REVIEW | “New Order Presents Be Music”

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New Order “mijando” no penico dos outros…

O ano de 1982 representou uma espécie de ponto de inflexão para o New Order. Após uma excursão pelos Estados Unidos no ano anterior, a banda deu início à virada em direção à dance music que a transformou em um dos grupos mais importantes e influentes de sua geração. De volta à Inglaterra, o New Order gravou a pulsante “Temptation” (faixa que marcou a ruptura definitiva com o Joy Division, sua encarnação anterior) e abriu uma casa noturna em Manchester  – a mítica Haçienda – tendo como parceira no empreendimento a sua própria gravadora – a não menos mítica Factory Records. Também foi em 1982 que seus integrantes começaram a se lançar em novas aventuras produzindo e remixando discos e faixas de outros artistas dance, muitos deles companheiros na Factory. À medida em que adquiriam novos equipamentos (sequenciadores, samplers, baterias eletrônicas), originalmente para explorar em seus próprios discos as possibilidades abertas pelas novas tecnologias musicais, Sumner, Hook, Gilbert e Morris passavam a compartilhar seus brinquedos e o know how obtido com as bandas que estavam produzindo. Era uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que fertilizavam o trabalho de outros músicos, as experiências realizadas nos quintais alheios serviam de laboratório para o que viriam a fazer em suas próprias gravações.

Nessas aventuras “fora de casa”, os membros do New Order mantiveram suas “identidades secretas” individuais preservadas atrás de uma marca: Be Music. Originalmente, Be Music era o nome da editora musical criada pela banda e seu empresário, Rob Gretton (1953-1999), para o licenciamento do seu catálogo e para o recebimento de royalties e direitos autorais. Todavia, Gretton teve a ideia de transformar a Be Music em algo maior e mais ambicioso. O falecido ex-manager do New Order queria que a banda fosse vista publicamente como uma entidade única – o objetivo era fortalecer a unidade do grupo e evitar que um ou mais membros fizessem um nome fora do New Order… e lucrassem com isso. Quando Peter Hook produziu, em fevereiro de 1982, uma faixa dos Stockholm Monsters chamada “Death Is Slowly Coming”, o crédito foi para a “entidade” em vez de para o baixista. Resumindo: nada de marketing pessoal ou luzes de holofotes sobre um integrante específico – naquela época eles eram radicalmente avessos a qualquer tipo de autopromoção, idolatria ou à ideia de uma eventual personalidade dominante na banda. Claro, isso tudo foi antes de Electronic, The Other Two, Revenge etc…

A Factory Benelux, filial belga da Factory Records que sobreviveu ao colapso de sua matriz, numa louvável iniciativa reuniu no recém-lançado New Order Presents Be Music o extenso material produzido e remixado por integrantes do NO entre 1982 e 2015. Editado em dois formatos (LP duplo e box set com três CDs), a nova compilação, no entanto, não foi a primeira dedicada às produções da Be Music. Em 2003, a LTM Recordings (gravadora administrada pelo britânico James Nice, o mesmo sujeito que atualmente também é o manda-chuva da Factory Benelux) lançou Cool As Ice: The Be Music Productions. No ano seguinte, a LTM editou uma sequência para a compilação anterior que se chamou Twice As Nice e que incluía, também remixes e produções assinadas por Arthur Baker, Donald “DoJo” Johnson (A Certain Ratio) e Mark Kamins. Pois então: uma parte de New Order Presents Be Music já havia sido reunida em compilações específicas antes. Esse é o caso, por exemplo, de “Looking From a Hilltop (Megamix)” do Section 25; “Cool As Ice”, de 52nd Street; “Love Tempo”, do Quando Quango; e “Fate/Hate”, de Nyam Nyam.

Mas por abranger um período mais extenso e não se concentrar apenas nas produções feitas para grupos do cast da Factory, New Order Presents Be Music é, até o momento, a compilação mais completa e atualizada sobre Be Music. Além disso, todas as faixas que fazem parte da coletânea foram remasterizadas especialmente para o projeto. E mesmo não sendo um álbum do New Order propriamente dito, de uma certa forma é quase como se fosse. Em primeiro lugar, algumas faixas foram escritas e gravadas pelos próprios integrantes da banda, como no caso de “Theme”, uma criação de Peter Hook usada como tema de abertura dos shows do grupo Lavolta Lakota; “Inside”, originalmente lado A de um EP ultralimitado (500 cópias) que Gillian Gilbert e Stephen Morris lançaram em 2011 com uma trilha sonora produzida especialmente para uma exposição do designer Peter Saville na galeria francesa Frac Champagne-Ardenne; e “Video 5-8-6”, uma canção de 22 minutos do próprio New Order tocada na noite de inauguração da Haçienda e a partir da qual nasceram algumas das faixas do álbum Power, Corruption and Lies (1983). Para ficar ainda mais com cara de disco do New Order, a capa, texturizada em ambos formatos, foi criada por Matthew Johnson para o Peter Saville Studio – todavia, não há indicações de que Saville tenha trabalhado como diretor de arte dessa vez.

O maior problema de New Order Presents Be Music são as diferenças entre as edições em CD e em vinil. Para começar: a versão digital possui 36 faixas, contra apenas 12 do LP! Além disso, o box set vem acompanhado de um livreto de 48 páginas com informações detalhadas e fotos das capas dos singles compilados. Em plena era do naufrágio do CD e da guinada de 360o do vinil, a versão long play bem que poderia ter recebido um tratamento melhor para agradar o fã clube do formato. Sem falar que a “mutilação” operada pela Factory Benelux no bolachão preto sacrificou algumas pérolas como “You Hurt Me” (do Shark Vegas), na qual Bernard Sumner também contribuiu como músico convidado; “Motherland” (do obscuro The Royal Family and the Poor); “Telstar” (cover do clássico instrumental dos Tornadoes assinado pelo Ad Infinitum); “Tell Me” (da banda de synthpop Life, da qual fazia parte Andy Robinson, ex-programador e técnico de teclados do New Order, e agora empresário do grupo); e “Knew Noise” (Section 25), lado B do single “Girls Don’t Count” produzido em 1979 por Ian Curtis e Rob Gretton, mas creditado à Fractured Music (uma espécie de embrião da Be Music).

O material mais recente produzido e/ou remixado pelos integrantes do New Order, por sua vez, forma um conjunto mais irregular. Além disso, se resume basicamente a contribuições do Stephen Morris ou do The Other Two (dupla formada por ele e a tecladista Gillian Gilbert). As colaborações com o Factory Floor, Helen Marnie (vocalista do Ladytron) e Tim Burgess (dos Charlatans) são, digamos assim, “ok”. Já o remix de “Daggers”, do Fujiya & Miyagi é pura bobagem descartável.

Também é de se estranhar a ausência das duas faixas gravadas e lançadas pelo New Order, mas sob o rótulo Be Music, em um flexi disc promocional distribuído de brinde para os frequentadores da Haçienda em sua primeira véspera de Natal, em 1982. “Ode to Joy” (um cover bizarro de “Ode an die Freunde”, de Beethoven) e “Rocking Carol” (uma tradicional canção natalina tcheca) foram recentemente incluídas na reedição da coletânea Ghosts of Christmas Past: Remake (da gravadora Les Disques du Crépuscule, hoje também sob o comando de James Nice) e apesar de fazer total sentido a inclusão delas numa compilação de bandas alternativas tocando/cantando canções natalinas, elas tinham que estar em New Order Presents Be Music também.

O saldo, todavia, é positivo. O novo álbum, de um modo geral, atinge o objetivo de apresentar ao ouvinte uma visão panorâmica de um lado pouco conhecido, mas ainda assim relevante, do New Order. Presents Be Music nos mostra que a influência de uma banda não se mede apenas pelo impacto de seus próprios discos. Seja como sócios de uma das danceterias mais famosas da Europa nos anos oitenta e noventa, seja como produtores e remixers, os membros do New Order ajudaram, de diversas maneiras, a traçar as coordenadas que definiriam a direção seguida pela música popular – alternativa ou mainstream – nos últimos anos.

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NOTA: Foi uma longa pausa de dezembro do ano passado até aqui… De lá para cá, passei por uma trabalhosa mudança e uma inesperada internação… Mas agora parece que as coisas estão voltando para os trilhos – incluindo o blog! Vejo vocês no próximo post. Um abraço.

NEWS | New Order: influência e contribuição à música são celebradas em prêmio e novo site

0c21ef9a-5502-459f-b3e6-9a3e3b17952a-1360x2040O álbum Music Complete colocou o New Order novamente sob os holofotes. Hoje a banda foi um dos vencedores do “Q Awards 2015”, prêmio oferecido pela revista britânica Q Magazine. O New Order havia sido originalmente indicado para a categoria “Melhor Faixa Apresentada pela Absolute Radio” com a canção “Restless” (o primeiro single de Music Complete). Todavia, quem levou esse troféu foi The Libertines, com “Gunga Din”. Mesmo assim, o grupo não saiu da cerimônia de mãos vazias e teve sua importância reconhecida ao faturar o prêmio pela “Notável Contribuição à Música” – categoria similar, guardadas as devidas proporções, ao “Lifetime Achievement Award” do Grammy (Trad.: “Prêmio Pelo Conjunto da Obra”). Mas o reconhecimento à importância do New Order vem sendo demonstrado de várias outras maneiras. Hoje também foi lançado um novo site chamado Singularity: The Influence of New Order. Nele, artistas influenciados pelo N.O. relatam o significado da banda em suas vidas e publicam alguma produção pessoal relacionada com a banda. O Hot Chip, por exemplo, publicou, na íntegra, seu remix para “Tutti Frutti”, faixa escolhida para ser o segundo single de Music Complete; a dupla Factory Floor fez o upload do trecho de uma sessão de gravação feita com Stephen Morris; o ilustrador Will Broome exibe seu “urso” com olhos arregalados que remetem à capa de “Blue Monday 1988”; a banda norteamericana de post-rock Algiers deixou seu relato por escrito sobre como foi seu primeiro contato com a música do New Order; e o decano do post-punk inglês Robert Smith, a voz do Cure, montou uma mixtape com suas canções favoritas do grupo que outrora se chamou Joy Division (dentre elas “Dreams Never End”, faixa cuja linha de baixo teria sido copiada pelo próprio Cure em “In Between Days”).

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NEWS | Stephen Morris fala sobre fazer “Music Complete” sem Peter Hook

Control+Gala+Screening+45MePKxniVFxNa segunda-feira, dia 10 de agosto, o site da revista canadense Explaim! Music publicou uma entrevista com Stephen Morris, baterista do New Order, na qual ele falou um pouco sobre como foi compor o novo álbum da banda, Music Complete, sem Peter Hook (baixista original). Na mesma entrevista, ele também falou como o grupo se sente em relação à desconfiança do público no que concerne a um New Order sem Hook e sobre a banda Factory Floor, que segundo Morris teria sido a inspiração para que voltassem a compor com os sintetizadores em destaque, como nos velhos tempos. A tradução completa da entrevista trazemos logo a seguir:


Stephen Morris, do New Order, fala do primeiro álbum sem Peter Hook
por Cam Lindsay
Publicado em 10 de agosto de 2015

Em 2011, quando o New Order anunciou que voltaria à ativa sem Peter Hook, membro original da banda, os fãs se perguntaram quanto tempo eles poderiam continuar sem o icônico baixista. Embora Hook estivesse ocupado com seu próprio trabalho com base no New Order e no Joy Division, os membros remanescentes Bernard Sumner, Stephen Morris e Gillian Gilbert montaram uma nova versão da banda com o colaborador de longa data Phil Cunningham e um novo baixista, Tom Chapman, para uma turnê mundial. A revitalização não apenas foi bem sucedida na estrada, mas também em estúdio, e assim o New Order passou a fazer seu nono álbum. [N.T.: a matéria não contabilizou o CD Lost Sirens, com sobras de estúdio de Waiting for the Sirens Call, de 2005]

O New Order está ciente das dúvidas que cercam um álbum sem Hook, mas eles não estão muito incomodados com o que as outras pessoas pensam.

“O negócio é escrever música e fazer o melhor que você puder”, disse Morris à Exclaim!. “E algumas pessoas vão gostar, enquanto outras vão achar uma porcaria. Eu não posso fazer nada com relação ao que os outros pensam. Na verdade, cabe a eles. Nós apenas fizemos o melhor disco que pudemos fazer”.

Music Complete (que sairá pela Mute no dia 25 de setembro) foi feito com um elenco de colaboradores de peso. Junto com Cunningham e Chapman, Tom Rowlands (Chemical Brothers), Stuart Price e Richard X ajudaram na produção, e Elly Jackson (La Roux), Iggy Pop e Brandon Flowers (The Killers) contribuíram com vocais. E mesmo com todos esses nomes participando, Morris e a banda estavam conscientes de que o baixista de longa data não estava envolvido. Essa consciência, no entanto, ajudou-os mais do que qualquer coisa.

“Isso é parte do que me faz pensar de forma diferente [neste álbum], explica ele. “Inconscientemente, ele [o álbum] nos fez trabalhar de um jeito diferente, porque nós estávamos trabalhando com Tom em vez de com Peter. Então fizemos as coisas de um outro modo. Só esse fato, realmente, fez alguma diferença. Mudou, mas isso não tornou as coisas mais difíceis ou mais fáceis. Eu acho que definitivamente contribuiu para nos concentrarmos na música e a nos esforçarmos mais”.

Quando a banda começou a trabalhar em Music Complete com Tom Rowlands, em 2013, eles rapidamente decidiram que queriam fazer um álbum que os levassem de volta aos dias em que os sintetizadores governavam sua música. Para Morris, o trabalho do Factory Floor inspirou essa decisão.

“Por volta de 2011 eu adquiri o CD de uma banda chamada Factory Floor e eu pensei que era a coisa mais incrível que eu tinha ouvido falar em tempos”, diz ele. “Me lembrou a maneira como o New Order costumava usar a eletrônica, ao mesmo tempo dance e rock, algo que deixamos de fazê-lo por um tempo. E eu meio que senti que devíamos voltar a utlizar sintetizadores em vez de guitarras.

“Eu acho que nesse disco nos aproximamos de uma maneira diferente de escrever e nós nos concentramos mais em ritmos usando sintetizadores e linhas de baixo primeiro, e, depois, as guitarras”, acrescenta. “Nos últimos dois discos nós fizemos ao contrário: começávamos com os riffs de guitarra e, em seguida, colocávamos os sintetizadores e o baixo. Isso nos fez pensar de maneira diferente e a nos dedicarmos mais”.

Com relação ao título do álbum, Morris sabe que Music Complete vem sendo interpretado como um canto do cisne, mas ele apenas cita-o como outro exemplo da “relação estranha que o New Order tem com títulos”.

Music Complete partiu de Bernard quando ele disse ‘vamos chamá-lo de Musique Concrète’”, explica ele. “Mas não podíamos chamá-lo assim, então dissemos: ‘vamos chamá-lo de Music Complete’. E por alguma razão esse passou a ser o título. Todo mundo gostou dele. Nós não tínhamos pensado sobre ele ter um senso de finalidade. Nunca pensei que soasse como se fosse nosso último álbum. E também nunca pensamos que ele soa como se fosse outra coletânea do New Order, pois eu acho que, sinceramente, o mundo já tem o suficiente delas. Foi o melhor título a que se poderia chegar, porque nós escolhemos os títulos por último. É do tipo que resume todos os estilos musicais. Ele [o disco] não é totalmente dance, há um bocado de coisas diferentes nele. Music Complete é o que melhor o define”.


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