REVIEW | “Movement: Definitive Edition”

C69E2D5A-C126-4963-A5E1-B675CE5F1708Há uma semana saía (lá fora) a super-aguardada “edição definitiva” de Movement, o sombrio álbum de estreia do New Order, lançado originalmente em 1981. Embalado em uma luxuosa caixa contendo um LP, dois CDs, um DVD e um livro, a nova versão do début da “Nova Ordem” parece ser o primeiro de uma série de reedições em formato deluxe de seu antigo catálogo. Na esteira do lançamento do box set, a Warner reeditou em vinis de 12” polegadas três singles do New Order do período 1981-82, distribuídos em quatro discos: duas versões diferentes de “Ceremony”, “Everything’s Gone Green” e “Temptation”. Atenção, navegante: fique de olho no limite do seu cartão de crédito!

O conteúdo exato da caixa é: o álbum original totalmente remasterizado em vinil e em CD, um disquinho recheado de material extra, como demos, mixagens alternativas e gravações de ensaio e um DVD com vídeos ao vivo – em sua grande maioria inéditos ou raros. O livro, com capa dura, páginas impressas em papel de altíssima gramatura, sem falar nas belíssimas fotos, é um mimo à parte. Enfim, há motivos de sobra para os fãs desembolsarem com gosto seu suado dinheirinho nessa caixa.

O estojo que abriga todos esses caprichos exibe a elegância e o minimalismo que se tornaram marcas registradas da identidade visual da banda. Todavia, Peter Saville, o artista que assinou o design gráfico original, não esteve envolvido no projeto, que ficou a cargo de dois antigos colaboradores seus: Howard Wakefield (criação) e Warren Jackson (direção de arte). Saville agora está envolvido com novas experiências criativas e deixou de lado as capas de discos após décadas produzindo algumas das mais brilhantes e icônicas da história do pop. A última capa que ele criou para o New Order foi a de Music Complete, de 2015.

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O álbum original – em LP ou CD – não traz nenhuma surpresa. É o mesmo tracklist de 1981 e com as faixas na mesmíssima ordem. A remasterização é de 2016, conduzida pelo engenheiro de som Frank Arkwright nos estúdios Abbey Road, e que anteriormente estava disponível apenas nos formatos streaming e digital download. Diga-se de passagem, ela é muito superior à remasterização de 2008, aquela feita para o frustrante projeto Collector’s Edition. Arkwright é um autêntico artista da engenharia de som e isso já havia ficado patente, por exemplo, no relançamento do catálogo do Joy Division anos atrás. Entretanto, como de costume, a Warner cometeu seus pecados habituais. Além de ter colocado o código “FACD 50” na lombada da capa do vinil (!!!), a gravadora chegou a anunciar que a versão em CD feita para caixa seria no estilo mini vinyl replica (reprodução exata do artwork do LP para o formato compact disc) – mas o mesmo “FACD 50” impresso na parte frontal e as visíveis diferenças nas proporções do projeto gráfico mostram que a promessa não foi cumprida.

Mas essas, digamos assim, trapalhadas passam perfeitamente batidas quando se considera tantas coisas maravilhosas reunidas em um único pacote. O CD de “extras”, por exemplo, tem tudo aquilo que os fãs sempre esperaram que viesse à luz do dia em formato digital. É bem verdade que as Western Works Demos – com o trio remanescente do Joy Division (Sumner, Hook e Morris) se revezando nos vocais – não são nenhuma novidade, ainda que esta seja a primeira vez que elas chegam ao público por vias oficiais. Porém, as gravações demo realizadas nos estúdios Cargo, Rochdale, em janeiro de 1981, são a joia da coroa desse disco. Nelas, as canções que mais tarde fariam parte de Movement, ou que foram lançadas em singles de 12” naquela época, aparecem sem o verniz dos arranjos definitivos e sem os decorativos efeitos de estúdio que o produtor Martin Hannett fez uso nas gravações que todos conhecem. Hannett também produziu essas demos, mas nelas ele deixou tudo soar de modo natural, o que nos permite vislumbrar o lampejo, ainda que tímido, do som que estaria por vir mais tarde – algo ocultado na mixagem final do LP. Preste a atenção na batida de “Mesh” e tire suas conclusões.

Um ensaio gravado de “Chosen Time”, que encerra o CD de material extra, também mostra que sem os truques de Hannett para modificar o som da bateria (sua marca registrada) o New Order já conseguia soar dance antes mesmo de assimilar os ritmos eletrônicos noturnos de Nova Iorque. Um mix alternativo de “Temptation” – a primeira tentativa real da banda de produzir música para as pistas de dança – reforça a tese de que talvez fosse esse o som que a “Nova Ordem” estava a perseguir desde o início. Todavia, foi uma busca em meio à escuridão forjada pelo fim trágico do Joy Division, origem de toda insegurança e hesitação que se ouve no material dessa época – e de um lado sombrio que teimou em perseguir o grupo por muito tempo.

O DVD tem também seus encantos. Pela primeira vez temos, na íntegra, a performance ao vivo da banda no extinto programa de TV Riverside, do canal BBC 2. Muitos se lembrarão dessa gravação por causa de um excerto de “Temptation” no documentário New Order Story, de 1993. Dentre as gravações avulsas, a de “Ceremony” no CoManCHE Student Union já era umas das favoritas deste que escreve antes mesmo de ser pinçada para o box set (está disponível no You Tube). Entretanto, a cereja do bolo é, sem dúvidas, o show no Hurrah’s, Nova Iorque, em 1980, ainda sem Gillian Gilbert na formação e possivelmente realizado com instrumentos adquiridos nos EUA após o roubo do seu equipamento original nas ruas da Grande Maçã (história já bastante conhecida entre os fãs do New Order). Infortúnios à parte, é um inédito registro com imagem e som de um curto período em que o grupo existiu como um trio, após o fim do Joy Division.

A cobertura de chantilly é o lindíssimo livro de 48 páginas. Além das notas habituais que situam o ouvinte no contexto da obra, temos fotos da banda ao vivo e dos instrumentos / equipamentos usados pelo New Order naquela época, para deleite do público geek. Há fotos de pôsteres e flyers de concertos também. Como bônus, o feliz proprietário do box set poderá ler uma transcrição da primeira entrevista oficial concedida pelo grupo.

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Não existem tantos artistas na história do pop cujos itens da discografia tenham recebido um tratamento dessa estatura. Com Movement: Definitive Edition, o New Order encontra-se agora ao lado de um seleto grupo formado Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Velvet Underground e Bowie. A nova caixa coloca a banda no seu devido lugar, dignificando seu catálogo e seu legado (em parte eclipsado pelo revival em torno do Joy Division). Além disso, nos faz olhar um disco historicamente subestimado com a indulgência que sempre lhe foi negada. E estabelece um alto parâmetro para as caixas que deverão vir a seguir.

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