REVIEW | “Movement: Definitive Edition”

C69E2D5A-C126-4963-A5E1-B675CE5F1708Há uma semana saía (lá fora) a super-aguardada “edição definitiva” de Movement, o sombrio álbum de estreia do New Order, lançado originalmente em 1981. Embalado em uma luxuosa caixa contendo um LP, dois CDs, um DVD e um livro, a nova versão do début da “Nova Ordem” parece ser o primeiro de uma série de reedições em formato deluxe de seu antigo catálogo. Na esteira do lançamento do box set, a Warner reeditou em vinis de 12” polegadas três singles do New Order do período 1981-82, distribuídos em quatro discos: duas versões diferentes de “Ceremony”, “Everything’s Gone Green” e “Temptation”. Atenção, navegante: fique de olho no limite do seu cartão de crédito!

O conteúdo exato da caixa é: o álbum original totalmente remasterizado em vinil e em CD, um disquinho recheado de material extra, como demos, mixagens alternativas e gravações de ensaio e um DVD com vídeos ao vivo – em sua grande maioria inéditos ou raros. O livro, com capa dura, páginas impressas em papel de altíssima gramatura, sem falar nas belíssimas fotos, é um mimo à parte. Enfim, há motivos de sobra para os fãs desembolsarem com gosto seu suado dinheirinho nessa caixa.

O estojo que abriga todos esses caprichos exibe a elegância e o minimalismo que se tornaram marcas registradas da identidade visual da banda. Todavia, Peter Saville, o artista que assinou o design gráfico original, não esteve envolvido no projeto, que ficou a cargo de dois antigos colaboradores seus: Howard Wakefield (criação) e Warren Jackson (direção de arte). Saville agora está envolvido com novas experiências criativas e deixou de lado as capas de discos após décadas produzindo algumas das mais brilhantes e icônicas da história do pop. A última capa que ele criou para o New Order foi a de Music Complete, de 2015.

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O álbum original – em LP ou CD – não traz nenhuma surpresa. É o mesmo tracklist de 1981 e com as faixas na mesmíssima ordem. A remasterização é de 2016, conduzida pelo engenheiro de som Frank Arkwright nos estúdios Abbey Road, e que anteriormente estava disponível apenas nos formatos streaming e digital download. Diga-se de passagem, ela é muito superior à remasterização de 2008, aquela feita para o frustrante projeto Collector’s Edition. Arkwright é um autêntico artista da engenharia de som e isso já havia ficado patente, por exemplo, no relançamento do catálogo do Joy Division anos atrás. Entretanto, como de costume, a Warner cometeu seus pecados habituais. Além de ter colocado o código “FACD 50” na lombada da capa do vinil (!!!), a gravadora chegou a anunciar que a versão em CD feita para caixa seria no estilo mini vinyl replica (reprodução exata do artwork do LP para o formato compact disc) – mas o mesmo “FACD 50” impresso na parte frontal e as visíveis diferenças nas proporções do projeto gráfico mostram que a promessa não foi cumprida.

Mas essas, digamos assim, trapalhadas passam perfeitamente batidas quando se considera tantas coisas maravilhosas reunidas em um único pacote. O CD de “extras”, por exemplo, tem tudo aquilo que os fãs sempre esperaram que viesse à luz do dia em formato digital. É bem verdade que as Western Works Demos – com o trio remanescente do Joy Division (Sumner, Hook e Morris) se revezando nos vocais – não são nenhuma novidade, ainda que esta seja a primeira vez que elas chegam ao público por vias oficiais. Porém, as gravações demo realizadas nos estúdios Cargo, Rochdale, em janeiro de 1981, são a joia da coroa desse disco. Nelas, as canções que mais tarde fariam parte de Movement, ou que foram lançadas em singles de 12” naquela época, aparecem sem o verniz dos arranjos definitivos e sem os decorativos efeitos de estúdio que o produtor Martin Hannett fez uso nas gravações que todos conhecem. Hannett também produziu essas demos, mas nelas ele deixou tudo soar de modo natural, o que nos permite vislumbrar o lampejo, ainda que tímido, do som que estaria por vir mais tarde – algo ocultado na mixagem final do LP. Preste a atenção na batida de “Mesh” e tire suas conclusões.

Um ensaio gravado de “Chosen Time”, que encerra o CD de material extra, também mostra que sem os truques de Hannett para modificar o som da bateria (sua marca registrada) o New Order já conseguia soar dance antes mesmo de assimilar os ritmos eletrônicos noturnos de Nova Iorque. Um mix alternativo de “Temptation” – a primeira tentativa real da banda de produzir música para as pistas de dança – reforça a tese de que talvez fosse esse o som que a “Nova Ordem” estava a perseguir desde o início. Todavia, foi uma busca em meio à escuridão forjada pelo fim trágico do Joy Division, origem de toda insegurança e hesitação que se ouve no material dessa época – e de um lado sombrio que teimou em perseguir o grupo por muito tempo.

O DVD tem também seus encantos. Pela primeira vez temos, na íntegra, a performance ao vivo da banda no extinto programa de TV Riverside, do canal BBC 2. Muitos se lembrarão dessa gravação por causa de um excerto de “Temptation” no documentário New Order Story, de 1993. Dentre as gravações avulsas, a de “Ceremony” no CoManCHE Student Union já era umas das favoritas deste que escreve antes mesmo de ser pinçada para o box set (está disponível no You Tube). Entretanto, a cereja do bolo é, sem dúvidas, o show no Hurrah’s, Nova Iorque, em 1980, ainda sem Gillian Gilbert na formação e possivelmente realizado com instrumentos adquiridos nos EUA após o roubo do seu equipamento original nas ruas da Grande Maçã (história já bastante conhecida entre os fãs do New Order). Infortúnios à parte, é um inédito registro com imagem e som de um curto período em que o grupo existiu como um trio, após o fim do Joy Division.

A cobertura de chantilly é o lindíssimo livro de 48 páginas. Além das notas habituais que situam o ouvinte no contexto da obra, temos fotos da banda ao vivo e dos instrumentos / equipamentos usados pelo New Order naquela época, para deleite do público geek. Há fotos de pôsteres e flyers de concertos também. Como bônus, o feliz proprietário do box set poderá ler uma transcrição da primeira entrevista oficial concedida pelo grupo.

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Não existem tantos artistas na história do pop cujos itens da discografia tenham recebido um tratamento dessa estatura. Com Movement: Definitive Edition, o New Order encontra-se agora ao lado de um seleto grupo formado Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Velvet Underground e Bowie. A nova caixa coloca a banda no seu devido lugar, dignificando seu catálogo e seu legado (em parte eclipsado pelo revival em torno do Joy Division). Além disso, nos faz olhar um disco historicamente subestimado com a indulgência que sempre lhe foi negada. E estabelece um alto parâmetro para as caixas que deverão vir a seguir.

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NEWS | “Movement” ganhará versão definitiva em caixa no ano que vem

61kMxR-O9IL._SL1500_Anotem em suas agendas: no ano em que Unknown Pleasures, seminal LP de estreia do Joy Division, comemorará 40 anos do seu lançamento, chegará às lojas de discos gringas a luxuosa (e cara) caixa com a “versão definitiva” do primeiro álbum do New Order. De acordo com a própria banda em suas redes oficiais, Movement: The Definitive Edition será lançado em abril do ano que vem e virá recheado com tudo aquilo que os fãs da banda esperam há anos – e principalmente após a frustrante experiência com as edições remasterizadas e expandidas de parte da discografia do grupo lançadas no formato CD em 2008.

O conteúdo do box set será o seguinte: o álbum original em vinil e em CD mini vinyl replica, um bonus disc com gravações demo feitas nos estúdios Western Works (Sheffield) e Cargo (Rochdale) e fitas de ensaio de faixas como “Procession” e “Chosen Time”, e um DVD abarrotado de performances ao vivo, dentre elas o show no Hurrah’s (Nova Iorque), de 26 de setembro de 1980, com a banda se apresentando ainda como um trio e com os três integrantes remanescentes do Joy Division – Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris – se revezando na função de vocalista (Gillian Gilbert, então namorada de Morris, seria incorporada ao grupo no mês seguinte). Um pequeno trecho desse concerto pode ser visto no You Tube.

A edição deste mês da revista Uncut traz uma longa matéria de capa sobre esse período da carreira do New Order e “entrega” que Movement: The Definitive Edition poderá ser tão somente o primeiro de uma série de lançamentos nesse formato. A pré-venda no site oficial da banda inclui um bundle exclusivo que traz a caixa mais reedições em vinil dos singles “Ceremony” (em suas duas versões), “Everything’s Gone Green” e “Temptation” com um desconto especial. O preço apenas do box set está estimado em aproximadamente £120 (cerca de R$ 590 reais).

LP / CD1 (original album)       

  1. Dreams Never End
  2. Truth
  3. Senses
  4. Chosen Time
  5. ICB
  6. The Him
  7. Doubts Even Here
  8. Denial

CD2 (previously unreleased tracks)   

  1. Dreams Never End (Western Works Demo)
  2. Homage (Western Works Demo)
  3. Ceremony (Western Works Demo)
  4. Truth (Western Works Demo)
  5. Are You Ready For This? (Western Works Demo)
  6. The Him (Cargo Demo)
  7. Senses (Cargo Demo)
  8. Truth (Cargo Demo)
  9. Dreams Never End (Cargo Demo)
  10. Mesh (Cargo Demo)
  11. ICB (Cargo Demo)
  12. Procession (Cargo Demo)
  13. Cries And Whispers (Cargo Demo)
  14. Doubts Even Here (Instrumental) (Cargo Demo)
  15. Ceremony (1st Mix – Ceremony Sessions)
  16. Temptation (Alternative 7”)
  17. Procession (Rehearsal Recording)
  18. Chosen Time (Rehearsal Recording)

New Order – Movement DVD

Live Shows
Hurrah’s, NY 1980:
In A Lonely Place
Procession
Dreams Never End
Mesh
Truth
Cries & Whispers
Denial
Ceremony

Recorded on 27th September, 1980.
Produced, directed and filmed by Merrill Aldighieri

Peppermint Lounge, NY 1981:
In A Lonely Place
Dreams Never End
Chosen Time
ICB
Senses
Denial
Everything’s Gone Green
Hurt – instrumental
Temptation

TV Sessions
Granada Studios 1981:
Doubts Even Here
The Him
Procession
Senses
Denial

BBC Riverside 1982:
Temptation
Chosen Time
Procession
Hurt – instrumental
Senses
Denial
In A Lonely Place

Extras
Ceremony CoManCHE Student Union 1981
In A Lonely Place Toronto 1981
Temptation Soul Kitchen, Newcastle 1982
Hurt Le Palace, Paris 1982
Procession Le Palace, Paris 1982
Chosen Time Pennies 1982
Truth The Haçienda 1983
ICB Minneapolis 1983

12” Singles

Ceremony (version 1) 
Recorded at Eastern Artists Recordings in East Orange, New Jersey, during the US visit the previous September, New Order’s first single might, in an alternative universe, have been Joy Division’s next. The 12” single, originally released in March 1981 (the 7” having been released in January) including the original version of ‘Ceremony’, will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Ceremony (version 1)
Side 2
In A Lonely Place

Ceremony (version 2) 
The alternative, re-recorded version of ‘Ceremony’ now also featuring Gillian Gilbert in the band was released later in 1981 and will feature the later alternative ‘cream’ sleeve rather than the original green and copper. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Ceremony (version 2)
Side 2
In A Lonely Place

Everythings Gone Green  
Originally released on Factory Benelux in December 1981, this 12” featured Everythings Gone Green, which had previously been on the reverse of the band’s second 7” single ‘Procession’ in September 1981,and ‘Cries And Whispers’ and ‘Mesh’ whose titles were flipped on the cover causing confusion amongst fans and compilers ever since. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Everythings Gone Green
Side 2
Cries And Whispers
Mesh

Temptation  
Featuring the full versions of both tracks this 12” was first release in May 1982 and were the first self-produced released recordings. With ‘Temptation’ being a cast iron New Order classic, this is an essential part of any New Order collection. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Temptation
Side 2 
Hurt

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REVIEW | “New Order Presents Be Music”

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New Order “mijando” no penico dos outros…

O ano de 1982 representou uma espécie de ponto de inflexão para o New Order. Após uma excursão pelos Estados Unidos no ano anterior, a banda deu início à virada em direção à dance music que a transformou em um dos grupos mais importantes e influentes de sua geração. De volta à Inglaterra, o New Order gravou a pulsante “Temptation” (faixa que marcou a ruptura definitiva com o Joy Division, sua encarnação anterior) e abriu uma casa noturna em Manchester  – a mítica Haçienda – tendo como parceira no empreendimento a sua própria gravadora – a não menos mítica Factory Records. Também foi em 1982 que seus integrantes começaram a se lançar em novas aventuras produzindo e remixando discos e faixas de outros artistas dance, muitos deles companheiros na Factory. À medida em que adquiriam novos equipamentos (sequenciadores, samplers, baterias eletrônicas), originalmente para explorar em seus próprios discos as possibilidades abertas pelas novas tecnologias musicais, Sumner, Hook, Gilbert e Morris passavam a compartilhar seus brinquedos e o know how obtido com as bandas que estavam produzindo. Era uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que fertilizavam o trabalho de outros músicos, as experiências realizadas nos quintais alheios serviam de laboratório para o que viriam a fazer em suas próprias gravações.

Nessas aventuras “fora de casa”, os membros do New Order mantiveram suas “identidades secretas” individuais preservadas atrás de uma marca: Be Music. Originalmente, Be Music era o nome da editora musical criada pela banda e seu empresário, Rob Gretton (1953-1999), para o licenciamento do seu catálogo e para o recebimento de royalties e direitos autorais. Todavia, Gretton teve a ideia de transformar a Be Music em algo maior e mais ambicioso. O falecido ex-manager do New Order queria que a banda fosse vista publicamente como uma entidade única – o objetivo era fortalecer a unidade do grupo e evitar que um ou mais membros fizessem um nome fora do New Order… e lucrassem com isso. Quando Peter Hook produziu, em fevereiro de 1982, uma faixa dos Stockholm Monsters chamada “Death Is Slowly Coming”, o crédito foi para a “entidade” em vez de para o baixista. Resumindo: nada de marketing pessoal ou luzes de holofotes sobre um integrante específico – naquela época eles eram radicalmente avessos a qualquer tipo de autopromoção, idolatria ou à ideia de uma eventual personalidade dominante na banda. Claro, isso tudo foi antes de Electronic, The Other Two, Revenge etc…

A Factory Benelux, filial belga da Factory Records que sobreviveu ao colapso de sua matriz, numa louvável iniciativa reuniu no recém-lançado New Order Presents Be Music o extenso material produzido e remixado por integrantes do NO entre 1982 e 2015. Editado em dois formatos (LP duplo e box set com três CDs), a nova compilação, no entanto, não foi a primeira dedicada às produções da Be Music. Em 2003, a LTM Recordings (gravadora administrada pelo britânico James Nice, o mesmo sujeito que atualmente também é o manda-chuva da Factory Benelux) lançou Cool As Ice: The Be Music Productions. No ano seguinte, a LTM editou uma sequência para a compilação anterior que se chamou Twice As Nice e que incluía, também remixes e produções assinadas por Arthur Baker, Donald “DoJo” Johnson (A Certain Ratio) e Mark Kamins. Pois então: uma parte de New Order Presents Be Music já havia sido reunida em compilações específicas antes. Esse é o caso, por exemplo, de “Looking From a Hilltop (Megamix)” do Section 25; “Cool As Ice”, de 52nd Street; “Love Tempo”, do Quando Quango; e “Fate/Hate”, de Nyam Nyam.

Mas por abranger um período mais extenso e não se concentrar apenas nas produções feitas para grupos do cast da Factory, New Order Presents Be Music é, até o momento, a compilação mais completa e atualizada sobre Be Music. Além disso, todas as faixas que fazem parte da coletânea foram remasterizadas especialmente para o projeto. E mesmo não sendo um álbum do New Order propriamente dito, de uma certa forma é quase como se fosse. Em primeiro lugar, algumas faixas foram escritas e gravadas pelos próprios integrantes da banda, como no caso de “Theme”, uma criação de Peter Hook usada como tema de abertura dos shows do grupo Lavolta Lakota; “Inside”, originalmente lado A de um EP ultralimitado (500 cópias) que Gillian Gilbert e Stephen Morris lançaram em 2011 com uma trilha sonora produzida especialmente para uma exposição do designer Peter Saville na galeria francesa Frac Champagne-Ardenne; e “Video 5-8-6”, uma canção de 22 minutos do próprio New Order tocada na noite de inauguração da Haçienda e a partir da qual nasceram algumas das faixas do álbum Power, Corruption and Lies (1983). Para ficar ainda mais com cara de disco do New Order, a capa, texturizada em ambos formatos, foi criada por Matthew Johnson para o Peter Saville Studio – todavia, não há indicações de que Saville tenha trabalhado como diretor de arte dessa vez.

O maior problema de New Order Presents Be Music são as diferenças entre as edições em CD e em vinil. Para começar: a versão digital possui 36 faixas, contra apenas 12 do LP! Além disso, o box set vem acompanhado de um livreto de 48 páginas com informações detalhadas e fotos das capas dos singles compilados. Em plena era do naufrágio do CD e da guinada de 360o do vinil, a versão long play bem que poderia ter recebido um tratamento melhor para agradar o fã clube do formato. Sem falar que a “mutilação” operada pela Factory Benelux no bolachão preto sacrificou algumas pérolas como “You Hurt Me” (do Shark Vegas), na qual Bernard Sumner também contribuiu como músico convidado; “Motherland” (do obscuro The Royal Family and the Poor); “Telstar” (cover do clássico instrumental dos Tornadoes assinado pelo Ad Infinitum); “Tell Me” (da banda de synthpop Life, da qual fazia parte Andy Robinson, ex-programador e técnico de teclados do New Order, e agora empresário do grupo); e “Knew Noise” (Section 25), lado B do single “Girls Don’t Count” produzido em 1979 por Ian Curtis e Rob Gretton, mas creditado à Fractured Music (uma espécie de embrião da Be Music).

O material mais recente produzido e/ou remixado pelos integrantes do New Order, por sua vez, forma um conjunto mais irregular. Além disso, se resume basicamente a contribuições do Stephen Morris ou do The Other Two (dupla formada por ele e a tecladista Gillian Gilbert). As colaborações com o Factory Floor, Helen Marnie (vocalista do Ladytron) e Tim Burgess (dos Charlatans) são, digamos assim, “ok”. Já o remix de “Daggers”, do Fujiya & Miyagi é pura bobagem descartável.

Também é de se estranhar a ausência das duas faixas gravadas e lançadas pelo New Order, mas sob o rótulo Be Music, em um flexi disc promocional distribuído de brinde para os frequentadores da Haçienda em sua primeira véspera de Natal, em 1982. “Ode to Joy” (um cover bizarro de “Ode an die Freunde”, de Beethoven) e “Rocking Carol” (uma tradicional canção natalina tcheca) foram recentemente incluídas na reedição da coletânea Ghosts of Christmas Past: Remake (da gravadora Les Disques du Crépuscule, hoje também sob o comando de James Nice) e apesar de fazer total sentido a inclusão delas numa compilação de bandas alternativas tocando/cantando canções natalinas, elas tinham que estar em New Order Presents Be Music também.

O saldo, todavia, é positivo. O novo álbum, de um modo geral, atinge o objetivo de apresentar ao ouvinte uma visão panorâmica de um lado pouco conhecido, mas ainda assim relevante, do New Order. Presents Be Music nos mostra que a influência de uma banda não se mede apenas pelo impacto de seus próprios discos. Seja como sócios de uma das danceterias mais famosas da Europa nos anos oitenta e noventa, seja como produtores e remixers, os membros do New Order ajudaram, de diversas maneiras, a traçar as coordenadas que definiriam a direção seguida pela música popular – alternativa ou mainstream – nos últimos anos.

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NOTA: Foi uma longa pausa de dezembro do ano passado até aqui… De lá para cá, passei por uma trabalhosa mudança e uma inesperada internação… Mas agora parece que as coisas estão voltando para os trilhos – incluindo o blog! Vejo vocês no próximo post. Um abraço.

REVIEW | Avaliamos o relançamento de “Singles”

new-order-singlesLá pelos idos de1986/1987, o falecido “Mr. Manchester”, Tony Wilson, na época repórter e apresentador da Granada TV e chefe da gravadora Factory Records, comprou um Jaguar novo em folha e equipado com um CD player. Para saciar a sua vontade de poder ouvir todos os singles do New Order enquanto dirigia seu novo (e caro) “brinquedo”, a banda e seu selo conceberam o álbum Substance (agosto de 1987), o ducentésimo lançamento da Factory (FACT 200). O coneito por trás do disco (duplo) era o seguinte: reunir em um mesmo título todos os singles de 12” que o New Order havia lançado, desde o primeiro – “Ceremony”, de 1981 – até o mais recente – “True Faith”, de julho de 1987. Foi um grande sucesso: cerca de 2 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos.

Embora tenha álbuns em diversas listas de “Melhores Discos de Todos os Tempos” – Low Life (1985) e Technique (1989) são os que mais frequentemente aparecem -, o New Order se notabiizou mesmo pelos grandes singles de 12” gravou, sendo que alguns deles não faziam parte de um LP até Substance aparecer. Inclusive, a banda detém o recorde do formato: “Blue Monday” é, até hoje, o single de doze polegadas mais vendido de todos os tempos. Mas por que a escolha dos 12”? Na década de 1980 esse formato (o mesmo diâmetro de um long play) alcançou uma popularidade até então inédita, sobretudo porque possibilitava o lançamento de versões estendidas (acima de 5 minutos) ou remixadas das músicas de trabalho, o que contribuiu para sua larga utilização pelos DJs nos clubs. Os finais alongados ou demoradas passagens instrumentais facilitavam a vida daqueles que queriam fazer experimentos com as “carrapetas” enquanto o público suava na pista de dança. A musica do New Order parecia ter sido feita sob medida para esse formato.

Mas o bom e velho disco compacto, de sete polegadas, não tinha sido abandonado ainda. Devido ao seu menor diâmetro, os artistas daquela época frequentemente o utilizavam para lançar versões editadas e mais curtas de suas músicas para facilitar a veiculação nas rádios. Em torno de 3’30” e 4’00″ (aproximadamente), essas versões eram conhecidas como 7” Mix (“mixagem para sete polegadas”), 7” Edit (“editada para sete polegadas”) ou Radio Edit (“editada para rádio”) e também eram usadas nos vídeos promocionais. Com o surgimento do CD, a prática de lançar faixas editadas para os meios de comunicação não foi deixada de lado. Por isso, quase vinte anos mais tarde (2005), quando anunciaram que seria lançada uma nova coletânea de singles (e atualizada com tudo o que foi lançado de 1987 em diante), mas dessa vez com as versões editadas, os fãs pularam de alegria: uma parte nada insignificante desse material não havia sido lançada em formato digital ainda.

Singles foi criado como um contraponto ou complemento à proposta de Substance. Enquanto um disco era dedicado aos 12” e suas versões estendidas, o outro se concentrava nos compactos ou versões curtas lançadas em CD. A ideia era genial. Mas na época em que foi lançado, Singles não entregou o que vendeu. Diversas faixas eram, na verdade, album versions ou edits novos feitos exclusivamente para a coletânea. Em 2008, quando saíram as edições remasterizadas e expandidas dos álbums do New Order do período Factory, muita gente pensou “agora vai!” – mas, novamente, muita coisa ficou de fora, o que deixou os fãs frustrados. Melhor dizendo: irritados.

Mas Singles está de volta. A coletânea acaba de ser relançada – não apenas em CD duplo, seu formato original, como também na forma de um lindo (e dispendioso) box set de quatro vinis de 180 gramas. O press realease tenta justificar o relançamento: “Uma década após seu primeiro lançamento, Singles foi refinado para se transformar em uma digna representação da história da banda. O renomado Frank Arkwright remasterizou o material em Abbey Road a partir de cópias de alta qualidade das masters. Além da adição de ‘’I’ll Stay With You”, de Lost Sirens (2013), inclui os single edits e mixagens corretas de “Nineteen63”, “Run 2”, “Bizarre Love Triangle”, “True Faith”, “Confusion” e “Perfect Kiss”. O resultado é uma atualização da versão anterior do álbum”.

Fora a inclusão de “I’ll Stay With You”, algo sem propósito se considerarmos de que se trata de uma música que nunca foi lançada em single, a versão remasterizada e atualizada de Singles certamente vai arrancar um sorriso de satisfação até do fã mais exigente. Para começar, o trabalho feito por Frank Arkwright, que já havia remasterizado o material do Joy Division, é irrepreensível – está anos luz à frente do som demasiado alto e irritantemente estridente das Collector’s Editions dos álbuns do período 1981-1989. O outro ponto forte é a apresentação da caixa com os quatro LPs (vide fotos): aqui Peter Saville reinterpretou sua própria criação com um indefectível toque de luxo e requinte. Aliás, parece que o designer ultimamente vem dando o seu melhor no formato box set – vide as versões “encaixotadas” do álbum Music Complete.

Se há algum “defeito” a ser mencionado em Singles é que, mais uma vez, nem todas as versões das faixas estão corretas. Os edits de “Confusion” e “The Perfect Kiss”, por exemplo, não são os originais encontrados nos vinis de 7” lançados na Inglaterra na década de 1980; “Blue Monday”, como na edição anterior, aparece em sua apoteótica versão de pouco mais de sete minutos (a gravação editada fora rejeitada pela banda e até o presente momento continua existindo apenas em um raríssimo compacto promocional lançado no Japão em 1983); todavia, agora temos “Run 2” finalmente em formato digital.

Para quem deseja completar o catálogo do New Order em CD, pode se dizer que Singles chega quase lá, o que já é o suficiente para ser recomendado. Com relação ao box set de quatro LPs, fica a pergunta: vale o quanto pesa? A resposta é sim: é aquele tipo de item engrandece e embeleza uma boa coleção. E essa nova edição parece ser um bom prenúncio de que finalmente teremos, em um futuro próximo, “a” caixa do New Order (o baterista Stephen Morris disse em entrevistas recentes que a banda está preparando o que virá a ser o seu box set “definitivo” da banda). Depois do balde de água fria que foi o cancelamento de Recycle e o fiasco dos álbuns remasterizados e expandidos em CD, fica a esperança de que os fãs serão, enfim, recompensados pela longa espera!

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NEWS | Stephen Morris fala ao The Irish Times sobre ação judicial e a “caixa definitiva” do New Order

560b6-new-order-left-to-right-g-007Por ser uma das atrações do festival Electric Picnic, na Irlanda, o site do jornal The Irish Times publicou, no último dia 27, uma matéria sobre o New Order acompanhada de entrevista feita com o baterista Stephen Morris. Nela, Morris fala sobre a ação que o ex-baixista Peter Hook moveu contra eles nos tribunais e, também, sobre um futuro box set do New Order que promete ser “o definitivo”. O blog traz a seguir a tradução da matéria/entrevista, assinada por Shilta Ganapra.


NEW ORDER: ESQUEÇA AS BRIGAS, TOQUE A MÚSICA.
Separações e processos judiciais à parte, o New Order vem tocando e gravando novamente – e vem ao Electric Picnic.

por Shilta Ganapra

Dado o seu passado, não é surpresa alguma o fato da história recente do New Order ter sido agitada. Os pioneiros do electro alternativo voltam ao Electric Picnic no próximo final de semana. Os dez anos desde a última vez em que tocaram no festival foram definidos por um hiato e, também, por membros que deixaram a banda, por integrantes que retornaram, por processos judiciais e, em setembro do ano passado, por um retorno à boa forma com o seu décimo álbum de estúdio, Music Complete.

O sucesso do disco foi estrategicamente importante. Ele desviou a atenção para longe das disputas legais e de volta para a música enquanto forjava um impressionante equilíbrio entre a busca por novos caminhos e o retorno à sua velha assinatura – hinos para as pistas de dança (para o deleite de fãs em várias partes do mundo).

“O que facilitou nosso caminho de volta à composição foi o fato de termos voltado a tocar ao vivo. E aí percebemos que o material mais dançante era o que mais se destacava”, diz Stephen Morris, baterista do New Order, explicando porque a banda optou por jogar com seus pontos fortes. “Nós pensamos, ‘será que não cairia bem ter um par de músicas novas no set list?’ Então começamos a compor algo novo para tocar nos shows em vez de ir para o estúdio sem ideias e esperamos sair com um álbum em algum momento no futuro.

“Começamos com ‘Singularity’, que fizemos com Tom Rowlands do Chemical Brothers, que também colaborou com a produção”, diz ele. “Então nós fizemos ‘Plastic’ e uma vez que você você tem duas ou três músicas novas era melhor então deixar de se preocupar tanto com os shows e passar a se concentrar mais na preparação de um disco. E a recepção [do álbum] tem sido fantástica”.

O único problema com os elogios é que muitos deles foram indiretos quando vistos à luz das comparações com os dois álbum anteriores da banda, Get Ready e Waiting for the Sirens’ Call. Gravados sem Gillian Gilbert [N.T.: o jornalista se equivocou, pois Get Ready foi gravado com Gillian ainda na banda], a esposa de Morris, esses discos soaram mais indie que o habitual, como demonstram os singles “Crystal” e “Krafty”. Com o benefício da retrospectiva, o que Morris acha da produção do New Order do começo dos anos 2000?

Ele fica indisfarçavelmente em cima do muro.

“Quando se olha para trás não dá para ser objetivo sobre o passado, porque sua opinião é sempre colorida pela sua experiência”, diz Morris. “O disco Waiting for the Sirens’ Call foi como uma maratona. Tínhamos muitas músicas e sabíamos que elas eram boas, mas nós não conseguíamos enxergar o produto final. Get Ready foi o oposto: sabíamos onde queríamos ir, mas não sabíamos como chegar lá.

“Além disso, Get Ready foi o último álbum no qual saímos para gravá-lo”, acrescenta. “Até aquele ponto nós fazíamos alguma coisa em casa e, em seguida, quando queríamos levar o trabalho a sério não havia outro modo de fazê-lo senão gastar uma fábula de dinheiro para alugar um bom estúdio de gravação e permanecer nele pelo tempo que fosse necessário.

“Eu acho que ambos os discos têm boas canções, mas não consigo ouvi-los do mesmo jeito como as outras pessoas os ouvem”.

O mesmo raciocíno se aplica, diz ele, de volta ao final da década de 1970, quando ele começou a tocar bateria com Ian Curtis, Bernard Sumner e Peter Hook na sombria Macclesfield, no norte da Inglaterra. Após quatro anos de shows ao vivo, o Joy Division começou a fazer gravações com o produtor Martin Hannett, que foi responsável tanto por Closer quanto por Unknown Pleasures, e, possivelmente, por aquele som inimitável. “Nós tínhamos uma ideia de como tudo soava em nossas cabeças, que era como soava ao vivo, ou seja, cru e agressivo. Mas Martin pôs para fora outra coisa. Foi um choque. Com Unknown Pleasures todos ficamos – qual é a palavra? – ‘decepcionados’  com o resultado final. Nós ficamos tipo ‘você arruinou as nossas músicas!’”.

O tema Joy Division é agridoce, principalmente por causa da morte prematura de Curtis, em 1980, e agora também por causa da traumática saída de Hook, que está chamando o reformado grupo – completado por Tom Chapman, seu substituto no baixo, e pelo guitarrista Phil Cunningham – de “banda de tributo ao New Order”.

“É tudo muito triste, sabe?”, diz Morris. “Mas Peter parece feliz com o que está fazendo, que é tocar as músicas do New Order e do Joy Division, e isso é bom. E nós estamos seguindo em frente do nosso jeito, o que também é bom”. Mas por estar processando o que resta do New Order por questões envolvendo royalties, Hook não parece tão feliz assim com o que os ex-colegas estão fazendo. “Me parece realmente que não. Nós resolveremos isso de uma maneira ou de outra, mas uma ação judicial é um jeito caro de fazê-lo. Uma das partes vai à falência primeiro”. Morris torce para que não seja o New Order. “Enquanto o taxímetro roda, quem sai ganhando com isso são os advogados, o que é lamentável”.

Sem meios-termos no rompimento de suas relações com os demais, Hook está pondo mais lenha na fogueira com o lançamento de Substance: Inside New Order, seu livro de memórias. O que Morris acha disso?

“Você vai ter que esperar o lançamento do meu livro! Só que eu não vou escrever sobre o Joy Division ou o New Order, já existem muitos livros por aí”, diz ele, enfático. “Eu vivi isso, o que é o suficiente. Eu tentei ler o livro do Bernard, assim como o da Debbie Curtis e o da Lindsay Reade. Há um monte deles. Isso me deixa um pouco irritado. É apenas o ponto de vista de uma pessoa. E quando você escreve uma autobiografia é comum promover-se como um herói – a não ser que você seja brutalmente honesto”.

Enquanto Peter Hook se ocupa com o livro e com seu empreendimento atual, Peter Hook & The Light, o New Order frequenta os festivais de verão. Após o Electric Picnic e, na semana que vem, o Lollapalooza Berlim, seu foco se voltará para um longo e complicado projeto: uma caixa definitiva do New Order. Ela ficou em banho-maria durante anos – o que é compreensível dada a dificuldade de se representar 36 anos de uma música seminal e consistentemente relevante. “É a coisa mais difícil do mundo. Todo mundo tem um grande box set, mas quando se trata do nosso sempre parece que nunca o fazemos direito”, diz Morris. “E eu acho que não se deve fazer nada que não seja pelo menos 99%”.

Peter Hook estará envolvido nesse projeto?

“Peter está em contato com a gravadora, então suponho que nesse aspecto ele está envolvido. Temos que concordar com tudo. Então eu acho que nós apenas temos que enviar uma lista de coisas para ele… e, em seguida, discutir sobre ela depois”.

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REVIEW | “Music Complete (Wrapping Cloth ‘Furoshiki’ Box Set)”

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O “Music Complete” da terra (e dos tempos?) de Ultraman

Recentemente, o último álbum do New Order ganhou no Japão uma nova edição em uma bela (e um tanto quanto exótica) caixa. Intitulada Wrapping Cloth Box Set, essa última versão do disco Music Complete lançada na Terra do Sol Nascente pela Traffic Records (que representa a banda para o selo Mute no Japão) foi especialmente criada para promover a passagem do New Order pelo país do National Kid e do Ultraman em maio deste ano. Originalmente, essa edição havia sido planejada para ser distribuída/comercializada exclusivamente nos shows que o grupo faria nos dias 25 e 27 na capital japonesa (o local foi o Shinkiba Studio Coast). Entretanto, por motivos não explicados, a Traffic, aos poucos, expandiu o mercado: disponibilizou cópias para um evento para convidados (e com participação do New Order) em Shibuya; em seguida, colocou-as a venda na Tower Records Japan; e, finalmente, “liberou geral”. Ainda assim, trata-se de uma edição limitada – mas o número total de cópias não foi divulgado.

Se você achou a edição Deluxe Vinyl Box Set, com nada menos que oito discos de vinil coloridos, “extravagante”, prepare-se agora: Wrapping Cloth Box Set contém o álbum Music Complete no formato cassete (isso mesmo, você não leu errado!), acompanhado dos seus três primeiros singles – “Restless”, “Tutti Frutti” e “Singularity” – em CD; e para adicionar um “charme especial”, a caixa, que é no estilo clamshell, vem dentro de um furoshiki, isto é, uma espécie de “embrulho” tradicional que os japoneses fazem com panos (nesse caso, o que foi usado traz a capa de Music Complete estampada nele). Eis então o primeiro ponto forte dessa nova edição: o designer Peter Saville conseguiu, com maestria, produzir uma das melhores recriações de seu próprio trabalho, desta vez adaptando-o à cultura do país do lançamento – o que quer dizer que é como se os japoneses estivessem recebendo do New Order e de seu artista gráfico um presente segundo seus próprios costumes. Genial.

Mas por que Music Complete em cassete? Estaríamos, após a “volta do vinil”, ante os primeiros lampejos de um possível revival das fitinhas? Bom, talvez não seja bem isso. Este blog tem seu próprio palpite – ou melhor, sua própria teoria. É provável que o verdadeiro objetivo da caixa seja vender, sob forma de um pacote atraente, os CDs singles. Vamos aos fatos: o compact disc laser, formato de mídia digital criado pela Philips e pela Sony no comecinho da década de 1980, está em crise. No Japão, a queda nas vendas impactou a produção. Entre 2001 e 2011, por exemplo, houve uma redução de cerca de 40% na produção japonesa de discos laser de áudio (dados divulgados pela agência de notícias EFE). Quando o assunto são singles, a “encrenca” é maior. As gravadoras ainda os lançam por questões pro forma, como no caso dos álbuns, mas vendem muito, muito pouco (apesar de serem bem baratos). Tanto que hoje em dia os downloads, os streamings e até mesmo os vinis contribuem bem mais para colocar um single nas paradas que os CDs. Provavelmente, essa Wrapping Cloth Box Set foi a estratégia encontrada pela Traffic Records não somente para divulgar os shows do New Order no Japão, mas também para assegurar a venda, “numa tacada só”, em um luxuoso bundle, de três CDs singles. O álbum Music Complete seria, na verdade, somente uma “isca”, um golpe de marketing; e na compra de um box set com três discos o fã levaria como um “brinde” ou “mimo” a fita, um objeto vintage de função quase “decorativa” e cujo verdadeiro significado seria simbólico ou afetivo.

Prestando bem a atenção nos disquinhos da caixa, os fãs e colecionadores perceberão que há (sutis) motivos para encomendá-la que não seja apenas seu belíssimo visual, além do tal “brinde”. Os CDs possuem remixes que NÃO fazem parte dos tracklists de seus correspondentes ocidentais. “Tutti Frutti”, por exemplo, inclui a versão “Takkyu Ishino Remix”, outrora disponível apenas no 12” japonês, e “Tom Rowlands Remix”, usado como B-side do “Singularity” europeu; também é o caso do “Agoria Dub” de “Restless”, que só era conhecido por um lançamento não oficial no site DirrtyRemixes; e “JS Zeiter Remix Instrumental”, este totalmente inédito em qualquer edição de “Singularity” (não confundir com “JS Zeiter Dub”, pois são remixes diferentes). Provavelmente a Traffic Records “liberou” a venda desse box ao perceber que haveria interesse dos fãs de fora do Japão em comprá-lo para obter essas “exclusividades” das edições nipônicas.

De um modo geral, é um belo item/pacote. Contudo, ele possui pontos positivos que são, ao mesmo tempo, negativos. O primeiro deles é com relação ao visual: é bem verdade que a ideia da caixa vir embalada num furoshiki é brilhante, mas é preciso desembrulhá-la com atenção, procurando observar bem como foram feitos a dobradura e o laço que arremata no final, caso contrário não será possível fechá-la / reembalá-la exatamente da mesma maneira, o que pode comprometer sua apresentação – em outras palavras, é tudo muito bonito, mas dá um trabalhão danado! Além disso, até não é uma má ideia, se a suposição do blog estiver correta, fazer do cassete de Music Complete mais um “presente” ou “brinde” que objeto principal; todavia, uma vez que hoje em dia poucos no mundo possuem tape decks em operação para poder, eventualmente, realizar o fetiche de ouvir o New Order do século XXI em uma fita, era de se esperar que, seguindo o exemplo das edições em vinil, houvesse um cartão com um código para que se possa baixar o álbum em formato digital – sem isso, é preciso ter, obrigatoriamente, o disco em outra mídia. Da versão digital de Music Complete, foram incluídos no box set apenas o booklet do CD e um livreto que costuma acompanhar a maior parte das edições japonesas e que contém as letras das músicas em dois idiomas: inglês e japonês.

Pode-se supor que com Deluxe Vinyl Box Set e Complete Music, esse Wrapping Cloth “Furoshiki” Box Set deve concluir a série de edições de luxo / especiais do álbum Music Complete. Com a atual crise da indústria fonográfica, expressa principalmente na queda nas vendas de CDs, os produtos premium ou deluxe, orientados para fãs e colecionadores, ainda que sejam caros e se limitem a um número mais reduzido de cópias, costumam se salvar – e a razão disso é porque oferecem ao consumidor uma experiência que não se restringe apenas à música. Muitas vezes, são praticamente objetos de arte. De uma certa maneira, o New Order foi pioneiro nisso ao apresentar seus discos com capas inteligentes desde a década de 1980. Uma característica que, pelo visto, a banda não perdeu.

O blog aproveita a ocasião para agradecer ao amigo Marcelo Danno, outro grande fã do New Order, pela ajuda transoceânica na aquisição da caixa. Isso mostra que New Order BR FAC 553 vem cumprindo seu papel de aproximar os aficcionados por essa que é uma das bandas mais importantes e influentes de sua geração.

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NEWS | Julho e setembro: os lançamentos que virão por aí

N.O.+Singles

“New Order: Singles” estará de volta turbinadão

Fãs, prepare your cash! O lançamento oficial, há três dias, de um digital single remix exclusivo de “People on the High Line” no site Beatport, foi só um aperitivo. Não demorou muito tempo para o New Order anunciar a data na qual pretende soltar a versão física do single, o quarto saído do álbum Music Completedia 29 de julho. Definida pela revista virtual The Quietus como “o encontro do Chic com o Kraftwerk em uma pista de dança”, a faixa “People on the High Line” terá seu vídeo oficial escolhido em um concurso promovido pelo site Genero.tv – o prêmio para o vencedor será de US$ 8.000.

Outro lançamento anunciado esta semana é a reedição da coletânea Singles, de 2005, em dois formatos: CD duplo e box set de 4 LPs de 180 gramas. Na verdade, o relançamento de Singles tinha sido programado para o ano passado, mas acabou sendo suspenso por razões inexplicáveis. Dessa vez, parece que sai para valer. A Warner o promete para o dia 09 de setembro – e a Amazon britânica já abriu pré-venda. De acordo com a gravadora, Singles será relançado devido à alta taxa de compressão das faixas na edição original, gerando a necessidade de uma remasterização, e também para que as versões de determinadas músicas fossem substituídas. É o caso, por exemplo, de “Run”: pela primeira vez teremos, em vez da album version, a verdadeira “Run 2 (Edit)”, até hoje inédita em CD. “I’ll Stay With You”, de Lost Sirens (2013), será incluída como bonus track.

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