INFLUÊNCIAS | New Order e Ennio Morricone

Quando o assunto em questão são as influências do New Order, certos nomes vêm imediamente à cabeça: do lado rock, Velvet Underground, David Bowie, Iggy Pop; do lado eletrônico, pop e dance, Kraftwerk, Giorgio Moroder, Patrick Cowley, Chic. Todavia, em se tratando desse tema, existe um nome raramente mencionado e que não pertence a nenhum desses dois “pólos”. Como Moroder e o gênero italo disco, outra fonte da qual o New Order bebeu, ele também veio da Península Itálica – mas estamos a falar de uma verdadeira lenda viva da música do século XX, cuja marca foi deixada principalmente, mas não apenas, no cinema. Seu nome é Ennio Morricone.

Ennio Morricone, composer

Músico, compositor, arranjador, maestro, gênio: Ennio Morricone.

Nascido em Roma no dia 10 de novembro de 1928, Morricone é músico (trompetista), compositor, arranjador e maestro. Em meados dos anos 1950, após receber seus diplomas de instrumentista e de composição, passou a trabalhar como arranjador de músicas de outros compositores já estabelecidos no mercado cinematográfico. Em meados dos anos sessenta, um velho amigo dos tempos de escola, o diretor de cinema Sergio Leone, lhe convidou para, pela primeira vez, assinar a trilha-sonora de seus westerns, que, por serem produzidos na Itália, deram origem ao filão que ficou mundialmente conhecido como “faroeste espaguete” (spaghetti westerns).

A chamada “Trilogia do Homem Sem Nome” – os filmes Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito – consagrou, ao mesmo tempo, Leone como diretor, Clint Eastwood como astro de cinema e Morricone como compositor de trilhas-sonoras que se tornaram um divisor de águas. Segundo Rodrigo Carneiro, Doutor em Comunicação e professor do curso de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco, Ennio Morricone introduziu “no estilo neo-romântico algumas características que se tornariam centrais no cinema moderno, como o gosto por citações, elementos de música pop e musique concrète”. Ele foi o autor de diversas outras trilhas de sucesso, como as dos filmes Era Uma Vez no Oeste, Era Uma Vez na América, A Missão e Os Intocáveis. Venceu cinco BAFTA’s, recebeu um Oscar honorário em 2007 pelo conjunto da obra e um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original este ano pela trilha escrita para o filme The Hateful Eight, de Quentin Tarantino. Além do New Order, sua influência entre artistas da seara do rock e do pop abrange nomes tão distintos como Metallica e Muse, sem falar dos inúmeros rappers e DJ’s que já samplearam à exaustão suas músicas.

A primeira referência que o New Order fez a Ennio Morricone em uma de suas músicas foi justamente em um de seus maiores clássicos: “Blue Monday”. Normalmente, quando a história desse single é recontada, sempre se fala do break de bateria que a banda propositalmente roubou de “Our Love”, de Donna Summer, além do sample de “Uranium”, do Kraftwerk, e as citações a Klein + M.B.O. e Sylvester. Mas Morricone aparece em “Blue Monday” através de uma homenagem do (na época) baixista Peter Hook. Em fevereiro de 2013, a tecladista Gillian Gilbert declarou ao jornal britânico The Guardian que “o baixo do Peter Hook foi tirado de uma trilha-sonora de filme de Ennio Morricone”. Não há “coincidência” alguma, portanto, entre o “solo” de baixo em “Blue Monday” e o violão dedilhado da canção “La Resa dei Conti” (trad.: o acerto de contas), da trilha de Por Uns Dólares a Mais. Nos vídeos abaixo se pode conferir a semelhança.

O New Order voltaria a revisitar Morricone em um dos seus mais aplaudidos temas instrumentais: “Elegia”, do álbum Low Life (1985). A introdução da faixa que abre o lado B do disco também parece remeter ao som da caixinha de música que domina os segundos iniciais de “La Resa dei Conti”. Em um artigo escrito para o site da revista britânica The Quietus sobre o trigésimo aniversário de Low Life, Julian Marszalek discorre sobre essa ligação: “A [faixa] instrumental ‘Elegia’ tem mais do que ecos fracos da influência de Ennio Morricone (…) A cena é transportada da Almeria para Manchester, mas o impulso épico e os esforços do New Order correspondem às peças elegíacas de Morricone”. Todavia, “Elegia” também se inspirou no tema “As a Judgement” (trad.: como um julgamento), que faz parte da trilha-sonora de Era Uma Vez no Oeste. O fruto dessa inspiração aparece no trecho do solo de guitarra de Bernard Sumner, bem no final da canção.

O álbum Republic, de 1993, é outro caso de flerte com Morricone. Em um documentário feito na época para MTV, Peter Hook assim declarou sobre o álbum: “Em Republic usamos samples no estilo do Ennio Morricone”. Claro que ele não quis dizer que o maestro era um sampleador – na verdade, ele estava se referindo à maneira como o compositor italiano experimentava misturando orquestrações e sons “reais” ou “concretos” (produzidos por objetos, não por instrumentos). Isso pode ser ouvido, por exemplo, em “Ruined in a Day”. Se tentarmos excluir mentalmente a batida, podemos ouvir uma típica combinação “morriconiana” de suas trilhas de faoreste espaguete: o som de um sino, a guitarra acústica e as cordas. Experimente fazer isso com o snippet logo abaixo.

O New Order também homenageou Ennio Morricone em apresentações ao vivo usando suas músicas para abrir seus concertos – isso era uma forma de “chamar” a banda para o palco e de anunciar à plateia que o show vai começar. Na turnê do álbum Waiting for the Sirens’ Call (2005/2006), foi usada a faixa “Per Qualche Dolari in Più”, que é o tema principal de Por Uns Dólares a Mais (essa parecer ser a trilha-sonora de Morricone preferida pela banda). No “retorno”, já sem Peter Hook, a banda passou a utilizar “Se Sei Qualcuno É Colpa Mia” (trad.: se você é alguem, é culpa minha), canção do filme Meu Nome É Ninguem, outro western italiano, dessa vez dirigido por Tonino Valerii. O Brasil conferiu isso de perto em 2006 e, depois, em 2014.

Aliás, é importante frisar que o New Order possui uma relação muito interessante com o mundo do cinema – uma relação sobre a qual não vejo ninguem falar e que vai além da influência de Ennio Morricone em sua música. Mas isso merece um post à parte, é claro. Por ora, fico mesmo por aqui e curtindo o recente relançamento da trilha-sonora de Por Uns Dólares a Mais (minha trilha-sonora favorita também) em disco: For a Few Dollars More: Original Motion Picture Soundtrack (agora em uma edição limitada em vinil de 10” roxo).

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Nova edição limitada em vinil da trilha de “Por Uns Dólares a Mais”: o disco tem ideias que inspiraram o New Order.

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RE-ISSUES | The Invisible Girls: o lado músico de Martin Hannett

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Martin Hannett: foi sócio da Factory Records e produziu Joy Division e New Order. Mas também era músico e tinha uma banda.

O filme parte história real, parte ficção, A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom, que mostra os personagens (Tony Wilson, Rob Gretton), bandas (Joy Division, New Order, Happy Mondays) e empreendimentos (Factory Records, The Haçienda) que ajudaram a colocar a cidade de Manchester (norte da Inglaterra) no mapa da música pop mundial, possui duas cenas clássicas envolvendo o produtor Martin Hannett, magistralmente interpretado pelo versátil ator britânico Andy Serkis:

    1. Tony Wilson (interpretado no filme por Steve Coogan) pára seu automóvel em um descampado, no que parece ser uma área rural. Ele sai do carro e encontra um sujeito de cabelos desgrenhados (Hannett/Serkis), cigarro pendurado na boca, andando de um lado para o outro, segurando um grande microfone apontado para o céu e com um gravador à tiracolo. Wilson, que não está tão próximo de Martin, lhe dirige a palavra, em voz alta: “Ei, Martin, o que você está fazendo?”. O homem do microfone, irritado, responde: “Gravando… o silêncio!”. “Gravando o silêncio??”, Wilson retrucou, perplexo. E a resposta foi “Não! Agora estou gravando a porra do Tony Wilson!!”.
    2. Nos Strawberry Studios, em Stockport, durante a gravação do primeiro LP do Joy Division, Stephen Morris (Tim Horrocks) está na sala de gravação tocando um solo de bateria. Do outro lado do vidro, na sala de controles, Martin Hannett, desesperadamente, grita “Chega! Chega!”. E o baterista para. Em seguida, Hannett diz para Morris: “Bateristas fazem isso há anos e, particularmente, já estou de saco cheio disso. Vamos tentar algo diferente… Rápido, porém lento”. Todos (banda, Wilson, empresário) se olham e alguem solta: “Ele está falando sério?”.

Apesar do filme ser bastante caricato e de carregar nas tintas, com a intenção deliberada de fazer piada com o que, na realidade, era absurdo (a história da Factory é cheia de tropeços inacreditáveis), o retrato que Winterbottom fez de Hannett em seu filme não é assim tão distante do personagem real. O próprio Stephen Morris, em seu depoimento no documentário Joy Division, confirmou a história do “rápido, porém lento” e ainda acrescentou outras pérolas de Hannett do tipo “toque isso um pouco mais amarelo”. E tal como mostrado na telona, ele tinha pouca tolerância com os músicos e não os deixava ficar no estúdio enquanto ele trabalhava na edição e mixagem das gravações.

Mas essa excentricidade toda só contribuiu para tornar o mito em torno de Hannett ainda maior, já que seu talento como produtor, evidenciado, por exemplo, nos álbuns do Joy Division, ficou famoso. Mas poucos conhecem um outro lado do produtor: o de músico. Ao lado do tecladista Steve Hopkins, Martin Hannett era a outra metade do The Invisible Girls. E é sobre essa “banda” incomum que falaremos nas próximas linhas.

Hannett e Hopkins se conheceram em um show do Soft Machine em 1976. Mas foi o empréstimo de um sintetizador ARP2600 que realmente deu início ao elo entre os dois, que, no mesmo ano, engataram a primeira parceria: a trilha sonora de um curtametragem de animação chamado All Sorts of Heroes, dirigido por Rick Megginson e Steve Hughes. Martin tocou o baixo e alguns teclados; Hopkins era tecladista em tempo integral. Mas nessa época ainda não tinham adotado o nome The Invisible Girls. Isso só aconteceria em 1978, quando prestaram serviços como banda de acompanhamento do poeta mancuniano John Cooper Clarke em seu segundo álbum, Disguise in Love. Desde quando passaram a acompanhar Clarke, a dinâmica do The Invisible Girls passou a ser essa: Hopkins e Hannett formavam o núcleo permanente da banda (teclado e baixo), mas os postos dos demais instrumentos seriam preenchidos por músicos convidados que sempre mudariam. Nessa primeira fase, se juntaram à dupla o baterista Paul Burgess e os guitarristas Lyn Oakey e Pete Shelley (Buzzcocks). Martin também assumiria o papel de produtor de toda e qualquer gravação envolvendo as “Garotas Invisíveis”.

James Nice, o homem que hoje controla as gravadoras Les Disques du Crépuscule e a ressuscitada Factory Benelux, capitaneou dois (re)lançamentos dedicados ao The Invisible Girls. Em primeiro lugar saiu em 2014 – Pauline Murray and The Invisible Girls; o segundo, intitulado Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, veio à luz no ano passado. O primeiro é uma reedição remasterizada e expandida do álbum de estreia da ex-vocalista do grupo punk Penetration e que contou com o Invisible Girls como banda de apoio; o segundo é uma compilação, que reúne muitas faixas inéditas ou que não tinham sido lançadas em formato digital antes.

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Pauline Murray and The Invisible Girls (1980)

Após o fim do Penetration, a vocalista Pauline Murray, acompanhada do ex-baixista da banda (e que viria a ser seu marido), Robert Blamire, estava tentando levar adiante o projeto do seu primeiro disco solo. A dupla procurou Martin Hannett com o objetivo de tê-lo como produtor, mas no final Pauline e Blamire acabaram ganhando o Invisible Girls como parceiros na empreitada. Com Hopkins nos teclados e Robert Blamire como “membro honorário” da banda tocando o baixo, o grupo foi completado, como de costume, com convidados: John Maher (ex-Buzzcocks) na bateria, Dave Hassell na percussão e, nas guitarras, Dave Rowbotham (Fast Breeder) e Vini Reilly (Durutti Column). Hannett não tocou nenhum instrumento, mas assumiu a produção (dividindo-a com Hopkins) e, com seu parceiro, escreveu os arranjos. O engenheiro de som era ninguem menos que Chris Nagle, outro parceiro de Hannett, e que trabahou em Unknown Pleasures, do Joy Division, e Movement, do New Order. A edição expandida da Les Disques du Crépuscule (o LP original saiu em 1980) é excelente: além de um belo encarte, recheado de informações e com fotos, são dois CDs. No disco 1, temos o álbum original remasterizado, o single “Searching for Heaven” (que traz Bernard Sumner, do New Order, como convidado na guitarra solo) e versões Peel Sessions. O disco 2 é todo ao vivo e traz faixas gravadas em 1981 na Holanda (Amsterdam Paradiso e Den Haag Paard van Troje) e 1980 na Inglaterra, sendo que somente as registradas em solo britânico foram de fato tocadas pelos Invisible Girls “originais” (i.e., os que tocaram no disco). Outro detalhe que vale a pena mencionar: a capa foi desenhada por Peter Saville, o designer que assinou todas as capas do Joy Division e do New Order.

Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, por sua vez, é cheio de surpresas – mas, advertimos, não é para quaisquer ouvidos. A compilação pode ser dividida em três momentos diferentes. As primeiras cinco faixas (instrumentais, como quase todas do CD) formam o bloco mais acessível. Gravadas entre 1980 e 1987, são canções com DNA pop, apesar da ausência de vocais. Hopkins exibe sua habitual proficiência nos teclados, enquanto Hannett se ocupa da “cozinha”: ele toca baixo e bateria nessas gravações. E na funky “Huddersfield Wastes”, Martin toca até guitarra ritmica. Mas é nesse terço do disco é que se pode notar com absoluta nitidez a famosa marca registrada de muitos discos produzidos por Hannett, em especial os do Joy Division: o som da bateria, seco e esparso, com um eco sutil, mas ainda assim notável.

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Martin Hannett & Steve Hopkins: The Invisible Girls (2015)

O bloco seguinte é o mais perturbador e sombrio. Nele predomina a contribuição de Martin Hannett como produtor e co-autor de trabalhos de artistas e bandas como Nico (“Procession”, uma das raras faixas cantadas do disco), Section 25 (“Collective Project”), Crispy Ambulance (“Concorde Drone”), Vini Reilly / Durutti Column (“First Aspect of the Same Thing” e “Second Aspect of the Same Thing”). Nesse mesmo segmento do álbum há espaço ainda para uma incursão solo de Hannett, “The Music Room”, porém creditada aos Invisible Girls, e a retomada da dobradinha com Hopkins em “Space Music”, um experimento com sintetizadores. Esse seria o “Lado B”: mais experimental, em vários momentos parece que estamos ouvindo velhos discos de krautrock. Mas esse grupo de canções nos ajuda a entender os caminhos e territórios percorridos pelas bandas que Martin produziu ao longo da sua carreira.

As bonus tracks vêm no terceiro lote: são as canções da trilha sonora de All Sorts of Heroes. Na verdade trata-se de uma peça homônima dividida em nove partes. Desta vez parece que estamos ouvindo pequenas jammings de um minuto e meio ou dois. A bateria floreada, o sax e o piano evocam um clima jazzy que em nada lembra a orientação leftfield dos Invisible Girls. Há ecos do chamado “rock progressivo” aqui e ali. Curioso, se levarmos em consideração que essas gravações foram feitas um ano antes da explosão do punk rock na Inglaterra – e em 1977 Martin Hannett estaria produzindo o EP Spiral Scratch, dos Buzzcocks. Existiriam mais conexões entre o prog rock e o punk do que faz crer nossa vã filosofia? Talvez a obra feita nas sombras, quase “invisível”, do The Invisible Girls seja a resposta a essa questão.

Enfim, a semente do que Hannett plantou nos discos do Joy Division e dos primórdios do New Order foi produzida em laboratório nos experimentos realizados com Steve Hopkins no Invisible Girls, uma banda cujo papel de coadjuvante não significou, em momento algum, ser ofuscado pelo brilho das estrelas principais. Pelo contrário: o envolvimento da dupla fez toda a diferença. Infelizmente, esse gênio dos estúdios não viveu o bastante para prosseguir colocando sua assinatura tanto em discos alheios quanto no trabalho do Invisible Girls: após se afundar no álcool e nas drogas ao longo da década de 1980, Martin nos deixaria em 1991, aos 43 anos, devido a um ataque cardíaco.

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CURIOSIDADES | Filha de peixe(s)…

14354-hot-vestry-performed-on-stage-at-live-1000x0-1Apesar de se relacionarem desde o finalzinho da década de 1970, Gillian Gilbert e Stephen Morris, respectivamente tecladista e baterista do New Order, só se casaram nos anos noventa. Após a oficialização da união, tiveram duas filhas – Matilda e Grace. A mais nova (Grace) veio a precisar de cuidados especiais porque desenvolveu mielite transversa aos 18 meses de idade. Isso foi em 2001, logo após o New Order ter finalizado o álbum Get Ready, o que fez com que Gillian se afastasse da banda para dedicar-se a cuidar dos problemas de saúde da menina. Hoje, felizmente, Grace está completamente recuperada, embora ainda necessite de alguma atenção médica. Mas, pelo o que se pode notar na foto abaixo, ela realmente parece ótima (e é a cara da mãe).

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Mas este post é sobre Matilda, ou “Tilly”, a irmã mais velha de Grace (a diferença entre elas é de quatro anos). Tilly resolveu, pelo menos por enquanto, imitar os passos dos pais e está começando a trilhar uma carreira no meio musical. Usando o segundo nome, Florence, como se fosse um sobrenome, provavelmente para evitar desagradáveis pressões ou comparações com os pais famosos, Tilly se juntou à banda Hot Vestry como tecladista. A escolha da função não é nenhuma surpresa: esse não somente foi o posto que consagrou sua mãe no New Order como também todos sabem que seu pai nunca foi “apenas” um baterista, já que ele era o outro responsável pelas bugigangas eletrônicas da banda. Em outras palavras, Tilly certamente cresceu esbarrando o tempo todo em sintetizadores, samplers e baterias eletrônicas espalhados pela casa – e deve ter passado mais tempo brincando com as “ferramentas” dos pais do que com bonecas.

O Hot Vestry já existia como um trio antes de Tilly entrar para o time. Faziam parte da banda até então os irmãos Harry (bateria) e Joe Ward (baixo e voz), e também Will Taylor (guitarra). Com a entrada de Tilly, em 2012, a banda ganhou uma roadie especial: Gillian. Uma vez que nessa época todos ainda eram menores de idade (na faixa dos 17 anos), ninguem tinha carteira de motorista, então coube à “Sra. Morris” o papel de conduzir os candidatos ao estrelato para os ensaios e para os shows. Mas apesar da juventude, o Hot Vestry tem um bom currículo. Eles já abriram shows de nomes de peso, como The Charlatans, The Pop Group, Johnny Marr (que volta ao Brasil em junho deste ano) e, é claro, o New Order. Além disso, o grupo já lançou dois EP’s, Tell Me How It’s Done, de 2013, que na verdade é praticamente um mini-álbum (possui sete faixas), e o recém lançado A Scene in Between. Este último foi mixado por Jim Spencer (com uma ficha vasta de colaborações que inclui New Order, Johnny Marr, Oasis, Echo & The Bunnymen, Paul Weller) e Tim Burgess (vocalista dos Charlatans).

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Mas e o som do Hot Vestry? Os teclados e das programações de Tilly denunciam as já esperadas ligações com o synthpop e a new wave. As linhas de baixo possuem, sim, ecos de Peter Hook. Mas as conexões com o New Order e a década de 1980 param por aí. O Hot Vestry tem uma forte veia experimental-lisérgica que os situa também na virada dos anos 60/70, algo referenciado, inclusive, no próprio visual dos músicos (atenção às camisas de estampas com motivos psicodélicos). Vale a pena uma conferida no streaming do EP A Scene in Between na página do grupo no Soundcloud e, também, o vídeo oficial de “Parallel to Tomorrow”.