa do Section 25 produzida por Ian Curtis e Rob Gretton.

Segundo a Factory Benelux, a capa (ver foto) será produzida por Matt Robertson em associação com o Peter Saville Studio.

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REVIEW | Livro “Peter Saville: Estate 1-127”

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Como eu não vi esse livro antes?

“Garimpando” na internet em busca de algo com o qual minha esposa pudesse me presentear no Dia dos Namorados (sei que parece confuso, mas é isso mesmo), encontrei uma coisa que, apesar do meu sempre alerta radar de fã, passou despercebido: um livro sobre o designer gráfico Peter Saville, o homem por trás da identidade visual da legendária gravadora Factory (da qual foi um dos fundadores) e das capas impessoais e totalmente fora do lugar comum dos discos do Joy Division e do New Order. Publicado em 2007 pela editora de arte JRP, de Lionel Bovier, o livro se chama Peter Saville: Estate 1-127. Bom, antes de mais nada, cabe esclarecer que esse não é o único livro dedicado a Saville e seu trabalho. Em 2003 a editora Frieze lançou Designed by Peter Saville, que foi um enorme sucesso (hoje já está fora de catálogo). E também em 2007 a Thames & Hudson publicou Factory Records: The Complete Graphic Album – FAC 461, um grande volume dedicado à contribuição dele e de outros artistas gráficos à definição da “imagem da Factory”. O livro da Thames & Hudson, ao contrário de Designed by Peter Saville, continuou sendo reimpresso.

Mas parece que Peter Saville: Estate 1-127 não foi uma “surpresa” apenas para mim. Após publicar uma foto do livro no Instagram deste blog, logo apareceram comentários de outros fãs da categoria “casca grossa”, estrangeiros inclusive, nos quais estes confessavam que nunca o tinham visto antes. Depois que o livro foi entregue aqui em casa (alguem achou mesmo que eu não o encomendaria?), pude não somente entender melhor sua proposta, mas também desenvolver um palpite sobre o por que dele não ser tão conhecido – pelo menos não entre fãs de Joy Division, New Order e Factory Records. Estate 1-127 tem como tema a exposição sobre Peter Saville realizada em 2005 no Migros Museum für Gegenwartskunst (Museu de Arte Contemporânea de Migros), em Zurique (Suíça). Essa exposição foi menos dedicada ao produto final e às obras acabadas que aos métodos e processos de trabalho do designer. Por isso, é provável que o público-alvo do livro seja formado, em sua maioria (tal como a audiência da exposição), por apreciadores de arte contemporânea e profissionais/estudantes de artes visuais do que fãs de música pop.

Por isso, não espere por um livro recheado de fotos de capas de discos. Algumas delas até dão o ar da graça, mas a proposta é fazer as pessoas conhecerem um pouco mais o processo criativo do artista. Até porque Saville não passou a vida toda fazendo somente emabalagens originais e elegantes para guardar espécimes daquele nosso “preto que satisfaz” (o vinil). Ele já produziu trabalhos e campanhas para Dior, Lacoste e Stella McCartney, desenhou a camiseta da seleção inglesa de futebol para a Umbro em 2010 e mais recentemente foi convidado pela prefeitura de Manchester para desenvolver o novo design da cidade: de placas com os nomes das ruas a abrigos de pontos de ônibus. Sendo seu modus operandi o foco principal de Estate 1-127, o livro mostra maquetes, esboços, páginas de enciclopédias ou de catálogos de perfuradores, objetos achados/recolhidos no lixo, em brechós, garage sales e o que mais pudesse servir de inspiração ou material a ser trabalhado (no sentido tanto literal quanto conceitual).

Mas tão importante quanto o “acervo” apresentado no livro são os ensaios que ele inclui (em inglês) e que, de maneira “didática”, isto é, da forma mais pedagógica que se é possível chegar quando o assunto são textos sobre arte, nos ensinam a entender o trabalho de Saville. Segundo um dos ensaístas, Heike Munder: “Em contradição com o mero papel de apoio para um propósito externamente determinado, o trabalho de Saville enfatizou o espírito da época [zeitgeist] e seus métodos espelham uma ideia de si mesmo como um produtor cultural dentro de uma estrutura social. Saville tirou proveito de variadas categorias de imagens e diversas fontes históricas da vanguarda clássica – como o construtivismo e o futurismo italiano – e as importou em suas tarefas criativas, entrelaçando esses materiais que ele reciclou em um complexo processo de aplicação. Ao invés de simplesmente copiar, ele se dedicou a uma forma inteligente de apropriação, na qual o original é engenhosamente incorporado e transformado, ao invés de ser degenerado em uma citação”. Ao ler isso, impossível eu não me lembrar de um sujeito (bem ignorante) em uma comunidade do extinto Orkut que disse que a capa de Movement (New Order) era tão simples e sem graça que até o filho pequeno dele seria capaz de criar e fazer.

Estate 1-127 também mostra o lado fotógrafo de Peter Saville – um talento pouco conhecido. O livro traz uma série de fotos de sua autoria chamada It All Looks Like Art to Me Now [trad.: “tudo parece arte para mim agora”], na qual cenas protagonizadas por objetos, como um rolo de fita crepe pendurado na fechadura de uma porta ou materiais de uma obra/reforma repousados sobre a pia de uma cozinha, capturados por suas lentes em lugares que vão desde um estúdio da emissora alemã de televisão WDR à Frieze Art Fair de Londres, nos remetem facilmente a “esculturas” ou instalações em uma galeria de arte contemporânea. Nesse trabalho, mais uma vez se evidencia o gosto pelo ready made e, naturalmente, a influência incontestável de Marcel Duchamp e do dadaísmo (um de seus “lemas” era: “use todas as superfícies como espaço de trabalho, inclusive carpetes, mesas de café, armários e cômodas”). O próprio conceito por trás dessa série fotográfica – “tudo parece arte para mim agora” – serviu de mote para uma exposição posterior de Saville, chamada Accessories to an Artwork, realizada na galeria de arte Paul Stolper (Londres), em 2008, e que teve os pedestais das peças em exibição desenhados e construídos pelo próprio designer – dando a entender que mesmo eles, reles e banais pedestais de galerias e museus, também seriam (ou poderiam ser) obras de arte.

O livro Estate 1-127 foi, pelo menos para mim, um belo achado. Como eu já havia comentado alguns parágrafos acima, talvez não seja exatamente o que um interessado em cultura pop esteja buscando – nem todo mundo que ama essa maravilhosa arte de fazer capas de discos é amante de arte. O percentual de fãs de música realmente interessado em questões de conceito e de método por trás das artes de seus álbuns e singles favoritos é muito reduzido. Mas, no caso de Peter Saville, quando a curiosidade ultrapassa o que está impresso no quadrado de papelão, descobre-se por trás daquela imagem um complexo universo de referências, tanto da dita “alta cultura” quando da chamada “cultura popular” ou do cotidiano, cujas fronteiras são totalmente dissolvidas. Essa é a diferença entre um artista e quem apenas desenha capas de LPs e CDs.

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NEWS | Peter “Incentivando” Hook e a alegria de um fã

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Meu humilde baixo Tagima Millenium 4: longe de ser um Yamaha BB 1200 ou um Chris Eccleshal Custom Built Viking I

No ano passado, com o objetivo de ter mais uma válvula de escape para o stress e as tensões do dia-a-dia, resolvi realizar um sonho antigo, dos tempos de adolescente: comprei um contrabaixo e me matriculei em uma escola de música para aprender a tocar. Isso à beira dos quarenta anos. Como fã de New Order que sou, é “óbvio e ululante” que um dos responsáveis por colocar esse sonho na minha cabeça foi Peter Hook (mas não apenas). De lá do começo das aulas para cá, meu professor (um jazzman convicto, formado pela Escola de Música da UFRJ) até que foi legal comigo (e com minhas limitações, típicas de quem pegou em um instrumento musical pela primeira vez assim meio tarde): “The Passenger”, de Iggy Pop, foi uma das primeiras músicas que ele me ensinou a tocar, além de ser minha praia musical; “Sunday Bloody Sunday” (U2) foi outra em que ele sacou que, ao mesmo tempo que era o tipo de som que era mais a minha cara, era apropriada para a minha técnica desavergonhadamente limitada. Mas nem por isso ele não deixou de me empurrar coisas como “Cantaloupe Island” (Herbie Hancock), “Equinox” (John Coltrane) e a (chata para caralho!) “The Chicken”, do seu amado-idolatrado Jaco Pastorius… (ooops, perdão, Mestre, não resisti…)

É claro que eu também procuro exercitar algo por conta própria e uma das coisas que adoro fazer é aprender a tocar músicas de minhas bandas favoritas exercitando o que chamam de “percepção musical” em vez de procurar as tablaturas na internet. “Excercise One”, do Joy Division, eu tirei dessa maneira, totalmente de ouvido. Assim foi com a introdução de “Krafty”, do New Order. Ambas linhas de baixo de autoria de Peter Hook. Mas eu também tinha feito o mesmo com “Israel”, do Siouxsie & The Banshees. Felizmente, as coisas que eu gosto são de simples execução muitas vezes, sobretudo para a mão esquerda (meu ponto fraco). Ramones só é problema por causa da velocidade – “Blitzkrieg Bop” me deixa exausto antes da música terminar! Conclusão: jamais diga que um baixista punk não sabe tocar. Ficar nesse ritmo um show inteiro (uma hora ou duas) não é para qualquer um, não…

Nos últimos dias, com base na percepção musical e nas dezenas de vídeos ao vivo que já assisti, aprendi a tocar três músicas do New Order: “Love Vigilantes”, “Run” e “Crystal” (exceto o solo). O que realmente faltou para ter aquele som verdadeiro do baixo do Peter Hook era o pedal de efeito chorus Electro Harmonix Clone Theory. Até ajustei os controles do instrumento e do amplificador para produzir uma timbragem similar, mas saiu um negócio, digamos, apenas “razoável”. De qualquer maneira, eu publiquei o “progresso” no Instagram do blog – afinal, foram três músicas em um feriado prolongado (da quinta-feira de Corpus Christi a domingo). E aconteceu o que eu não esperava: Peter Hook, através da sua própria conta no Instagram (na qual divulga seu trabalho atual com a banda The Light), deu seu like e deixou uma mensagem de incentivo. Ele escreveu: “Continue com o bom trabalho!”. Ganhei o dia! Já havia estado com Hooky em algumas ocasiões, nas quais ele me deu autógrafos e tiramos fotos. Mas isso é diferente. E eu já fiz uma promessa para mim mesmo: na próxima ocasião em que ele vier ao Brasil, vou levar o baixo até ele para que seja autografado.

A seguir, o print screen da publicação com o comentário do Hooky.

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Valeu, Hooky!

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RELATOS | Lugares sagrados: Les Bains Douches (Paris)

IMG_0938No post retrasado eu contei a história sobre minha ida a Paris em novembro do ano passado: o motivo da viagem foi profissional, mas durante minha estadia lá um show do New Order (o concerto de estreia da atual turnê para ser mais exato) caiu no meu colo. Não foi uma viagem de férias, mas valeu como se fosse. Aproveitei o período laborativo na capital francesa não apenas para conhecer o que a cidade tem de melhor (belos recantos, museus fabulosos, cafés aconchegantes, gastronomia, pontos turísticos famosos etc), mas, também, alimentar um pouco mais o meu velho vício…

Além do show do New Order no Casino de Paris, tive uma vontade irrefreável de conhecer um lugar que tem um significado especial para fãs como eu: o Bains Douches. Hoje é um edifício histórico e hotel de luxo na região do Boulevard de Sèbastopol; na sua origem, era uma therme, isto é, uma casa de banho coletivo construída em 1885 por François Auguste Guerbois (1824-1891), tendo sido então um conhecido ponto de encontro de artistas e intelectuais. Mas no final dos anos 1970, quando saiu das mãos da família Guerbois, se transformou em um nightclub e espaço para shows. Lá se apresentaram muitos artistas e bandas punk, pós-punk e new wave francesas e estrangeiras – dentre elas o Joy Division.

Ok, ok… O Joy Division já tocou em diversos lugares pela Europa, isso eu já sei. Não faria sentido ir procurar e conhecer vis-à-vis em cada viagem pelo “Velho Continente” cada boteco, inferninho ou espelunca em que o Joy Division (ou o New Order) já se apresentou. Só que o Bains Douches é um pouquinho diferente. Em primeiro lugar, o local mantém uma pequena galeria-museu onde conserva pôsteres originais dos shows dos grupos que se apresentaram ali, incluindo o do Joy Division. Em segundo, o show que a banda fez lá em 18 de dezembro de 1979 foi gravado, tocado diversas vezes por uma rádio francesa, exaustivamente pirateado, até que, por fim, foi transformado em um disco ao vivo oficial. Diga-se de passagem, é considerado, tanto em termos técnicos quanto em termos musicais, um dos melhores registros en directe do JD.  

“Nós lançaremos o [show no] Bains Douches se encontrarmos um bom registro desse concerto. Me parece que há uma francesa que tem uma boa cópia do show mas ninguem consegue encontrá-la”. Essas foram palavras de Tony Wilson no comecinho dos anos 2000. Na verdade, existem duas fontes do show no Bains Douches: uma gravação amadora, feita por alguem no meio da plateia, e outra profissional, que pertence à emissora francesa de rádio France Inter. O disco Les Bains Douches 18 December 1979, lançado em 2001, foi feito com base na gravação da France Inter. Cinco canções foram transmitidas ao vivo no programa Feedback, de Bernard Lenoir: “Inside”, “Shadowplay”, “Transmission”, “Day of the Lords” e “Twenty Four Hours”. Ao longo dos anos, essas e outras músicas foram tocadas em transmissões posteriores, na mesma emissora e pelo mesmo radialista. Todavia, o álbum não foi produzido a partir das fitas originais de Lenoir / France Inter – a fonte é a gravação de uma transmissão de 1994.

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CD Les Bains Douches 18 December 1979lançado em 2001.

Uma vez que a transmissão dos anos noventa, feita no programa Les Inrockuptibles para celebrar os quinze anos de aniversário do show, tocou apenas nove das dezesseis músicas originalmente executadas, o CD (cuja capa, feita por Peter Saville, é uma versão “desconstruída” do poster do show) foi “completado” com canções gravadas ao vivo em dois concertos na Holanda. Além da edição original em CD de Les Bains Douches 18 December 1979, tenho uma reedição em vinil de 180 gramas lançada no ano passado pela DOL Records que traz apenas o show de Paris (mais uma vez incompleto) e o pôster “íntegro” na capa.

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Uma das edições em vinil do disco Les Bains Douches: esta traz o pôster do show “íntegro” na capa.

Mas voltando à minha visita ao Bains Douches… Antes de entrar passei um bom tempo na calçada oposta, do outro lado da estreita rua Bourg-l’Abbé, fotografando e admirando a fachada. Só depois tomei coragem de entrar para perguntar pelos pôsteres (embora, na verdade, eu estivesse à procura apenas de um em específico). Nada muito complicado: você passa pela entrada, vire à sua direita e, em seguida, vire à esquerda. É um corredor pequeno, estreito e todo preto, com focos de luz amarela apontados para os cartazes. E “ele”, como eu já esperava, estava lá. Não sou muito bom com selfies e com câmeras de smartphone, então as fotos que tirei lá dentro não são lá essas coisas. Mas o que valeu mesmo foi o momento. Na saída, cheguei a perguntar na recepção se o hotel comercializa réplicas dos pôsteres – ou se eles tinham conhecimento de cópias licenciadas disponíveis. A resposta foi um lacônico não. 

(Esse dia, infelizmente, foi marcado no fim por um episódio muito trágico: foi quando um grupo de fanáticos sem vergonha, com armas e aos gritos de “Deus é grande”, aprontou mais uma das suas… O resto vocês viram na televisão.)

E olhem o que eu descobri, porém meses depois do show do New Order em Paris: a banda ficou hospedada lá no Bains Douches enquanto esteve na cidade! Perdi a chance de “sincronizar” minha visita com a estadia deles no hotel… Mas aí é querer ter sorte demais.

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