NEWS | Peter Hook anunciará datas para a América do Sul

Light-Logo-300x300A novidade foi divulgada ontem: em sua conta no Twitter, o ex-baixista do Joy Division e do New Order, Peter Hook, publicou um post com a hashtag “#Substance2016” e no qual disse que nos próximos dias seriam divulgadas as datas de uma turnê pela a América do Sul. Em suas próprias palavras: “Nós temos algumas novas datas da turnê para anunciar em breve – dessa vez na América do Sul!”. A hashtag “#Substance2016” nos dá a entender de que ele deverá trazer para estas bandas seu show mais recente, no qual toca, na íntegra, os álbuns/coletâneas Substance do New Order e do Joy Division, lançados, respectivamente, em 1987 e 1988.

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Peter Hook já esteve aqui no Brasil com sua banda-tributo The Light em outras três ocasiões: na primeira, em 2011, tocou o álbum Unknown Pleasures (1979), do Joy Division; na segunda, dois anos depois, após um rápido set de canções do JD, apresentou os LPs MovementPower, Corruption and Lies, do New Order, entremeados por todos os singles lançados pela banda entre 1981 e 1983, incluindo “Blue Monday”; na terceira, em 2014, ele “homenageou” o New Order mais uma vez tocando os discos Low Life (1985) e Brotherhood (1986), além de singles como “Thieves Like Us”, “Shellshock” e “True Faith”. O The Light é formado, além de “Hooky”, por seu filho, Jack Bates (baixo), Andy Poole (teclados) e dois antigos colegas dos tempos do Monaco (projeto paralelo ao New Order nos anos 1990), David Potts (guitarra e vocais) e Paul Kehoe (bateria).

PETER HOOK & THE LIGHT / Discografia (somente formato físico):

  • Perform Unknown Pleasures Live at Goodwood (2010)
  • 1102 | 2011 (EP, 2011)
  • Unknown Pleasures Live in Australia (2011)
  • Joy Division’s Unknown Pleasures and Closer Live at Hebden Bridge (2015)
  • New Order’s Movement and Power, Corruption and Lies Live at Hebden Bridge (2015)
  • New Order’s Low Life and Brotherhood Live at Hebden Bridge (2015)
  • So This Is Permanence

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MEMÓRIA | 1986/1987: o New Order conquista os EUA (e o mundo)

8e0704ba4bb4328098d54e41f6dd8309“Foi um show sensacional. Eu estava mais ou menos na quarta fileira, do mesmo lado onde Peter Hook estava no palco. Acho que me lembro de Bernard vestindo um short e uma camiseta da Adidas. Mais de uma vez vi garotas correndo e subindo ao palco para abraçá-lo”.

O trecho acima, publicado no site New Order On Line, faz parte de um breve relato de Tim Treat sobre o show do New Order no Poplar Creek Music Theatre, Chicago (EUA), no dia 16 de agosto de 1987. A cena descrita por Tim mostra o quanto a banda, naquela altura, já se encontrava bem distante no tempo e no espaço da atmosfera que cercava os concertos de sua primeira encarnação. A título de compração, o contraste entre essa apresentação e o famoso – porém infame – show do Joy Division no Derby Hall, em Bury (Inglaterra), no dia 08 de abril de 1980. Em vez de um anfieatro com capacidade para 20 mil pessoas, no qual já haviam tocado estrelas de primeira grandeza do rock/pop como Peter Frampton, B.B. King, Liza Minelli e Tina Turner, o Derby Hall era um antigo edifício vitoriano neoclássico com pouco mais de 500 lugares; além disso, o show do Joy Division ficou marcado por um grande tumulto, com direito a garrafas atiradas no palco e pancadaria generalizada. O episódio está bem representado no filme Control, de Anton Corbijn.

O show em Chicago, bem como toda turnê do New Order pelos Estados Unidos naquele ano, simbolizavam uma conquista: o sucesso comercial aliado à independência. A banda finalmente havia alcançado o sucesso que parecia reservado ao Joy Division, mas que fora adiado graças ao suicídio de seu vocalista e, também, timoneiro: Ian Curtis. Muitos talvez não saibam, mas naquela época, o último terço da década de 1980, não existia ainda o revival em torno do Joy Division; seu nome ainda não desfrutava do reconhecimento nem do sucesso com os quais foi laureado tardiamente. Foi como New Order que os sobreviventes do fim trágico operado por Curtis – Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris – conseguiram “chegar lá”. Naqueles tempos poucas eram a bandas que detinham o sucesso de público e, ao mesmo tempo, os aplausos da crítica.

O ano de 1987 foi, portanto, especial para o New Order. O grupo havia conquistado um dos maiores – e mais difíceis – mercados da música pop mundial: o norteamericano. Curiosamente, foi nos Estados Unidos (mais especificamente em Nova Iorque), bem no comecinho da década de oitenta, que o New Order encontrou a “tábua de salvação” que lhes libertou das sombras de Ian Curtis e do Joy Division. Já mais abertos às experimentações com sintetizadores e percussão eletrônica, resultado do período de estágio com o produtor Martin Hannett, o homem por trás das inovações sonoras presentes nos dois LPs do Joy Division – Unknown Pleasures e Closer -, Sumner, Morris e Hook, além de Gillian Gilbert (convidada a juntar-se ao trio poucos meses após a reestreia como New Order), incorporaram à sua música os beats e os grooves do pop eletrônico negro. Quando voltaram para a Inglaterra, já não eram mais os mesmos.

Em sua terra natal, produziram, em seguida, uma sucessão de singles de doze polegadas de grande êxito, como “Temptation”, “Blue Monday”, “Thieves Like Us” e “The Perfect Kiss”, bem como álbuns que, naquela época, tinham ares de novidade (Power, Corruption and Lies e Low Life), embora ninguem tivesse ideia precisa (pelo menos não naquele tempo) do quanto esses discos estavam antecipando o futuro do pop. Mas a “Conquista da América” começou a ser pavimentada mesmo em 1986, cinco anos depois das primeiras incursões pelos clubs de Nova Iorque. O filme Pretty in Pink, de John Hughes, lançado em fevereiro daquele ano, além de ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria, ajudou a popularizar a música do New Order, já que trazia em sua trilha sonora três canções da banda (mas apenas “Shellshock” foi incluída no LP). Meses mais tarde, em novembro, o single “Bizarre Love Triangle”, o único saído do álbum Brotherhood, tomou de assalto as paradas de sucessos nos EUA: entrou no Top 10 na parada oficial de singles e ocupou a quarta posição na parada de Dance Club Songs da revista Billboard. Nada mal para uma música que, na Inglaterra, havia atingido o primeiro lugar tão somente na parada independente (na parada oficial não chegou sequer ao Top 50, vejam só).

Mas o New Order tomou de vez a América para si em agosto de 1987, quandos os singles da banda apareceram reunidos em um álbum duplo intitulado Substance. Dos doze singles incluídos no LP, nove não faziam parte de nenhum outro álbum já lançado pelo grupo; os demais, por outro lado, eram remixes expandidos em vez de album versions. O disco fez um enorme sucesso nos dois lados do Atlântico, mas foi nos Estados Unidos onde ele alcançou sua maior marca, ultrapassando 1 milhão de cópias vendidas. O impacto de Substance sobre o mercado norteamericano foi algo sem precedentes – de uma hora para outra resenhistas de influentes publicações estadudinenses, do The Village Voice à Playboy, estavam dedicando linhas ao disco e à banda. Também foi em 1987 que os LPs do New Order, de Power, Corruption and Lies a Substance, começaram a ser distribuídos no mercado brasileiro pela WEA (no ano seguinte a banda estaria aqui pela primeira vez para uma série de shows).


Fotos: New Order nos EUA com Echo & The Bunnymen (1987)

O lançamento de Substance nos EUA foi o estopim de uma turnê norteamericana ao lado do Echo & The Bunnymen (outra importante banda britânica da década de 1980) e o glam gothic Gene Loves Jezebel. A excursão começou em Minneapolis, no dia 13 de agosto de 1987, e terminou Berkeley, Califórnia, no mês seguinte. Foram lançados, para fins de divulgação da turnê, dois discos promocionais: um flexi disc de dez polegadas que trazia um remix de “State of the Nation” e um set de três vinis de doze polegadas (cada um dedicado a uma das bandas), com o qual o New Order contribuiu com “True Faith”. Ambos os discos são hoje peças de colecionador.

A turnê foi um sucesso de público e os shows foram, na sua grande maioria, realizados em grandes espaços, como o já citado Poplar Creek, e também em outros famosos anfiteatros norteamericanos, como o Red Rocks, em Denver (Colorado), e o Irvine Meadows, na Califórnia. E anos mais tarde a revista Rolling Stone, em seu Album Guide (2004), afirmaria que Substance, ao lado de Purple Rain de Prince e Immaculate Colection de Madonna, seria um “guia para a música popular da década de 1980”. O LP acabou indo parar na Enciclopédia de Música Popular de Colin Larkin em 1989.

Nada mal para uma banda que já foi recebida no palco com garrafadas apenas sete anos antes, não é?

MEMÓRIA | “Academy”: um tesouro em VHS

academyfrontSe não fosse por um único item, a videografia oficial do New Order já teria sido relançada por completo em formato digital. Seus vídeos promocionais, popularmente conhecidos como “videoclipes”, foram todos reunidos no DVD A Collection, de 2005; o documentário New Order Story, dirigido para a TV por Paul Morley e laçando em VHS em 1993, também foi relançado vídeo digital (inclusive, chegou a ser vendido junto com A Collection em um box-set chamado Item); já os shows contidos nos títulos Taras Schevchenko (ao vivo no Ukrainian National Home, Nova Iorque, no dia 18 de novembro de 1981) e Pumped Full of Drugs (ao vivo no Shinjuku Kosei Nenkin Hall, Tóquio, em 02 de maio de 1985), foram relançados, respectivamente, como parte dos special features do DVD 3 16 (de 2001) e como item de catálogo exclusivamente no Japão pela Nippon Columbia.

Quem ficou de fora da lista de velhos videotapes transformados em discos digitais de vídeo foi o Academy. O home video foi lançado em 1989 pela Palace / Polygram, mas mostra o New Order tocando ao vivo em um show no Brixton Academy gravado no dia 04 de abril de 1987. Não se tratava de um show qualquer – era um concerto em apoio ao Dia Internacional da Aids. Além do New Order, se apresentou também no palco do Brixton Academy naquele mesmo dia uma outra banda de synthpop inglesa chamada Bronski Beat, que era formada apenas por integrantes gays. Enfim, até hoje desconheço qualquer explicação do por que desse VHS até hoje não ter sido relançado oficialmente em formato digital. O fato é que antes dele virar torrent ou cair no You Tube, ele circulava na base de cópias em DVD-R clandestinas/piratas entre frequentadores do fórum Thieves Like Us do Dry 201 Message Pub.

O interessante é que esse é um show do New Order clássico e da “Era Factory” que valeria a pena ser oficialmente relançado. Vejam bem, não que os outros não valessem, mas esse concerto no Brixton Academy é o único dos três lançados em VHS na década de 1980 que captura o New Order já no auge da carreira e não mais como uma cult band. Além disso, Academy também contrasta com Taras Schevchenko e com Pumped Full of Drugs no que diz respeito à reação do público – enquanto nos shows em Nova Iorque e em Tóquio o que se vê são plateias estáticas e silenciosas, a apresentação de 1987 possui uma vibe diferente, com uma audiência que pula e pulsa junto com o som que vem do palco.

academy2frontO show em si mesmo não chega a ser essa Coca-Cola toda não. É apenas ok. As versões ao vivo de “Bizarre Love Triangle”, “The Perfect Kiss”, “Age of Consent” e “Temptation”, que representam os pontos altos, são praticamente idênticas às do disco BBC Radio One: Live in Concert, de 1992 (mas que traz o registro do New Order tocando no festival de Glastonbury em 1987, dois meses depois dessa apresentação no Brixton Academy). “Love Vigilantes” e “Confusion” ainda soam melhores nas versões apresentadas em Pumped Full of Drugs (apesar da “bundamolice” por parte da plateia); “Ceremony” aparece aqui em uma versão cheia de erros, o tipo de coisa que não podia faltar (pelo menos não naquela época) em nenhum show do New Order; e “Dreams Never End”, em uma furiosa e ao mesmo tempo sublime versão (de longe superior à de Taras Schevchenko), foi, infelizmente, mutilada pela inserção de trechos de entrevistas com Peter Hook e Stephen Morris.

Estranhamente, “Touched by the Hand of God”, a música que abriu o show, foi a única que ficou de fora da edição final, sabe-se lá o por que. Não seria uma má ideia, caso algum dia se resolva relançar o Academy em DVD (afinal sonhar não custa nada), que a performance de “Touched…” seja recuperada. Por outro lado, não deixa de ser louvável a iniciativa de fãs geek que, nos primórdios da popularização do vídeo digital, converteram uma antiga (e em boas condições) cópia em VHS em uma versão digitalizada, caso contrário não teríamos a chance, na ausência de um lançamento oficial, de curtirmos esse registro histórico pelo You Tube, por exemplo.

Ainda me lembro de uma ocasião, bem lá no comecinho da década de 1990, em que o Centro Cultural Cândido Mendes, na Rua Joana Angélica, em Ipanema, fez uma sessão dupla de exibição de Pumped Full of Drugs e Academy em um domingo. Naquela época eu ainda não havia assistido a nenhum dos dois, não somente porque minha família, castigada pela crise financeira que assolava o país, não tinha videocassete, como também porque os dois títulos não tinham sido lançados no Brasil, de modo que não figuravam no catálogo das locadoras. Mas também não foi daquela vez que eu pude ver os dois home videos pela primeira vez: menor de idade e sem companhia para ir até Ipanema, fui totalmente desautorizado pelos meus pais a me aventurar sozinho por aquelas bandas…


New Order, Brixton Academy, April 1987 (Palace Video Ltd. / Polygram Home Video, 1989): Bizarre Love Triangle, The Perfect Kiss, Ceremony, Dreams Never End, Love Vigilantes, Confusion, Age of Consent, Temptation. Running time: 51 min. aprox.