NEWS | Encaixotando Joy Division e New Order

Como se já não bastasse a edição definitiva de Movement e o álbum ao vivo So It Goes.., o ano de 2019 ficará conhecido como aquele dedicado ao lançamento de materiais do New Order e do Joy Division em luxuosos box sets. Na verdade, essa é a tendência atual do mercado – enquanto o downloadstreaming sao voltados para o público médio, as edições premium limitadas (e caras) destinam-se à satisfação de fãs e colecionadores. Além das duas caixas citadas, listamos aqui outros quatro combos encaixotados que podem interessar os amantes dessas duas bandas. Então vambora…

STUMM433 (Vários Artistas, Mute Records): Parte da série comemorativa de 40 anos do selo Mute iniciada no ano passado, trata-se de uma caixa de cinco CDs trazendo artistas antigos e atuais da gravadora (dentre eles, o New Order) interpretando, cada um à sua maneira, a música/experimento 4’33” (lê-se “quatro minutos e trinta e três segundos”) do compositor de vanguarda John Cage (1912-1992). Apresentada ao piano pela primeira vez em 1952, consiste em quatro minutos e meio de silêncio – ou quase. Nenhuma nota musical é tocada, o que conta são os sons e ruídos aleatórios do ambiente – o “som do silêncio” – fazendo com que a cada “execução” o resultado final seja sempre diferente. O projeto da Mute é deveras extravagante, afinal são cinco discos inteiros de “silêncio”… entretanto, parte da renda obtida com as vendas da caixa será doada para a British Tinnitus Association, uma entidade dedicada à prevenção, tratamento e difusão de informações sobre uma doença conhecida em português como tinido (ou acufeno). Trata-se da mesma doença da qual sofreu, por anos, o baterista Craig Gill, do Inspiral Carpets, que suicidou-se em 2016 (ele sofria de uma depressão decorrente do tinido). Dentre os demais intérpretes da “canção” temos, além do New Order , bandas como  Depeche Mode, A Certain Ratio, Cabaret Voltaire, Erasure, Nitzer Ebb, The Normal, The Afghan Whigs, Laibach e muitas outras. Link para pré-venda: http://mute.com/mute/stumm433-pre-order-now 

Exclusive Mockups for Branding and Packaging Design

ALWAYS NOW (Section 25, Factory Benelux): Lançado originalmente pela Factory Records em 1981, o álbum de estreia do Section 25 acaba de ganhar pela Factory Benelux (uma espécie de sucursal belga da Factory que sobreviveu à falência da matriz) uma edição remasterizada com uma caminhão de extras. É uma caixa com cinco LPs, sendo que as primeiras mil cópias foram produzidas com vinis coloridos (preto, transparente, cinza, amarelo e vermelho). Um dos discos contém uma preciosa jam da banda ao lado do New Order, gravada ao vivo na Universidade de Reading (Inglaterra) no dia 8 de maio de 1981. O box pode ser adquirido diretamente no site da Factory Benelux: https://www.factorybenelux.com/always_now_fbn3_045.html

SharedImage-92811

USE HEARING PROTECTION: FACTORY RECORDS 1978-1979 (Vários Artistas, Rhino Records): Com lançamento anunciado para outubro deste ano, essa lindíssima caixa trará edições facsimile dos dez primeiros itens/produtos lançados pela Factory Records, do icônico poster da primeira “Noite da Factory” no Russel Club, em Manchester (FAC-1), até o LP de estreia do Joy Division, Unknown Pleasures (FAC-10), passando ainda pelo EP duplo A Factory Sample (que contém as faixas “Digital” e “Glass”, do Joy Division, além de canções do Cabaret Voltaire, do Durutti Column e do comediante John Dowie), os singles “Electricity” (OMD) e “All Night Party” (A Certain Ratio), outros dois posteres, um DVD e um livro de 60 páginas. Como bônus, esse box set promete um single de 12″ dos Tiller Boys (planejado, mas nunca lançado) e dois CDs recheados de entrevistas do Joy Division. A caixa é uma exclusividade da Rhino UK (o que quer dizer que ela só poderá ser encomendada na store virtual da gravadora) e sua edição é limitada em 4.000 cópias. O preço é salgadíssimo: £ 180 (aproximadamente R$ 856). Link da pré-venda: http://store.rhino.co.uk/uk/use-hearing-protection-factory-records-1978-79-limited-edition-box.html

uhp_white_1_

FACTORY RECORDS: COMMUNICATIONS 1978-92 (Vários Artistas, Rhino Records): A Rhino UK também promete para novembro desse ano uma segunda caixa, dessa vez com oito LPs contendo material de vários artistas do cast da Factory e abrangendo os 14 anos de vida da gravadora. A tiragem é limitada em apenas 500 unidades, mas o preço é um pouco mais “amigável”: £ 127 (cerca de R$ 605). Esse box foi originalmente lançado no formato CD em 2009 e continha quatro discos e um belíssimo livreto (além disso, a Rhino lançou em edições passadas do Record Store Day dois samplers em vinil de 10″ com gravações que não faziam parte da caixa). Em Communications 1978-92 o New Order contribui com oito faixas, o Joy Division com quatro, o Electronic (projeto solo do vocalista/guitarrista Bernard Sumner), o Revenge (do agora ex-baixista Peter Hook) e o The Other Two (duo formado pelo casal Stephen Morris / Gillian Gilbert) com uma cada um. Todas em versões de estúdio que o público já está careca de ouvir. No mais, versões originais de bandas como OMD, A Certain Ratio, Section 25, James, Happy Mondays, Durutti Column, The Wake, 52nd Street e muitos outros. A quem interessar possa: http://store.rhino.co.uk/uk/factory/factory-communications-1978-92-limited-edition-silver-8lp.html/

fac_white_1

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

Anúncios

NEWS | FBN anuncia nova compilação de faixas produzidas e remixadas pelos membros do New Order

fbn60Enquanto estamos na contagem regressiva para os shows do New Order e do Peter Hook & The Light no Brasil, o site da Factory Benelux – originalmente uma licenciada da Factory Records para os mercados de Bélgica, Holanda e Luxemburgo que sobreviveu ao naufrágio da sua matriz inglesa  – anunciou recentemente o seu próximo lançamento, a compilação New Order Presents Be Music.

Para quem está por fora: “Be Music” era a editora musical criada pelo New Order no começo da década de 1980 não apenas para o recebimento dos royalties sobre o seu catálogo mas também para servir de “assinatura” toda vez em que seus integrantes estivessem envolvidos em trabalhos fora da banda como produtores ou remixers.

Ao longo dos anos oitenta, Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris produziram vários artistas do cast da gravadora Factory Records, como Section 25, 52nd Street, Quando Quango, Royal Family & The Poor, entre outros. A LTM Recordings, que pertence ao atual comandante da Factory Benelux, James Nice, já havia editado duas coletâneas dedicadas às produções da Be Music: Cool As Ice (2003) e Twice As Nice (2004). Mas New Order Presents Be Music promete ser mais completa. Em um box set de três CDs (ou em LP duplo), a nova compilação, que será lançada em fevereiro do ano que vem, incluirá também remixes mais recentes, produzidos em sua maior parte por Stephen Morris, feitos para nomes como Factory Floor, A Certain Ratio e Section 25. De lambuja, será incluído “Knew Noise”, faixa do Section 25 produzida por Ian Curtis e Rob Gretton.

Segundo a Factory Benelux, a capa (ver foto) será produzida por Matt Robertson em associação com o Peter Saville Studio.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

MEMÓRIA | Os 35 anos de “Movement”.

fed27ccb7c6e47c31befa0f11344913e-1000x1000x1

Movement: o álbum “maldito” de estreia que comemora 35 anos.

“Fazer Movement foi um grande esforço, porque estávamos apáticos, apagados e no fundo do poço, o que era de se esperar porque a morte de Ian ainda estava fresca na memória (…) Tudo era difícil e diferente do Joy Division porque sem Ian algo havia se perdido, algo que nunca mais voltaria (…) A dinâmica havia mudado totalmente, era frustrante, tudo era diferente”.

 

Essas foram palavras de Bernard Sumner em seu livro de memórias, Chapter and Verse: New Order, Joy Division and Me (Bantam Press, 2014, 343 paginas), sobre o primeiro LP do New Order, Movement, lançado há exatos 35 anos. Disco “maldito”, os membros da banda constumam se referir a ele como the difficult one [trad.: “o difícil”], o que o depoimento de Sumner claramente confirma. O New Order não toca uma faixa sequer desse álbum desde 1989. Sumner jura que só o escutou depois de pronto uma única vez e, desde então, nunca mais conseguiu fazê-lo de novo. Os demais integrantes, por outro lado, costumam ser mais condescendentes com ele. O ex-baixista Peter Hook, em entrevista concedida aqui mesmo no Brasil à revista Bizz em 1988, disse: “Em Movement foi a primeira coisa que fizemos do zero (…) Tínhamos pouquíssimo tempo para compor, pois era importante para nós não parar e também porque tudo o que aconteceu foi tamanho choque que tínhamos que nos manter ocupados. Por isso quisemos gravar o mais rápido possível. É até hoje o único LP que fizemos assim, tão rápido. E isso transparece. Ficou um pouco confuso em certas partes. Mesmo assim, acho um bom disco. A tecladista Gillian Gilbert, reintegrada ao grupo em 2011 após dez anos “sabáticos”, disse no ano passado ao site Brooklyn Vegan o seguinte: “Particularmente, eu adoriaria revisitar Movement. Na época era algo para se deixar na prateleira, mas acho que ele soa muito bom hoje em dia”.

A já citada revista Bizz, na ocasião do lançamento do disco no Brasil (com quase dez anos de atraso), certamente foi mais gentil nas críticas ao LP do que a imprensa musical gringa em 1981. “O New Order preservava a sonoridade sombria e a aura misteriosa que envolvia o Joy Division enquanto buscava nas entrelinhas uma trilha musical própria. Mesmo as canções que mais rescendiam o som do Joy não deixavam de trazer lampejos de criatividade vindos de um grupo em busca de seu rumo musical. Em resumo, para os fãs de longa data é um disco essencial. Para quem conheceu o New Order pós-‘Blue Monday’, talvez apenas um disco esquisito para completar a coleção”. Todavia, quando o álbum saiu na Inglaterra pela Factory Records, deu munição para todos aqueles que vinham achincalhando o New Order e que acusavam o grupo de explorar oportunisticamente o que eles mesmos haviam criado, só que como Joy Division.

Realmente, pouca coisa em Movement remete ao som “clássico” do New Order. A resenha da Bizz não se equivocou quando disse que a busca por uma nova sonoridade não passava da mera insinuação. A sombra do Joy Division, tal como uma nuvem negra, pairava sobre as cabeças da Nova Ordem. “É um disco que carece de identidade, ele não tem uma cara própria”, disse Sumner em sua autobiografia, na qual ele confessa ainda que “Eu nunca havia cantado antes, de maneira que, no começo, eu me baseava em Ian, porque isso era o que eu conhecia. Levou tempo para encontrar meu próprio estilo como vocalista”. O envolvimento de Martin Hannett com a produção de Movement também ajuda entender o problema da “carência de identidade”. Hannett, que tinha sido um dos grandes responsáveis pelo sucesso dos discos do Joy Division, ajudando o grupo a criar, em estúdio, uma atmosfera e uma sonoridade únicas, não confiava na capacidade dos membros remanescentes de produzir canções do mesmo nível sem Ian Curtis. Ele não deu qualquer sinal de entusiasmo ou empolgação com o novo material e o tempo todo forçava a barra para que tudo o que eles fizessem pudesse soar o mais próximo possível do que tinham feito como Joy Division, embora a banda estivesse inclinada a encontrar um novo estilo. “O que nós queríamos em Movement era mais percussão. Martin ainda estava naquelas de colocar distorção em tudo. Mas nós queríamos que soasse mais limpo e mais pesado, em vez de tão delicado e leve. Nós pedimos para o Chris [Nagle, engenheiro de som] aumentar o volume da bateria para fazê-la soar mais grave, rotunda e pesada. Quando Martin voltou para o estúdio, ele perguntou ‘Vocês fizeram isso?’ e nós respondemos ‘Sim!’. ‘Ok, passemos para a faixa seguinte’. Ele não estava interessado em ouvir o que nós fazíamos. Não queria saber. Tivemos muitas brigas com ele. Discutimos muito sobre ‘Truth’ e ‘Everything’s Gone Green’, porque em ambas queríamos que a bateria eletrônica e os sintetizadores soassem mais fortes e mais altos”.

A relação com Hannett realmente se deteriorou durante as gravações de Movement. O produtor criticava – ou desprezava – tudo o que eles faziam. Bernard Sumner teve que regravar os vocais de uma música nada menos que quarenta e três vezes simplesmente porque ele não conseguia “soar como Ian” o suficiente. Para piorar a situação, Martin tinha entrado fundo na cocaína e, totalmente alucinado, chegou a trancafiá-los literalmente no estúdio, condicionando a liberação da banda à composição de uma música que fosse “realmente decente”. Como havia feito com os álbuns do Joy Division, Hannett cuidou sozinho da mixagem do álbum, vetando completamente a participação do New Order no processo. Ele, inclusive, se recusou a fazer um test pressing com a mixagem que o grupo havia feito com a ajuda de Chris Nagle para ouvir como soaria em disco. A “versão” de Hannett para Movement, para a decepção da banda, foi a que acabou sendo lançada.

Todavia, o primeiro LP do New Order tem momentos dignos de nota. “Dreams Never End”, a faixa que abre o disco, além de ser a canção mais “solar” de um trabalho predominantemente sombrio e introspectivo, é também uma grande composição: sua longa introdução foi o prenúncio de uma prática que se tornaria recorrente e cada vez mais bem desenvolvida no som do New Order (vide produções posteriores, como “Blue Monday”, “Thieves Like Us” e “The Perfect Kiss”); a inclusão de um “refrão de guitarra” no lugar de um refrão (vocal) de verdade é outro ponto forte.

A depressiva “Truth” também representou para o New Order um largo passo dado em direção ao futuro: ela foi a primeira canção da banda a usar uma bateria eletrônica programável (uma Doctor Rhythm DR55, da Boss) no lugar de uma bateria acústica convencional. “Chosen Time”, por sua vez, também antecipa, ainda que timidamente, o som que estaria por vir: a batida no estilo disco (porém “distorcida” pelos truques de estúdio de Hannett) e o riff de teclado, que soa como um sequenciador, são autênticos esboços das vindouras estripulias musicais no universo da electronic dance music. Por outro lado, faixas como “The Him” e “Doubts Even Here” mais parecem outtakes de Closer (1980), do Joy Division. Aliás, vale lembrar que os experimentos com sintetizadores e percussão eletrônica começaram, de fato, ainda nos tempos do Joy – sendo assim, Movement representa o estágio seguinte de um processo que, de certa forma, já havia sido desencadeado.

Assim chegamos a outro ponto de destaque: a capa do LP. Produzida por Peter Saville, que tinha sido o responsável pelo design dos vinis do Joy Division, ela é a recriação de um pôster originalmente desenhado em 1932 pelo artista futurista italiano Fortunato Depero. Como um clássico exemplo das apropriações feitas pelo punk e pela new wave no campo do design, a citação ao futurismo feita por Saville se ajustava de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, representava uma conexão com o interesse crescente da banda pela tecnologia musical, já que o movimento futurista valorizava o desenvolvimento industrial e técnico-científico. Além disso, o futurismo recorria a sobreposição de imagens, traços e pequenas deformações para transmitir a ideia de movimento e dinamismo. Aqui se evidenciam os links com a mudança de nome e a perseguição de um novo estilo, bem como com próprio o título do álbum. Intencionalmente ou não, a capa feita por Saville também pode ter contribuído com o estigma de “banda nazista” que cercava o New Order (“fama” que os perseguiu por um bom tempo e que começou ainda nos tempos do Joy Division), pois a primeira geração do futurismo exaltava a guerra e a violência, além do fato de terem existido afinidades ideológicas entre o movimento e o fascismo na Itália.

trentino_1932

“Remixando” a arte: a capa de Movement é inspirada em pôster do futurista italiano F. Depero.

No entanto, a criação de uma capa com base em um pôster – os futuristas abraçavam a propaganda como forma de comunicação e de ligação entre a arte e o design – foi a abordagem perfeita: que maneira melhor de apresentar uma mídia de massas (o disco de vinil) senão com uma arte que remete a um cartaz/anúncio?

Entretanto, mesmo com alguns méritos, do som à capa, Movement sempre teve dificuldade para conseguir algum prestígio. A revista Sounds o classificou como “absolutamente desastroso”. Para o New Musical Express, trata-se de um disco “terrivelmente maçante”. Bernard Sumner sempre declarou que se arrepende do seu lançamento e que preferia tê-lo regravado naquela época se tivessem tido tempo e dinheiro disponíveis para isso. Dentre os membros da banda, Peter Hook parece ter sido o único a dar-lhe, de fato, algum valor quando decidiu sair em turnê com seu atual grupo, o The Light, para tocá-lo ao vivo na íntegra (ao lado do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983). Em 2008, o álbum foi relançado em CD com áudio remasterizado e um disco recheado de extras – singles e lados B’s lançados na mesma época. Cinco anos depois, reapareceu em uma edição limitada em 300 cópias feitas em vinil transparente, sendo que 100 delas foram distribuídas de brinde durante a semana de reinauguração da loja de discos HMV da Oxford Street, Londres. Com Movement é assim: há quem ache, como Sumner, que o bom mesmo é ficar longe dele; e há também quem aposte na sua reavaliação. De que lado você está?

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

NEWS | Billboard explica o poder de “Bizarre Love Triangle”

78acb9349428258e0d4c46c787e31388-700x663x1

A capa do 12″ de “Bizarre Love Triangle”.

Por ocasião de seu trigésimo aniversário de lançamento, ocorrido no dia 03 de novembro deste ano, o site da revista norteamericana Billboard publicou um artigo no qual lista os dez motivos que fazem de “Bizarre Love Triangle”, do New Order, uma das melhores canções de todos os tempos. Vale lembrar que a Rolling Stone também a pôs em sua lista The 500 Greatest Songs of All Time, em 2004. A seguir, apresentamos uma tradução livre do artigo da Billboard, que foi originalmente escrito em inglês por Andrew Unterberger.



10 MOTIVOS DO POR QUE “BIZARRE LOVE TRIANGLE”, DO NEW ORDER, É UMA DAS MELHORES CANÇÕES DE TODOS OS TEMPOS
A obra-prima synth pop do grupo foi lançada 30 anos atrás. Eis por que continua maravilhosa três décadas depois.  

Originalmente lançada como single do álbum Brotherhood no dia 03 de novembro de 1986, “Bizarre Love Triangle”, do New Order, foi uma atordoante canção synth pop que combinava clássicas melodias soul e uma reverência lírica à beira do gospel, sobrepondo camadas de fascinantes chamarizes eletrônicos e forjando no processo uma jóia incandescente de amor computadorizado em meados dos anos oitenta. Nas três décadas que se seguiram ao seu lançamento, a música se destacou não apenas como uma das favoritas dos fãs do New Order, mas também como uma das canções alternativas mais queridas de seu tempo. Aqui estão as 10 razões pelas quais a faixa acabou se tornando um classico.

img_5799

Minha cópia autografada (por toda a banda) em vinil de 7″

  1. Título. Como poucas bandas de rock de sua estatura, o New Order evitou intitular suas músicas com base em trechos óbvios de suas letras. Pelo contrário, a banda as nomeava como se fossem pinturas impressionistas: “Ceremony”, “Everything’s Gone Green”, “Your Silent Face”… Como nesses exemplos, a frase “Bizarre Love Triangle” não aparece na letra da canção, que sequer traz a palavra “love” [amor] em qualquer parte dela. Mesmo assim, o título espelha brilhantemente seu conteúdo, conectando os delíros sonoros da faixa à sua letra com a combinação de três palavras de emocionante e, ao mesmo tempo, terrível confusão romântica.
  2. A entrada da batida. Diferentes versões de “Bizarre Love Triangle” começam de diferentes maneiras, mas cada uma delas nos lança em um hiperespaço turbo-pop sempre do mesmo jeito: uma sequência esmagadora de batidas que interrompe o brilho sintetizado e explode como o pânico e o excesso de excitação de uma arritmia cardíaca. Antes mesmo dos vocais começarem, seus circuitos internos já sentem a sobrecarga.
  3. Os primeiros versos. “Toda vez que eu penso em vocë / Eu sinto passar por mim um raio de tristeza” [do original em inglês “Everytime I think of you / I get a shoot right through into a bolt of blue”]. O líder do New Order, Bernard Sumner, nunca foi muito respeitado como letrista – especialmente quando comparado à poesia gótica de Ian Curtis, líder da banda em sua encarnação anterior, como Joy Division. Mas sua capacidade de capturar a essência de uma emoção em um simples verso era algo singular entre seus pares da new wave. “Eu sinto passar por mim um raio de tristeza” é uma imagem tão evocativa, enigmatica e inesquecível quanto qualquer capa de disco projetada por Peter Saville; e a maneira como Sumner enfatiza o “shot”, como se tivesse sido atingido enquanto canta, torna esse verso indelével.
  4. Não-instrumentação. O New Order passou a maior parte dos anos 1980 fascinado pela ideia de se entregar totalmente às máquinas apenas para ter uma música disponível para o bis na qual não precisasse voltar ao palco para tocá-la. Quando a banda chegou a “Bizarre Love Triangle” cada elemento da música foi sequenciado, com exceção dos vocais e de algum baixo. Ao invés de tirar da canção sua humanidade, as camadas de sintetizadores e os efeitos orquestrados criados no Fairlight soam como o caos distrativo de um cérebro desordenado, com os vocais de Sumner tentando dar sentido a tudo.
  5. O pré-refrão. O momento mais mágico de sua esmagadora produção se situa entre a primeira estrofe e o refrão, quando as notas em cascata do sintetizador se aproximam, como se estivessem na ponta dos pés, do som das cordas (falsas) antes de finalmente explodir o refrão. A maioria das bandas não se arrisca em adiar o refrão com um interlúdio, mas é um mini-balé sintetizado tão belo que é impossível imaginar a música sem ele.
  6. O refrão. Se existe algo que faz você lembrar de “Bizarre Love Triangle”, esse algo é o refrão: “Toda vez que eu vejo você caindo / eu me ajoelho e rezo”. A frase quase religiosa contém ecos de Al Green e a melodia é um como clássico da Motown, mas a imagem que ela evoca é vaga o suficiente para que não se quebre o encanto enigmático da canção com algum clichê lírico ou musical. O ritmo do fraseado é igualmente inspirado.
  7. A economia de palavras. Embora a faixa em si mesma não seja curta, o conteúdo lírico é, na maioria das versões, bastante escasso: apenas duas estrofes e dois refrões. É um elemento sutil, porém crucial para o brilho da canção. Nunca se arrisca a se explicar ou a se repetir redundantemente; as palavras ficam na cabeça por horas e simplesmente vêm à mente sem ajuda alguma.
  8. Diferentes versões / remixes. É um tanto difícil discutir “Bizarre Love Triangle” como se a canção fosse uma entidade fixa, isso porque foram lançadas muitas versões diferentes da música: a gravação de cerca de quatro minutos do álbum Brotherhood, a versão de pouco mais de três minutos do vinil de 7” (a mais tocada nas rádios), o remix estendido de Shep Pettibone incluído na coletânea Substance. Cada uma dessas versões tem seus próprios encantos – incluindo o relançamento de 1994 para o disco The Best of New Order, que certamente tem o melhor final (e não se esqueça da versão lançada em vídeo, interrompida pelo diálogo “Eu não acredito em reencarnação… eu me recurso a voltar como um besouro ou um coelho!”).
  9. A “coverabilidade”. O New Order fez um monte de versões de “Bizarre Love Triangle”, mas o restante do mundo musical fez muito mais. A canção foi regravada por tudo mundo, do rock industrial do Stabbing Westward ao pop/rock do Echosmith e do Frente!, passando ainda pelo synth-rock do The Killers e pela banda de Scarlett Johansson, além de muitos outros. E embora nenhuma dessas interpretações tenha condições de rivalizar com a original do New Order como versão definitiva da canção, elas são todas, no mínimo, muito boas. Como “Bizarre” está revestida com as artimanhas de produção de seu tempo, o núcleo musical dela se tornou tão forte que ela se converteu em uma faixa praticamente impossível de se arruinar.
  10. A falta de sucesso comercial. Notavelmente, do mesmo modo como veio a se tornar uma canção duradoura, “Bizarre Love Triangle” nunca foi realmente um hit. A faixa não emplacou na parada norteamericana quando do seu lançamento inicial, em 1986 – ela atingiu a 98a posição da Billboard Hot 100 depois do seu relançamento em meados dos anos noventa, mas se saiu melhor em seu país de origem, tendo alcançado o 56o lugar como posto máximo. Na verdade, o maior sucesso comercial que a música teve foi através da versão cover do Frente!, que ficou no número 49 no Hot 100, em 1994, e entrou no Top 10 da Modern Rock no mesmo ano.
cab11aac-a310-4531-af23-6e4037a34a3e

Tenho “Bizarre Love Triangle” para todos os gostos: 7″, 12″ e CD maxi-single.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

MEMÓRIA | “Brotherhood” (New Order) comemora 30 anos hoje

nobrotherhood

O quarto LP do New Order foi lançado há trinta anos

Há exatos trinta anos, o New Order lançava (pela Factory Records) Brotherhood, seu quarto LP. Produzido pela própria banda e gravado em três estúdios diferentes – o Jam, em Londres; o Windmill Lane, em Dublin (Irlanda); e o Amazon, em Liverpool -, o disco representou uma pequena queda em um gráfico (hipotético, evidentemente) que vinha mostrando uma linha ascendente. Comparado com o seu antecessor, o magnífico Low Life (1985), que havia alcançado o sétimo lugar na parada britânica de álbuns, Brotherhood ficou duas posições abaixo. Na parada dos 200 Melhores Álbuns da revista americana Billboard, ele não repetiu, muito menos superou, o bravo 94o lugar conquistado por Low Life; em vez disso, foi o número 161. Todavia, o quarto rebento do New Order trazia o single “Bizarre Love Triangle”, que estourou nos Estados Unidos e na Austrália, abriu portas para o grupo na América do Norte (no Brasil também foi um enorme sucesso, só que um pouquinho mais tarde) e hoje, tendo se tornado um dos maiores hits da banda e um clássico da década de oitenta, é peça obrigatória nos shows. E a revista Rolling Stone a colocou na sua lista das 500 Maiores Músicas de Todos os Tempos.

Mas a verdade é que “Bizarre Love Triangle” ficou mais conhecida pelo remix produzido por Shep Pettibone, e que posteriormente foi incluído em Substance (1987), do que pela versão original que abre o lado B de Brotherhood. Este, por sua vez, foi concebido em meio a uma disputa entre o vocalista e guitarrista Bernard Sumner e o baixista Peter Hook com relação à direção que o New Order deveria seguir em termos musicais. Esse, aliás, deve ter sido o começo das divergências entre os dois. E isso talvez explique porque soaram um pouco menos inspirados nesse disco. Sumner, que de todos os quatro foi o que mais mergulhou de cabeça na experimentação com sintetizadores e nos ritmos dance, queria fazer um LP totalmente eletrônico; “Hooky” foi contra, pois ele era o grande defensor do lado mais rock do grupo, além de achar de que o New Order deveria continuar sendo uma mistura desses dois estilos.

Bernard Sumner acabou perdendo a queda de braço com o baixista simplesmente porque eles não tinham músicas totalmente eletrônicas o suficiente para preencher um álbum inteiro. Pelo contrário, as faixas nessa vertente que eles possuíam dariam, no máximo, a metade de um disco. O material que faltava foi formado, basicamente, por canções mais “roqueiras”, com o mínimo ou simplesmente nada de sintetizadores. A diferença entre os dois materiais era tão grande que a banda resolveu separá-los em cada lado do vinil: o lado A era o rock; o lado B era o dance. A escolha do título – Brotherhood, que em português quer dizer “fraternidade” ou “irmandade” – era uma espécie de “piada interna” porque representava exatamente o oposto do clima de divisão que se instalou ao longo da produção do álbum.

É praticamente desnecessário dizer que o lado de Brotherhood favorito de Sumner é o B, enquanto que o de Peter Hook é o A… Quer dizer, mais ou menos. Mais recentemente, por ocasião dos shows em que o agora ex-baixista, com sua banda The Light, vinha tocando os discos Low Life e Brotherhood na íntegra, Hooky andou declarando que atualmente ele vem gostando mais do lado B. Na verdade, no vinil, o número de faixas rock é maior que o de canções eletrônicas: são cinco contra quatro respectivamente. Porém, quando o álbum foi lançado em CD, se estabeleceu o equilíbrio: como faixa-bônus, após “Every Little Counts” (música que encerra a edição em vinil), foi adicionado o single “State of the Nation”.

Parte do que viria ser Brotherhood já existia em 1985 e era tocado ao vivo. O caso mais conhecido é o de “As It Is When It Was”, que a princípio seria uma canção que deveria ter feito parte de Low Life. Uma versão dela dessa época pode ser vista/ouvida em Pumped Full of Drugs, um home video ao vivo gravado no Japão. “Weirdo” e “Broken Promise” também já eram conhecidas das audiências dos concertos, enquanto a clássica “Bizarre Love Triangle” fez sua estreia, ainda como tema instrumental, em uma apresentação no The Pavillon, na cidade de Hemel Hempstead, no leste da Inglaterra, no dia 11 de novembro de 1985. Outras músicas, como “Every Little Counts” (uma espécie de hit não oficial do New Order, mas que não é tocada nos shows desde 1989), nasceram durante a produção do LP. Inclusive, essa faixa rendeu uma história curiosa. Ela se encerra repentinamente com um som que parece o de uma agulha de toca-discos sendo arrastada sobre o vinil, fazendo aquele ruído “arranhado” e estridente. Para alertar os consumidores, que poderiam pensar que talvez tivessem comprado um álbum com defeito de fabricação, a gravadora brasileira (a WEA) pôs um aviso no rótulo do lado B: “Música com efeito especial”. Provavelmente essa era uma maneira de evitar trocas desnecessárias ou devoluções. O baterista Stephen Morris explicou que a intenção inicial era encerrar “Every Little Counts” com um “efeito especial” diferente em cada formato de Brotherhood: na versão cassete, haveria o som de fita se “embolando” no cabeçote e, no CD, uma espécie de “tic-tic”. Essa ideia, infelizmente, acabou não sendo levada adiante.

A capa de Brotherhood, como quase todas dos discos do New Order, é um capítulo à parte. Como de costume, a direção de arte foi assinada pelo designer gráfico Peter Saville. A fotografia ficou a cargo de Trevor Key (um colaborador regular de Saville naquela época). Em seu livro de memórias, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), Bernard Sumner escreveu: “Nós nos demos muito bem com Saville e ainda nos damos. Mas ele tem muito pouco tempo às vezes. Uma vez nós estávamos em Heathrow [N.T.: aeroporto localizado nos arredores de Londres], prestes a embarcar em um avião, e ele chegou correndo, ofegante, com um cigarro na mão e dizendo ‘Esta é a capa de Brotherhood. Gostaram?’ (…) Nos tempos do vinil, quando as pessoas compravam os discos, a arte das capas era muito importante porque representava a banda e seu gosto. Nossa opinião era de que se você comprasse um disco com uma grande capa você estaria levando duas obras de arte pelo preço de uma”.

13768229_1248276235185331_247313244_n

Diferentes versões da capa de “Brotherhood”

Para a capa de Brotherhood, Saville usou uma fotografia, feita no estúdio de Key, de uma folha metálica de zinco-titânio submetida ao calor para que sua superfície deformasse. A técnica foi inspirada nos experimentos que o artista plástico neodadaísta francês Yves Klein fazia com os quatro elementos essenciais (fogo, água, ar e terra). Mas aqui se verifica, também, um retorno às influências do ready made e da found art. As inscrições que aparecem na capa são, na verdade, as informações de catalogação do fabricante da folha de metal – no meio das quais, curiosamente, aparece um “1986”, o ano de lançamento do álbum. Uma tiragem limitada da primeira prensagem de Brotherhood na Inglaterra possuía um efeito metálico real que posteriormente foi repetido na primeira edição em CD lançada pela Factory na Inglaterra e, anos mais tarde, na reedição da London Records pela série New Order Collection. As atuais edições remasterizadas em vinil e CD trazem um remake da arte original que apenas emula de forma grosseira o efeito. Todas as demais edições lançadas ao longo dos anos e no resto do mundo trazem a versão “econômica” (e pouco atrativa) da capa. Mas nada se compara com o que a WEA fez em 1987, quando lançou o disco no Brasil: a gravadora adicionou um “New Order” em maiúsculas e negrito bem na frente, descaracterizando o trabalho original. Isso, inclusive, chegou a causar mal estar no ano seguinte, quando a banda descobriu a “façanha” durante sua primeira passagem pelo país para shows.

brotherhoodmetalsheet

Placa de zinco-titânio utilizada para a produção da capa de “Brotherhood”: influência do artista plástico Yves Klein. 

Jean-Yves de Neufville chamou a atenção para a capa de Brotherhood na crítica/resenha que escreveu para a revista Bizz por ocasião do lançamento do álbum (na Inglaterra): “na prateleira da loja, não vá confundi-la com aquelas placas que separam os discos por ordem alfabética (…) É o New Order transmitindo sua não-imagem para obrigarem as pessoas a se concentrarem na sua música. Só nos resta obedecer”. No mesmo texto, Neufville classifica o disco como sendo “o mais recente e melhor da banda” e que possui “uma aparente simplicidade que esconde uma produção sofisticada”. Curiosamente, ao longo dos anos, Brotherhood foi sistematicamente atacado pelos fãs por justamente possuir uma produção mais “fraca” e “preguiçosa” em comparação com os demais itens da discografia da banda: sua engenharia de som e sua mixagem sempre foram alvo de críticas. Mesmo assim, particularmente no Brasil, o LP tem um imenso fã clube que chega inclusive a colocá-lo acima de uma obra-prima como Technique (1989).

A verdade é que Brotherhood divide opiniões até hoje. Para Q Magazine, que publicou uma resenha/crítica retrospectiva sobre o disco em 1993, o álbum “sofre com a ausência de grandes canções, com a exceção de ‘Bizarre Love Triangle'”. Posição não muito distante da de Josh Modell, do site de entretenimento A.V. Club: “um grande desconhecido do catálogo ofuscado por um single estrondoso”. John Bush, do site AllMusic.com, o vê de outra forma e disse que “para o bem ou para o mal, este New Order não tinha mais nada a provar, exceto continuar fazendo boa música”. David Quantick, da Uncut, escreveu que “era o New Order se tornando New Order e se alguem tinha o direito de não ser mais o Joy Division, esse alguem eram eles”. O baterista Stephen Morris fez coro junto aos críticos: em entrevista dada ao site Noisey este ano, disse que o disco “foi feito de um jeito esquizofrênico porque estávamos tentando colocar os sintetizadores de um lado e as guitarras de outro, o que não funcionou… Eu acho melhor quando se mistura um pouco mais”. Mistura na qual, à parte alguns errinhos aqui e ali, o New Order se tornou um dos principais especialistas.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

RELATO | Um dia em Manchester

20-21-june-2012-053“E no sexto dia Deus criou Manchester…”

Recentemente, tirei um tempo da minha viagem de férias para fazer algo que, como fã de New Order e Joy Division, sempre sonhei: passar um dia em Manchester para explorar em sua paisagem urbana a história e a geografia do som que há quase três décadas tem sido a trilha-sonora da minha vida. Na verdade, acho que escolhi Londres como destino das férias como desculpa para, enfim, poder saciar essa vontade. Ainda que eu pretendesse não admitir a verdade (ao contrário do que estou fazendo agora), o objetivo, desde o começo, sempre foi Manchester. Esse sonho, aliás, ganhou força em novembro do ano passado durante uma estadia em Paris: além de ter visto meu primeiro show do New Order em solo europeu, um dos momentos mais importantes da viagem foi quando eu pus os pés no lendário Les Bains Douches, onde o Joy Division já havia tocado (o show, após anos nas mãos dos piratas, acabou ganhando lançamento oficial em CD e vinil, em 2001). Os minutos que passei em sua galeria de antigos pôsteres de concertos com os olhos fixos no cartaz do show que o Joy Division lá fez em 18 de dezembro de 1979 foram decisivos para essa escolha. 

Manchester, é claro, não deu ao mundo apenas Joy Division e New Order. A lista a seguir é de respeito: Hollies, Buzzcocks, The Smiths, Simply Red, Happy Mondays, Stone Roses, Oasis, Chemical Brothers. Tem coisa nova rolando na cidade, é claro – Blossoms é a nova sensação por aquelas bandas. Muito já se gastou de papel e tinta sobre sua cena musical e o seu legado: Shadowplayers: The Rise and Fall of Factory Records, de James Nice (Aurum Press, 2010, 432 páginas), From Joy Division to New Order: The True Story of Anthony H. Wilson and Factory Records, de Mick Middles (Virgin Books, 2002, 320 páginas), I Swear I Was There: Sex Pistols, Manchester and The Gig That Changed the World, de David Nolan (IMP, 2006, 192 páginas), The North Will Rise Again: Manchester Music City 1976-1996, de John Robb (Aurum Press, 2010, 400 páginas) e Manchester, England: The Story of a Pop Cult City, de Davi Haslam (Fourth Estate, 2000, 351 páginas) são alguns dos títulos mais conhecidos. Não é exagero dizer que Manchester é uma das grandes capitais mundiais do pop ao lado de Londres, Nova Iorque, Detroit e Seattle. Liverpool? Só se for no Guiness Book (que lhe deu o título de “Cidade do Pop” por causa de uma única banda).

Só que meu equivalente ao Hajj (peregrinação à Meca que os muçulmanos são obrigados a fazer pelo menos uma vez na vida) ou ao Caminho de Santiago de Compostela – guardadas as devidas proporções nos mais variados sentidos – não começou de fato em Manchester, mas em Londres. Fazia parte da minha programação na Square Mile uma ida à belíssima National Gallery. Para que? Eu queria ver com os meus próprios olhos o quadro A Basket of Roses, de Ignace Henri Jean Fantin-Latour (1836-1904), pintado em 1890, e usado pelo designer Peter Saville na capa do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983 (e considerada um dos trabalhos mais relevantes do artista gráfico). Aliás, eu queria algo mais do que apenas ver o quadro: além de ser fotografado com ele usando uma camiseta do disco que o traz em sua capa, eu queria repetir o gesto de Saville de 33 anos atrás e comprar um cartão-postal com uma reprodução da obra na gift shop do museu (o que consegui fazer). Essa história do postal merece um parênteses.

asset

Poder, corrupção e mentiras na National Gallery, em Londres

Com o título do álbum na cabeça – “poder, corrupção e mentiras” – Saville foi à National Gallery procurar um retrato de algum príncipe que pudesse usar na capa do disco. A intenção era, a partir da associação entre o nome do LP e o retrato usado na embalagem, fazer uma referência a Maquiavel. Bom, a ideia não era de fato tão boa assim e ele acabou desistindo dela no meio do tour pelo museu. Mas antes de ir embora, o designer entrou casualmente na lojinha de lembranças, onde pegou aleatoriamente um cartão-postal. Sua namorada na época, em tom de brincadeira, lhe disse: “Por que você não usa esse aqui na capa?”. Era um postal de A Basket of Roses. Os olhos de Saville brilharam – enfim, ele havia encontrado um “rosto” para Power, Corruption and Lies. Segundo ele, “as flores sugeriam a maneira pela qual o poder, a corrupção e as mentiras se infiltram nas nossas vidas, porque elas são sedutoras”. A justaposição entre a pintura figurativa e realista de Fantin-Latour com “textos” impressos em um código de cores criado por Saville para sugerir a ideia de uma linguagem que só poderia ser decifrada/decodificada por máquinas (como, por exemplo, um código de barras) foi a forma simbólica de retratar a “tensão” entre as duas faces do som do New Order (acústica/artesanal/manual e eletrônica/industrial/autômata) e de transmitir de modo subliminar a seguinte mensagem: por trás de máquinas que apenas aparentemente fazem tudo sozinhas (sequenciadores, drum machines) existem seres humanos… Bom, explicações à parte, o fato é que eu posso me considerar um sujeito de muita sorte: o dia escolhido para ir à National Gallery coincidiu com o único dia da semana (quarta-feira) em que a sala onde o Basket of Roses está exposto fica aberta à visitação – e eu nem sabia disso!

Enfim, com a foto feita e o postal guardado na mala junto com outros suvenires da viagem, eu só viria a pegar o trem para Manchester dois dias depois. No caminho, bastou passar por Macclesfield, terra natal de Ian Curtis e Stephen Morris, para já sentir aquele frio na barriga. Com a chegada em Manchester, a surpresa veio imediatamente após deixar a Piccadilly Station: embora eu não soubesse exatamente o que esperar, descobri uma cidade, em termos urbanísticos, muito diferente de Londres. Seu conjunto arquitetônico me deixou muito impressionado: edifícios como o do Town Hall, em Albert Square, o da Central Library, ou os dos hotéis Palace e Midland são verdadeiros deleites para os olhos. Se eu tivesse pesquisado um pouco mais, talvez tivesse me programado para ficar pelo menos mais um dia na cidade para poder ir além de seu roteiro musical.

Minha “peregrinação” em Manchester teve como primeiro ponto cardeal o que talvez é o mais sagrado dos lugares para quem, como eu, é ligado em música e cultura pop: o Free Trade Hall. Hoje funciona nele um hotel, mas originalmente o edifício foi erguido para eventos públicos, discursos políticos e concertos de música clássica (que ocorriam no Grande Pavilhão). O Free Trade Hall foi palco, em 1966, da primeira (e infame) apresentação de Bob Dylan com instrumentos elétricos – o que fez com que ele fosse vaiado e chamado de “Judas” pela plateia. Outros nomes importantes do rock tocaram lá: Frank Zappa, Pink Floyd e Genesis são alguns deles. Mas foi no pavilhão menor, chamado Lesser Free Trade Hall, que aconteceu o show que, segundo David Nolan, “mudaria o mundo”: o famoso concerto dos Sex Pistols no dia 04 de junho de 1976. O resto é história: havia apenas 40 pessoas no auditório, dentre elas Bernard Sumner e Peter Hook (Joy Division, New Order), Mick Hucknall (Frantic Elevators, Simply Red), Stephen Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Kevin Cummins (fotógrafo de rock), Paul Morley (jornalista e fundador da ZTT Records), Tony Wilson e Alan Erasmus (criadores do Factory Club e da Factory Records); sem falar nos organizadores do show, Pete Shelley e Howard Devoto, que formariam os Buzzcocks. Enfim, eram os nomes que ajudariam a colocar Manchester no mapa-mundi da música popular no anos seguintes.

08_007

Free Trade Hall

Bem perto dali, encontramos outro “monumento” da história da música pop da cidade: a Manchester Central, antiga estação de onde partiam os trens para Londres antes da Piccadilly Station e que hoje é um parque de exposições, o Manchester Central Convention Complex. A mudança de função desse espaço aconteceu no final da década de 1970, quando ele recebeu o nome pelo qual ficou mais conhecido: Greater Manchester Exhibition Centre, ou pura e simplesmente “G-MEX”. O local foi palco, em 1986, dos shows do Festival of the Tenth Summer, um evento organizado por Tony Wilson e a Factory Records para celebrar os dez anos do famoso concerto dos Sex Pistols na cidade. Ao longo de um dia inteiro, se apresentaram nomes locais como New Order, The Smiths, OMD, The Fall e até bandas de cidades “amigas”, como Cabaret Voltaire (de Sheffield). O álbum ao vivo dos Smiths, Rank, que foi gravado no National Ballroom, Kilburn, em 23 de outubro daquele ano, traz no interior de sua capa uma foto feita no show do Festival of the Tenth Summer: garotos da plateia pelejando pela camisa do vocalista Morrissey. Eu tenho um LP pirata da apresentação feita pelo New Order chamado Solitude – nele, podemos ouvir “Ceremony” com a participação especial de Ian McCulloch, do Echo & The Bunnymen, nos vocais.

Mais alguns minutos de caminhada e, em seguida, fui parar em uma localidade conhecida como Knot Mill – outro lugar que podemos chamar de “místico”, para dizer o mínimo. Ali ficava o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, a famosa sala onde o Joy Division ensaiava e preparava novas canções. O T. J. Davidson’s ficou mais conhecido por ter sido o cenário para o vídeo promocional de “Love Will Tear Us Apart”. Se o prédio que outrora serviu de quartel-general para o Joy Division hoje não está mais lá (foi derrubado), por outro lado a construção onde um dia funcionou o Boardwalk, a casa noturna que lançou Stone Roses, The Charlatans, Happy Mondays, James e Oasis, continua de pé (mas atualmente servindo a outros desígnios). Há um vídeo de cerca de 30 segundos no You Tube publicado em 2010 que supostamente mostra o T. J. Davidson’s mas que, na verdade, exibe a fachada do antigo Boardwalk. Outra informação relevante: Tony Wilson chegou a morar ali em Knot Mill, em um apartamento localizado bem em frente ao edifício onde viria a ser o Boardwalk (inaugurado em 1986).

08_014

Knot Mill: o edifício do Boardwalk (dir.) ainda está lá; o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, que ficava à esquerda e ao lado do prédio “10A”, não.

Naturalmente, um dos momentos mais melancólicos foi quando dei de cara com o edifício que hoje está de pé onde antes havia o mítico nightclub The Haçienda, também conhecido como “FAC 51”. O que torna a tristeza ainda maior é o fato do residencial de cor ocre se chamar The Haçienda Apartments (o jornalista Zeca Camargo também já escreveu sobre essa lamentável metamorfose). O condomínio vertical pode ter herdado o nome, mas não a história. Tinha gente que viajava até duas horas de carro até Manchester para curtir uma noitada no Haçienda. Nas suas origens, era um misto de boate e casa de shows onde se podia desfrutar de uma rica paleta de sons: punk, new wave, indie, disco, reggae, black music, northern soul. Depois, se tornou o epicentro da explosão do techno e da acid house na Europa. Na Canal Street, nos fundos do atual prédio, um artista local chamado Stewy eternizou seus grandes momentos em uma timeline gravada em metal, começando pela sua inauguração em 21 de maio de 1982. Sob comando da Factory Records, mas financiado pelo New Order, o lugar também viveu dias difíceis: foi palco da primeira morte por overdose de ecstasy publicamente reconhecida e cenário de brigas entre gangues, com direito a tiroteios em seu interior. Vários objetos que pertenciam a Haçienda hoje fazem parte do acervo do Manchester Museum of Science and Industry.

08_016 08_015

Hacienda-300

Haçienda como era originalmente (e como nunca deveria ter deixado de ser).

A parada seguinte foi numa… loja da Tesco?! Não exatamente. O local onde hoje temos uma filial da famosa cadeia britânica de supermercados e comércio varejista – na verdade parte do belíssimo St. James Buildings – um dia foi outra casa noturna importante durante a era punk em Manchester: o Rafters. Ali aconteceu, no dia 14 de abril de 1978, o Chiswick Challenge, o lendário concurso de bandas organizado pela Stiff Records. O Joy Division se apresentou no concurso ao lado de outras 16 bandas, sendo a última a tocar (quando o local já estava praticamente vazio). Todavia, sua apresentação foi tão “intensa” que impressionaria Tony Wilson (quando este ainda era repórter da Granada TV) e, também, o DJ da casa, Rob Gretton. Rob se tornaria, desse ponto em diante, o empresário do Joy Division, mantendo essa função também com o New Order até sua morte, em 1999. O Rafters fechou suas portas em 1983.

08_023

O antigo Rafters, agora transformado em Tesco

O roteiro não poderia deixar de contemplar o número 112 da Princess Street. Hoje, nesse endereço funciona a nova casa noturna e sala de concertos dirigida por Peter Hook (ex-baixista do Joy Division e do New Order), The Factory Manchester (“FAC 251”). No passado, a mesma construção abrigou o quartel-general da Factory Records. No atual site do Factory Manchester, se lê: “FAC 251: escritório da Factory Records… Construído por Tony Wilson. Projetado por Ben Kelly. Pago pelo New Order. Falido pelos Happy Mondays”. A porta de ferro com o logotipo da gravadora ainda está lá; Tony Wilson, de certa forma, também – através do stencil feito pelo já citado Stewy. Aliás, o Wilson foi – e sempre será – o grande personagem. Brian Epstein? Que me perdoem os fãs dos Beatles (eu adoro os Fab Four, que fique claro!), mas a história do seu empresário não foi parar no cinema (pelo menos não ainda). Ele também não ganhou um poema musicado em sua homenagem (“St. Anthony”, por Mike Garry e Joe Duddell) transformado em single beneficente que alcançou o primeiro lugar na parada inglesa. Não existe nenhum “Sr. Liverpool”, mas existiu um “Mr. Manchester”.

08_025 08_024

O fim do “passeio” foi no Northern Quarter. O objetivo: ver e fotografar os mosaicos no Affecks Palace e as placas na calçada da Oldham Street. Precisei de uma ajudinha dos vendedores da Vinyl Revival para localizá-los. Os mosaicos fazem referência não apenas à história e o cenário musicais da cidade, mas, sinceramente, os ídolos do futebol ou as outras personalidades locais não me interessavam. Eu queria ver mesmo o mosaico com a turma da Factory (Martin Hannett, Tony Wilson, Alan Erasmus, Peter Saville, Rob Gretton), o outro com o pulsar CP1919 da capa de Unknown Pleasures, do Joy Division, aquele com o Sex Pistols, o Meat Is Murder dos Smiths, o Top of the Pops… Depois dos mosaicos, compras na Vinyl Revival (decorada com pôsteres originais da Factory Records, da Haçienda e do New Order, alguns deles autografados) e na Vinyl Exchange, e, finalmente, Oldham Street e suas placas que fazem referências aos principais marcos musicais da cidade: Buzzcocks (a primeira banda punk de Manchester), Short Circuit: Live at the Electric Circus (vinil de 10” da Virgin com o primeiro registro do Joy Division gravado ao vivo na noite de fechamento/despedida do Electric Circus), Factory Records etc.

O tour apenas parecia ter chegado ao fim… Na volta para a Piccadilly Station, parei em um restaurante qualquer da estação com minha esposa para comermos antes da volta para Londres e o que vejo dentro do estabelecimento? Um enorme pôster em forma de mapa de rede de metrô no qual as linhas e as estações são batizadas com títulos de álbuns e músicas dos Smiths.

08_042 08_043

Essa é Manchester: uma cidade orgulhosa, que exalta não somente suas conquistas no campo da indústria e da tecnologia (o noroeste da Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial), mas que também reconhece a contribuição de seus artistas populares. Isso aparece representado não apenas por meio da street art, mas também está materialmente certificado através das placas comemorativas – heritage awards – da PRS (Perfoming Right Society, uma espécie de ECAD britânico), como as que estão fixadas na Haçienda e no Boardwalk. Para mim, foi uma oportunidade de poder ver e tocar o que eu havia aprendido a amar e cultuar através dos discos, dos livros, das revistas e dos documentários. De fato, existe algo em Manchester que é único e exclusivo. Ou, como certa vez disse Tony Wilson: “This is Manchester, we do things differently here”.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

REVIEW | Livro “Peter Saville: Estate 1-127”

nsts-01524-3

Como eu não vi esse livro antes?

“Garimpando” na internet em busca de algo com o qual minha esposa pudesse me presentear no Dia dos Namorados (sei que parece confuso, mas é isso mesmo), encontrei uma coisa que, apesar do meu sempre alerta radar de fã, passou despercebido: um livro sobre o designer gráfico Peter Saville, o homem por trás da identidade visual da legendária gravadora Factory (da qual foi um dos fundadores) e das capas impessoais e totalmente fora do lugar comum dos discos do Joy Division e do New Order. Publicado em 2007 pela editora de arte JRP, de Lionel Bovier, o livro se chama Peter Saville: Estate 1-127. Bom, antes de mais nada, cabe esclarecer que esse não é o único livro dedicado a Saville e seu trabalho. Em 2003 a editora Frieze lançou Designed by Peter Saville, que foi um enorme sucesso (hoje já está fora de catálogo). E também em 2007 a Thames & Hudson publicou Factory Records: The Complete Graphic Album – FAC 461, um grande volume dedicado à contribuição dele e de outros artistas gráficos à definição da “imagem da Factory”. O livro da Thames & Hudson, ao contrário de Designed by Peter Saville, continuou sendo reimpresso.

Mas parece que Peter Saville: Estate 1-127 não foi uma “surpresa” apenas para mim. Após publicar uma foto do livro no Instagram deste blog, logo apareceram comentários de outros fãs da categoria “casca grossa”, estrangeiros inclusive, nos quais estes confessavam que nunca o tinham visto antes. Depois que o livro foi entregue aqui em casa (alguem achou mesmo que eu não o encomendaria?), pude não somente entender melhor sua proposta, mas também desenvolver um palpite sobre o por que dele não ser tão conhecido – pelo menos não entre fãs de Joy Division, New Order e Factory Records. Estate 1-127 tem como tema a exposição sobre Peter Saville realizada em 2005 no Migros Museum für Gegenwartskunst (Museu de Arte Contemporânea de Migros), em Zurique (Suíça). Essa exposição foi menos dedicada ao produto final e às obras acabadas que aos métodos e processos de trabalho do designer. Por isso, é provável que o público-alvo do livro seja formado, em sua maioria (tal como a audiência da exposição), por apreciadores de arte contemporânea e profissionais/estudantes de artes visuais do que fãs de música pop.

Por isso, não espere por um livro recheado de fotos de capas de discos. Algumas delas até dão o ar da graça, mas a proposta é fazer as pessoas conhecerem um pouco mais o processo criativo do artista. Até porque Saville não passou a vida toda fazendo somente emabalagens originais e elegantes para guardar espécimes daquele nosso “preto que satisfaz” (o vinil). Ele já produziu trabalhos e campanhas para Dior, Lacoste e Stella McCartney, desenhou a camiseta da seleção inglesa de futebol para a Umbro em 2010 e mais recentemente foi convidado pela prefeitura de Manchester para desenvolver o novo design da cidade: de placas com os nomes das ruas a abrigos de pontos de ônibus. Sendo seu modus operandi o foco principal de Estate 1-127, o livro mostra maquetes, esboços, páginas de enciclopédias ou de catálogos de perfuradores, objetos achados/recolhidos no lixo, em brechós, garage sales e o que mais pudesse servir de inspiração ou material a ser trabalhado (no sentido tanto literal quanto conceitual).

Mas tão importante quanto o “acervo” apresentado no livro são os ensaios que ele inclui (em inglês) e que, de maneira “didática”, isto é, da forma mais pedagógica que se é possível chegar quando o assunto são textos sobre arte, nos ensinam a entender o trabalho de Saville. Segundo um dos ensaístas, Heike Munder: “Em contradição com o mero papel de apoio para um propósito externamente determinado, o trabalho de Saville enfatizou o espírito da época [zeitgeist] e seus métodos espelham uma ideia de si mesmo como um produtor cultural dentro de uma estrutura social. Saville tirou proveito de variadas categorias de imagens e diversas fontes históricas da vanguarda clássica – como o construtivismo e o futurismo italiano – e as importou em suas tarefas criativas, entrelaçando esses materiais que ele reciclou em um complexo processo de aplicação. Ao invés de simplesmente copiar, ele se dedicou a uma forma inteligente de apropriação, na qual o original é engenhosamente incorporado e transformado, ao invés de ser degenerado em uma citação”. Ao ler isso, impossível eu não me lembrar de um sujeito (bem ignorante) em uma comunidade do extinto Orkut que disse que a capa de Movement (New Order) era tão simples e sem graça que até o filho pequeno dele seria capaz de criar e fazer.

Estate 1-127 também mostra o lado fotógrafo de Peter Saville – um talento pouco conhecido. O livro traz uma série de fotos de sua autoria chamada It All Looks Like Art to Me Now [trad.: “tudo parece arte para mim agora”], na qual cenas protagonizadas por objetos, como um rolo de fita crepe pendurado na fechadura de uma porta ou materiais de uma obra/reforma repousados sobre a pia de uma cozinha, capturados por suas lentes em lugares que vão desde um estúdio da emissora alemã de televisão WDR à Frieze Art Fair de Londres, nos remetem facilmente a “esculturas” ou instalações em uma galeria de arte contemporânea. Nesse trabalho, mais uma vez se evidencia o gosto pelo ready made e, naturalmente, a influência incontestável de Marcel Duchamp e do dadaísmo (um de seus “lemas” era: “use todas as superfícies como espaço de trabalho, inclusive carpetes, mesas de café, armários e cômodas”). O próprio conceito por trás dessa série fotográfica – “tudo parece arte para mim agora” – serviu de mote para uma exposição posterior de Saville, chamada Accessories to an Artwork, realizada na galeria de arte Paul Stolper (Londres), em 2008, e que teve os pedestais das peças em exibição desenhados e construídos pelo próprio designer – dando a entender que mesmo eles, reles e banais pedestais de galerias e museus, também seriam (ou poderiam ser) obras de arte.

O livro Estate 1-127 foi, pelo menos para mim, um belo achado. Como eu já havia comentado alguns parágrafos acima, talvez não seja exatamente o que um interessado em cultura pop esteja buscando – nem todo mundo que ama essa maravilhosa arte de fazer capas de discos é amante de arte. O percentual de fãs de música realmente interessado em questões de conceito e de método por trás das artes de seus álbuns e singles favoritos é muito reduzido. Mas, no caso de Peter Saville, quando a curiosidade ultrapassa o que está impresso no quadrado de papelão, descobre-se por trás daquela imagem um complexo universo de referências, tanto da dita “alta cultura” quando da chamada “cultura popular” ou do cotidiano, cujas fronteiras são totalmente dissolvidas. Essa é a diferença entre um artista e quem apenas desenha capas de LPs e CDs.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram