REVIEW | Avaliamos “NOMC15”, o novo ao vivo do New Order

C6z6n2VWcAYX3reAntes de mais nada, alguns esclarecimentos. Originalmente, o novo disco ao vivo do New Order, intitulado NOMC15 (uma espécie de “sigla” para New Order Music Complete 2015), deveria ter saído anteontem. Todavia, poucos dias atrás os clientes que fizeram o pre-order do álbum no site da plataforma Pledge-Music foram informados do adiamento do lançamento para o dia 16 de junho. A notícia só não foi um banho de água fria completo porque a Pledge-Music garantiu que esses clientes teriam acesso ao download do álbum antes que os formatos físicos (CD duplo e vinil triplo transparente) finalmente fossem lançados. Dito e feito: ao abrir minha caixa de e-mails na sexta-feira, eis que encontrei o link para baixá-lo nos formatos de arquivo MP3 e FLAC. Joia!

Aqueles que já estão acostumados com a plataforma Pledge-Music (o que não é o meu caso) não se surpreenderam com o adiamento. Para quem não sabe do que estamos falando, seguem aqui mais algumas explicações: a Pledge-Music é uma plataforma direct-to-fan, isto é, ela permite que artistas produzam e comercializem seu trabalho por fora do esquema das grandes gravadoras ou dos conglomerados de mídia; através dessa plataforma, músicos e bandas podem distribuir seus discos diretamente aos fãs, ou contar com uma mãozinha deles para financiar novos projetos, um sistema um tanto quanto parecido com o crowdfunding. Todavia, segundo relatos, as mudanças nas datas de lançamento são comuns, infelizmente.

Por trás de NOMC15 está a “gravadora” Live Here Now (ex-Abbey Road Live Here Now), que se vem se notabilizando há alguns anos por gravações ao vivo de altíssima qualidade sonora que são distribuídas/comercializadas poucos instantes após o fim dos shows, com capa/arte e tudo o mais (graças a um super-esquema de produção), ou vendidas diretamente ao público via plataformas como a Pledge-Music. Essa não foi a primeira vez que o New Order lançou um disco ao vivo pela Live Here Now – o álbum Live at the London Troxy foi produzido nesse esquema (aliás, vale dizer que ele acabou de ser relançado).

NOMC15 contém a segunda noite da banda no Brixton Academy, Londres, bem no comecinho da turnê do álbum Music Complete, em novembro de 2015. Tive a sorte e o privilégio de ver o show de estreia dessa tour em Paris umas duas semanas antes. Os set lists foram idênticos e lembro-me bem de ter pensado, logo após a saída do show, que o concerto, exatamente daquele jeito como eu havia visto, daria um bom registro ao vivo. Mas a razão me dizia que se a banda tivesse que escolher um show da nova turnê para lançar, certamente não seria um dos primeiros, já que isso não é muito comum.

Mas pode se dizer que o show da noite de 17 de novembro de 2015 foi escolhido a dedo pelo New Order. Foi uma apresentação inspirada, numa casa lotada e com um “bônus”: a cantora Elly Jackson, que participou de duas faixas de Music Complete (“Tutti Frutti” e “People on the High Line”), subiu ao palco para cantá-las na companhia dos veteranos. Um diferencial importante, haja vista que em todos os demais shows da turnê ela foi (e vem sendo ainda) substituída por playbacks. Há coisas que, para o bem ou para o mal, a tecnologia musical não consegue reproduzir – dentre elas o calor e o feeling de uma voz humana ao vivo.

Vale mencionar que o New Order adquiriu uma certa “má fama” quando o assunto é performances ao vivo. Para muita gente, o grupo “é muito bom em disco, mas fraco no palco”. Essa “impopularidade” com relação aos shows não chega a ser uma completa uma injustiça. A banda era mesmo um tanto desleixada nesse aspecto – para não dizer punk. Para piorar, o New Order detestava dar bis – e não poucas foram as vezes que promotores e produtores incluíram a seguinte advertência ao público na bilheteria: “AVISO: talvez o grupo não toque ‘Blue Monday’!”. Na verdade, os mais fanáticos adoravam isso… Mas o New Order já não é mais assim há bastante tempo. Eles tocam praticamente o mesmo set list todas as noites, com tudo muito bem ensaiadinho (os erros são cada vez mais raros); eles agora dão encores e tocam “Blue Monday” sempre. É esse New Order que nos oferece esse NOMC15.

Uma das tarefas mais ingratas de um disco ao vivo é tentar reproduzir a atmosfera de um show para aqueles que não estavam lá. Ingrata, não… é praticamente impossível. Todavia, existem alguns que até chegam perto. Mas para isso existe um “segredo”: um pouco de “sujeira” na gravação ajuda. Bootlegs, em princípio, parecem toscos (muitos são registrados com gravadores simplórios por alguem da plateia), mas conseguem, graças a essa mesma falta de apuro técnico, nos “teletransportar” quase que por mágica para o meio do público. Ora, mas qual o motivo de tanta divagação? Digamos o seguinte: os avanços tecnológicos nem sempre conseguem transformar uma performance fantástica em um álbum ao vivo de igual nível. NOMC15 é soberbamente bem gravado e mixado; entretanto, às vezes mais parece que estamos a ouvir um disco de estúdio com algum som de plateia de vez em quando do que um memorável concerto.

A alta qualidade sonora chega, às vezes, a esterilizar algumas canções. Três exemplos: “Crystal”, “Ceremony” e “True Faith”. Pude assistir in loco as mesmas versões e arranjos de NOMC15 em Paris (tenho, inclusive, uma gravação pirata desse show) e, acreditem: os ruídos, os urros da plateia, a reverberação, o eco, etc, todas essas “imperfeições” engrandecem esses temas. Por outro lado, é preciso reconhecer que, em outros casos, o som cristalino e bem definido nos ajuda a “descobrir” detalhes que muitas vezes nos escapam quando estamos em frente às paredes de P.A.’s e misturados à multidão. “Waiting for the Sirens’ Call” seria um belo exemplo: a faixa teve o seu arranjo reconstruído para essa turnê tendo como base um remix feito pela banda italiana Planet Funk; o que no show não passa de um momento morno (daqueles que muita gente  aproveita para ir pegar uma bebida no bar), se transformou, no disco, em uma grandiosa apoteose de sintetizadores. O mesmo vale para uma das mais novas: (a excelente) “Plastic”.

A lista de músicas até que resume bem a trajetória da banda: temas novos (cinco ao todo: as três já citadas mais “Singularity” e “Restless”), os grandes hits (“Bizarre Love Triangle”, “The Perfect Kiss”, “Temptation”, “Crystal”, “True Faith” e, é claro, “Blue Monday”), canções menos famosas (“5-8-6” e “Your Silent Face”), obscuridades (“Lonesome Tonight”, lado B do single “Thieves Like Us” e uma das surpresas da turnê) e, evidentemente, um par de temas do Joy Division (“Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart”). Fãs mais radicais e “malas” lamentarão a ausência de canções de Movement, mas o que realmente vem fazendo falta são faixas do disco mais perfeito e bem sucedido da banda: Technique, de 1989. Talvez a recusa de tocar as músicas desse LP seja um resquício daquele antigo New Order…

Para os caçadores de pelo em ovo, alguns discretíssimos tropeços aqui e ali podem ser encontrados, sim!, como uma batida errada em “Ceremony” (coisa rara em se tratando de Stephen Morris, “a bateria eletrônica humana”), um teclado entrando ligeiramente atrasado em “Tutti Frutti”… Se eles não existissem, não seria o New Order, é claro. Mas não passam de gotas insignificantes num oceano de pontos a favor – em outras palavras, o saldo geral em NOMC15 é positivo. Até mesmo o som do baixo de Tom Chapman, mixado um tanto atrás dos demais instrumentos (o que é um retrocesso em matéria de New Order), não chega a nos fazer sentir desesperadamente a falta de Peter Hook (por estranho que isso possa parecer). Mas é certo que os detratores do New Order “certinho” vão discordar disso veementemente.

O correto é dizer que NOMC15 é um disco que reflete tanto a transformação do New Order em artistas completos (que jogam bem tanto em estúdio quanto ao vivo) quanto o crescimento e amadurecimento de seu público – ou, melhor dizendo, da parte dele que quer ver sua banda favorita fazendo bonito no palco, ainda que um tanto burocraticamente e sem a espontaneidade e a atitude de outrora. É como diz a primeira linha do refrão de “Times Change” (trad.: “os tempos mudam”): “A vida nunca mais será a mesma”

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REVIEW | Avaliamos os novos discos ao vivo de Peter Hook & The Light

Peter_Hook_Digi-600x425Peter Hook deve gostar muito de ouvir o tilintar das caixas registradoras… afinal, que razão ele teria para pegar três shows seus com o The Light (seu atual grupo) e lançá-los distribuídos em seis CDs (dois álbuns duplos e dois simples), ou ainda em nove discos de vinil (avulsos)? Não, caro leitor, você não leu errado: são meia dúzia de discos laser e uma novena de LPs.

A última vez que me lembro de ter visto algo assim foi quando a New State Recordings lançou, em 2006, uma coleção de doze singles de vinil contendo remixes clássicos e recentes de faixas do New Order. Conheço gente que até hoje não conseguiu completar a coleção devido à dificuldade para se conseguir os doze discos juntos. Quem ficou babando pelos novos lançamentos do The Light vem passando por um perrengue parecido. Eu explico…

Quando Hook anunciou o lançamento, foi dito que as versões em vinil dos álbuns Unknown Pleasures Live in Leeds, Closer Live in Manchester, Movement Live in Dublin e Power, Corruption and Lies Live in Dublin seriam edições limitadas produzidas exclusivamente para o Record Store Day 2017 (ocorrido no último dia 22 de abril). Só que muita gente se queixou de que não havia uma loja sequer entre as inscritas no evento que possuísse em estoque os nove discos (coloridos, faltou dizer). Resultado: mesmo quem estava disposto a abrir a carteira e fazer tamanha extravagância acabou não obtendo êxito. Até este momento não sei ao certo o que dizer sobre essa bizarra estratégia comercial.

Entretanto, como as edições em CDs já chegaram em nossas mãos, foi possível fazer uma avaliação dos novos lançamentos para o blog. Será que valem a pena? Bom, leiam as análises individuais de cada álbum e tirem suas próprias conclusões!

Unknown Pleasures Tour 2012 – Live in Leeds (☆☆☆): Este registro do show realizado dia 29 de novembro de 2012 no The Cockpit, uma popular casa noturna que fechou suas portas em 2014, é o terceiro lançamento oficial de uma versão ao vivo completa do álbum Unknown Pleasures (isso se não colocarmos na conta o CD triplo So This Is Permanence, que apresenta Peter Hook e o The Light interpretando em uma única noite todo o repertório gravado pelo Joy Division). No mínimo isso revela o quanto o disco é estimado pelo baixista. Todavia, se eu tiver que escolher a melhor das três versões ao vivo de Unknown Pleasures, fico com Live in Australia, de 2011. De interessante em Live in Leeds é o fato de Hook nos brindar com um set mais longo e que inclui uma seleção mais variada de faixas de outros períodos do Joy Division, abrangendo desde a fase punk com “The Drawback” e “Warsaw” até canções de Closer. Todavia, essas faixas reaparecem em versões melhores no disco Closer Tour 2011: Live in Manchester (a exceção talvez seja “Atrocity Exhibition”…).  Aqui, de uma maneira geral, falta um pouco de punch. Na ocasião em que o show no The Cockpit foi gravado, Nat Wason ainda era o guitarrista do The Light. Destaques: “Disorder”, “New Dawn Fades”, “Shadowplay”, “Interzone”, “Atrocity Exhibition”, “Something Must Break”.

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Unknown Pleasures Live in Leeds

Closer Tour 2011 – Live in Manchester (☆☆☆☆): também com Nat Wason na guitarra, aqui temos o The Light apresentando uma razoável versão da obra-prima do Joy Division no FAC 251 The Factory, um clube do qual Peter Hook é sócio e que fica no prédio que outrora sediava o quartel-general da Factory Records. Tal como Live in Leeds, é um CD duplo – o que quer dizer que além do álbum Closer tocado na íntegra temos diversas outras faixas do Joy Division. “From Safety to Where…?” transformou-se de cara em uma das minhas favoritas. Mas vamos com calma! Até chegarmos nela temos ainda que passar por uma ótima versão da instrumental “Incubation” (que abre o disco), além de “Dead Souls” (apenas “ok”) e “Autosuggestion” (em versão superior a aquela apresentada no ano passado aqui no Brasil). Dentre as canções de Closer, destacamos “Atrocity Exhibition”, “Colony” (interpretada na voz arrepiante de Rowetta, dos Happy Mondays) e “The Eternal”. Cabe aqui mencionarmos uma certa dificuldade do baterista Paul Kehoe de emular o estilo “rápido, porém lento” de Stephen Morris no Joy Division – o que ficou evidente, por exemplo, na arrastada interpretação de “Passover” e numa versão “sem-sangue-nos-olhos” de “Novelty”. Por sua vez, “Decades”, minha faixa favorita de Closer, não chegou aos pés da apoteótica versão que o New Order vem apresentando em seus shows. No balanço geral, é um disco melhor que Unknown Pleasures Live in Leeds. Vale a pena também por “These Days”,  “Warsaw” e pelos vocais guturais de Hook em “Transmission”.

Movement Tour 2013 – Live in Dublin (☆☆☆☆): Inexplicavelmente, esse show gravado no dia 22 de novembro de 2013 no The Academy, em Dublin, foi dividido em dois CDs simples, cada um deles trazendo uma interpretação completa de um álbum do New Order. Este, com foco em Movement (primeiro LP da banda), abre com uma seleção de sete faixas do Joy Division. Talvez a intenção de Hook tenha sido evidenciar a ligação, em termos musicais, entre o JD e o som do New Order em seu álbum de estreia. Em Movement Live in Dublin, temos versões ainda melhores de “Incubation”, “Autosuggestion” e “The Drawback”, mas a falta de brilho em canções como “Passover” e “Wilderness” se repete. Só que desta vez o guitarrista não é mais Nat Wason, mas, sim, um velho companheiro de Hook: David Potts (ex-Revenge e ex-Monaco). Fãs mais ardorosos do rancoroso baixista que me perdoem, mas ainda não nasceu uma versão de “Ceremony” feita pelo The Light que realmente me agrade – e o mesmo digo para a clássica “Dreams Never End”. Entretanto, as interpretações de “Procession” e “Cries and Whispers” são dignas de elogios e aplausos, assim como quase toda releitura de Movement, com destaque para “Truth”, “Senses”, “Chosen Time” e “Doubts Even Here”.

Power, Corruption and Lies Tour 2013 – Live in Dublin (☆☆☆☆): Aqui temos a continuação do show cuja primeira parte foi incluída no CD anterior. Com exceção de “Love Will Tear Us Apart”, que encerra o disco, o resto é puro New Order. O álbum começa com uma versão espectacular e arrebatadora de “Everything’s Gone Green” – single originalmente lançado em 1981, logo após Movement, e que é considerado por Peter Hook (e, também, pelos seus ex-colegas de banda) o primeiro lampejo do som clássico do N.O. Sem muita enrolação, o disco segue com “Age of Consent”, faixa que dá início à interpretação do The Light para Power, Corruption and Lies. Apesar de ortodoxas, isto é, com arranjos muito próximos aos da gravações originais de estúdio, as versões ao vivo desse Live in Dublin possuem um incontestável frescor, o que faz desse CD o melhor entre os quatro. Todavia, um dos raros pontos fracos aqui são os vocais de Hook. A voz do baixista até que se ajusta um pouco melhor ao repertório do Joy Division ou ao material inicial do New Order. Mas não é o caso, por exemplo, de “Leave Me Alone”, “True Faith” (todavia impecável na parte instrumental) e “Temptation”. O disco inclui ainda um registro de “Blue Monday” que é bastante representativo de uma das grandes “falhas” desse pacote lançamentos ao vivo: a falta de um grave mais “cheio” e poderoso. Cabem aqui menções honrosas para “The Village” e “Ultraviolence”.

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Closer Live in Manchester (no alto), Movement Live in Dublin (esquerda) e Power, Corruption and Lies Live in Dublin (à direita).

Os discos vêm embalados em bonitos estojos tipo digipak cujas artes recriam ou reciclam, com muito bom gosto, os projetos gráficos dos álbuns originais. Entretanto, surpreende o fato de que nenhum deles traz encartes / libretos com fotos dos shows ou textos. Também é de se estranhar que não existem créditos para o artista gráfico (ou escritório de design) responsável pela parte visual, o que sugere que as capas podem ter sido produzidas pelo departamento de arte da própria gravadora (Westworld Recordings). Esse “desleixo” é algo a se lamentar, principalmente porque as capas ficaram realmente muito boas.

Depois de incontáveis coletâneas de gravações de estúdio, agora chegou a vez do mercado ficar abarrotado de álbuns ao vivo com o material do Joy Division e do New Order – não podemos nos esquecer que no mês que vem chega NOMC15, registro de um show da turnê do disco Music Complete feito em Londres em 2015. E o New Order já tem outros três discos ao vivo oficiais em seu catálogo: BBC Radio One Live in Concert (1992), Live at the London Troxy (2012) e Live at Bestival (2013). Pelo visto, se depender de Peter Hook os fãs de ambas as bandas terão discos ao vivo para mais umas duas gerações.

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NOTA: É com profundo pesar e tristeza que publico este post, já que ontem mais uma vez a loucura e o desprezo pela liberdade e pela vida ganharam as manchetes. Manchester chora as vítimas da insensatez, da ignorância e da falta de escrúpulos daqueles que querem impor aos outros, através da violência e do medo, sua enviesada e distorcida visão de mundo. Minhas condolências às famílias dos mortos no ataque à Manchester Arena. E registro aqui minha torcida pela recuperação dos feridos. Foi a música que primeiro me conectou a Manchester; agora, o que me conecta à cidade é a solidariedade e a empatia.