REVIEW | Coletânea “Substance” celebra 30 anos hoje

cd-duplo-ingles-new-order-substance-importado-D_NQ_NP_468511-MLB20589450448_022016-FQuão relevante pode ser uma coletânea no âmbito da obra de um artista ou até mesmo para além dela? Pode um disco que reúne material já lançado por um cantor ou banda ter um significado e uma importância tão grandes – ou maiores até – que a de álbum de canções inéditas?

Há quem despreze os discos compilatórios – e existem razões para isso. Na maioria das vezes eles representam uma maneira fácil das gravadoras amealharem um bocado de dinheiro resumindo em um único título uma carreira de sucesso. É uma forma de vender um artista para um outro perfil de publico – o que só tem interesse por grandes sucessos – ou de fazer os fãs mais fiéis comprarem novamente aquilo que eles já possuem.

Todavia, algumas coletâneas conseguem algo mais do que arrecadar milhões. Querem um exemplo? Legend, que reúne os grandes êxitos de Bob Marley & The Wailers, se transformou em algo muito maior que o “o disco de reggae mais vendido de todos os tempos”. Ele está na lista dos 500 Maiores Álbuns da revista Rolling Stone, que é nada menos que o maior guia de cultura pop da face da Terra. Além disso, ele introduziu milhares pessoas à música de Marley e, muito provavelmente, ao próprio universo do reggae. Tudo isso faz dele um disco essencial – aquele item que deveria se fazer obrigatório em qualquer discoteca que se preze.

Nessa mesma lista dos 500 Maiores Álbuns da História da Rolling Stone encontramos uma outra super-coletânea. Lançado há exatos trinta anos, Substance, álbum duplo que reúne todos os singles de doze polegadas do New Order lançados entre 1981 e 1987, é outro exemplo de uma compilação que foi além das vendagens milionárias. Páginas dedicadas ao disco foram publicadas não somente nas tradicionais revistas e tabloides sobre música, mas também na Playboy e até mesmo no influente Village Voice. O Album Guide, também publicado pela Rolling Stone, o descreve como “puro prazer”, além de considerá-lo “um guia para o pop da década de 1980”. Para Thomas Erlewine, do site AllMusic.com, Substance “é o trabalho mais bem-sucedido e inovador do New Order uma vez que expandiu a noção do que uma banda de rock’n roll, e particularmente uma banda de rock indie, pode fazer”. Em 1989, o LP foi incluído na famosa Enciclopédia da Música Popular editada por Collin Larkin. Não é pouca coisa.

Muito do êxito de Substance tem a ver com a própria reputação que o New Order construiu em torno de seus singles de doze polegadas. Para o crítico musical Robert Christgau, o disco “apresenta a disciplina e a química de uma banda cujo estilo musical é potencializado pelas mixagens em seus 12 polegadas”. Há quem diga que uma das idiossincrasias do grupo é o fato do New Order nunca ter feito um grande álbum (algo do qual eu e muita gente por aí discorda), mas que, em contrapartida, teria produzido em série singles arrebatadores do calibre de “Temptation”, “Confusion”, “Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle”, “True Faith”, entre outros.

Mas parte do que tornou Substance um disco de forte apelo foi o fato de que todo o material incluído nele não havia sido lançado em um long play antes. Nos primeiros anos, o New Order tinha por hábito não incluir os singles nos seus álbuns. Por essa razão, canções como “Ceremony”, “Everything’s Gone Green”, “Thieves Like Us” e a já citada “Blue Monday” apareceram pela primeira vez em um disco cheio somente quando do lançamento de Substance. Isso representa dois terços do álbum. O outro terço é constituído por faixas que até saíram em outros discos de estúdio, a exemplo de “The Perfect Kiss” e “Bizarre Love Triangle”, mas aqui elas aparecem em versões remixadas e/ou estendidas até então disponíveis exclusivamente nos singles de doze polegadas.

Mesmo assim, para que tudo coubesse em dois bolachões foi preciso passar a tesoura em algumas músicas. “Shellshock” e “Sub-Culture” foram editadas; na versão em CD foram limados 40 segundos da apoteótica sequência final de “The Perfect Kiss”; “Temptation” e “Confusion” foram inteiramente regravadas especialmente para o disco. Nada disso, no entanto, diminuiu o brilho da coletânea que, só nos Estados Unidos, vendeu mais de dois milhões de cópias.

Outro grande mérito de Substance é do retratar com precisão o processo de transição musical operado pela banda – da sonoridade sombria e depressiva dos primeiros anos (e que mantinha o New Order mais na linha de sua encarnação anterior, o Joy Division) ao batidão eletrônico. O disco tem algo para diferentes gostos, do pós-punk ao electrofunk.

A ideia de lançar Substance, como era de se esperar, partiu do chefe da gravadora da banda na época, a Factory Records. Tony Wilson, que também era repórter e apresentador de TV na emissora Granada, de Manchester, havia comprado um novo e caro brinquedo: um Jaguar equipado com um CD player, uma novidade para a época. Tony pensou: “e se eu pudesse ouvir todos os singles do New Order de uma só vez no meu carro?”. Assim nasceu Substance. Segundo o agora ex-baixista Peter Hook: “nós fizemos Substance porque Tony queria ouvir todos os singles do New Order em seu carro… o que foi uma ótima razão se considerarmos o sucesso desse disco”.

A aposta no álbum foi tão grande que a Factory produziu uma edição promocional com capa em formato gatefold diferente da original e limitada em mil cópias numeradas para distribuir de graça para os funcionários da gravadora e os amigos mais chegados. Além disso, havia diferenças entre as edições de Substance lançadas na Inglaterra: em CD os dois LP’s aparecem juntos em um único disco, ao mesmo tempo em que traz um segundo compact disc só com lados B; na versão britânica do cassete foram incluídos faixas extras como “Dub-Vulture”, “Shellcock”, “I Don’t Care” e “True Dub” (esta última somente em uma edição ultralimitada). Substance também foi transformado em uma coletânea de vídeos lançada nos formatos VHS e videolaser (somente no Japão) em 1989, mesmo ano em que a gravadora DG Discos editou oficialmente na Argentina o obscuro Substance II, que nada mais era que o disco de lados B da edição em CD transformado em vinil duplo. Tanto o The Gatefold Substance quanto Substance II e as edições em cassete inglesas são hoje valiosas peças de colecionador.

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Para todos os gostos… De cima para baixo, da esquerda para a direita: Substance (o original), Substance II (só lados B, lançado na Argentina) e The Gatefold Substance (promo).

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The Gatefold Substance

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Substance II

A capa de Substance, criada por Peter Saville (para variar), também tem sua própria história. Em meados da década de 1980, Saville havia se lançado na tarefa de recriar/reimaginar a utopia modernista. Sentindo que a arte e o design estavam, naquela altura, à beira de um novo momento, ele concluiu que o futuro de ambos seria mais orgânico e menos linear. Com relação a esse aspecto peculiar das artes visuais, o designer começou a se interessar pela geometria da natureza. Em parceria com o fotógrafo Trevor Key, Saville passou a se dedicar à produção de uma série de imagens contemporâneas a partir da natureza, ou como o próprio artista gráfico descreveu, “de flores para a decoração do lobby da IBM no ano 2000”. Assim nasceram diversos estudos feitos com base em formas naturais que eram fotografadas e recoloridas através de uma técnica chamada dichromat. Desse modo nasceram as capas de singles como “True Faith” (1987) e “Touched by the Hand of God” (1988), além, é claro, do projeto gráfico para Substance – cada um dos vinis vinha guardado em uma capa individual (a do LP 1 traz uma flor, enquanto a do LP 2 é ilustrada por um coral), com ambas abrigadas no interior de uma capa maior onde se lê apenas o nome da banda, o título do disco e o ano com tipografia em alto relevo negra.

O New Order apresentou Substance ao vivo na íntegra (isto é, exatamente as mesmas faixas do disco e na mesma ordem) uma única vez. Foi no Irvine Meadows, Califórnia, dia 12 de setembro de 1987. Atualmente, o briguento Peter Hook e seu novo grupo, o The Light, vêm rodando o mundo em uma turnê no qual executam não apenas o álbum do New Order, como também o irmão homônimo e mais novo dedicado ao Joy Division. Esse show passou aqui pelo Brasil em dezembro do ano passado (e eu, obviamente, marquei presença).

Dando uma lida nos comentários na conta do blog no Instagram, o post sobre o trigésimo aniversário de Substance trouxe hoje declarações como: “foi o álbum em que tudo começou para mim”, “foi o meu primeiro disco do New Order”, “uma das melhores coletâneas”, “foi crucial na minha adolescência” e “há trinta anos esse disco mudou muitas vidas para sempre, incluindo a minha”. Todas essas frases traduzem o exato sentimento que o autor deste blog tem com relação a esse álbum. Ele também foi a minha porta de entrada no som do New Order e ajudou a me guiar para todo o resto: Joy Division, Manchester, Nova Iorque, Haçienda etc. Ele é meu desert island record. É por causa de Substance que hoje me dedico a escrever com paixão sobre essa turma que veio lá do noroeste da Inglaterra…

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DISCOS | “Que ‘Substance’ preto é esse?”

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Substance II: não é lenda urbana

No dia 27 de março, postei uma foto no perfil deste blog no Instagram que continha os álbuns do New Order em vinil, de Movement (1981) a Music Complete (2015). Dentre as coletâneas, apenas Substance (1987) estava representada. Todavia, algumas pessoas notaram que bem ao lado do famoso álbum duplo de capa branca, havia um “outro” Substance, só que com as cores invertidas, como se fosse um “negativo”. O usuário @childerico não resistiu e perguntou, “na lata”: “Epa!!! Que Substance preto é esse???”. Diante da curiosidade – e perplexidade – desse e de outros followers, resolvi fazer, dois dias depois, um post exclusivo sobre esse disco. Meu objetivo era justamente intrigar mais pessoas.

O LP em questão se chama Substance II. E, realmente, pouca gente ouviu falar dele ou já pôs os olhos nesse vinil. O sucesso foi enorme. Foi o post com o maior número de “curtidas” desde que o nosso Instagram foi ao ar. “Never seen it before!” [trad.: “Nunca vi esse antes!”] foi o comentário mais comum. A follower @beccas_vinyl escreveu assim: “Thanks for showing me something new today”. [trad.: “Obrigado por me mostrar algo novo hoje”] Mas apesar do espanto da maioria, é claro que há quem conheça o “irmão” do Substance “branco”: além dos colecionadores de raridades do New Order espalhados pelo mundo, temos também os… argentinos! Sim, nuestros hermanos. Na verdade, estamos falando de um disco que foi lançado única e exclusivamente na Argentina. Mas por que apenas os argentinos foram presenteados com uma “sequência” ou “parte II” da celebrada coletânea de singles de uma das mais importantes e influentes bandas mancunianas?

Bem, em primeiro lugar, Substance II não é propriamente um “outro” Substance. Ficou confuso? Expliquemos: na verdade, trata-se de um vinil duplo que reúne os mesmos b-sides que foram incluídos no “disco 2” da versão em CD de Substance. Em 1989, ano em que o Substance II foi lançado na Argentina, o compact disc já marcava sua presença nos mercados europeu, japonês e norteamericano, mas não na América Latina (o boom do formato no continente só aconteceria em meados da década de 1990). Foi quando a DG Discos, gravadora argentina que detinha os direitos sobre o catálogo do New Order no país, teve uma sacada que faltou à BMG Ariola aqui no Brasil: lançar o disco de lados B em outro LP duplo que complementasse o álbum de lados A. Também foi uma grande ideia a “capa negativa”, isto é, com a inversão das cores da capa original, além do “II” no lugar do “1987”. Todavia o álbum não tinha encartes (os vinis vinham abrigados em envelopes de papel couché pretos recortados no centro para que os selos, de cor vermelha, ficassem visíveis) e a foto do coral manipulada com a técnica do dichromat feita pelo Trevor Key, usada no encarte que guardava o LP 1 do Substance original, foi empregada na contracapa. Não há créditos para o autor do remix do projeto gráfico criado originalmente por Peter Saville, mas provavelmente deve ter sido obra do departamento de arte da própria DG Discos.

Aliás, cabem aqui algumas palavras sobre a DG. A gravadora porteña pertence à DG Producciones, empresa de produção de espetáculos de propriedade do produtor e representante artístico local Daniel Grinsbank, um sujeito que está no ramo da música há muitos anos e de muitas maneiras: ele já foi DJ (tinha um programa de rock na emissora de rádio Del Pueblo), manager e foi o responsável pelo famoso show gratuito dos Stones no Rio de Janeiro em 2006! Com a DG Discos, além de LPs do New Order, lançou no mercado argentino o fino da bossa do pós-punk: Victorialand (Cocteau Twins), Friends (The Bolshoi), In the Flat Field (Bauhaus), Express (Love and Rockets), Spleen and Ideal (Dead Can Dance), o disco homônimo dos Throwing Muses, entre outros.

A primeira vez que eu ouvi falar no Substance II foi justamente em 1989, com 12 anos de idade. A TV da sala (da casa de meus pais) estava ligada no programa Vibração, que era apresentado pelo skatista Cesinha Chaves, e exibido numa Rede Record ainda não comandada pelo “bispo” Edir Macedo. Eu curtia muito o programa – foi através dele que eu vi pela primeira vez clipes do New Order. Pois então… na ocasião eu não peguei todos os detalhes, só me recordo do Cesinha falar do Substance II e das “cores invertidas” da capa. Fiquei pensando que se tratava de um lançamento para breve no Brasil. Me empolguei. Mas o tempo foi passando e nada desse disco por estas bandas. Foi quando me passou pela cabeça que poderia ter saído apenas “lá fora”, mas eu nem cogitava a possibilidade de ser uma edição exclusivamente argentina… Com o passar dos anos, o disco tinha virado uma “lenda urbana” para mim (alguns amigos me diziam que o Substance II  era invenção da minha cabeça). Foi a chegada da internet que me fez descobrir que o álbum de fato existia – além de todo o resto que expliquei aqui. Mas daí até eu conseguir pôr minhas mãos em uma cópia foi um longo caminho.

Porém, desde que isso aconteceu, ofertas por ele começaram a vir de todos os lados…

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