REVIEW | Avaliamos a caixa “B-Box: Lust & Sound In West Berlin”

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Unboxing the B-Box

Fazia um bom tempo que não se publicava aqui no blog um video review, mas o lançamento da caixa B-Box, um item luxuoso (e de tiragem limitada) que propõe uma verdadeira imersão no universo do fime/documentário B-Movie: Lust & Sound in West Berlin 1978-1989, parecia ser um ótimo motivo para ficar em frente a câmera e apertar o “REC”. Dirigido por Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck, Heiko Lange e Miriam Dehne, o filme é um registro do cenário musical e cultural de vanguarda da antiga Berlim Ocidental ao longo da década de 1980 e que procura revelar o que despertou o fascínio de gente como David Bowie, Iggy Pop ou Nick Cave, que gravaram trabalhos importantes e inspiradores enquanto estiveram por aquelas bandas, como LowThe IdiotTender Prey. O filme foi construído a partir do que foi capturado pela câmera de Mark Reeder, músico e produtor que deixou Manchester (Inglaterra) em 1978 para ir a Berlim encontrar seus ídolos do krautrock (como Edgar Froese, do Tangerine Dream) e que por lá acabou ficando. Além de se tornar o representante da Factory Records na então Alemanha Ocidental, tornando-se doravante o responsável por divulgar o Joy Division e o A Certain Ratio, Reeder trabalhou com nomes locais como Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten, Nick Cave & The Bad Seeds),  Die Toten Hosen e Malaria!, e teve suas próprias bandas (Die Unbekannten e Shark Vegas). A caixa é uma experiência completa através de diferentes mídias: o filme, a trilha sonora, livro… Maiores detalhes no vídeo e, também, na galeria de fotos. Já sobre a relação entre Reeder/B-Movie e o Joy Division ou o New Order, é só dar uma conferida em um post que fizemos anteriormente.



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WHO IS? | Mark Reeder: o homem da Factory (e do New Order) na Alemanha

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Mark Reeder: de Manchester a Berlim

Já dissemos isso aqui em outra ocasião, mas não custa nada repetir: o sucesso de um artista solo ou banda não depende apenas de talento. Um pouco de sorte cai bem, é claro, mas ter pessoas certas atuando nos bastidores, fora da luz dos holofotes, também faz a diferença. Que o digam os Beatles: sim, eles eram geniais e carismáticos, mas a história deles teria sido a mesma sem Brian Epstein, George Martin ou Geoffrey Emerick? Talvez não. Quando se fala de Joy Division e New Order, impossível não mencionar Tony Wilson, Rob Gretton ou Martin Hannett. Para o bem ou para o mal. Ao longo da história dessas duas bandas, outros nomes mais ou menos ilustres foram deixando sua marca. Um exemplo é Arthur Baker, o DJ e produtor norteamericano que com a seminal “Confusion” ajudou o New Order criar um blend de synth pop inglês e puro eletrofunk negro novaiorquino. O resultado foi eternizado em vinil.

Falaremos mais de Arthur Baker em outra ocasião. O personagem deste post é outro. Ele atende por Reeder. Mark Reeder. Mas quem ele é? Como Baker, ele é produtor musical. Bom, pelo menos é isso o que ele é hoje na maior parte de seu tempo. Entretanto, Reeder tem um longo currículo de serviços prestados à música – o que inclui vínculos sólidos e permanentes com o New Order. Assim como Baker.

Reeder, como o New Order, é de Manchester (norte da Inglaterra). Em 1977, ele criou, ao lado de Mick Hucknall (do Simply Red), a banda punk Frantic Elevators. O primeiro contato com o membros do Warsaw (versão embrionária do Joy Division) aconteceu nessa época, período no qual vinha se formando em Manchester uma cena punk cuja explosão fora detonada por uma histórica apresentação dos Sex Pistols na cidade. Mas Reeder não ficou muito tempo com os Frantic Elevators (que, na verdade, sequer duraram muito) e, no ano seguinte, mudou-se para a Berlim Ocidental. A transferência para a (hoje extinta) República Federal da Alemanha, no entanto, deu início ao relacionamento que perdura até os dias de hoje: Reeder se transformou no representante da Factory Records em solo alemão e a promoção de bandas como Joy Division e A Certain Ratio estava em suas mãos.

Em 1981, quando o Joy Division já havia se transformado em New Order, Reeder passou a administrar três carreiras simultâneas: homem da Factory na Alemanha Ocidental, engenheiro de som de bandas locais como Malaria! e Die Toten Hosen, e integrante (como guitarrista e tecladista) de um novo grupo, chamado Die Unbekannten (“o desconhecido”), formado com Alistair Gray (nos vocais) e Tommy Wiedler (ex-Nick Cave & The Bad Seeds, na bateria). O Die Unbekannten se transformaria, pouco tempo mais tarde, no Shark Vegas, com Wiedler sendo substituído por Leo Walter e, também, com a aquisição de um novo integrante, o baixista e tecladista Helmut Wittler. Com o Shark Vegas, Mark Reeder saiu em turnê com o New Order pela Europa Ocidental em 1984 (Alemanha Ocidental, Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica).

Mas até então, nada de colaborações em estúdio. Isso só viria a ocorrer, pela primeira vez, em 1986: o single de maior sucesso do Shark Vegas, “You Hurt Me”, foi produzido pelo vocalista e guitarrista do New Order, Bernard Sumner, que também contribuiu com um trecho de guitarra. O disco seria lançado pela Factory Records e, também, pelo selo da banda Die Toten Hosen. “You Hurt Me” foi uma peça-chave não apenas na consolidação da relação Reeder-Factory-New Order, como também aprofundou a amizade entre o músico-produtor radicado na Alemanha e Sumner, que vinha sendo cultivada desde os tempos em que Mark promovia o Joy Division em solo germânico. “You Hurt Me” hoje está disponível em CD em diversas coletâneas, dentre elas Twice As Nice: Be Music, DoJo, Mark Kamins & Arthur Baker Productions, lançada pela LTM Recordings em 2004.

Reeder também foi um personagem fundamental por trás do single responsável pelo retorno triunfal do New Order no começo do século XXI. Em 1999, o produtor era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao amigo, Bernard Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e a deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa. Chamaram-na de “Crystal”. Nascia um clássico.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, a “mão invisível” do destino agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records (gravadora do New Order na época), Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a versão do New Order fosse lançada. É a lei do dinheiro. Mas o resto é história: “Crystal” atingiu o #8 na parada britânica de singles, #1 na parada Hot Dance Singles Sales da revista Billboard (EUA) e ajudou a colocar o álbum Get Ready (2001) em sexto lugar na Inglaterra. A versão “original” hoje pode ser encontrada em um dos álbuns “solo” de Reeder: Collaborator, de 2014 (Factory Benelux).

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12″ com remixes de Corvin Dalek para sua “versão original” de “Crystal” com Mark Reeder (lançado após versão do New Order)

O imbroglio envolvendo “Crystal” não abalou a relação Reeder/Sumner, ou Reeder/New Order. Em 2009, dois anos após a tensa separação do New Order (marcada por desentendimentos públicos com o hoje ex-baixista Peter Hook), saiu o primeiro e único álbum do Bad Lieutenant, Never Cry Another Tear (Triple Echo Records), grupo que Bernard Sumner formou com os guitarristas Phil Cunningham (ex-Marion, New Order) e Jake Evans (ex-Rambo & Leroy). Mark, a pedido de Sumner, remixou os dois singles do “Bad Loo”: “Sink or Swin” e “Twist of Fate”. Essas versões foram posteriormente incluídas em uma outra compilação de remixes de Reeder, Five Point One (2011). Aliás, tanto Five Point One quanto Collaborator são dois discos altamente recomendáveis – o blog assina embaixo.

Este ano, Mark Reeder voltou a dar o ar da graça para os fãs do New Order. Ele foi um dos responsáveis pelos remixes do último e mais recente single da banda, “Singularity”, o terceiro saído do álbum Music Complete, lançado no ano passado. “Singularity” acabou alcançando o primeiro lugar da parada britânica de singles físicos (CD e vinil). A escalação de Reeder não foi por acaso. Para promover o single, foi feito um vídeo contendo cenas extraídas do filme alemão B-Movie: Lust and Sound in West Berlin 1978-1989, lançado no ano passado. O personagem principal da película é o próprio Reeder. Dirigido por Jörg Hoppe, Klaus Maeck, Heiko Lange e Miriam Dehne, é um filme experimental, que mescla imagens documentais e outras reconstituídas, mas dispostas cronologicamente, e que retrata o desenvolvimento não apenas de uma cena musical, mas de todo um caldo cultural, que vai do punk até a Love Parade (maior festa de música eletrônica da Alemanha) e a criação da MFS. Mark também esteve diretamente envolvido na trilha-sonora do filme, como curador e, também, estrela de várias faixas. Uma versão “reconstruída” de “Komakino”, do Joy Division, foi incluída. Junto com lançamento do filme em DVD e Blu Ray, foi lançada também a trilha-sonora em CD e LP duplos. 

Reeder é mais um elo da conexão New Order – Alemanha que começou, evidentemente, com Ian Curtis, ainda nos tempos do Joy Division, e sua obsessão por tudo o que vinha de lá (como o Kraftwerk, por exemplo). Porém, para ficarmos apenas na nossa paróquia, recomendamos uma espiada nos trabalhos do moço com outros artistas como John Foxx, Depeche Mode, Marsheaux, Anne Clark ou Westbam. Vale a conferida.

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NEWS | Documentário sobre cena cultural da antiga Berlim Ocidental tem Joy Division na trilha sonora

“A cidade murada tornou-se o caldeirão criativo para as culturas subterrânea e pop. Antes da Cortina de Ferro cair, tudo e qualquer coisa pareciam possíveis. B-MOVIE é uma colagem em ritmo acelerado de imagens até hoje inéditas em filme ou na TV de uma época frenética, mas criativa, começando com o punk e terminando com a Love Parade, em uma cidade onde os dias são curtos e as noites são infinitas. Não era sobre sucesso a longo prazo, mas sobre viver o momento – o aqui e o agora”.

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Esta é a breve sinopse do documentário alemão dirigido por Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck e Heiko Lange, intitulado, B-Movie: Lust & Sound in West Berlin 1979-1989 (trad.: “Filme B: Luxúria e Som em Berlim Ocidental 1979-1989”). Lançado este mês em vários festivais de cinema europeu (após sua premiére na mostra Panorama no Festival de Berlim, em fevereiro), o filme, que mescla imagens de arquivo com outras reconstituídas, disseca a alma vanguardista da vida boêmia do que outrora foi conhecido como o “lado ocidental” de Berlim (eram os tempos da Guerra Fria, das “duas Alemanhas”, a “Ocidental”, capitalista, e a “Oriental”, comunista), uma síntese de vida noturna (bares, danceterias, “inferninhos” etc), produção musical, moda e artes plásticas, constituindo em um encontro improvável entre as culturas punk e pop. Dessa cena surgiram espaços/clubes que se tornaram lendários, como SO36 (que, em valor histórico e importância, equivale ao CBGB de Nova Iorque). Esse ambiente exótico e criativo atraiu muitos “imigrantes” que vieram absorver um pouco dessa atmosfera: Iggy Pop, David Bowie, Nick Cave e, também, Joy Division e New Order.

O “roteiro” do documentário se baseia nas memórias de um desses imigrantes – no caso, um imigrante para valer mesmo, no sentido estrito. Estamos falando de Mark Reeder, músico, produtor musical e DJ com origem em Manchester (Inglaterra) e que se mudou para Berlim nos anos 1980, tendo se naturalizado alemão logo em seguida. No final da década de 1970, Reeder, ao lado Mick Hucknall (Simply Red), integrou a banda Frantic Elevators; além disso, era amigo pessoal de Bernard Sumner (Joy Division / New Order). Após mudar-se para Berlim, tornou-se representante da Factory Records na Alemanha, formou a banda Shark Vegas (que abriu shows de uma turnê alemã do New Order e teve o single “You Hurt Me” produzido por Sumner) e, mais tarde, criou o selo/gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (MFS).

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A trilha sonora de B-Movie também não poderia ser mais “germânica”, ainda que nem todos os artistas sejam de origem alemã: Einstürzende Neubaten, Edgar Froese (do Tangerine Dream), Die Toten Hosen, Anne Clark (poetisa que declama seus poemas acompanhada de arranjos musicais eletrônicos), Sex Pistols, Nick Cave, Westbam (que já gravou o single “She Wants” com Bernard Sumner) e Joy Division.

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