NEWS | Billboard explica o poder de “Bizarre Love Triangle”

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A capa do 12″ de “Bizarre Love Triangle”.

Por ocasião de seu trigésimo aniversário de lançamento, ocorrido no dia 03 de novembro deste ano, o site da revista norteamericana Billboard publicou um artigo no qual lista os dez motivos que fazem de “Bizarre Love Triangle”, do New Order, uma das melhores canções de todos os tempos. Vale lembrar que a Rolling Stone também a pôs em sua lista The 500 Greatest Songs of All Time, em 2004. A seguir, apresentamos uma tradução livre do artigo da Billboard, que foi originalmente escrito em inglês por Andrew Unterberger.



10 MOTIVOS DO POR QUE “BIZARRE LOVE TRIANGLE”, DO NEW ORDER, É UMA DAS MELHORES CANÇÕES DE TODOS OS TEMPOS
A obra-prima synth pop do grupo foi lançada 30 anos atrás. Eis por que continua maravilhosa três décadas depois.  

Originalmente lançada como single do álbum Brotherhood no dia 03 de novembro de 1986, “Bizarre Love Triangle”, do New Order, foi uma atordoante canção synth pop que combinava clássicas melodias soul e uma reverência lírica à beira do gospel, sobrepondo camadas de fascinantes chamarizes eletrônicos e forjando no processo uma jóia incandescente de amor computadorizado em meados dos anos oitenta. Nas três décadas que se seguiram ao seu lançamento, a música se destacou não apenas como uma das favoritas dos fãs do New Order, mas também como uma das canções alternativas mais queridas de seu tempo. Aqui estão as 10 razões pelas quais a faixa acabou se tornando um classico.

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Minha cópia autografada (por toda a banda) em vinil de 7″

  1. Título. Como poucas bandas de rock de sua estatura, o New Order evitou intitular suas músicas com base em trechos óbvios de suas letras. Pelo contrário, a banda as nomeava como se fossem pinturas impressionistas: “Ceremony”, “Everything’s Gone Green”, “Your Silent Face”… Como nesses exemplos, a frase “Bizarre Love Triangle” não aparece na letra da canção, que sequer traz a palavra “love” [amor] em qualquer parte dela. Mesmo assim, o título espelha brilhantemente seu conteúdo, conectando os delíros sonoros da faixa à sua letra com a combinação de três palavras de emocionante e, ao mesmo tempo, terrível confusão romântica.
  2. A entrada da batida. Diferentes versões de “Bizarre Love Triangle” começam de diferentes maneiras, mas cada uma delas nos lança em um hiperespaço turbo-pop sempre do mesmo jeito: uma sequência esmagadora de batidas que interrompe o brilho sintetizado e explode como o pânico e o excesso de excitação de uma arritmia cardíaca. Antes mesmo dos vocais começarem, seus circuitos internos já sentem a sobrecarga.
  3. Os primeiros versos. “Toda vez que eu penso em vocë / Eu sinto passar por mim um raio de tristeza” [do original em inglês “Everytime I think of you / I get a shoot right through into a bolt of blue”]. O líder do New Order, Bernard Sumner, nunca foi muito respeitado como letrista – especialmente quando comparado à poesia gótica de Ian Curtis, líder da banda em sua encarnação anterior, como Joy Division. Mas sua capacidade de capturar a essência de uma emoção em um simples verso era algo singular entre seus pares da new wave. “Eu sinto passar por mim um raio de tristeza” é uma imagem tão evocativa, enigmatica e inesquecível quanto qualquer capa de disco projetada por Peter Saville; e a maneira como Sumner enfatiza o “shot”, como se tivesse sido atingido enquanto canta, torna esse verso indelével.
  4. Não-instrumentação. O New Order passou a maior parte dos anos 1980 fascinado pela ideia de se entregar totalmente às máquinas apenas para ter uma música disponível para o bis na qual não precisasse voltar ao palco para tocá-la. Quando a banda chegou a “Bizarre Love Triangle” cada elemento da música foi sequenciado, com exceção dos vocais e de algum baixo. Ao invés de tirar da canção sua humanidade, as camadas de sintetizadores e os efeitos orquestrados criados no Fairlight soam como o caos distrativo de um cérebro desordenado, com os vocais de Sumner tentando dar sentido a tudo.
  5. O pré-refrão. O momento mais mágico de sua esmagadora produção se situa entre a primeira estrofe e o refrão, quando as notas em cascata do sintetizador se aproximam, como se estivessem na ponta dos pés, do som das cordas (falsas) antes de finalmente explodir o refrão. A maioria das bandas não se arrisca em adiar o refrão com um interlúdio, mas é um mini-balé sintetizado tão belo que é impossível imaginar a música sem ele.
  6. O refrão. Se existe algo que faz você lembrar de “Bizarre Love Triangle”, esse algo é o refrão: “Toda vez que eu vejo você caindo / eu me ajoelho e rezo”. A frase quase religiosa contém ecos de Al Green e a melodia é um como clássico da Motown, mas a imagem que ela evoca é vaga o suficiente para que não se quebre o encanto enigmático da canção com algum clichê lírico ou musical. O ritmo do fraseado é igualmente inspirado.
  7. A economia de palavras. Embora a faixa em si mesma não seja curta, o conteúdo lírico é, na maioria das versões, bastante escasso: apenas duas estrofes e dois refrões. É um elemento sutil, porém crucial para o brilho da canção. Nunca se arrisca a se explicar ou a se repetir redundantemente; as palavras ficam na cabeça por horas e simplesmente vêm à mente sem ajuda alguma.
  8. Diferentes versões / remixes. É um tanto difícil discutir “Bizarre Love Triangle” como se a canção fosse uma entidade fixa, isso porque foram lançadas muitas versões diferentes da música: a gravação de cerca de quatro minutos do álbum Brotherhood, a versão de pouco mais de três minutos do vinil de 7” (a mais tocada nas rádios), o remix estendido de Shep Pettibone incluído na coletânea Substance. Cada uma dessas versões tem seus próprios encantos – incluindo o relançamento de 1994 para o disco The Best of New Order, que certamente tem o melhor final (e não se esqueça da versão lançada em vídeo, interrompida pelo diálogo “Eu não acredito em reencarnação… eu me recurso a voltar como um besouro ou um coelho!”).
  9. A “coverabilidade”. O New Order fez um monte de versões de “Bizarre Love Triangle”, mas o restante do mundo musical fez muito mais. A canção foi regravada por tudo mundo, do rock industrial do Stabbing Westward ao pop/rock do Echosmith e do Frente!, passando ainda pelo synth-rock do The Killers e pela banda de Scarlett Johansson, além de muitos outros. E embora nenhuma dessas interpretações tenha condições de rivalizar com a original do New Order como versão definitiva da canção, elas são todas, no mínimo, muito boas. Como “Bizarre” está revestida com as artimanhas de produção de seu tempo, o núcleo musical dela se tornou tão forte que ela se converteu em uma faixa praticamente impossível de se arruinar.
  10. A falta de sucesso comercial. Notavelmente, do mesmo modo como veio a se tornar uma canção duradoura, “Bizarre Love Triangle” nunca foi realmente um hit. A faixa não emplacou na parada norteamericana quando do seu lançamento inicial, em 1986 – ela atingiu a 98a posição da Billboard Hot 100 depois do seu relançamento em meados dos anos noventa, mas se saiu melhor em seu país de origem, tendo alcançado o 56o lugar como posto máximo. Na verdade, o maior sucesso comercial que a música teve foi através da versão cover do Frente!, que ficou no número 49 no Hot 100, em 1994, e entrou no Top 10 da Modern Rock no mesmo ano.
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Tenho “Bizarre Love Triangle” para todos os gostos: 7″, 12″ e CD maxi-single.

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MEMÓRIA | “Brotherhood” (New Order) comemora 30 anos hoje

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O quarto LP do New Order foi lançado há trinta anos

Há exatos trinta anos, o New Order lançava (pela Factory Records) Brotherhood, seu quarto LP. Produzido pela própria banda e gravado em três estúdios diferentes – o Jam, em Londres; o Windmill Lane, em Dublin (Irlanda); e o Amazon, em Liverpool -, o disco representou uma pequena queda em um gráfico (hipotético, evidentemente) que vinha mostrando uma linha ascendente. Comparado com o seu antecessor, o magnífico Low Life (1985), que havia alcançado o sétimo lugar na parada britânica de álbuns, Brotherhood ficou duas posições abaixo. Na parada dos 200 Melhores Álbuns da revista americana Billboard, ele não repetiu, muito menos superou, o bravo 94o lugar conquistado por Low Life; em vez disso, foi o número 161. Todavia, o quarto rebento do New Order trazia o single “Bizarre Love Triangle”, que estourou nos Estados Unidos e na Austrália, abriu portas para o grupo na América do Norte (no Brasil também foi um enorme sucesso, só que um pouquinho mais tarde) e hoje, tendo se tornado um dos maiores hits da banda e um clássico da década de oitenta, é peça obrigatória nos shows. E a revista Rolling Stone a colocou na sua lista das 500 Maiores Músicas de Todos os Tempos.

Mas a verdade é que “Bizarre Love Triangle” ficou mais conhecida pelo remix produzido por Shep Pettibone, e que posteriormente foi incluído em Substance (1987), do que pela versão original que abre o lado B de Brotherhood. Este, por sua vez, foi concebido em meio a uma disputa entre o vocalista e guitarrista Bernard Sumner e o baixista Peter Hook com relação à direção que o New Order deveria seguir em termos musicais. Esse, aliás, deve ter sido o começo das divergências entre os dois. E isso talvez explique porque soaram um pouco menos inspirados nesse disco. Sumner, que de todos os quatro foi o que mais mergulhou de cabeça na experimentação com sintetizadores e nos ritmos dance, queria fazer um LP totalmente eletrônico; “Hooky” foi contra, pois ele era o grande defensor do lado mais rock do grupo, além de achar de que o New Order deveria continuar sendo uma mistura desses dois estilos.

Bernard Sumner acabou perdendo a queda de braço com o baixista simplesmente porque eles não tinham músicas totalmente eletrônicas o suficiente para preencher um álbum inteiro. Pelo contrário, as faixas nessa vertente que eles possuíam dariam, no máximo, a metade de um disco. O material que faltava foi formado, basicamente, por canções mais “roqueiras”, com o mínimo ou simplesmente nada de sintetizadores. A diferença entre os dois materiais era tão grande que a banda resolveu separá-los em cada lado do vinil: o lado A era o rock; o lado B era o dance. A escolha do título – Brotherhood, que em português quer dizer “fraternidade” ou “irmandade” – era uma espécie de “piada interna” porque representava exatamente o oposto do clima de divisão que se instalou ao longo da produção do álbum.

É praticamente desnecessário dizer que o lado de Brotherhood favorito de Sumner é o B, enquanto que o de Peter Hook é o A… Quer dizer, mais ou menos. Mais recentemente, por ocasião dos shows em que o agora ex-baixista, com sua banda The Light, vinha tocando os discos Low Life e Brotherhood na íntegra, Hooky andou declarando que atualmente ele vem gostando mais do lado B. Na verdade, no vinil, o número de faixas rock é maior que o de canções eletrônicas: são cinco contra quatro respectivamente. Porém, quando o álbum foi lançado em CD, se estabeleceu o equilíbrio: como faixa-bônus, após “Every Little Counts” (música que encerra a edição em vinil), foi adicionado o single “State of the Nation”.

Parte do que viria ser Brotherhood já existia em 1985 e era tocado ao vivo. O caso mais conhecido é o de “As It Is When It Was”, que a princípio seria uma canção que deveria ter feito parte de Low Life. Uma versão dela dessa época pode ser vista/ouvida em Pumped Full of Drugs, um home video ao vivo gravado no Japão. “Weirdo” e “Broken Promise” também já eram conhecidas das audiências dos concertos, enquanto a clássica “Bizarre Love Triangle” fez sua estreia, ainda como tema instrumental, em uma apresentação no The Pavillon, na cidade de Hemel Hempstead, no leste da Inglaterra, no dia 11 de novembro de 1985. Outras músicas, como “Every Little Counts” (uma espécie de hit não oficial do New Order, mas que não é tocada nos shows desde 1989), nasceram durante a produção do LP. Inclusive, essa faixa rendeu uma história curiosa. Ela se encerra repentinamente com um som que parece o de uma agulha de toca-discos sendo arrastada sobre o vinil, fazendo aquele ruído “arranhado” e estridente. Para alertar os consumidores, que poderiam pensar que talvez tivessem comprado um álbum com defeito de fabricação, a gravadora brasileira (a WEA) pôs um aviso no rótulo do lado B: “Música com efeito especial”. Provavelmente essa era uma maneira de evitar trocas desnecessárias ou devoluções. O baterista Stephen Morris explicou que a intenção inicial era encerrar “Every Little Counts” com um “efeito especial” diferente em cada formato de Brotherhood: na versão cassete, haveria o som de fita se “embolando” no cabeçote e, no CD, uma espécie de “tic-tic”. Essa ideia, infelizmente, acabou não sendo levada adiante.

A capa de Brotherhood, como quase todas dos discos do New Order, é um capítulo à parte. Como de costume, a direção de arte foi assinada pelo designer gráfico Peter Saville. A fotografia ficou a cargo de Trevor Key (um colaborador regular de Saville naquela época). Em seu livro de memórias, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), Bernard Sumner escreveu: “Nós nos demos muito bem com Saville e ainda nos damos. Mas ele tem muito pouco tempo às vezes. Uma vez nós estávamos em Heathrow [N.T.: aeroporto localizado nos arredores de Londres], prestes a embarcar em um avião, e ele chegou correndo, ofegante, com um cigarro na mão e dizendo ‘Esta é a capa de Brotherhood. Gostaram?’ (…) Nos tempos do vinil, quando as pessoas compravam os discos, a arte das capas era muito importante porque representava a banda e seu gosto. Nossa opinião era de que se você comprasse um disco com uma grande capa você estaria levando duas obras de arte pelo preço de uma”.

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Diferentes versões da capa de “Brotherhood”

Para a capa de Brotherhood, Saville usou uma fotografia, feita no estúdio de Key, de uma folha metálica de zinco-titânio submetida ao calor para que sua superfície deformasse. A técnica foi inspirada nos experimentos que o artista plástico neodadaísta francês Yves Klein fazia com os quatro elementos essenciais (fogo, água, ar e terra). Mas aqui se verifica, também, um retorno às influências do ready made e da found art. As inscrições que aparecem na capa são, na verdade, as informações de catalogação do fabricante da folha de metal – no meio das quais, curiosamente, aparece um “1986”, o ano de lançamento do álbum. Uma tiragem limitada da primeira prensagem de Brotherhood na Inglaterra possuía um efeito metálico real que posteriormente foi repetido na primeira edição em CD lançada pela Factory na Inglaterra e, anos mais tarde, na reedição da London Records pela série New Order Collection. As atuais edições remasterizadas em vinil e CD trazem um remake da arte original que apenas emula de forma grosseira o efeito. Todas as demais edições lançadas ao longo dos anos e no resto do mundo trazem a versão “econômica” (e pouco atrativa) da capa. Mas nada se compara com o que a WEA fez em 1987, quando lançou o disco no Brasil: a gravadora adicionou um “New Order” em maiúsculas e negrito bem na frente, descaracterizando o trabalho original. Isso, inclusive, chegou a causar mal estar no ano seguinte, quando a banda descobriu a “façanha” durante sua primeira passagem pelo país para shows.

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Placa de zinco-titânio utilizada para a produção da capa de “Brotherhood”: influência do artista plástico Yves Klein. 

Jean-Yves de Neufville chamou a atenção para a capa de Brotherhood na crítica/resenha que escreveu para a revista Bizz por ocasião do lançamento do álbum (na Inglaterra): “na prateleira da loja, não vá confundi-la com aquelas placas que separam os discos por ordem alfabética (…) É o New Order transmitindo sua não-imagem para obrigarem as pessoas a se concentrarem na sua música. Só nos resta obedecer”. No mesmo texto, Neufville classifica o disco como sendo “o mais recente e melhor da banda” e que possui “uma aparente simplicidade que esconde uma produção sofisticada”. Curiosamente, ao longo dos anos, Brotherhood foi sistematicamente atacado pelos fãs por justamente possuir uma produção mais “fraca” e “preguiçosa” em comparação com os demais itens da discografia da banda: sua engenharia de som e sua mixagem sempre foram alvo de críticas. Mesmo assim, particularmente no Brasil, o LP tem um imenso fã clube que chega inclusive a colocá-lo acima de uma obra-prima como Technique (1989).

A verdade é que Brotherhood divide opiniões até hoje. Para Q Magazine, que publicou uma resenha/crítica retrospectiva sobre o disco em 1993, o álbum “sofre com a ausência de grandes canções, com a exceção de ‘Bizarre Love Triangle'”. Posição não muito distante da de Josh Modell, do site de entretenimento A.V. Club: “um grande desconhecido do catálogo ofuscado por um single estrondoso”. John Bush, do site AllMusic.com, o vê de outra forma e disse que “para o bem ou para o mal, este New Order não tinha mais nada a provar, exceto continuar fazendo boa música”. David Quantick, da Uncut, escreveu que “era o New Order se tornando New Order e se alguem tinha o direito de não ser mais o Joy Division, esse alguem eram eles”. O baterista Stephen Morris fez coro junto aos críticos: em entrevista dada ao site Noisey este ano, disse que o disco “foi feito de um jeito esquizofrênico porque estávamos tentando colocar os sintetizadores de um lado e as guitarras de outro, o que não funcionou… Eu acho melhor quando se mistura um pouco mais”. Mistura na qual, à parte alguns errinhos aqui e ali, o New Order se tornou um dos principais especialistas.

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