25 ANOS | Estreia do Electronic comemora aniversário

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Primeiro LP do Electronic: 25 anos

“Que eu me lembre, o momento mais triste da minha vida, descontando questões de família, foi quando nos reunimos em um quarto de hotel em Los Angeles antes de um show no Irvine Meadows. Conversávamos sobre a Factory, pois a gravadora estava passando por problemas financeiros, quando Bernard anunciou que ele estava saindo para fazer suas coisas sozinho. Foi um choque para mim. Eu não esperava por isso. Eu não esperava não haver mais o New Order” (Peter Hook, extraído do livro True Faith: An Armchair Guide to New Order, Joy Division and Side Projects, de Dave Thompson, Helter Skelter Pub., 2005).

E foi isso mesmo: no finzinho dos anos 1980 o vocalista e guitarrista Bernard Sumner foi o primeiro membro do New Order a se ejetar da banda para ter uma carreira paralela. O parceiro escolhido nessa empreitada foi Johnny Marr, o cultuado ex-guitarrista do Smiths (com quem, aliás, Peter Hook havia tentado trabalhar também). Os dois se conheceram em 1984, durante a gravação de “Atom Rock”, single do grupo Quando Quango, produzido por Sumner e que contava com a participação de Marr como guitarrista convidado. A dupla começou a compor seu material por volta de 1988, mas apenas no final do ano seguinte, após a divulgação do álbum Technique, do New Order, e de Mind Bomb, LP do The The no qual Johnny havia tocado, que os dois, já batizados como Electronic, soltaram no mercado seu primeiro compacto: “Getting Away With It”.

Lançado pela Factory Records, “Getting Away With It” (FAC 257), que contou com a participação de Neil Tennant, dos Pet Shop Boys (e que também co-escreveu a música), chegou ao 12o lugar na parada inglesa. Segundo o New Musical Express na época: “É o mais completo disco pop da semana, por uma margem infinita… Uma adorável melodia derivada de uma canção gentilmente reforçada por uma obtusa e apaixonada espirituosidade. O disco consegue ser muito mais que a soma de suas partes e teimosamente recusa-se a desistir de sua dose de mistério”. No ano seguinte, Sumner/Marr, acompanhados do tecladista Andy Robinson (que era o técnico de teclados e programador de MIDI do New Order; atualmente, substitui Rob Gretton no papel de empresário da banda), do percussionista Kesta Martinez e do baterista Donald “DoJo” Johnson (A Certain Ratio), fazem sua estreia nos palcos abrindo shows para o Depeche Mode em sua turnê World Violation Tour.

O album de estreia, intitulado pura e simplesmente Electronic, sairia há exatos 25 anos, também pela Factory Records (FAC 290). Ao contrário do que muitos pensavam, não soava como uma “mistura de New Order com The Smiths”. Na verdade, naquela época, o Electronic ainda se parecia mais com o primeiro do que com o segundo. De acordo com o falastrão Peter Hook “As pessoas diziam que o Electronic soava como o New Order sem o baixo, o que deixava o Bernard doido!”. Isso era verdade. Ou, como Sumner disse, com suas próprias palavras, em sua autobiografia Chapter and Verse (2014, Bantam Press): “Ainda que eu estivesse entusiasmado com o fato de que nesse álbum Johnny tinha a ambição de aprender a mexer com música eletrônica, me animava que ele prosseguisse tocando sua guitarra de maneira genial. Me lembro de ter dito a ele no estúdio ‘Johnny, se você não tocar a porra dessa guitarra nesse disco, vão dizer que a culpa é toda minha’; e ele respondeu ‘Ok, ok, Bernard… Mas para que serve mesmo esse botão?’.  Johnny é um músico progressista, de mente aberta, e queria experimentar coisas novas. Mesmo sendo um dos melhores guitarristas da Inglaterra, ele enxergava a música eletrônica como sendo o futuro”.

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Tenho até hoje o vinil que comprei em 1991, na extinta Mesbla

O blend resultante da fusão entre rock e música eletrônica certamente aproximou o som do LP de estreia do Electronic da identidade musical do New Order. Todavia, o envolvimento dos Pet Shop Boys (Neil Tennant e Chris Lowe) também contribuiu para que faixas como “The Patience of a Saint” soassem, segundo palavras do crítico musical carioca Tom Leão, como um “PSB esquisito”. Nesse caso, parece que estamos ouvindo um outtake de Behaviour, disco que os “Rapazes da Loja de Bichos de Estimação” lançaram meses depois de Electronic e que contou com uma mãozinha de Marr. Em todo caso, ainda que o primeiro dos três discos lançados pelo duo Sumner/Marr não superasse em nada o que o New Order já tivesse feito, nem trouxesse uma pitada sequer de The Smiths, ele foi um inquestionável sucesso: alcançou o segundo lugar na parada inglesa de álbuns e o primeiro na parada americana da Billboard Heatseekers (uma parada da revista Billboard dedicada a artistas novos ou em crescimento). O álbum vendeu mais de um milhão de cópias no mundo todo e recebeu resenhas positivas das principais revistas sobre música e cultura pop. Foi um dos “Discos do Ano” de 1991 para a Melody Maker e para o New Musical Express.

O disco saiu no Brasil, mas com relação a isso existe uma curiosidade. Enquanto que na Inglaterra o álbum foi lançado sem “Getting Away With It” (prática, aliás, comum naqueles tempos, isto é, singles que não eram incluídos nos LPs), aqui a faixa, que tocou nas rádios e na MTV, foi introduzida no vinil pela gravadora brasileira. Entretanto, acabaram deixando de fora da edição nacional a excelente faixa “Gangster”, presente apenas no CD. Todos os singles de Electronic tiveram seus vídeos exibidos no Brasil: “Get the Message”, “Feel Every Beat” e as duas versões para “Getting Away WIth It”. Nenhum deles entrou nas paradas brasileiras, nem nas rádios, nem no Disk MTV. Todavia, figuraram no Top 10 Europa, que a MTV Brasil exibia em sua programação.

Apesar de hoje em dia soar meio datado em termos musicais ou em matéria de timbres e texturas (o que, na verdade, é algo meio relativo se prestarmos bem a atenção no som das bandas eletrônicas e híbridas de hoje em dia), mais ou menos como ouvir nos dias de hoje um LP de disco music de quarenta anos atrás, Electronic se tornou, com o passar do tempo, um clássico dos anos 1990. Ele é um daqueles discos que parece soar melhor e mais brilhante hoje do que há vinte e cinco anos. Os relançamentos, primeiro em uma versão expandida em CD duplo (2013) e, depois, em vinil de 180 gramas (2014), só contribuem para manter sua longevidade e o interesse do público. Ainda é o melhor álbum feito por um integrante do New Order fora da banda titular. Os demais, o ex-baixista Peter Hook, o baterista Stephen Morris e a tecladista Gillian Gilbert, até fizeram coisas legais e que merecem uma revisão com um pouco mais de boa vontade (Revenge, Monaco, The Other Two) – mas nada que tenha chegado ao mesmo nível da estreia do Electronic.

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Minha primeira edição em CD (alemã) autografada: não foi comprada no eBay!

Para terminar, disponibilizamos a seguir, o scan de uma matéria no “Segundo Caderno” do jornal O Globo, escrita por Tom Leão, sobre o lançamento do nosso disco-aniversariante, em setembro de 1991 (quando o álbum já tinha saído lá fora). Só lamento dizer a ele que a sentença com a qual terminou seu texto, felizmente, não se concretizou…

Matéria Segundo Caderno

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MEMÓRIA | Às vésperas das Olimpíadas de 2016, canção oficial da Seleção Inglesa na Copa de 1990 comemora 25 anos

world-in-motion“Esta deve ser a gota d’água para os fãs do Joy Division” (Bernard Sumner, New Musical Express, 1990).

Deve ter sido mesmo. Ou não. Na época em que Sumner deu essa declaração o New Order já era conhecido por derrubar mitos à respeito de si mesmo. Com “World in Motion”, single lançado exatamente há 25 anos, derrubaram mais um: o de que uma banda tão respeitada pela crítica e famosa por ter conseguido alcançar sucesso sem fazer concessões ao showbiz seria capaz de lançar um disco propositalmente comercial, como pura piada. Todavia, “World in Motion” foi bem mais que o tema oficial da Seleção Inglesa de futebol para o Mundial de 1990, na Itália; foi o primeiro e único single do New Order a atingir o primeiro lugar da parada mainstream no Reino Unido e, também, seu último trabalho pela gravadora que lhe abriu as portas quando ainda atendiam pelo nome Joy Division: a mítica Factory.

Lembro-me como se fosse hoje: um certo dia, bem no comecinho do Mundial da Itália (a Copa nesse ano havia começado no dia 08 de junho), eu acordei pela manhã bem cedo (sem necessidade, pois nessa época eu estudava no turno da tarde) e, ao final do “Bom Dia Brasil”, na Rede Globo, foi exibido o tal do “Bom Dia Itália”; naquela edição, o programa fez meu coração pulsar mais forte quando noticiou que sairia naquele mesmo dia, na Inglaterra, a canção nova que o New Order havia feito para a Seleção Inglesa, com direito à exibição de rápidos segundos do vídeo promocional (ver ao final do post), acompanhado do som. Não deu para sacar muita coisa, mas fiquei naquela expectativa: “Será que vai tocar no rádio? Vai sair em algum LP novo?”. Naquela época eu ainda não tinha muito a noção desse lance de existirem singles que não eram lançados em álbuns, logo levei ainda bastante tempo para um dia conseguir ouvir “World in Motion” de cabo a rabo.

As histórias por trás de “World in Motion” são curiosas. Tudo começou quando o baterista Stephen Morris pediu que Tony Wilson, o dono da Factory, pregasse uma peça nos demais integrantes da banda sugerindo um projeto entre a English Football Association e o New Order. Porém, Tony levou a coisa a sério, vendeu à FA a ideia da banda fazer uma música e, em seguida, disse ao grupo que tinha sido a Federação que levantou essa proposta! O que era, inicialmente, uma brincadeira de Morris, com a cumplicidade de sua parceira, a tecladista Gillian Gilbert, virou outra coisa. Um ano antes a dupla estava envolvida em outro projeto, cujo prazo estourou. No entanto, alguma coisa desse trabalho pode ser aproveitada: o ponto de partida de “World in Motion” foi uma peça musical em que os dois estavam desenvolvendo (como a dupla The Other Two) para o programa Reportage, da BBC. Além disso, juntou-se à banda o comediante, ator e apresentador de TV Keith Allen para dar uma força na composição.

A “cereja do bolo”, no entanto, foi a participação de jogadores do próprio escrete inglês, como Paul Gascoigne, Peter Beardsley, Des Walker e, principalmente, John Barnes, como “backing vocals”. Barnes teve uma atuação particularmente destacada, já que ele cantou o famigerado trecho do “rap” – cuja letra ele mesmo escreveu e cantou de uma vez só, num único take!

Na Copa do Mundo de 2002 (Coreia do Sul / Japão), o single foi relançado pela London Records, tendo “Such a Good Thing” (sobra de estúdio do álbum Get Ready) como b-side, e a canção foi escolhida como tema oficial para o Mundial pela BBC Radio Five Live. Embora não obtendo o mesmo desempenho de outrora nas paradas, “World in Motion” se firmou como a “Canção de Copa do Mundo” favorita dos ingleses, título que ela não perdeu até hoje.

Quando eu tive o single nas mãos pela primeira vez, eu não conseguia parar de ouvir – nem de repetir “We’re playing for England…”. Mas o tempo foi passando, os ouvidos foram ficando mais exigentes e, naturalmente, o disco hoje está (muito) longe de estar entre os meus favoritos do New Order. Ainda assim, eu tenho todas as versões oficiais dele: vinil de 7″, vinil de 12″ e os dois CDs singles (o original de 1990 e o relançamento de 2002, pela London).