HISTÓRIA | “Get Ready” comemora 15 anos hoje

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Get Ready: oito anos após Republic

“O New Order já fez discos melhores do que esse, mas nenhum com tanta carga emocional e amplo barulho para levá-la adiante (…) Get Ready é o som de uma grande banda se libertando de seu passado diante de seus ouvidos”. Isso foi o que a Q Magazine escreveu sobre o sétimo álbum de estúdio do New Order, que foi também seu segundo disco pela London Records (gravadora com a qual a banda assinou após a falência da Factory Records, em 1992) e o último realizado por sua formação clássica – Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert e Peter Hook. Lançado há exatos 15 anos, Get Ready foi escolhido pela mesma Q Magazine um dos 50 Melhores Álbuns de 2001. A revista New Musical Express também colocou o álbum na lista dos seus “cinquenta mais” daquele ano, mas ao contrário da concorrente disse que o CD “soa mais New Order do que qualquer outro disco do New Order. Único e brihante”. Ambas estão certas.

Todavia, o desempenho do álbum nas paradas não se comparou ao de seus antecessores, Technique (1989) e Republic (1993), que, na Inglaterra, haviam alcançado a posição mais alta. Mesmo com os elogios da crítica, Get Ready não passou do sexto lugar no Reino Unido – em todo caso, estar no Top 10 depois de oito anos mostra que a banda ainda estava de bola cheia. “Crystal”, o single que puxou o álbum, ficou no oitavo posto, outra bela recuperação já que “Spooky”, o quarto e último saído de Republic, não havia passado do 22o lugar. Hoje, a música – que nem deveria ter sido gravada pelo New Order, como veremos adiante – é um dos clássicos do grupo.

Mas os caminhos que levaram a Get Ready foram sinuosos desde o começo. A banda se reuniu em 1998, após um hiato de cinco anos, para fazer uma série de concertos (o último tinha sido no Reading Festival, em 1993). No ano seguinte, o New Order recebeu uma proposta do diretor Danny Boyle (de Trainspotting) para participar da trilha-sonora do que viria a ser seu próximo filme, A Praia, estrelado por Leonardo Di Caprio e baseado em um romance de Alex Garland. De acordo com Peter Hook: “Nós fomos convidados para compor algo novo para esse filme… foi bem em cima da hora, nós tivemos que fazer a música enquanto o filme era feito. Era como um aquecimento para tentarmos um recomeço. Foi a primeira coisa que nós escrevemos. E também queríamos experimentar com produtores diferentes. O Rollo do Faithless estava por aí e ele realmente se divertiu trabalhando com a gente, mas não era o som que faríamos depois. Fizemos um som mais hard em seguida”. Dave Thompson, em seu livro True Faith: An Armchair Guide to New Order, Joy Division etc (Helter Skelter, 2005, 187 páginas), discorda: “Na verdade, ‘Brutal’ não soa tão distante do que eles tinham em mente fazer depois”. Isso é fato.

Ainda em 1999, saiu a notícia de que eles estavam produzindo material novo em estúdio. Os títulos provisórios de algumas faixas chegaram a ser divulgados, mas poucas delas teriam sido concluídas. De acordo com Thompson, fontes da época diziam que aquele material soava entre o Joy Division na fase Closer e um “Electronic com Peter Hook”. No meio disso tudo, havia uma faixa em clima ambient de nove minutos que se chamaria “The Deepest Sea”. Mas os rumores foram desaparecendo à medida em que existiam sinais claros de que não havia nada realmente pronto para ver a luz do dia. Todavia, o “espírito do Joy Division” parecia mesmo ter sido invocado, uma vez que o grupo acabou emendando um projeto de recriação, em estúdio, do clássico “Atmosphere” para um álbum beneficente chamado Cohesion: Manchester Aid to Kosovo & Mines Advisory Group Benefit (basicamente, seria uma versão igual a que vinham tocando ao vivo). A “nova cara” para a música do Joy Division, entretanto, acabou não entrando no disco. Paralelamente, Bernard Sumner participaria do álbum Xtrmntr, do Primal Scream, e Peter Hook lançaria o segundo CD do seu projeto-solo, o Monaco.

Em 2000 a banda se reuniria novamente no estúdio de propriedade do casal Gillian Gilbert e Stephen Morris, que fica em uma fazenda localizada em Derbyshire. Dessa vez, a coisa finalmente “aconteceu”. Thompson assim descreve: “os quatro estavam relaxados tocando juntos, mas também estavam relaxados tocando uns contra os outros – uma sutileza eletrizante dos primeiros dias, é claro, mas um compromisso virtual no momento em que chegaram a Republic. É aquele velho e batido cliché da “química”. “É nisso que dá ficarmos separados por tanto tempo. Nos faz perceber que a força do New Order está em tocarmos juntos. Uma vez que a gente volta a tocar, encontra a química que está ali em algum lugar e se sente seguindo em frente”, disse Peter Hook, que falou ainda mais: [gravar Get Ready] foi provavelmente a melhor coisa que eu já fiz com esses caras. Sumner estava certo o tempo todo. Nós precisávamos de um tempo para nós mesmos. Agora, se temos algo em mente, simplesmente colocamos em prática. É muito melhor assim”.

De várias maneiras, Get Ready provou mesmo ser um disco de “retorno às raízes”. As declarações acima descrevem uma atmosfera que, historicamente falando, talvez só encontre paralelo ou semelhança com os tempos do Joy Division. Steve Osbourne, que produziu o álbum, teve sua parcela de contribuição nisso também. De acordo com a banda, o produtor, que na época tinha em seu currículo Happy Mondays, Placebo e Suede, em alguns aspectos lembrava Martin Hannett: ele buscava algo “místico” no estúdio e era perfeccionista – para alcançar determinado resultado, pedia que o quarteto refizesse ou tocasse algo novamente inúmeras vezes. O resultado foi um disco mais orgânico, com maior ênfase nas guitarras e com o lado mais dance e pop da banda ficando em segundo plano. De fato, isso foi o mais próximo que o New Order havia chegado do Joy Division em tempos, mas em nenhum momento Get Ready soava como se a banda estivesse tentando emular o som da sua antiga encarnação. Pelo contrário, ainda soava como New Order.

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Get Ready em modo Lego (by Christoph!)

Get Ready também foi o começo de uma prática hoje comum: a participação de “convidados especiais” em seus discos. Em retribuição à colaboração de Sumner em Xtrmntr, Bobby Gillespie (voz) e Andrew Innes (guitarra), do Primal Scream, deram uma força em “Rock the Shack”, um garage rock cru e visceral; em “Turn My Way”, contaram com a guitarra e a voz de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins. Corgan, aliás, tem uma história longa com o New Order. Ele conheceu o grupo pessoalmente aos 15 anos de idade graças à amizade que ele tinha com um cara que trabalhava como promoter dos shows da banda. Quando saiu o disco-tributo ao Joy Division A Means to An End na década de 1990, ele assinou um cover de “Isolation” sob o alter-ego Starchildren; além disso, “Transmission” costumava ser tocada nos shows dos Pumpkins. Foi ideia de Bernard Sumner chamá-lo para “Turn My Way”, já que o vocalista do New Order gostava do Smashing Pumpkins e da voz de Corgan – e para isso pediu que Peter Hook, que o conhecia melhor, o fizesse.

Todavia, a grande “estrela” de Get Ready é a sua faixa de abertura e primeiro single, “Crystal”. De acordo com Hook: “A escolha de ‘Crystal’ como primeiro single foi inevitável. Ela simplesmente veio… parecia muito óbvio, ela é realmente bem direta, soa bem diferente e muito poderosa”. Curiosamente, ela se tornou uma música do New Order por um “capricho do destino”. Em 1999, o músico e produtor Mark Reeder, britânico radicado na Alemanha e amigo de Bernard Sumner, era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao velho amigo, Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e os deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa, que chamaram de “Crystal”.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, uma “mão invisível” agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records, Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a gravação do New Order saísse. É a lei do dinheiro.

Já a capa de Get Ready, como de costume, tem sua vida própria. Feita por Howard Wakefield e Sam Roberts, mas sob a direção de arte de Peter Saville (sempre ele), ela traz a atriz alemã Nicolette “Coco” Krebitz fotografada por Juergen Teller, um conceituado fotógrafo de arte e de moda de origem tcheco-germânica e que hoje em dia também é professor da Academia de Belas Artes de Nuremberg. Anos atrás, no auge do extinto Orkut, houve uma discussão interessante sobre as capas de Peter Saville na comunidade “New Order Brasil” e eu citei uma referência ao designer feita pelo Doutor em Comunicação e professor da UFRJ André Villas-Boas em seu livro Utopia e Disciplina (2AB, 1998, 200 páginas) – e não é que, surpreendentemente, o autor em pessoa entrou no bate-papo, enriquecendo o debate! Cito essa história porque o professor Villas-Boas havia feito uma bela análise da capa de Get Ready naquela comunidade. Segundo ele, a modelo “desglamurizada”, isto é, de aparência ambígua/andrógina, de pele oleosa e cabelos desarrumados, vestindo “trapos”, em vez de exibir charme, beleza e um look “de grife”; que fotografa/filma quando deveria ser ela o foco das lentes; e a tarja vermelha no lugar do nome do artista (que não aparece em lugar nenhum) transmitem a seguinte mensagem: a imagem não é o que conta, o que vale é o som, a música. Não importa sequer que a banda por trás dela apareça, ou mesmo que se saiba de quem se trata, como se chama etc. Concentre-se apenas na música. Puro Saville, puro New Order. Juntos, eles inventaram o anti-marketing na indústria musical – uma “estratégia” cujo resultado (não premeditado) foi muito mais a bem sucedida promoção da banda do que a venda dos discos.

Apesar de tudo o que foi dito antes, os primeiros versos do disco – “Nós somos como um cristal… quebramos fácil” – acabaram prenunciando os tempos complicados que viriam mais adiante. Get Ready foi dedicado à memória de Rob Gretton (que era o manager desde os tempos do Joy Division e que havia falecido em 1999). Gillian Gilbert deixou a banda logo após o álbum ficar pronto para se dedicar às filhas de seu casamento com Morris, tendo sido então substituída nos shows por Phil Cunningham (que mais tarde se tornaria membro oficial). O revival em torno do Joy Division veio em seguida e se transformou em um monstro faminto e fora de controle – e obrigou a banda a competir com seu próprio passado. Mas Get Ready reverberou como todo bom álbum do New Order costuma fazer. Ele serviu de inspiração para o B-52’s em Funplex (2008), que inclusive contou com a produção de Steve Osbourne, e o vídeo de “Crystal” ajudou a batizar uma banda cujo vocalista é um fã incondicional do N.O. Alguem sabe que banda é essa?

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